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Entrevista feita em junho de 2009 com Moysés Michelon

Empresário foi o destaque da Sobrecapa do Jornal Integração da Serra na edição nº 97.

Aos 83 anos, Michelon faleceu na noite da última terça-feira, 31 de outubro, em decorrência de uma parada cardíaca.

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O turismo e outras facetas de Bento Gonçalves na  Interpretação de um empreendedor a moda antiga

Moysés Luiz Michelon é casa do com Leonora Arioli Michelon há 47 anos e pai de duas filhas, Elisabete, médica geriátrica nos Estados Unidos e Elaine, gerente do hotel Vila Michelon. Tem também uma neta chamada Isabella, mesmo nome da empresa que projetou o então técnico contábil a empreendedor de sucesso. Presidiu o Centro de Indústria Fabril (CIF), o Clube Esportivo e a primeira Fenavinho, todos com sucesso, dando grande contribuição para Bento Gonçalves. Hoje, é proprietário e administra o hotel Vila Michelon, no Vale dos Vinhedos. Aos 75 anos, afirma que trabalhar de segunda a segunda no ramo de hotelaria é um prazer que ele nem pensa em deixar de lado. Do ramo das massas e biscoitos ao da hotelaria e turismo Moysés Luis Michelon é um empreendedor nato. Na entrevista abaixo, um pouco de sua história.

Integração da Serra: Quais são suas raízes?

Moysés : Sou filho de agricultores, nascido no interior de Caxias do Sul. Meu pai nos trouxe a Bento Gonçalves quando eu tinha 10 anos. Sou o mais velho de oito irmãos. Meu pai optou por dar estudo para os filhos, ao invés de herança em terra ou em máquina de costura, conforme os costumes da época. Viemos para Bento Gonçalves pela primeira vez para a ordenação de uma irmã como freira. Quando chegamos à cidade nos hospedamos em uma pousada que estava a venda. Ela ficava bem localizada. Perto do colégio, da igreja e do hospital. Meu pai se interessou e fechou negócio em 30 dias.

Integração: Começou o trabalhar com que idade?

Moysés: Na condição de filho mais velho eu tinha alguns bônus, mas tinha o ônus também. Com 10 anos eu tinha que fazer serviço de garçom e ainda à parte da contabilidade do hotel. Quando fiz 16, vagou numa empresa perto de minha casa um emprego de motorista. Mas como para dirigir era preciso ter 18, necessitava do consentimento do delegado. Como ele era amigo do meu pai,prometeu fazer vista grossa. Porém, se eu me envolvesse em acidente meu pai seria preso. Na época a psicologia era o do cinto para o menor deslize, imagine o que seria por ocasionar uma prisão. Eu sempre dirigi com todo cuidado.

Integração: E de que forma o motorista virou empreendedor?

Moysés: Trabalhei de motorista até ir para o serviço militar. Quando eu terminei de servir o exército, com 19 para 20 anos, entrei como sócio no armazém onde trabalhava de motorista com o s 30 mil cruzeiros que havia economizado até então. Lá eu fiquei até os 22 anos e os 30 mil viraram 60 mil cruzeiros.

Integração: Se você estava indo tão bem no armazém, por que resolveu sair?

Moysés: Recebi um convite para trabalhar de gerente em uma empresa de colchões de mola em Garibaldi. Naquela época eu já estava formado Técnico em Contabilidade pelo Colégio Marista. O investidor do negócio era o padre da paróquia. Fiz alguns cálculos e vi que o custo dos colchões era maior que o preço de venda. Ao apresentar o problema ouvi como resposta que o pagamento do imposto era desnecessário. Então eu resolvi sair da empresa, para não contrariar o padre, nem o aprendizado no curso de contabilidade, segundo o qual nenhum imposto deve ser sonegado.

Integração: E como a Isabela entrou na sua vida?

Moysés: Encontrei o Luis Fornazier em uma festa numa noite de sexta-feira. Começamos a conversar e eu contei a ele sobre a minha recente saída da fábrica de colchões. Segunda -feira ele me convidou para ser o gerente da Isabela. Eu aceitei. Na análise inicial do balanço percebi que a empresa estava no negativo. Eu então vi que a única solução era ampliar o horário de trabalho e o mercado. Resultado: de gerente no primeiro turno passei a macarroneiro no segundo. Aí a Isabela come- çou a se desenvolver.

Integração: E por que, depois de tanto tempo de sucesso a empresa foi vendida?

Moysés: Passados 42 anos, nenhum dos 4 sócios iniciais estavam mais a frente da empresa. O objetivo dos sucessores já não era os mesmos dos fundadores. Era um patrimônio grande dividido em 43 acionistas e por unanimidade decidimos vender. Entendíamos que acima do interesse dos acionistas estava a função social da empresa, gerando empregos, fazendo alimentos. E vendemos.

Integração: Paralelo a direção da Isabela você obteve notoriedade no município nas presidências de entidades e eventos. O que marcou dessa época?

Moysés: Nós fundamos o Centro de industria fabril (CIF), que viria a ser Centro de Indústria e Comércio (CIC) e implantamos metas. Entre elas queríamos retirar o campo de aviação da cidade, sanar o problema da água, que não chegava a todas as casas, da telefonia, do transporte, do asfalto de Bento a Porto Alegre. O mais complicado para o CIF era ter a sede própria, pois nem o de Caxias do Sul tinha na época. Antes de entregar o mandato nós construímos uma sede com dois pisos de 300 metros quadrados e conseguimos melhorar consideravelmente as condições para as indústrias. O mais impressionante é que na década de 60 todas as empresas de Bento eram associadas. Até a mais modesta. Havia gente que só tinha um torno e era associado. Outra experiência que marcou foi à presidência do Esportivo.

Integração: E como foi essa experiência?

Moysés: Em 1962 recebi o convite de Pedro Morbini, presidente de honra e de Sylo Michelon, na época presidente do Esportivo. Mesmo sem nunca ter chutado uma bola eu aceitei o desafio. Nós fizemos uma sele- ção dos jogadores de Bento e fomos jogar o estadual. As excursões eram feitas na kombi da Isabela e no carro do Mário Morassuti, diretor de futebol e Irineu Valenti, vice-presidente. Não pagávamos nada para o treinador. Para os jogadores eu pagava 5 mil cruzeiros. O mínimo na época era 18. O bixo era o seguinte: se ganhasse tinha janta, senão cada um jantava em casa. Chegamos em 7º lugar de 12. Passamos longe de cair. Terminando o mandato entreguei o time com todas as contas pagas e com um desafio. Se tivesse alguma conta em aberto na praça, poderia ser cobrada de Moysés Michelon.

Integração: O senhor foi o primeiro presidente e um dos idealizadores da Fenavinho. Como surgiu a idéia da promoção do evento?

Moysés: No ano (1965) eram comemorados 25 anos dos Maristas na cidade e eu, mais alguns ex-alunos, pensamos em um festival para comemorar. A idéia evoluiu para a Festa Nacional do Vinho. Levamos a idéia para o prefeito Milton Rosa. Ele ficou muito interessado porque a cidade fazia 75 anos. Ainda nesse ano seriam comemorados os 50 anos das irmãs Carlistas. Escolhemos e compramos o terreno, construímos o primeiro pavilhão, e recebemos 120 mil pessoas, entre elas o presidente Castelo Branco. Distribuímos uva, lançamos o vinho encanado e fomos notícia na imprensa nacional. A Iª Fenavinho ocorreu em 1967.

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Integração: Onde se encaixa a entrada no ramo de hotelaria?

Moysés: Depois que vendemos a Isabela, eu fiquei pensando no day after (dia depois), e dentro disso conversei com minha família sobre o que fazer. Porque embora eu estivesse com 65 anos e com minhas filhas formadas, eu não queria parar. Sempre trabalhei. Então eu pensei no Vale dos Vinhedos como um pólo enoturístico. E para isso só faltava o setor de hotelaria. Então nós idealizamos o Vila Michelon.

Integração: Quais são os diferenciais do Vila Michelon?

Moysés: Hoje somos muito mais do que um hotel. Nós temos o memorial do vinho, o museu do vinho, duas trilhas ecológicas, onde procuramos preservar a mata nativa. Pomar com mais de mil pés, com frutas durante todo ano. Temos também uma fazendinha, principalmente para a criançada, para eles terem contato com o coelho, a galinha, a ovelha. Um parque, também para a gurizada. Um lago para dar comida aos peixes e um parreiral modelo. São diferenciais para carregar o conceito do enoturismo.

Integração: Existem projeções que dizem que o turismo em Bento irá sobrepujar tanto o setor vinícola quanto o moveleiro. Você concorda?

Moysés: Eu acho que são atividades complementares. Eu creio que realmente a indústria do turismo tem bastante a avan- çar. Nós temos alguns produtos interessantes. O Caminhos de Pedra. O Vale das Antas, que é pouco explorado. O Vale dos Vinhedos esta muito concentrado em cima de vinícolas. Temos que diversificar. O melhor dos produtos com certeza é a Maria fumaça. Mas hoje ela está no sistema bate e volta. Os turistas vêm de manhã e vão embora à tarde. Quando resolvermos o entrave que impede a retomada do trajeto da Maria Fumaça entre Bento Gonçalves – Jaboticaba, no Vale do Rio das Antas, teremos um produto muito superior a qualquer outro.

Integração: O que falta para o Vale dos Vinhedos ser um destino completo?

Moysés: Imagine se no Vale dos Vinhedos conseguíssemos montar um parque de diversões. Porque o que faz o pai? Vai levar a criança no colo e levar para dentro de uma cantina? É complexo. Se nós tivéssemos um parque temático. E temos espaço físico para isso. Nós temos aqui em Bento Gon- çalves cerca de 2,4 mil leitos. Não é muito. Temos potencial para aumentar.

Integração: Qual é sua opinião sobre o atual momento da vitivinicultura nacional ?

Moysés: O vinho elaborado agora é muito melhor que o feito há 10 anos. Eles estão passando por uma crise, mas a crise acaba sendo um problema externo não controlável. Não são as vinícolas que vão controlar o problema do contrabando nas fronteiras. Não cabe a elas também resolver o problema da tributação. Eu não entendo porque em alguns países do MERCOSUL o vinho tem incentivos fiscais e aqui existe uma tributação de cerca de 50%. Essa tributação resolve o problema da receita do governo federal ou estadual? Não resolve. O setor vinícola é muito importante para nossa região. São 300 mil famílias dependendo disso.

Integração: Onde você vê maiores dificuldades? No turismo, nas vinícolas ou no setor moveleiro?

Moysés: A dificuldade maior é exatamente no setor moveleiro. O princípio do empreendedorismo é montar o pólo onde tem mercado ou onde há matéria prima. O setor moveleiro de Bento Gonçalves sobreviveu inicialmente da Movelsul e posteriormente da FIMMA. A Movelsul criou competitividade entre os fabricantes. A FIMMA trouxe a tecnologia e junto eles trouxeram o financiamento, os bancos que criaram alternativas para o crescimento. Só que tecnologia se esconde por um tempo, depois os outros copiam.

Integração: Alguma sugestão para o setor moveleiro?

Moysés: Eu sugiro que setor moveleiro se incorpore ao turismo. As pessoas que entram em cantinas podem muito bem entrar em show rooms. Por que não fazer um shopping dos móveis em Bento Gonçalves? E nós temos produtos para todos os segmentos de mercado. O shopping dos móveis é interessante para o turismo e para as empresas. Hoje temos algumas empresas com show rooms, mas no final de semana, quando há movimento de turistas, eles fecham.

Integração: Quanto a Copa de 2014, a concorrência de Caxias do Sul para ser sub-sede preocupa?

Moysés: Nós estamos melhores preparados. A sub-sede tem de ficar 150 quilômetros da sede, e longe dos grandes centros. O Vila Michelon se encaixa nisso. Claro que teremos que fazer alguns ajustes, mas o Prefeito está muito interessado. Eu disse a ele que podemos fazer um Maracanã aqui no campo do 8 da Graciema. A comunicação externa precisa melhorar muito por causa da imprensa. Então me perguntam: Mas dá retorno financeiro? E não é essa a questão. O importante é colocar Bento Gonçalves no mapa do mundo.

Integração: Quais as diferenças do empreendedorismo em Bento de agora para quando você começou?

Moysés: Há 50 anos não tínhamos acesso tão facilitado como é hoje. Desde a instrução. Íamos mais na inspiração e na coragem. Hoje temos assessoria em tudo. E não se pode hoje dispensar a ajuda do SEBRAE. Não é só vontade. Vontade é a primeira coisa, mas é preciso pesquisa, controle e estudo também.

Integração: Quais os conselhos para um novo empreendedor?

Moysés: O empreendedor nato começa na fase do delírio. Depois ele passa para o sonho. Mas em algum momento é preciso ter um projeto. É necessário buscar aquele delírio e aquele sonho e trazer para a realidade. Embora hoje 80 a 90% dos novos empreendimentos fracassem nos dois primeiros anos, nós temos como minimizar essas chances, desde que tomem consciência de que esse ramo não é para amadores.

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Fenavinho: Há 50 anos, festa acelerou o crescimento de Bento Gonçalves

Reportagem: Natália Zucchi
Edição: Kátia Bortolini

Mudança nos estatutos com previsão de retorno em 2019

selo-fenavinho-450x333O presidente da última Fenavinho, João Strapazzon, ocorrida em 2011, permanece temporariamente no cargo para convocar a assembleia que elegerá a diretoria da próxima edição, prevista para 2019.

Há três comitês trabalhando nessa tentativa de retorno. O primeiro, formado por juristas e advogados, reviu os estatutos da festa, permitindo a participação do poder público. O segundo, é formado por profissionais que estão renegociando as dívidas deixadas pela última edição, na ordem de R$ 1,2 milhão. O terceiro comitê tem a tarefa de projetar como a próxima edição sairá do papel. Conforme Strapazzon, parte do valor da dívida já foi abatido por empresas e pessoas físicas credoras que deixaram o valor do débito como contribuição à festa.

Para o decorrer deste ano estão previstas diversas ações alusivas ao cinquentenário do evento, considerado patrimônio da comunidade. Entre elas, desfiles temáticos na Semana da Pátria, em setembro, e no aniversário de emancipação política de Bento Gonçalves, em outubro. O projeto de comemoração dos 50 anos da Fenavinho, coordenado pela prefeitura, está envolvendo 40 entidades.

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O Jornal Integração da Serra reporta, neste especial Fenavinho 50 anos, histórias e fatos pitorescos dos bastidores da festa que projetou Bento Gonçalves nacionalmente, com destaque para acontecimentos da primeira edição do evento.

“Fuzide Bento”

boneco-fenavinhop2Um dos fatos mais pitorescos da Fenavinho, presente no imaginário popular, aconteceu na terceira edição da festa, ocorrida de 15 de fevereiro a 9 de março de 1975. Um dos bonecos colocados pela organização em postes para enfeitar a cidade, teria sido furtado por uma turma de Caxias do Sul e pendurado na entrada daquele município, portando um cartaz no pescoço com os dizeres: “Fuzi de Bento”.

3246121756_99dfb6e725_oAo se deparar com a brincadeira, a prefeitura de Caxias do Sul, para evitar confusões, resgatou o boneco e providenciou que voltasse ao seu poste de origem, em Bento Gonçalves. Três dias depois, o mesmo boneco aparece na entrada de Caxias, de novo no mesmo poste,com outro cartaz pendurado com os dizeres “Fuzi de novo”, e ficou por lá mesmo. Na fenavinho-(1)época, a rivalidade entre os dois municípios era muito presente.

A história do boneco consta no livro de contos de causos “Frótole e Buzie”, dos escritores bento-gonçalvenses Ademir Antonio Bacca e Hary Dalla Colletta (in memoriam).

A primeira edição da Festa

A ideia da festa surgiu na Associação de ex-Alunos do Colégio Marista Aparecida. A associação promovia dois a três eventos por ano, muito frequentados por jovens da época. Em 1965,por ocasião dos 25 anos da educação Marista em Bento Gonçalves, a associação optou por promover um evento maior, designado Festa do Vinho, na época o principal produto da cadeia secundária do município.

A proposta, liderada pelo presidente da associação, engenheiro agrônomo Loreno Gracia e por seu vice, o empresário Moysés Michelon, contagiou seus pares e a direção do colégio. Como o ano também coincidia com os 50 anos da instalação das Irmãs Carlistas do Colégio Medianeira no município e com os 75 anos de emancipação política de Bento Gonçalves, Gracia e o irmão marista Avelino Madalosso, diretor do Colégio Aparecida na época,visitaram o então prefeito Milton Rosa e sugeriram a realização da Festa do Vinho, englobando as três comemorações. O Prefeito gostou da ideia e, algumas reuniões após, Gracia foi indicado para presidir a comissão organizadora da 1ª Festa Nacional do Vinho (Fenavinho), tendo como vice Enio Fasolo.

A Fenavinho então iria acontecer no ano seguinte, mas meses depois Gracia foi a trabalho aos Estados Unidos e depois a Minais Gerais, ficando a festa acéfala. Mediante a situação, o padre Ernesto Mânica, pároco da Igreja Santo Antônio, que exercia forte liderança na comunidade, procurou o Prefeito para propor a renovação da Diretoria da Fenavinho e indicou o empresário Moysés Michelon para a presidência do evento. Michelon foi procurado pelo Prefeito e pelo Padre em seu escritório na empresa Massas Isabela, em maio de 1966, aceitando o desafio de preparar a festa em seis meses.

A missão foi cumprida com o auxílio do poder público municipal, através da compra da área de terras para a instalação de um pavilhão para sediar o evento, coordenada pelo então prefeito em exercício, o médico Ervalino Bozzetto, que substituía Milton Rosa,afastado por problemas de saúde. O dinheiro da obra veio da promoção de um leilão, da Casa Civil do Governo do Estado e de contribuições de empresas locais que, ao todo, arrecadaram sete milhões e meio de cruzeiros. O Batalhão Ferroviário, na época instalado no município, disponibilizou soldados e oficiais para ajudar na construção do pavilhão e a comunidade se envolveu de forma maciça no projeto. O evento, ocorrido de 25 de fevereiro a 12 de março de 1967, deu à cidade o título de Capital Brasileira do Vinho.

Acesso asfáltico

fenavinho-(6)A visita do então Presidente da República, Humberto de Alencar Castelo Branco, à 1ª Fenavinho também foi articulada pelo padre Mânica.

O padre era amigo e cabo eleitoral do político Daniel Faraco, Ministro da Indústria e Comércio de Castelo Branco, e solicitou a sua intervenção para convidar o Presidente. O Ministro salientou a Castelo Branco que na região estava concentrada a maior produção de uvas e vinhos do Brasil. Também ressaltou que a maior parte da comunidade de Bento Gonçalves estava mobilizada em torno da organização da 1ª Festa Nacional do Vinho.

O Presidente da República aceitou o convite e, na companhia do então chefe da Casa Civil, General Ernesto Geisel, nascido em Bento Gonçalves, e do então governador do estado, Perachi de Barcelos, foi recebido com festa em Bento Gonçalves em 25 de fevereiro de 1967. Percorreu de carro o trajeto entre Porto Alegre e Bento Gonçalves, por estrada de chão, porque o mau tempo não permitiu o deslocamento aéreo da comitiva. No percurso, Castelo Branco perguntou ao então Governador como uma cidade que estava promovendo uma festa nacional não tinha acesso asfáltico. Meses após, foi emitida a ordem de serviço do Estado para o asfaltamento dos 120 quilômetros de estrada entre Bento Gonçalves e a capital do Estado.

 A bebida do pecado

Fena4Outro fato inusitado na história da primeira Fenavinho foi o baile para a escolha da Imperatriz e Damas de Honra. Devido ao curto espaço de tempo para o evento, a data prevista para o baile coincidiu com a quaresma, período em que a igreja católica não permitia a promoção de festas. Consultado sobre o assunto, o padre Mânica autorizou a realização do baile, ocorrido no Clube Ipiranga, com a escolha de Sandra Guerra como Imperatriz e Iegle Ghelen e Liana Mazzini como Damas de Honra.carros-alegoricos

 Além disso, o vinho, até então visto como potencial econômico e também como “a bebida do pecado”, passou a ser enaltecido nos sermões de Mânica e de outros padres da Paróquia Santo Antônio. Eles liam nas missas passagens da Bíblia que citavam o vinho como “a bebida sagrada”. Além disso, o tema escolhido para o desfile de carros alegóricos foi “O Vinho na Bíblia”.

“O doce vinho que afasta as mágoas do coração”

Fenavinho---Moysés-Michelon-(3)“A união de Bento Gonçalves em torno da realização da primeira Fenavinho foi marcante. Ninguém se omitiu à festa”, afirma o empresário Moysés Michelon, que presidiu o evento. “Conseguimos trazer, pela primeira vez, autoridades nacionais para a cidade, incluindo o Presidente da República, Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco e o proprietário do Diário Associados, o embaixador Assis Chateaubriand. A cobertura da imprensa nacional colocou o município no mapa de atrativos turísticos do Brasil”, recorda ele. Michelon observa que a 1ª Fenavinho foi um marco para a cidade, por projetá-la no cenário nacional, fortalecendo a vitivinicultura e impulsionando o crescimento da economia secundária do município.

Fenavinho---Moysés-Michelon-(7)Michelon salienta que nos preparativos da primeira edição foram criados o brasão, o hino e a bandeira de Bento Gonçalves. A bandeira, com fundo branco, ressalta a paz e o trabalho. O brasão, em seus símbolos e cores, recorda a uva e o vinho e exalta o trabalho das famílias bento-gonçalvenses. Conforme diz a letra do hino, escrito por Maria Borges Frota e musicado por Rui Barros, “…uvas de várias castas, enriquecem a região, com teu doce vinho afastas, as mágoas do coração…”. 

A historiadora Assunta de Paris, no Livro Memórias de Bento Gonçalves, ressalta que “a 1ª Fenavinho foi e é a expressão mais plena do esforço de todos, sem reservas. Empresários, trabalhadores abnegados, exército, padres, mulheres, homens, crianças, todos, enfim, deixaram de lado suas diferenças para trabalhar incansavelmente na preparação da festa. Por isso, ela não pertence a ninguém de forma especial, é um patrimônio cultural de nossa comunidade”.

Nossa capa

fenavinho-(11)Nossa capa mostra a naturalidade das jovens da época com a imagem de Sandra Guerra eleita a 1ª Imperatriz do Vinho, aos 16 anos de idade, no dia 26 de novembro de 1966, no salão de festas do Clube Ipiranga. Sandra Guerra Mocellin, hoje com 67 anos, moradora de Porto Alegre, recorda com carinho os momentos vividos na ocasião.

“A Fenavinho nos proporcionou muitas experiências em viagens feitas pelo estado e em entrevistas para programas de TV, revistas e jornais. Também participamos, a Iegle, a Liane e eu, dos programas da Hebe Camargo e do impagável Chacrinha, no seu auge de audiência”, lembra ela.

Fena-34Sandra acentua que a comunidade de Bento Gonçalves foi a maior beneficiada com a promoção da 1ª Fenavinho. “Por ser uma festa temática, divulgou ao país a cultura local e os produtos da região, com destaque ao vinho”, afirma. Ela acrescenta que foi marcante vivenciar a união das pessoas organizadas de forma voluntária, seja em comissões ou individualmente, para disponibilizar hospedagem em casas de família, já que não havia hotéis e pensões suficientes. “Também, foi dada muita atenção à estrutura de alimentação para atender às milhares de pessoas que vieram conhecer a cidade. Foi tudo muito bonito”.

Divulgação nacional

Fena22Outros fatos importantes da primeira edição da festa que divulgaram o evento no cenário nacional foram a distribuição gratuita de vinhos e suco de uva no centro da cidade e a visita do presidente dos Diários e Emissoras Associadas, o embaixador Assis Chateaubriand, um dos brasileiros mais poderosos do século XX, dono de um vasto império de comunicação, responsável por trazer a televisão para a América Latina, entre outros feitos. As estadas do Presidente da República e de Chateaubriand em Bento Gonçalves transformaram a Fenavinho em notícia nos principais meios de comunicação do Brasil.

Revista1A repercussão foi tanta que a Imperatriz e as Damas de Honra foram recebidas em programas de televisão comandados por Hebe Camargo e Chacrinha. A revista O Cruzeiro, um dos veículos dos Diários Associados, de circulação nacional, dedicou a capa e várias páginas da edição de 1º de dezembro de 1970 à Fenavinho e às “Uvas de Bento”, representadas pela Imperatriz e Damas de Honra.

Fenavinho---Moysés-Michelon-(4)Castelo Branco e Chateaubriand foram recepcionados em datas diferentes na recém-inaugurada adega da vinícola Dreher. O vinho servido no almoço presidencial foi engarrafado para a ocasião com o rótulo: “Especial para o almoço presidencial”. Chateaubriand também foi homenageado pela Dreher com o “Velho Capitão”. Ele esteve na cidade a convite do comendador Carlos Dreher Neto, que presidia o Clube Colibri, formado por grandes anunciantes dos Diários Associados.

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Imperatriz e Damas de Honra em visita às vinícolas . Foto: Acerco Itacyr Giacomello

Em 1967, Bento Gonçalves era o maior produtor de vinhos e uvas do Brasil. Também era o maior fabricante de acordeões da América Latina e o segundo no estado em arrecadação pública. Era, ainda, um dos municípios de menor índice de analfabetismo do país.

Trabalho harmônico

“A Fenavinho foi fruto da coragem e da visão empresarial de muita gente. A primeira Fenavinho foi decisiva para mudar os rumos do desenvolvimento de Bento Gonçalves, dando início a uma nova etapa social e econômica do município”. A afirmação é do jornalista Itacyr Giacomello, que coordenou a Comissão de Imprensa do evento durante suas primeiras edições. Ele salienta fenavinho-(4)que, além de valorizar os vinhos e vinhedos da região, a festa abriu caminho e impulsionou os setores moveleiros, metalmecânico e de couros, dando início a atual diversificação do parque industrial de Bento Gonçalves. “A Fenavinho foi um evento irreversível, marcou para sempre Bento Gonçalves no Brasil. Foi um trabalho harmônico e abnegado por todos os envolvidos”, ressalta.

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Itacyr Giacomello

Ele comenta que, em 1967, o setor vinícola liderava a economia secundária do município, capitaneado pelas companhias Dreher, Mônaco, Cooperativa Vinícola Aurora, Vinícola Salton, Vinhos Fontanive, Cooperativa Vinícola Tamandaré, Cia. Vinícola Riograndense e Vinícola Salgado. Acrescenta que o setor moveleiro despontava com as empresas de móveis Miolo, Sperotto, Zardo e, posteriormente, com os mó veis Pozza e Barzenski. 

“Encantados com o vinho, os turistas, na maioria vindos de Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, não dispensavam o contato com os moradores locais para entender os detalhes da festa. Foi um evento que surpreendeu o Brasil inteiro”, destaca Itacyr.

Engenharia do vinho encanado

vinho-encanado---CópiaA distribuição do chamado vinho encanado no centro da cidade, que surpreendeu os moradores e visitantes, estava a cargo da Cooperativa Vinícola Aurora, que representava as vinícolas participantes da festa. Posteriormente, cada uma devolvia a ela a porcentagem de vinho e suco de uva distribuído correspondente ao acordo feito entre as vinícolas. A explicação é de Vitalino Nichetti, então funcionário da Cooperativa Vinícola Aurora, que presidiu o trabalho de comissões criadas para a organização da atração.

Vitalino Nichetti

Vitalino Nichetti

“O transporte dos vinhos tinto e branco e do suco e uva da Cooperativa até o centro de Bento Gonçalves, era feito com camionetes. Na primeira edição, as bebidas foram bombeadas até tanques instalados para armazenamento no terceiro andar do Edifício Pozza, no Centro. Do terceiro andar, mangueiras desciam e percorriam a rua Marechal Deodoro até as três tendas onde as bebidas eram distribuídas. A primeira tenda ficava no início da rua Marechal Deodoro, a segunda no meio e a terceira, em frente à Igreja Santo Antônio. Na segunda Fenavinho, o vinho ficou armazenado no Edifício Millan. Na terceira, no prédio da Vinícola Salton. Já na quarta edição do evento, os tanques foram alocados no Edifício Zanoni, permanecendo o mesmo sistema de distribuição às tendas”, conta Nichetti.

Ele acrescenta que somente na 5ª Fenavinho, em 1985, o vinho passou a ser distribuído de forma centralizada na recém-inaugurada “Casa Del Vino”, ainda instalada no centro de Bento Gonçalves, próximo à prefeitura. “Na Casa Del Vino, os vinhos e suco de uva distribuídos passaram a ser refrigerados por um circuito fechado, através dos tanques de aço inoxidável revestidos por pipas de madeira, na parte superior da Casa. Desses tanques, mangueiras conduziam as bebidas até as pequenas pipas fixadas nos balcões que circundam a Casa, onde os visitantes se serviam pelas torneiras. Nas edições anteriores, tanto os vinhos quanto o suco de uva eram servidos em temperatura ambiente”, detalha.

Fena-31Nichetti acrescenta que a Casa Del Vino, contendo 32 barris e 48 torneiras, demandava o trabalho de 24 pessoas entre atendentes, enólogos e técnicos para administrar o sistema. A refrigeração dos tanques, que segundo ele, tinha um papel fundamental para a degustação das bebidas, era controlada por Igino Bitarello. Nichetti ressalta que Hugo Justi, técnico em manutenção da Aurora, também ajudava de forma intensa no que era preciso para o sistema estar sempre em pleno funcionamento. Ele também lembra de Mauro Morbini e Dario Crespi como sendo os enólogos que mais trabalharam com o vinho encanado.

Selos e cartazes Fenavinho 

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