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O Funeral dos Neandertais

Rogério Gava

sem-titulo-1Imagine o mundo há trezentos mil anos. Estamos em plena era glacial. O gelo recobre boa parte do que irá tornar-se a Europa. O frio é implacável e o alimento escasso. Nessa paisagem, uma cena perdida no tempo: em uma gruta próxima a um riacho, um grupo de Neandertais – nossos parentes longínquos – se prepara para mais um dia de labuta na inóspita Idade da Pedra.

Já amanheceu e o líder do bando, junto com dois companheiros, sai para garantir o almoço. As mulheres ficarão nas imediações do acampamento, cuidando das crianças e mantendo o fogo aceso. Não muito longe dali, no alto de um declive, os caçadores encontram um cervo desavisado. Uma presa relativamente fácil para os robustos e hábeis Neandertais. Eles escalam o morro com cuidado para não afugentar o animal. Mas, eis que um dos homens se desequilibra e cai lá de cima. Em pânico, os outros descem correndo a encosta para acudir o coitado. Encontram-no, no entanto, já sem vida, deitado ao sopé do monte.

O morto, porém, não será deixado aos abutres. A família Neandertal irá sepultá-lo em uma pequena cova aberta próxima ao acampamento. Antes de lançar terra à sepultura, as mulheres depositarão flores silvestres ao lado do corpo. Também alguns ossos e dentes de animais. Os companheiros ecoarão alguns sons, cobrirão o sepulcro e finalmente irão embora. Uma cena simples, mas com um significado grandioso: pela primeira vez na história, um grupo de homens acaba de enterrar um morto.

Até onde se sabe, os Neandertais foram os primeiros humanos a realizar sepultamentos. O porquê de agirem assim ainda é um mistério. Para alguns paleontólogos, isso evitava simplesmente que o cadáver atraísse predadores indesejados. Mas há aqueles que conferem a essa prática um significado especial: os Neandertais assim agiam por terem tomado consciência do fim. Por isso se preocupavam em celebrar a partida dos que pereciam. A tristeza pela morte inexorável; o sentimento de perda pelos que partiam: foi isso que fez com que os Neandertais passassem a sepultar os membros do grupo.

Discussões científicas à parte, prefiro essa segunda hipótese. É mais poética. Mais inspiradora. Gosto de pensar nos atarracados e fortes Neandertais se despedindo respeitosamente de seus mortos. Uma atitude que começou a separar o homem ainda mais dos outros animais. E que seguiu por centenas de séculos, até nossos dias. Uma atitude que ajudou, também, a nos tornar humanos.

A dúvida, no entanto, persiste. Os Neandertais tinham realmente consciência da finitude? Acreditavam na vida após a morte? Era por isso que sepultavam os mortos? Ninguém sabe ao certo. Talvez nunca saberemos. Perguntas sem resposta. Indagações que cercam o mistério do Alfa e Ômega da existência. Esse enigma que se põe diante do homem desde que, em um dia qualquer esquecido na história, um Neandertal suspirou diante do fim.