POR LUÍS MOLOSSI
Advogado e escritor ítalo-brasileiro
Vice-presidente do CCI PR/SC
Coordenador Italianità IN Movimento, com 16407 motivos para não desistir nunca
Amante dos livros, dos vinhos e da fotografia
www.luismolossi.com
Minha primeira língua não foi o português; foi o Talian. Foi a língua da família — mãe, pai e irmãos — e dos vizinhos da nossa pequena comunidade, no interior da Serra Gaúcha. Nasci e cresci em Nova Bassano, na Capela Santo Antônio da Linha 9ª, Senador Ramiro, a quatro quilômetros da sede. Ali vivi muito bem até os quinze anos, quando a vida me desafiou a sair para conhecer o mundo. E tudo sempre e em todo lugar valeu o esforço!
La mia prima léngoa no la ze mia stà el portoghese. Ze stà el talian. La gera la léngoa de la fameia - mama, pupà e fradei - e dei vissini de la nostra picola comunità, ntea Serra Gaúcha. Son nassesto e cressesto a Nova Bassano, ntea Capela Santo Antonio, de la Lìnea Nona, Senador Ramiro, a quatro chilometri del sentro. Li go vivesto molto ben fin a quindese ani e imparà squasi tuto che sò de questa cultura del imigrante e mantegno fin incó.

SOTAQUE DE GRINGO
Naquele mundo, o português era visita. Aparecia na escola, na igreja e suas funções, nos ambientes oficiais, nos documentos. Em casa, na lavoura, na capela e no comércio, falávamos talian. Foi assim que se formou a minha memória cultural, um privilégio que carrego para a vida toda. É por isso que, às vezes, ainda falamos algumas palavras com um “r” a menos, aquela marca da nossa pronúncia que o português da cidade tenta corrigir, mas que eu não me importo quando escapa. Até porque tem seu charme este “sotaque de gringo”.
Depois, já adulto e vivendo em Curitiba, veio o italiano. Aprendido com facilidade no CCI PR/SC – Centro de Cultura Italiana – justamente porque o talian já havia preparado o ouvido e o coração. O italiano se tornou parte do trabalho, das relações sociais, do dia a dia em toda a sua complexidade. Talian e italiano: similares na origem, mas muito diferentes no caminho. Uma nasceu na Itália e cresceu no Brasil, com 150 anos de serra, de polenta e de colônia. A outra atravessou o oceano e permaneceu lá, está na embaixada, nos consulados e nas atividades que participo dentro do Sistema Itália. Uma é a língua do afeto, “del cuor”(1), a outra é a língua do reencontro, das oficialidades. Muitos leitores lembrarão desta minha frase, dita pela primeira vez, num vídeo de 2024.
Tudo na nossa vida e na produção das escritas vai mudando, melhorando, ficando diferente com o passar dos anos, com a maturidade que chega, aos poucos. Até nos permitimos escrever poesias, arriscamos em demonstrar nossas emoções e o modo como vemos e vivemos a vida. Com o Estoicismo entendi que não podemos mudar o mundo, mas na nossa esfera de vida e influência, temos a obrigação de agir. O talian, entendido por muitos, mas não por todos, pode ser considerado uma escrita pós-moderna, com sons e pronúncias diferentes, sem significados óbvios. Então haveremos de falar muito do talian por aqui, até para salvaguardar este patrimônio.
O português, por sua vez, foi a ponte entre as duas — a língua que me permitiu sair e voltar. Ser gringo, no fim, é isso: viver entre três línguas e pertencer a todas, sem deixar de ser de uma só. É levar a Linha 9ª, a capela Santo Antônio, para onde quer que se vá.
Ilustração: Iotti
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