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O pote cultural: sobre metas e sonhos

O pote cultural

Por Elvis Pletsch

Há algum tempo, sentia-me perdido quanto ao o que queria para a minha vida. Tinha muitos problemas para organizar minhas ideias, pois queria fazer muita coisa e não sabia por onde começar. A ansiedade, assim como a pressão do ambiente para tomar decisões rápidas, transformou-me em um verdadeiro estrangeiro – no sentido Gessinger da palavra – sem metas definidas e sem rumo certo para seguir.

Foi através dessa frustração que, juntamente a Natália Zucchi (namorada, jornalista e colunista deste mesmo jornal), desenvolvemos aquilo que apelidamos de “pote cultural”.

O nome surgiu por acaso. A intenção inicial era colocar frases e trechos de livros e músicas que gostaríamos de lembrar, mas a ideia não pegou. Por isso, reaproveitamos o nome para criar um procedimento para armazenar objetivos, metas e ideias em um velho pote de cerâmica.

O que aconteceu após o uso dessa metodologia foi inesperado: escrevemos ao menos 50 papéis com aquilo que gostaríamos de fazer, dobrando-os e separando-os em metas de curto, médio e longo prazo. Aos poucos, enchemos o pote com lugares para viajar e restaurantes para conhecer, além de metas de vida, como empreender, terminar a graduação, aumentar os investimentos na bolsa, voltar a escrever, fazer cursos ou ver o show de algumas bandas. Se ao longo do ano houvesse algo novo que poderia ser feito, fazíamos um novo papel para ser adicionado aos outros.

Quase um ano depois, não haviam muitas lembranças daquilo que estava escrito no pote, pois não tínhamos o hábito de olhar o que estava por lá. Mas, após um breve momento de dúvidas quanto ao futuro, resolvemos rever todos os papéis. O resultado nos surpreendeu. Cumprimos muita coisa que havíamos esquecido, e boa parte das outras metas e ideias estavam sendo encaminhadas.

Faça você mesmo

Não é difícil aplicar essa metodologia em casa. É necessário um recipiente qualquer, caneta e papel. No nosso caso, utilizamos um pote de cerâmica, caneta hidrográfica e papel colorido.

Após conseguir esses itens, basta anotar tudo aquilo que você quiser fazer, seja amanhã ou em cinco anos. Pode ser qualquer ideia. Comece lembrando das coisas pequenas, como visitar um amigo ou conhecer algum lugar, para depois se aprofundar e colocar seus maiores desejos, como viajar para outro país, conseguir um novo emprego ou ter filhos. Não existe ideia ruim, até porque posteriormente você vai mudar sua personalidade e descartar aquilo que não desejar mais.

Também há a possibilidade de criar uma gamificação, escrevendo prêmios atrás de cada folha para gratificar-se ao cumprir com aquilo que foi escrito – mas lembre-se de ir com cautela, pois isso pode lhe deixar sem dinheiro algum. Em nosso caso, não desenvolvemos nenhum sistema de recompensas por nossas metas, até porque entendemos que alcançar as metas é a própria recompensa.

Por fim, basta trabalhar para alcançá-las e estabelecer um período para verificar o que está dentro do pote. Nós pretendemos olhar os papéis uma vez por ano, sem o compromisso de ficar verificando-os regularmente, mas nada lhe impede de fazer isso com frequência.

Para marcar aquilo que foi alcançado, nós colocamos os papéis desdobrados no fundo do pote, para futuramente lembrarmos de tudo aquilo que conquistamos, além de desfrutar da mesma sensação de olhar para um antigo álbum de fotografias.

O verdadeiro aprendizado

Já havia ouvido falar sobre a necessidade de uma definição de metas, mas por acreditar na habilidade humana perante a incerteza, sempre achei que uma organização de objetivos pessoais era besteira.

É claro que eu estava errado. Apesar da nossa fórmula focar somente no resultado, e não nos meios para alcançá-lo, colocar os objetivos no papel tornou-se um método inconsciente de organizar aquilo que é mais significativo.

Foi através dessa experiência que conseguimos perceber a mudança da nossa mentalidade durante todo esse ano. Várias conquistas realmente foram grandiosas para a nossa realidade, mas como amadurecemos e nossos gostos mudaram, vários objetivos já não faziam mais sentido e simplesmente foram rasgados. Assim, a possibilidade de encarar alguns velhos sonhos e deixá-los para trás ficou mais fácil, pois conseguimos visualizar todos os outros sonhos prestes a entrar no forno.

A experiência também serviu como uma injeção motivacional – veja só, rendeu até um texto. Não somos diferentes da maioria. Assim como nossos pais e avós, muitas vezes reclamamos que o ano passou rápido e temos convicção de que não fizemos nada. Mas quando tiramos os papéis e vimos que muita coisa foi conquistada, acabamos deixando de lado o pensamento rotineiro de que as coisas não andam bem. Na verdade, boa parte da cobrança diária por novas conquistas só existia porque criamos o costume de esquecer as nossas conquistas anteriores.

Seguindo os passos de Eric Ries, chegamos à conclusão de que até não falarmos a nossa ideia atual, nunca vamos ter uma melhor. É por isso que nessa última revisão de metas, outros dez papéis foram escritos, e esperamos que boa parte deles possam ser colocados no final do pote pelos próximos anos. Caso isso não aconteça, ao menos teremos aprendido uma grande lição: sem valorizar o presente e o passado, vamos viver sempre pelo futuro – e quem é que sabe o que vem por aí?

Blade Runner 2049

FilmeNum futuro alternativo e distópico, humanos criaram uma espécie chamada de replicantes – seres sintéticos biologicamente idênticos ao organismo humano. Cabe aos blade runners eliminar os rebeldes enquanto uma nova geração mais obediente é inserida na sociedade. Neste contexto, o blade runner conhecido como K é encarregado de caçar o possível filho de uma replicante – que teoricamente não carregam a capacidade de procriar.

A história de Blade Runner 2049 vive de ambientação. Essa é uma característica do clássico de 1982 que, também presenteia o público com extensos momentos de pura contemplação. A cada novo cenário, a câmera viaja pelas belas e decadentes paisagens de uma Califórnia cyberpunk.

Enquanto alguns admiram – e outros bocejam -, todos são pegos por temas ricos, de: veracidade das memórias, originalidade de identidade, preconceito entre iguais, escravidão e tantos outros temas existencialistas cabíveis. Ao longo de suas quase três horas de duração, o filme não se preocupa em responder suas próprias questões, mas nos faz senti-las.

Gratidão

gratidãoTenho visto, no Facebook, as pessoas postarem a bela palavra: “gratidão”. Agradecer: reconhecer a graça de todos os momentos e da própria vida. Ser grato é saber-se “obrigado”, essa palavrinha mágica, tantas vezes esquecida dos bons costumes, e que sempre lembramos às crianças. A língua é sábia: “obligatus”, diziam os antigos latinos, significando “união, ligação”. Assim, o sentimento de gratidão nos enlaça afetivamente; quando dizemos “obrigado” ou “muito grato” um elo de amizade e cooperação se forma. Se quebra um pouco o gelo da falta de interesse pelo outro, do nosso vil egoísmo. Da mecânica insana do mundo.

Buda ensinava a sermos gratos em todo amanhecer. Faz sentido, afinal, ao deitarmos, sempre há a possibilidade de não despertarmos mais. O filósofo romano Cícero dizia que a gratidão era não somente a maior das virtudes, mas mãe de todas as outras. Em um dos textos mais antigos do Novo Testamento, escrito no ano 50 de nossa era, o apóstolo Paulo nos exorta a dar graça por tudo, sempre. Pablo Neruda, o grande poeta chileno, captou a essência do verbo: “Grato pela palavra que agradece. Grato a grato pelo quanto essa palavra derrete neve ou ferro (…) Grato, és pílula contra os óxidos cortantes do desprezo, a luz contra o altar da dureza”. E o nosso Drummond escreveu: “gratidão, essa palavra-tudo”.

Sabemos, no entanto, agradecer? A gratidão, por certo, não é uma virtude fácil. Ela muitas vezes nos falta. Por culpa do nosso ego. Isso porque, ser grato é dividir. É reconhecer que somos sempre devedores de nossa própria felicidade a outras pessoas. Você é feliz sem aqueles que ama? Com certeza que não. Há que sermos gratos, portanto, primeiro e antes de tudo, pela possibilidade de amarmos e sermos amados. Quando falta esse reconhecimento, a gratidão esmorece.

Ser grato é reconhecer que nenhuma alegria seria possível, que a própria felicidade não seria possível, sem a existência de tudo o que nos rodeia. Sem o Sol, não existiríamos. Sem ar, tampouco. Também sem a comida em nosso prato privilegiado, e que a tantos falta. Mesmo que, saibamos, a vida muitas vezes não nos sorri, sempre haverá o que agradecer. O orgulho, no entanto, eclipsa esse sentimento de graça por tudo. A falta de humildade faz da gratidão uma “in-gratidão”. Achamos que tudo o que temos é nosso de direito, e esquecemos de agradecer.

Como sermos mais gratos? Listar as coisas da vida pelas quais deveríamos todos os dias agradecer, e esquecemos, pode ser um bom começo. Dar graças pelas refeições. Pela saúde. Pelo teto que nos abriga. Por uma boa taça de vinho, lembrando quanto de trabalho e suor nela repousam. A escritora Carolina Chagas, em seu belo “O Livro da Gratidão”, sugere que tenhamos em casa um pote vazio, dentro do qual colocamos pequenos bilhetinhos; neles, escrevemos sobre as coisas pelas quais agradecemos. De tempos em tempos, podemos esvaziar o pote e lermos o que depositamos aí. Uma bela maneira de manter viva a chama da gratidão.

A gratidão é gratuita. Ela não é um dever, tampouco uma obrigação. Ela é, sim, uma virtude, e é bom que a cultivemos. Gratidão, afinal, é valorizar todos os dias tudo aquilo que a vida nos concede. Para sermos realmente merecedores dela. Afinal, como bem dizia uma antiga canção, “quem não dá valor ao que tem, não merece ter nada de valor”.

Entre Tópicos

BentoCIDADE INDUSTRIAL

O município de Bento Gonçalves, como qualquer outro do país e do mundo, tem seus pontos positivos e negativos. A ação do voluntariado e os projetos sociais existentes na cidade em prol dos menos favorecidos é um traço positivo e marcante da comunidade. A matéria de capa desta edição confirma a observação. Mais de 2.500 pessoas, entre jovens e adolescentes, tem acesso gratuito à prática de várias atividades esportivas e culturais.  Providenciais essas oficinas porque esta é uma cidade industrial, de muito trabalho, com jovens impedidos por força de lei federal a trabalhar antes dos 16 anos, salvo raras exceções, como o Programa Jovem Aprendiz, do Senai.

Na minha época de adolescência não havia nada disso.  A prática de esportes era restrita a aulas de educação física e a participação em competições entre escolas locais, como a dos Jogos da Primavera. Muitas vezes ficávamos sem ter o que fazer no contraturno escolar. No verão, o cenário mudava com a abertura da temporada de piscinas. Morava no centro da cidade e frequentava a piscina do Clube Aliança, onde cedo aprendi a nadar com a ajuda dos mais velhos. Também aprendi a jogar pingue-pongue nos finais de tarde, após muito sol e água. Tentei aprender a jogar tênis, sem sucesso, penso que por falta de instrutores. Se fosse hoje, ficaria encantada com as várias oportunidades oferecidas, tanto em esportes como em artes e, com certeza, participaria de várias.  Como a maioria das crianças e adolescentes, sobrava fôlego e disposição.

VEREADORES MIRINS E RAIO X DIGITAL

O poder legislativo de Bento Gonçalves entregou diplomas aos Vereadores Mirins no último dia 10, em sessão ordinária simulada. Parabéns pela iniciativa, que incentiva jovens com potencial a se envolverem com a política, que, se bem praticada, é uma arte.

Já a Secretária Municipal de Saúde inaugurou na UPA, também nessa semana, o laboratório de Raio X digital. O equipamento, com certeza, vai ajudar a qualificar o atendimento.

Foto: Divulgação

Aceitar-me como sou e viver o presente

padreA sociedade de hoje facilmente nos força a assumir papéis. As pessoas passam a ser o que são em tensão com aquilo que precisam parecer ser. Muitos lidam bem com essa tensão. Quem decide ser o que é se torna livre interiormente. Outros pendem a ser aquilo que não são e estão sempre em busca de algo que dificilmente vão encontrar. Decidir ser o que não se é deve ser muito angustiante. A pessoa sente-se pressionada o tempo todo a demonstrar com aparências o que ela de fato não é. O parâmetro é sempre os outros e aquilo que ainda não consegui alcançar.

Fala-se de mundo das aparências. Isso deixa as pessoas interiormente divididas. Estão sempre perseguindo um desejo que as deixa insatisfeitas. Nem sempre a pessoa percebe isso, mas sente uma angústia permanente por pensar que sua felicidade está lá na frente, no outro lado. Pensa ser necessário ter outro emprego, outra casa, outro carro, mais dinheiro, etc. A situação em que está e o que está vivendo simplesmente não satisfaz. Pensa que quando for diferente será feliz; quando pagar todas as contas; quando concluir o curso; quando encontrar aquela pessoa para amar; quando conseguir atingir aquela posição social ou quando vencer aquela dificuldade, então sim será feliz.

Colocar a felicidade sempre no futuro é um perigo. Os dias podem passar sem que eu sinta sabor naquilo que vivo e experimento. Certo é que estamos sempre em busca. Nunca estamos plenamente satisfeitos com a realidade. Queremos mais. Não posso parar e me acomodar com as mesmas coisas, sem querer mais, sem me determinar com novas e criativas atitudes. Precisamos alimentar os sonhos. Não dá para parar. Mas, ao mesmo tempo, precisamos sentir que o presente tem sabor. Não posso viver na angústia por encontrar um sentido que está longe e não me alegrar com o presente. As pessoas que encontro, a vida e as paisagens que contemplo, o trabalho que faço, a conversa que escuto, o ritual que celebro, a mão que estendo, tudo isso, precisa me proporcionar alegria e me deixar motivado. É encontrando sabor em tudo, que posso caminhar na busca de encontrar mais. Assim a vida, com tudo o que ela envolve, inclusive os sofrimentos, me dá motivos para que eu possa dizer: sou feliz.

Para que isso seja possível preciso aceitar a condição de fragilidade que sempre carrego comigo. Não somos perfeitos. Precisamos aceitar nossos limites e carências. Não posso pensar que preciso estar sempre pleno, como se não pudesse me faltar nada. Administrar as faltas permanentes é manter aberta a porta da transcendência. Por que somos frágeis e carentes e, ao mesmo tempo, habitados pelo infinito, desejosos do infinito, é que a “porta do mais” está sempre aberta. Queremos mais, estamos sempre insatisfeitos. Algo parece sempre nos faltar. Há dentro de nós como que um “espaço” para preencher e um impulso que nos joga para frente, nos fazendo querer mais, esperar mais. Esse “espaço” aberto pode tentar ser preenchido com coisas, o que nos levará para o engano ou poderá ser o espaço de Deus em nossa vida.

Educação para a Cidadania

matemáticaOs Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) indicam, entre outros, como objetivos do Ensino Fundamental, que os alunos sejam capazes de “compreender a cidadania como participação social e política…” e, em consequência, o exercício de direitos e deveres.

A afirmação nos remete, inicialmente, ao conceito de cidadania explicitado com propriedade pelo dicionário Aurélio como “qualidade ou estado de cidadão”, que é o “indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para com este”. Já na filosofia grega, o cidadão da polis – cidade –  submetia-se às suas leis na vivência da cidadania.

O escocês Gert Biesta, em seu artigo intitulado “Boa Educação na era da mensuração”, analisa e comenta os resultados das avaliações educacionais à luz das finalidades da educação. Ao fazê-lo lembra que uma boa educação precisa fazer distinção entre três funções: qualificação, socialização e subjetivação. Nesse sentido, apresenta duas propostas de educação para a cidadania baseadas na literatura e na matemática, ou melhor, na educação matemática.

Percebe-se o vigor da proposta ao enfatizar o sentido social da matemática no ensinar/aprender, norteado pela satisfação que o indivíduo sente ao usar a ciência no seu cotidiano, resolvendo problemas na condição de cidadão. É nesse sentido que a formação de hábitos, como o estudo diário e atitudes como o predispor-se a fazê-lo, favorecem a construção dos conceitos quantitativos e operatórios básicos para aprendizagens mais avançadas, que vivificam a convivência social em sua complexidade.

É curioso observar que o sentido social de uma educação matemática se revela desde cedo em pequenas ações de estimativas, de troco, de partilha, de troca e/ou conversão de moedas de países diferentes, na adoção de um sistema comum de medidas entre os países e em muitas outras situações.

Uma proposta de educação para a cidadania baseada na educação matemática deixa claro a necessidade de qualificação, ou seja, do conhecimento, das habilidades de cálculo, do raciocínio e, sobretudo, da compreensão matemática para tornar-se proeficiente e, assim, poder vivenciar no social a subjetivação em valores como a disciplina, o rigor, a correção e a justiça no pleno exercício dos direitos e deveres do cidadão.

Considero que a afirmação de Biesta mostra que a educação matemática tem muito a contribuir para a cidadania.

A Mel

MelEscrevo sob os olhares da Mel, a cachorrinha da minha filha Anna. Chegou em nossa casa em um momento de tristeza, de dor pela perda de um ente querido. Frágil e pequenina, quase nos deixou também. Mas a bolinha de pelos venceu a eterna luta pela vida e agora cresce sem parar.

Rebelde e temperamental, cisma em fazer suas necessidades nos melhores tapetes. Adora deitar de barriga, aproveitando o frescor do piso para arrefecer o corpo. E late sem parar, invocada e autoritária, a cada toque da campainha. Eu, que fui iniciado no mundo dos cachorros depois de adulto – temos também o Bob, um vira-lata turbinado e super esperto, que chegou antes, e, como diz minha filha, é agora irmão da Mel –, me maravilho a cada dia com as peripécias caninas.

De pelo marrom claro e branco, focinho proeminente e dentes afiados, a Mel mais parece uma raposinha fugida da floresta. Possessiva, tomou para ela a poltrona da biblioteca onde trabalho. Ali, no silêncio das tardes mansas, enrodilha-se sobre uma almofada e cai no sono.

Olho a Mel em sua animalidade, mas ela me é mais do que um cão. Penso no que estará sentindo, quando a surpreendo me observando. O olhar transparente e piedoso dos cachorros. Que mistérios guardará? O escritor Alberto Manguel comenta que o relacionamento que temos com um animal, põe em cheque a nossa própria identidade e a do animal com quem convivemos. O olhar de um cão nos obriga a sermos sinceros conosco; ele é uma espécie de espelho a refletir o que nem sabemos que somos. Um olhar que captura o nosso próprio olhar e o devolve.

A Mel me entende, e assim é paciente com minhas leituras; dificilmente as interrompe. Pelo contrário, quase sempre me fita, silenciosa, enquanto anoto partes de um livro ou converso com o autor. Fantasio sobre o que ela pensará dos livros. Já flagrei-a escalando cuidadosamente uma pilha de volumes sobre a mesinha, para em segundos desmoronar lá de cima. Esses dias a vi lambendo um exemplar do Umberto Eco; tem bom gosto a pequena. Já um livro de Nietzsche não teve igual sorte: deu-lhe uma boa dentada. Acho que ela não gosta de filósofos materialistas.

Se às vezes a pequena Mel incomoda, sua ausência enche a casa de vazio. A sensação de prover abrigo para um animalzinho tão indefeso é muito boa. O doce sentimento de cuidar de uma vida. De um ser que, como todos nós, não escolheu estar no mundo. Mas que ao mundo veio e agora trata de viver. Ajudamos a Mel a seguir seus dias e ela nos retribui da mesma forma. Trazendo graça e encanto à casa que descobriu como lar.

Não gosto da Feira do Livro na Via Del Vino

katiaKátia Bortolini

A 32ª edição da Feira do Livro de Bento Gonçalves ocorrerá de 18 a 29 de outubro deste ano, de novo na Via del Vino. Digo de novo porque o local, no meu entender, é o pior entre todos os espaços que o evento já ocupou no decorrer de sua história. A feira foi parar na Via del Vino na administração do prefeito reeleito Guilherme Pasin. O espaço é muito pequeno. As livrarias participantes ficam espremidas entre o público, também espremido. A minha paciência para ficar em local público no meio de um monte de gente terminou faz tempo. Em função disso, não visitei as últimas edições da feira e nem adquiri ou troquei livros.  No meu entender, as melhores edições da feira ocorreram na praça Centenário, promovidas na administração do ex-prefeito Roberto Lunelli. A última edição na praça, em 2012, contou com a participação do rap Gabriel Pensador, que acabou virando motivo de celeuma política com o cantor tendo de falar sobre o assunto em programas de televisão de abrangência nacional. O acontecimento foi “de última” para a imagem de Bento Gonçalves na memória do rap e na de fãs do cantor residentes no município.  Além disso, a verba que a administração de Lunelli conseguiu para a construção de um complexo com biblioteca na praça Centenário, através de várias idas a Brasília do então secretário de Cultura, Juliano Volpato, foi perdida pela atual administração. Na época, se ouviu dizer que alguns moradores de edifícios do entorno da praça não queriam a obra no local. Pelo jeito também não querem a Feira do Livro.

Em Bento Gonçalves, infelizmente, ainda impera a opinião da minoria em detrimento ao bem comum. Além disso, também é visível a falta de vontade das administrações municipais em concluir projetos das anteriores. Nessa briga pelo poder quem perde somos nós contribuintes. Para a maioria dos políticos, o que importa é a manutenção do partido e dos aliados no poder e os cargos públicos.  Esse é o modelo político no qual “o fim justifica os meios”, máxima da obra “O Príncipe“, de Maquiavel. O fim seria a continuidade partidária nas eleições vindouras. Os meios são as formas utilizadas para essa continuidade, que envolvem desde promessas vazias até compra de votos.

Foto: Divulgação

Trainspotting

bruno_nascimentoBruno Nascimento

Trainspotting

Direção: Danny Boyle

Roteiro: John Hodge, Irvine Welsh (livro)

Elenco: Ewan McCregor, Ewen Bremmer, Jonny Lee Miller, Kevin McKidd

Um grupo de jovens delinquentes tem na heroína a única escapatória da existência pífia que a sociedade oferece. Mark Renton, um deles, sofre com o inevitável fato de que a vida exige que escolhas sejam tomadas. Por isso, segue o caminho mais prazeroso – e curto.

Danny Boyle já demonstrava seu potencial artístico muito antes dos holofotes o encontrarem em 2008, com “Quem Quer Ser um Milionário”. Sua capacidade de realizar filmes com pitadas de genialismo é aparente em 1996, com Trainspotting. O figurino simplório que combina com o estado dos personagens, a representação prática dos sentimentos de prazer, horror, obsessão, etc. Tudo colabora para construção de uma narrativa rica em filosofia e auto-compreensão.

Trainspotting se mantém como uma obra artística fundamental para refletirmos o indivíduo e a sua participação (inevitável) na sociedade.

Anotações de Percurso

rogerio_gavaRogério Gava

Nomes

Os nomes empobrecem as coisas. Penso nas “Três Marias”, as estrelinhas em fileira que todos apontamos ao céu. Pois é, desde que aprendi serem parte do cinturão de Órion, o grande caçador, e que se chamam Alnilam, Alnitak e Mintaka, algo se perdeu. Foi assim também quando gravei a forma das constelações no céu estrelado: nunca mais consegui enxergar apenas estrelas. O saudoso Manoel de Barros, admirável poeta pantanense, contava essa história: quando menino morava junto a um rio que fazia volta atrás da casa onde residia. Então, um homem, belo dia, lhe disse que aquilo se chamava enseada. Desfez-se o encanto. O rio em curva já não era mais um fascinante mistério, que ao poeta menino lembrava uma reluzente e gigante cobra de vidro. Foi, a partir daquele instante, apenas e somente uma enseada. “Acho que o nome empobreceu a imagem”, escreveu ele. Os nomes que damos a tudo depauperam tudo o que nomeamos.

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O mal segundo Schopenhauer

O célebre – e sempre azedo – Schopenhauer era um pessimista nato. Rabugento, sua prosa é uma navalha a cortar qualquer perspectiva de felicidade. Mas isso não impediu (ou, quem sabe, até ajudou) que ele tivesse uma sacada lógica genial a respeito dos males da vida. Dizia o ranzinza filósofo que os infortúnios – que tanto perturbam nosso estado de espírito – podiam ser divididos em apenas dois grupos: os incertos e os indeterminados. Para não perdermos a tranquilidade – articulava ele – habituemo-nos a considerar os incertos como se nunca pudessem ocorrer, e os indeterminados como se não pudessem de modo algum acontecer agora. Reflito a respeito. Os males incertos são aqueles que podem, ou não, acontecer: doença, acidentes, fracassos de toda ordem. Já os indeterminados temos certeza de que irão ocorrer, mas não sabemos em que ponto do percurso de nossa vida. Pergunto: não será um e somente um o mal indeterminado, ou seja, a nossa própria morte?

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O sopro eterno

Anaxímenes de Mileto, um dos primeiros filósofos, a quem tudo era ar, disse assim: “Como nossa alma, que é ar, nos governa e sustém, assim também o sopro e o ar abraçam todo o cosmo”.

Leio esse fragmento antiquíssimo e fico pensando em como a alegoria do sopro embala a humanidade, desde os tempos imemoriais. No Gênesis, o sopro é o bafo insuflado por Deus nas narinas do homem. É o pneuma dos gregos, a respiração, o espírito (spiritus) que dá vida ao corpo físico. Também psyche, a “alma do sopro”. É o ruach hebraico, o fôlego, ar vital. É a anima dos latinos, o alento que “dá ânimo” ao corpo. É o ehecatl dos Astecas e o nephesh do Antigo Testamento. O sopro, em suma, é a alma. E sem alma, sabemos, um corpo é apenas um pedaço de carne. O sopro é, assim, o que nos dá substância. Essência. Aragem invisível que a tudo movimenta. “Reflita sobre o que é a respiração: vento, e nem ao menos sempre o mesmo, mas a cada instante expirado, logo aspirado”, escreveu o imperador Marco Aurélio. Somos sopro. Eternamente.

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A poesia é um modo de ver a vida

“É preciso fazer emergir a poesia do cotidiano”, escreveu – poeticamente – Affonso Romano de Sant’anna. Neste mundo em que “tudo nos conduz à superfície do instante”. Brilhante verdade! A poesia, diz um grande amigo, é educada; nunca entra, pois, sem bater. É preciso, assim, abrir as portas para o acaso poético. Deixar uma fresta na janela, ao menos, para que ele adentre sem medo e nos faça respirar ares menos sólidos. Menos rarefeitos. Tudo é poético e nada o é: depende da sensibilidade de quem vê. O poeta é aquele que enxerga de olhos fechados, pois tem a alma aberta.