A busca ilusória

“Essa felicidade que supomos,

Árvore milagrosa, que sonhamos

Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos

Porque está sempre apenas onde a pomos

E nunca a pomos onde nós estamos”.

Vicente de Carvalho (1866-1924)

Poeta brasileiro

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

Nunca corremos tanto atrás da felicidade. Ser feliz tornou-se obrigação. Ou pelo menos parecer que se é. Vivemos uma verdadeira “tirania da felicidade”. Isso significa que a felicidade nos é imposta, travestida nos mais diversos objetos, experiências e sensações.

As redes sociais amplificaram essa busca: viramos expectadores e protagonistas de um grande “teatro da felicidade compartilhada”. A felicidade alheia soa hoje como uma bofetada. No campeonato da felicidade total, quem não está feliz é rebaixado.

Essa verdadeira obsessão pela felicidade não tem sido satisfatória. Pelo contrário, ela está nos esmagando. As estatísticas mundiais de depressão (a incapacidade de sentir-se feliz) e do uso de drogas (a busca por uma felicidade artificial) – só para citar dois grandes males de nosso tempo – falam por si só. Adolescentes se mutilam e postam suas cicatrizes na internet. A intolerância virtual prolifera. Algo não está bem. A impressão é que nunca fomos tão infelizes. Por mais que nos esforcemos para não o ser.

A busca da felicidade se transformou em um grande paradoxo: quanto mais procuramos a felicidade, menos a encontramos. Isso ocorre pois nos vendem uma ideia insidiosa: a noção de que a felicidade deve ser caçada, garimpada como a um metal precioso. Essa é uma grande falácia, um engodo, mas que assumiu ares de grande verdade. Como se a felicidade morasse em algum lugar distante, esperando para ser encontrada. É a felicidade das férias, da próxima viagem, do Ano-Novo. Do corpo perfeito. Do emprego dos sonhos.

Temos que aprender que quanto mais buscamos a felicidade desse jeito, menor é a chance de sermos felizes. Embora essa afirmação cause estranheza, sua lógica é encantadoramente simples: correr atrás da felicidade faz acreditar que ela é um estado perene, permanente, um objetivo a ser alcançado. Mais do que isso: um direito que temos.

E algo que pode, sim, ser comprado. E aí nos projetamos como loucos na procura de uma vida feliz. A qual, como diz o poeta, pomos sempre lá onde não estamos.

Essa busca desenfreada pela felicidade esconde outro detalhe perverso: ela nos faz crer que existe um modelo único para uma vida feliz, a ser perseguido por todos de forma padronizada. Nada mais falso. A felicidade, como a nossa impressão digital, é única. Cada um tem a sua. A felicidade do prezado leitor e da estimada leitora é diferente da minha; que por sua vez é diferente da do meu vizinho. Não tem cópia ou imitação.

Prefiro pensar a felicidade como um subproduto de tudo o que fazemos. Nesse sentido, ela chega sempre sem fazer alarde, como que por acréscimo a um momento que estamos vivendo. Como disse o grande Guimarães Rosa, “a felicidade se acha em horinhas de descuido”. Um exemplo corriqueiro: você está junto à família, compartilhando boas gargalhadas em torno de uma comida saborosa: pronto, você está feliz. Note que você não está procurando a felicidade; é ela que surge. Bem falou o filósofo Alain: “a felicidade é uma recompensa que advém àqueles que não a procuram”.

Tal e qual a caricatura do idoso a procurar os óculos por toda a casa, apenas para encontrá-lo sobre o nariz, seguimos buscando a felicidade que se escancara a nossa frente. Procuramos o que já temos? O poeta francês Chamfort nos dá uma pista da resposta: “a felicidade não é coisa fácil: é muito difícil encontrá-la em nós e impossível encontrá-la em outro lugar”.

O culto da felicidade já provou ser um engano. A felicidade não é um dever. Tampouco um prêmio. A felicidade é o que ela é: um mistério; uma brisa que passa; uma gota de orvalho que tão logo nasce já se esvai. Nos resta vivê-la. E parar de procurá-la.

natureza

Quando deixamos de planejar

Por João Paulo Mileski 

No meio do maior salar do mundo, em Uyuni, na Bolívia, para todos os lados em que olhávamos víamos o azul do céu sobre o branco do sal. Era como se estivéssemos ilhados em um mar de sal, sem um caminho propriamente traçado (dirigimos quase 150 quilômetros dentro do salar seguindo as marcas de pneus, que nessa época do ano, com poucas chuvas, ficam bastante expostas).

O Uyuni foi mais um marco da nossa expedição, e quase no centro dos 10.582 metros quadrados de sal, quando já não havia resquício algum de civilização, imaginei aquele imenso deserto como uma metáfora do atual momento das nossas vidas. Também não temos um caminho propriamente delineado na expedição. Sabemos onde queremos chegar, mas quando ou por qual estrada, são as circunstâncias e os acasos do dia a dia que passaram a decidir por nós. Antes de sair de casa preparamos um roteiro bastante minucioso para o Uruguai, Argentina e Chile, mas à certa altura, por conta das situações imprevisíveis que uma viagem como essa vai revelando, aos poucos, acabamos rejeitando-o.

Ainda que sempre estivéssemos acostumados a planejar tudo com antecedência, estamos lidando bem com essa imprevisibilidade, porque descobrimos que quando paramos de nos preocupar tanto com o amanhã, passamos a viver mais intensamente cada minuto que temos hoje, nesse momento. Nos alegramos com as pequenas conquistas, choramos com as saudades, nos emocionamos com as pessoas e lugares, como se não tivéssemos outra oportunidade de viver aquilo de novo. Nos tornamos mais sensíveis ao que acontece à nossa volta.

Aprendemos que o segredo pode ser o equilíbrio. Saber onde se quer chegar, mas não esquecer de onde estamos. Se pensarmos apenas no amanhã, nossas vidas serão uma eterna espera.

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2019: o ano do cinema de terror

Por Rodrigo De Marco 

rodrigo@integracaodaserra.com.br 

O ano de 2019 tem sido fértil para o cinema de terror. Produções de diversos gêneros do estilo estão presenteando o público ávido por sangue e uma pitada de susto e risos. Os remakes também têm surgido com frequência nos últimos anos, e pode-se dizer que o terror está entre os gêneros com maior produção de remakes. Neste ano o clássico Cemitério Maldito, lançado oficialmente em 1989, com direção de Mary Lambert e que hoje é considero um cult do terror, ganhou o seu primeiro remake, dirigido por Kevin KolschDennis Widmyer. O longa (vale lembrar que é uma adaptação de uma obra do mestre do terror Stephen King) foi uma verdadeira homenagem ao clássico de 1989, e mesmo com mudanças pontuais na trama agradou aos fãs. Recentemente estreou Annabelle 3, filme também muito aguardado pelos adeptos das histórias relatadas pelo casal de médiuns Ed e Lorraine Warren. Mas se está pensando que para este ano já não tem grandes novidade está equivocado. Entre agosto e dezembro irá estrear títulos curiosos e veja bem, nenhum remake. Então vale a pena conferir e ficar de olho no que vem por aí. Pode arrancar as unhas, agarrar o braço de seu namorado, namorada e comemorar. O terror domina as telas em 2019.

Próximos lançamentos

 

Histórias assustadoras para contar no escuro

Direção: André Ovredal

Produção: Guillermo del Toro

Gênero: Terror

Nacionalidade: EUA

Lançamento: 8 de agosto

Sinopse

A cidade de Mill Valley é assombrada há décadas pelos mistérios envolvendo o casarão da família Bellows. Em 1968, a jovem Sarah Bellows, uma garota problemática que mantinha um mau relacionamento com os pais, foi ao porão para escrever um livro repleto de histórias macabras. Décadas mais tarde, um grupo de adolescentes descobre o livro e passa a investigar o passado de Sarah. No entanto, as histórias do livro começam a se tornar reais.

Morte Instantânea

Direção: Lars Klevberg

Gênero: Terror

Nacionalidade: EUA, Noruega

Lançamento: 9 de Agosto

Sinopse

Bird Fitcher (Kathryn Prescott) é uma adolescente tímida do Ensino Médio que pode contar nos dedos aqueles que pode chamar de amigo. Mas o que ela não imaginava era que, após encontrar uma câmera Polaroid amaldiçoada, sua vida seria transformada para sempre: estranhamente, todos que aparecem em alguma foto tirada pelo dispositivo têm um fim trágico e violento.

Brinquedo Assassino

Direção: Lars Klevberg

Gênero: Terror

Nacionalidade: EUA

Lançamento: 22 de agosto

É importante ressaltar que a estreia de Chucky é um novo capítulo da franquia. O filme se trata de um reboot, ou seja, uma nova história, sem ligação alguma com os fatos contados nos filmes anteriores. O boneco também passou por um processo “cirúrgico”, já que está com uma nova aparência. Apesar das mudanças radicais no estilo, a promessa é de um longa sangrento.

Sinopse

O filme acompanha a história de Karen (Aubrey Plaza) que, no aniversário de seu filho (Gabriel Bateman), o presenteia com o boneco mais aguardado dos últimos tempos. Quando crimes estranhos começam a acontecer pela vizinhança, eles passam a suspeitar que o brinquedo pode não ser tão inofensivo quanto parece.

IT: A Coisa- Capítulo 2

Direção: Andy Muschietti

Gênero: Terror

Nacionalidade: EUA

Lançamento: 5 de setembro

Sinopse

27 anos depois dos eventos de “It – Parte 1”, o grupo de adolescentes que fazia parte do “Losers Club” – o clube dos perdedores – realiza uma reunião. No entanto, o que parece ser apenas um reencontro de velhos amigos acaba se tornando em uma verdadeira e sangrenta batalha quando Pennywise (Bill Skarsgard), o palhaço retorna.

Predadores Assassinos

Direção: Alexandre Aja

Gênero: Terror

Nacionalidade: EUA

Lançamento: 26 de setembro

Sinopse

Quando a Flórida é vítima de um imenso furacão, os tsnunamis levam todos os habitantes a evacuarem o local. Mesmo assim, a jovem Haley (Kaya Scodelario) se recusa a sair de casa enquanto não conseguir resgatar o pai, gravemente ferido. Aos poucos, o nível da água começa a subir, Haley também se fere e tanto ela quanto o pai precisam enfrentar inimigos inesperados: gigantescos crocodilos que chegam com as águas.

Zumbilândia 2

Direção: Ruben Fleischer

Gênero: Comédia, Terror, Ação

Nacionalidade: EUA

Lançamento: 24 de outubro

Sinopse

Anos depois de se unirem para atravessar o início da epidemia zumbi nos Estados Unidos, Columbus (Jesse Eisenberg), Tallahassee (Woody Harrelson), Wichita (Emma Stone) e Little Rock (Abigail Breslin) seguem buscando novos lugares para habitação e sobrevivência. Quando decidem ir até a Casa Branca, acabam encontrando outros sobreviventes e percebem que novos rumos podem ser explorados.

Daniel Isn’t Real

Direção: Adam Egypt Mortimer

Gênero: Terror

Nacionalidade: EUA

Lançamento: 6 de dezembro

Sinopse

“A trama segue o problemático Luke (Robbins), que sofre um violento trauma familiar e ressuscita seu amigo imaginário da infância, Daniel (Schwarzenegger), para ajudá-lo a lidar com a situação. Carismático e cheio de energia maníaca, Daniel ajuda Luke a alcançar seus sonhos, antes de empurrá-lo até a borda da sanidade e em uma luta desesperada pelo controle de sua mente – e sua alma.”

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O poder de pensar positivo

Por César Anderle 

As lembranças da infância nos trazem pensamentos bons. Talvez, em alguns momentos, até podemos ter tido atitudes um pouco ruins, mas na grande maioria, tivemos ações que nos trazem boas lembranças.

Na vida adulta, as angústias e as decepções acabam por nos influenciar negativamente, mas acredito que temos muito mais a agradecer do que reclamar e aí entra o positivismo, pois se ignorarmos que possuímos muitos bons momentos, com certeza iremos nos deixar abater por possíveis problemas.

Ao nos levantarmos da cama, sentimos o pulsar da vida em nosso peito e a respiração nos fortifica para dizermos “bom dia Senhor”, mesmo que no silêncio, a respiração nos faz pensar e mentalizar o desejo de um dia perfeito.

Num pulo, corremos para a higiene pessoal e em alguns passos estamos diante da água que iremos beber e nos purificar, satisfazendo as células que irão nos dar suporte para uma saudável atividade cerebral e de todas as nossas funções biológicas.

Estando na cozinha de nosso lar, começamos o ritual do preparo do café matinal. O aroma deste precioso grão nos dá prazer e nos abre o apetite para um pãozinho com mistura, queijos e afins. Muitos me dirão “mas temos o gosto pelo velho e bom chimarrão e ele também nos acalenta para o início de um dia abençoado”, e é bem verdade, ambos nos satisfazem.

Tudo isso nos faz refletir que, se em poucos minutos nos sentimos bem e cobertos de vitalidade para sair de casa, e ir de encontro com o novo e a rotina, imagina as outras atividades que virão na sequência das horas.

Isso tudo nos ajudará para o acúmulo de energia tão necessária aos desafios do restante da jornada. A palavra é simples, positividade. Idealizamos este pensamento, igual ao sinal que traçamos para nos abençoar. Isso fará a diferença, a fé nos chega através do nosso conhecimento, das nossas atitudes, dos exemplos que nos cercam e da vontade de querermos crescer nela. O positivismo é de igual energia, tenho certeza de que Cristo foi altamente positivo, pois nos deu exemplos de como acreditar no coração das pessoas, de nos deixar um legado da capacidade do ser humano arrepender-se das atitudes equivocadas e assim alcançar o perdão.

Este é o exemplo maior de positivismo, ver o bem sem focar o defeito. Será que eu ou você, temos o direito de nos acomodar, de nos amedrontar, de nos entristecer diante de uma dificuldade ou situação delicada? Penso que devemos refletir se Deus não está colocando à nossa frente uma oportunidade de fazermos o melhor, de aprendermos com aquela situação. Acredito ser justamente uma oportunidade de crescimento pessoal.

Pensamentos positivos, atitudes positivas, é isso que nos move para frente, é isso que nos dará um futuro melhor, um futuro com a presença de Deus, um futuro com consciência serena e o direito de voltar para casa, poder tomar um banho, dar um abraço e um beijo carinhoso na esposa, no marido, nos filhos e ter a certeza de que no dia seguinte tudo se inicia e o aroma do café se repetirá para mais um dia altamente positivo.

 

 

pensamento positivo

Precisamos gamificar tudo?

Por Elvis Pletsch 

elvis_pletsch@hotmail.com 

Caso fossem anotadas todas as atividades que fiz na minha infância e adolescência, é bem provável que jogar videogame estivesse entre as mais constantes. Passei centenas de horas na frente de uma tela interagindo com algo que, para outras gerações, era considerado um desperdício de tempo.

Na minha casa não era diferente, os dias de chuva tornavam-se uma mistura de dádiva e terror: era mais tempo para jogar, mas meus pais acabavam substituindo o “vai brincar lá fora” pelo “desliga isso aí que vai queimar”.

Por mais fútil que possa parecer, acabei descobrindo que os games podem ter uma utilidade real que deveria ser melhor explorada. A designer americana Jane McGonigal demonstrou que se somadas todas as horas jogadas no game World of Warcraft, lançado em 2001, teriam sido gastos 5,93 bilhões de anos na resolução de problemas de um mundo virtual. O que aconteceria, portanto, se essas horas tivessem sido gastas na resolução de um problema real?

A resposta dessa pergunta acabou sendo testada em 2011 por pesquisadores da Universidade de Washington, quando desenvolveram o jogo “Foldit”, que desafiava os gamers a compreender como determinada proteína poderia ser utilizada no combate à Aids. O jogo atraiu 46 mil participantes de diversas áreas, que acabaram obtendo uma solução em apenas 10 dias, sabendo que o problema havia tomado 15 anos de cientistas que nunca obtiveram sucesso algum.

Os motivos por trás dessa rápida resolução são explicados pela gamificação que, através da criação de metas, regras, feedbacks e da participação voluntária, visa imitar os conceitos utilizados pelos games para replicar o seu “vício” em problemas reais do dia a dia.

Um desses conceitos é o feedback instantâneo: ao terminar uma missão você ganha uma recompensa, ao derrotar um inimigo você ganha experiência. Esses feedbacks positivos vão reforçar bons comportamentos, enquanto os negativos (como perder vidas) vão permitir ao usuário encontrar uma estratégia melhor para passar de fase. Mas o que interessa é que ele é instantâneo, descartando a ansiedade de só saber o resultado após um longo processo e acelerando as etapas de crescimento profissional e aprendizado.

Quando uma empresa sofre com avaliações anuais, normalmente há uma sensação de “caos” nas vésperas das avaliações: será que está tudo certo? Será que estamos acompanhando todos os processos necessários?

Essa ansiedade poderia ter sido evitada aplicando o feedback instantâneo, avaliando os processos durante todo o ano, e não somente em uma data específica. Dessa forma, os colaboradores não iriam sentir a diferença entre uma avaliação anual e uma avaliação rotineira.

Outro caso comum no meio corporativo são as bonificações e prêmios para os melhores vendedores. O caso mais recorrente é a existência de um grande prêmio que será entregue após um longo período. Os vendedores podem até se sentir motivados com metas de longo prazo, mas aquilo dificilmente irá conquistar aqueles que precisam de uma motivação constante para levantar de manhã. A solução para isso seria a existência de pequenos prêmios semanais, que iriam manter os vendedores mais engajados durante todo o tempo necessário, e não somente na véspera da grande premiação.

A aplicação da gamificação também pode ser utilizada em áreas que possuem insatisfação por parte de seu público. Uma universidade, por exemplo, poderia criar uma gamificação que mantenha seus alunos estudando, como o Khan Academy fez, evitando um aumento da evasão escolar. Os aplicativos de corrida, que fazem você acumular pontos e medalhas virtuais por cada distância percorrida, são um exemplo que consegue tirar muita gente da frente do sofá mesmo em dias frios.

Tudo isso não deveria ser novidade para ninguém, pois a gamificação está crescendo exponencialmente. A sua aplicação já está presente em grandes empresas como o Starbucks, o Waze, a Amazon ou o Santander, que parecem estar apresentando resultados bem positivos. O que acontecerá quando começarmos a utilizar os conceitos da gamificação para solucionar a política, o meio-ambiente, a saúde ou a educação? Será que precisamos gamificar tudo?

gamificação

Sócrates e a Felicidade

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br  

Foi Sócrates (470-399 a.C.) o primeiro filósofo a se preocupar com a vida feliz. Você já ouviu falar dele: o criador da máxima “conhece-te a ti mesmo”. Há dúvidas, na verdade, se foi mesmo Sócrates quem cunhou o adágio, o qual orna a entrada do templo de Apolo, em Delfos; a tradição, no entanto, imputou ao filósofo a ideia. E assim ficou.

Sócrates era um sujeito muito hábil na arte de fazer perguntas. Deixava os interlocutores literalmente tontos com suas indagações em cascata, contraditórias, e que acabavam sempre por dinamitar as certezas defendidas. Era o famoso método socrático, também conhecido como “maiêutica” – de maîa, em grego, “parteira”. Sócrates dizia que, pelo questionamento, buscava “parir” a verdade que se encontrava presente em cada indivíduo; ele apenas ajudava essa verdade vir à luz.

Nosso bom filósofo era extremamente simples, de aparência quase mendicante. Costumava caminhar descalço pelas ruelas de Atenas, disposto a filosofar com qualquer pessoa. Era o filósofo da “praça pública”. Como Jesus, nada escreveu. Foi seu maior discípulo, Platão, quem nos legou os ensinamentos do mestre. No fim da vida, Sócrates foi acusado injustamente pelos governantes de Atenas de corromper a juventude e negar os deuses da cidade. Condenado a beber cicuta, abraçou a morte de forma corajosa e lúcida.

A verdade é que antes de Sócrates os filósofos nunca tinham se preocupado muito com a felicidade. Eles estavam mais interessados em assuntos relativos à natureza das coisas e dos seres. Os chamados “pré- socráticos” viviam fazendo perguntas sobre a origem de todas as coisas, de que era feito o mundo, ou qual era a essência do conhecimento humano.

Sócrates achava aquilo tudo uma perda de tempo. De que adiantava saber qual o tamanho da Terra, ou se o universo era infinito, se o homem não sabia conduzir a própria vida? O que importava, pois, era ajudar as pessoas a saberem o que era bom, justo, enfim, como se deveria viver.

E o que Sócrates ensinava a respeito da felicidade? Ele dizia que ela era alcançada pelo autoconhecimento. Faz sentido: afinal, conhecer-se a si mesmo é refletir sobre quem somos, o que queremos de nossa vida, enfim, o que devemos fazer para ser felizes. Para Sócrates, a ignorância era a principal causa de infelicidade, pois levava ao erro e a uma concepção equivocada da existência.

Mais do que olhar para o próprio umbigo, o autoconhecimento socrático lembra que a felicidade é irmã da sabedoria: se quisermos ser felizes, é preciso que olhemos, antes de tudo, para dentro de nós. O homem feliz é aquele que reflete incansavelmente e sem mentiras sobre si próprio. E não aquele que sai em busca da satisfação de todos os desejos. Reza a lenda, aliás, que Sócrates gostava de contemplar os badulaques vendidos pelos comerciantes de Atenas, só para, como dizia, “ver tudo o quanto não precisava para ser feliz”.

Para Sócrates, o autoconhecimento levava à virtude. “O homem que se conhece saberá como agir, trilhando o caminho correto” – dizia, e arrematava: “quanto mais virtuoso, maior será a chance de que seja feliz, porque fará bem a si e também aos outros”. Ou seja, será mais feliz e ainda ajudará os demais a sê-lo. Depois de Sócrates e para toda a filosofia clássica, a felicidade e a virtude andariam sempre de mãos dadas. Os gregos achavam verdadeira loucura a ideia de um “canalha feliz”. Para eles, era impossível ser “mau” e feliz ao mesmo tempo. Felicidade era sinônimo de bondade.

Esse foi o legado de Sócrates a respeito da felicidade: feliz é aquele que olha para dentro de si. Uma mensagem atual e importante, neste mundo onde o diálogo, consigo mesmo e com os outros, é cada vez mais complicado. Há mais de vinte e cinco séculos, Sócrates continua a nos lembrar: a verdadeira felicidade mora dentro de nós.

socrates

Um fuzil na cabeça ou algumas noites sem banho?

Por Carina Furlanetto 

Conhecemos uma carioca, em um dos passeios que fizemos em Santiago, que, com a maior naturalidade do mundo, conta que foi assaltada na porta de casa à mão armada – com direto a fuzil e tudo. Fiquei pensando na última tentativa de assalto que sofri e em como isso me abalou por algumas semanas.

Foi há quatro anos. Tentaram roubar meu celular enquanto fazia o trajeto de casa até o trabalho a pé. Era por volta das 8h, o dia já havia amanhecido e tinha muitos carros passando. Como de costume, atalhei por uma rua estreita e pouco transitada. Quando fui virar a esquina, sinto uma mão puxando meu celular. Pensei ser algum conhecido fazendo uma brincadeira, mas em poucas frações de segundo me dei conta da real situação e, quando vi, já estava correndo aos berros atrás do pivete (não devia ter nem 15 anos) para que devolvesse o que era meu. Corria ladeira abaixo e só temia que minhas pernas não dessem conta do recado. Insanidade total da minha parte, altamente não recomendado pelas autoridades em segurança, mas deu certo: o guri pacientemente colocou o aparelho no cordão da calçada e fugiu pelas escadas da praça.

Fiquei muito tempo sem querer passar por essa rua, até mesmo acompanhada, e passei a sair com o celular bem escondido em algum bolso de difícil acesso. Se estivesse na pele dessa carioca, é certo que, mais do que medidas de segurança, optaria por mudar-me para uma cidade mais calma – em geral não sou fã de grandes centros. Ela, porém, pouco ou nada abalou-se com o fato: acontece com todo mundo, justificou.

Pouco depois conversamos sobre a nossa viagem. Quando contamos que dormimos oito noites seguidas no carro e ficamos quatro dias consecutivos sem tomar banho – não que a gente se orgulhe disso, mas é o ônus de uma aventura de baixo orçamento – a situação lhe pareceu insuportável. Parabenizou a nossa coragem, desejou sorte no caminho, mas disse que jamais faria algo assim. O marido corroborou as boas vibrações, mas também acrescentou que não suporta muito tempo longe das suas coisas.

Um fuzil na cabeça ou umas noites sem banho parecem situações tão antagônicas que jamais poderiam figurar em uma questão de múltipla escolha. Não sabíamos quais eram os nossos limites e foi para testá-los que saímos de casa. Ao final, as doses de sofrimento que alguém pode carregar sempre são individuais.

Crônica Integração

Sou um bom cidadão?

Por César Anderle 

Diretor da Anderle Transportes 

Muitas vezes me pergunto o que posso fazer para melhorar o ambiente em que vivo. Em que posso contribuir para que a minha comunidade seja mais feliz? Em qual atitude eu devo mudar para os meus relacionamentos serem mais fraternos?

Essas indagações são constantes para aqueles que querem evoluir como pessoa. Somos seres inacabados, necessitamos um do outro para viver em sociedade, eu não sou ninguém sem você e a reciproca é verdadeira; se fosse ao contrário viveríamos nômades e solitários e, neste sentido, poucos assim vivem.

No mundo econômico em que estamos inseridos, nós precisamos produzir, consumir, testar; vivenciar diferentes emoções para nos sentirmos mais pertencentes à sociedade, as mídias bombardeiam novas ideias de consumo, novos produtos e novos serviços e, isso, não é ruim, não, por assim dizer. Vivemos numa era capitalista, trabalhamos para satisfazer nossas necessidades primárias e nossos prazeres, os anúncios nos fazem querer mais, nos enchem os olhos e ficamos ávidos de desejo do TER.

Por outro lado, a comunidade precisa de pessoas, de líderes, para opinar, para decidir, para executar. A praça da cidade ficará em ordem e atraente para tomar o chimarrão no final de semana, se as pessoas trabalharem nela. Se a comunidade exercer a cidadania de fiscalizar os entes públicos, se não jogarmos lixo no chão, se apanharmos o lixo que está no chão, que mal há em se abaixar e recolhê-lo e simplesmente o jogá-lo na lixeira?

Já o relacionamento pessoal e fraterno entre o casal, família e amigos estará fortalecido se tivermos a capacidade de comunicação sem obstáculos, respeito das ideias individuais, de posição política e social, se debatermos os assuntos sem preconceitos, sem estereótipos.

Seremos melhores se eu for grato, se eu exercer a gratidão por você estar ao meu lado; se eu for grato ao alimento que se apresenta à minha mesa; se eu for grato ao trabalho que me dignifica; se eu for grato aos meus antepassados; enfim, se eu for grato a quem me deu a vida, o ar, o sol, a chuva…

A busca de um real sentido de Vida preocupa os pensadores e nos faz pensar também – Será que é necessário tudo isso? Nesta busca incessante de equilíbrio físico-emocional me deparo com estas questões e penso mais: o que de fato posso fazer para melhorar a condição da sociedade?

Envolvimento, talvez essa seja uma das respostas. Se eu me envolver nos debates, se eu me envolver nos problemas comunitários e governamentais, se eu interagir com as pessoas que decidem, se eu me posicionar no grupo de amigos, se eu tiver senso crítico para questionar o porquê das coisas, talvez eu mude a sociedade, mas se eu ficar na inércia, no apenas observar e criticar os que fazem, com certeza nada mudará, pois assim os outros decidirão por mim e por nós, cabe aqui essa análise individual.

O que eu posso fazer para mudar o mundo?

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Tratamento de Inverno em Frutíferas Temperadas

Por Melissa Maxwell Bock 

Engenheira Agrônoma Emater/RS-Ascar Pinto Bandeira 

Durante o inverno, as fruteiras de clima temperado entram no período de dormência, ocorrendo a perda total das folhas, fazendo com que a planta fique exposta. Este é o momento ideal para a realização do tratamento de inverno, a fim de diminuir a fonte de inóculo de pragas e de doenças, deixando que as plantas tenham sua sanidade assegurada no próximo ciclo.

Primeiramente é necessário eliminar todos os galhos e ramos secos, doentes e mal posicionados, bem como os ramos improdutivos através de podas. Em segundo lugar, coletar todos os frutos que ficaram no pomar e estão mumificados, bem como as folhas doentes que permanecem na planta e queimá-los e/ou enterrá-los longe dos pomares. No caso das podas é necessário proteger os cortes da entrada de microorganismos patogênicos com pasta bordalesa ou tinta plástica.

Após este processo, fazer o tratamento de inverno, aplicando produtos fungicidas/inseticidas à base de cobre e enxofre, como a Calda Bordalesa e a Calda Sulfocácica, além dos fungidas cúpricos. Porém, é necessário fazer a correta regulagem dos bicos dos pulverizadores, a fim de evitar desperdício e deposição destes produtos no solo, pois como sabemos, nossos solos estão com alto índice de cobre, o que prejudica o crescimento e desenvolvimento das plantas.

Estes tratamentos fitossanitários são as práticas mais utilizadas dentro do Manejo Integrado de Pragas e Doenças, pois além de reduzir os efeitos das moléstias, através de práticas simples e menos agressivas ao homem e ao meio ambiente, também melhoram a qualidade final do produto.

Para as recomendações de dosagem e regulagem de pulverizadores para a realização do tratamento de inverno procure um técnico.

frutífera

Educação sem universidades

Por Elvis Pletsch 

elvis_pletsch@hotmail.com  

Uma das melhores formas de refletir em soluções para problemas é criar uma realidade absurda. Por isso que, ao ver os protestos pela educação, imaginei o que faríamos se o dinheiro acabasse e as universidades deixassem de existir. Será que a educação não existiria? As pessoas não iriam buscar conhecimento? Viveríamos no abismo da ignorância?

Esse questionamento já havia surgido há alguns anos, quando duas situações despertaram meu interesse em contestar axiomas educacionais.

A primeira situação foi quando comecei a participar voluntariamente de um grupo de estudos voltado para a economia, filosofia e política. Ali encontrei um formato que funcionava para mim: não havia um tutor ou uma apostila, havia apenas a interação com aquelas pessoas que possuíam uma busca de um conhecimento em comum.

Esse grupo funcionava através de debates, compartilhamento de conteúdos e de encontros de leitura. Dessa forma, cada membro do grupo participava de forma espontânea, auxiliando naquilo que possuía mais facilidade.

A segunda situação foi através de um professor universitário, que tinha o costume de sugerir diversos livros como leitura complementar após finalizar algum conteúdo. Segundo ele, o que havia ensinado naquele momento era apenas “um ponto de vista”.

Curioso sobre seu posicionamento, resolvi questioná-lo sobre diversos assuntos e, para elucidar minhas dúvidas, não era raro que trouxesse inúmeros livros, revistas e artigos (muitas vezes em inglês) que, de outra forma, jamais teria ouvido falar. Não à toa, costumava reforçar a ideia de que todos deveriam aprender inglês para poder encontrar materiais que nunca foram traduzidos para o nosso idioma.

Através disso cheguei à conclusão de que a sociedade possui um vício na institucionalização do aprendizado. As especializações e os diplomas são tratados como referência para o conhecimento. Deixamos de utilizar os métodos dos nossos avós para levar em conta apenas a bibliografia dos cursos.

A diferença salarial entre os níveis de ensino pode ser o grande incentivador desse abandono, já que uma pessoa graduada pode ganhar cerca de 140% a mais que uma pessoa que cursou apenas o ensino médio, segundo pesquisa divulgada pela OCDE, em 2017. Mas será que não existe nada melhor que um profissional graduado? Será que o método acadêmico é dono da absoluta verdade?

Para quem costuma se vangloriar de seus títulos, o currículo acadêmico parece bem enxuto. Ele leva em conta apenas uma parcela do conhecimento disponível para cada área de atuação. Certamente você já conheceu Sócrates, Hobbes e Kant quando estudou filosofia, mas dificilmente ouviu falar em Eric Voegelin, Ivan Illich ou Ayn Rand no ambiente escolar.

Isso não significa que as instituições ou os seus profissionais sejam ineficientes. Na verdade, elas lembram a antiga educação grega, que tentava abraçar todos os assuntos – do preparo militar ao debate intelectual – mesmo que fosse impossível abordar todos os assuntos curriculares de forma satisfatória. Até por isso, diversos cursos são continuamente substituídos por novas especializações, com o objetivo de agregar outras fontes intelectuais.

Contrapondo-se a isso, em uma distópica sociedade sem universidades, fica claro que há a possibilidade de desenvolver uma metodologia de investigação independente, consultando as filosofias divergentes de cada campo, e não somente buscando a verdade na opinião do currículo escolar.

Acredito que a solução para isso seja uma dose de liberdade, permitindo buscar uma instrução adequada para sua individualidade, evitando assim uma eventual prisão da opinião popular, que costuma ignorar as múltiplas realidades a serem exploradas, por mais contestadas que sejam.

Essa constatação não é pura rebeldia e nem quer minimizar a importância das instituições de ensino para a evolução da sociedade, especialmente na área de pesquisas. A intenção é mostrar que o mundo é maior que o seu quarto (ou que a sua universidade), deixando claro que a formalização do ensino não é a única opção para a educação e que, portanto, não devemos limitar o termo “educação” ao método institucional.

Atualmente, podemos aprender de formas tão diversas e abundantes que a escolha de metodologias ficou tão difícil quanto decidir o filme que queremos assistir no Netflix, e não há dúvidas que a tendência é a criação de formas de ensino ainda mais diferenciadas. É por isso que o mercado está sendo bombardeado por “Edtechs” ou por novos métodos, que envolvem a aprendizagem através da arte, do esporte, ou da tutoria individual.

Mas, mesmo assim, sem questionarmos a metodologia tradicional e os dogmas da educação, será que vamos conseguir mudar a realidade brasileira com essas novidades?

Ou vamos acreditar que a educação de qualidade só virá com mais repasses do governo?

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