Posts

Colonos da nova era: pequenos produtores da região aderem ao cultivo orgânico

Por Júlia Freitas

No dia 25 de julho é comemorado o Dia do Colono. A data é uma homenagem aos imigrantes europeus que encontraram terra inóspita no Brasil e transformaram-na em verdadeiros lares e cidades, através do trabalho árduo. Tiveram de empreender para sobreviver. Nos municípios da Serra Gaúcha, muitos de seus descendentes ainda tiram da terra o sustento de suas famílias em pequenas propriedades com vários cultivos, entre eles uva, pêssego e hortifrutigranjeiros.

Na virada do século, o mercado de produtos orgânicos passou a ganhar mais destaque e valorização no país através dos movimentos em prol do meio ambiente e da saúde humana, prejudicada pelos agrotóxicos.

Na Serra Gaúcha, a tendência foi absorvida e colocada em prática em várias propriedades rurais.

Família Boroto

Pioneirismo na produção de espumante orgânico no Brasil

Entre as propriedades onde as famílias aderiram à produção orgânica está a de Acir Boroto, localizada na Linha Presidente Soares, interior de Garibaldi. Na área de terra de 15,8 hectares, a Família Boroto elabora vinhos espumantes com uvas 100% orgânicas. O agricultor, de 48 anos, além de dar continuidade ao trabalho do avô, começou a tratar o fruto de forma natural. Atualmente, a família elabora cerca de três mil litros por ano de espumante orgânico. “O primeiro do país”, afirma Boroto.

Orgânicos - Acir Boroto

O espumante é comercializado pela Cooperativa de Produtores Ecologistas de Garibaldi (Coopeg), da qual Acir é um dos fundadores. A iniciativa visa reunir e apoiar agricultores da região que produzam de forma orgânica e natural. A propriedade da família também faz parte da Via Orgânica, roteiro com atrações e iniciativas que prezam pela sustentabilidade ambiental, social e cultural e aliam o alimento à saúde.

No porão de chão batido da antiga casa, a bebida é deixada para descanso, ao estilo champenoise, onde a fermentação acontece dentro da garrafa. No local, Boroto também recebe visitação de turistas, aos quais é oferecido tábuas de frios típicos, pão e sobremesas “resgatadas”, como a torta alemã, iguaria de biscoito e geleia de uva antigamente consumida pelos imigrantes. Além disso, os visitantes podem conhecer as videiras orgânicas de carroça e aprender sobre a história das propriedades da região.

A iniciativa de começar a produção orgânica nasceu da necessidade de sobrevivência na crise financeira enfrentada pelos viticultores no final da década de 80 e início dos anos 1990. ”As indústrias vinícolas estavam pagando pouco pela uva, então resolvemos buscar outras alternativas”, ressalta. Também incentivado pela necessidade de banir agrotóxicos, comprovadamente danosos à saúde humana, Boroto começou a elaborar espumante orgânico e encontrou maior espaço com a fundação da cooperativa, em 1999. “Começamos em pequenas parcelas, até transformar a produção em 100% orgânica”, conta.

Orgânicos - plantação organica - foto julia freitas

A valorização dos produtos de uva orgânicos e pioneiros no Brasil, entretanto, não veio do comércio local. “No primeiro ano, fizemos 80 garrafas de espumante. Destas, mandamos uma de amostra para o supermercado Pão de Açúcar”. Na ocasião, participaram de um concurso da rede com mais de 18 países. Ficaram em primeiro lugar. “Aí a coisa começou a andar, mas não vendia nada aqui, tudo lá”, conta.

Apesar do impulso inicial proporcionado pela multinacional, a família decidiu começar a fortalecer o mercado local. “O Pão de Açúcar começou a exigir marca própria, mas com 1.200 garrafas que produzíamos não dava”, conta. Atualmente, a família atende diversos comércios locais, como restaurantes e lojas, além de feiras renomadas, tudo através da comercialização da cooperativa. Recentemente, a entidade participou da Bio Brazil Fair 2018, em São Paulo, evento internacional destinado à divulgação, venda e troca de informações de produtos orgânicos e agroecológicos.

Em visita à Via Orgânica, em Garibaldi, a apresentadora e madrinha do projeto, Bela Gil, conheceu a propriedade da Família Boroto e elogiou o espumante produzido de forma orgânica até em postagem no Instagram. “Fez um bom marketing”, comenta Acir, que se diz honrado pelo reconhecimento da celebridade.

Boroto afirma que seu trabalho é prova de que plantar orgânico é possível. “Tem as dificuldades, mas nossa produção mostra que é possível, mesmo com todas as adversidades do clima e da região”, afirma. Atualmente, são cultivadas na propriedade as uvas Isabel, Moscato Embrapa, Niágara, Carmen, Bordô, Lorena e Sauvignon Blanc. Os espumantes produzidos são o Brut e o Demi Sec, que contam com três selos de certificação: o Orgânico Brasil, de Produto da Agricultura Familiar e Produto Agroecológico.

No final de 2017, Acir perdeu o filho Miguel, de quatro anos, vítima de um tumor. Poucos dias depois, seu pai, que começou a produção das uvas orgânicos com ele, faleceu. À época, Acir pensou em desistir da produção de espumante, mas a memória de seu filho brincando nas terras fez, aos poucos, retornar ao trabalho que tanto gosta. “Pensamos em abandonar, desabou tudo…, mas depois pensei bastante em meu próprio filho, que amava isso aqui”, conta, emocionado. Seu trabalho acrescenta mais à trajetória de seus ascendentes desbravadores de uma nova terra e, ao mesmo tempo, se alinha com uma sociedade que cada vez mais preza por um futuro com menos danos à vida humana e ambiental.

ZITA BORTOLINI
Produção orgânica em jornada de volta às origens

A produtora rural Zita Bortolini produz mais de 130 espécies orgânicas em uma área de dois hectares, localizada na Linha Vitória, interior de Carlos Barbosa. Há dez anos, seu irmão, Breno Bortolini, hoje associado à Coopeg, trocou a vida de caminhoneiro pelo cultivo orgânico em busca de maior qualidade de vida. Enquanto isso, Zita, que trabalhou como professora por quinze anos, estava longe das terras de sua família. Além dos anos dedicados ao magistério, foi proprietária de uma loja de peixes no litoral gaúcho e corretora de imóveis. Há cerca de cinco anos, após o pai dos sete irmãos sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC), Zita voltou para casa e, inspirada pelo irmão, decidiu arriscar na plantação de alimentos orgânicos.

Orgânicos - Zita

“Comecei a ver a terra de outra forma, com mais carinho e amor”, afirma. Ela relembra que seus antepassados não utilizavam agrotóxicos, introduzidos na região com o passar dos anos para o trato de uvas varietais, entre outros cultivos. “É uma volta às origens”, constata. Zita busca, além das hortaliças tradicionais, cultivar ervas, frutos e folhas diferenciadas. Uma das apostas da produtora é a produção de frutas vermelhas, como a framboesa, e também as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs). Completamente orgânica, a produção dos alimentos também segue o Calendário Biodinâmico, que leva em conta para o plantio as fases da lua e as estações do ano.

Atualmente, Zita é uma das 11 associadas da Associação Mandala Ecológica (AME), fundada há um ano e ligada à certificadora agroecológico EcoVida, um selo de abrangência nacional. A produtora também possui a certificação do selo Orgânico Brasil, que afirma ser um processo burocrático, porém necessário. “Quase desisti por conta da complexidade de toda a documentação necessária no trâmite”, afirma. Ainda assim, avalia como essencial para a devida fiscalização das produções para que ninguém venda produtos com agrotóxicos alegando ser orgânico.

Orgânicos - Zita cultiva orgânicos em dois hectares

A agricultora, que trabalha com a ajuda de sua mãe, Lourdes, e outros colaboradores, comercializa os produtos em Carlos Barbosa, Garibaldi e Bento Gonçalves. Zita conta que a associação deve ser selecionada para participar de uma feira em Porto Alegre, o que considera um grande avanço para os produtores associados. “Quando vendemos na feira, evitamos o papel do atravessador e existe uma relação direta do produtor com o consumidor. Neste contato, a pessoa conhece e sente a credibilidade do produto vendido”, comenta. Também visa, futuramente, desenvolver parcerias com restaurantes locais.

“A cura está na natureza, onde há fruta e verduras com as vitaminas e sais minerais que o ser humano necessita”, ressalta. Sobre a reclamação de várias pessoas sobre o valor mais alto pago por produto orgânico, Zita argumenta: “é preferível gastar mais em alimentos e menos em farmácias”. Conforme ela, a questão é discutida com os próprios consumidores ”para a criação de uma nova consciência alimentar”.

Nova lei para registro, fiscalização e controle de agrotóxicos no Brasil

No último dia 26 de junho, uma comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 6299/02, que trata do registro, fiscalização e controle dos agrotóxicos no país. O parecer do relator do projeto, o deputado Luiz Nishimori (PR-PR), foi aprovado por 18 votos a favor e 9 contrários. O projeto flexibiliza o uso de agrotóxicos no país. Entre as alterações, o principal ponto visa alterar a fiscalização na regulamentação de novos insumos agrícolas. Atualmente, a regulamentação de insumos agrícolas é realizada por três entidades. A Anvisa e o Ibama são responsáveis pela análise de risco à saúde humana e ao meio ambiente, respectivamente. Já o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) define a eficácia do agrotóxico. A nova lei determina que apenas o Mapa será o agente responsável pela regulamentação do produto e as outras duas organizações perderão poder de veto sobre o registro do insumo.

Entidades da comunidade científica, como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e o Instituto Nacional de Câncer (Inca) divulgaram notas e realizam campanhas contra a aprovação do projeto, alegando que o mesmo põe em maior risco o meio ambiente e a população, além de desconsiderar os comprovados danos à saúde humana causados por agrotóxicos.

Sobre as determinações do poder político sobre a questão, Zita não demonstra otimismo. “Existem interesses econômicos de grandes empresas envolvidas, que lucram com a doença, por isso não tenho muita esperança de reversão da decisão. Ainda assim, é importante que chame a atenção da população para a causa”, opina. Mas as adversidades não a fazem desanimar com o trabalho que escolheu e que não trocaria por nenhum outro. “Amo o que faço, a gratificação por perceber e trabalhar com uma terra cheia de vida é inexplicável”, afirma.

Homenagem ao Dia do Colono: Com vitivinicultura e enoturismo, Família Vaccaro recebe turistas

Reportagem: Natália Zucchi | Edição: Kátia Bortolini

Propriedade situada no Roteiro Estrada do Sabor cresceu com seus familiares fazendo o que dominam bem: receber pessoas

materia capa (1)A Família Vaccaro, da comunidade de Santo Alexandre, agregou enoturismo a vitivinicultura e hoje é um dos destinos mais procurados do roteiro Estrada do Sabor, de Garibaldi. Grupos de turistas, sob reserva antecipada, são recebidos na residência de Augusto Vaccaro pelo filho Francisco e pela nora Natalina para almoços e piqueniques, com pratos da gastronomia típica da colonização italiana no Rio Grande do Sul. Os visitantes costumam passear pelo local em trilhas da propriedade ou em visita a cantina, situada nas proximidades.

A produção de uvas e vinhos iniciou com Francisco Vaccaro, conhecido como Guerino, com a elaboração de vinho comum para consumo familiar. Vendo que sua produção aumentava, o nono Francisco, em 1953, decidiu construir sua própria cantina e, com o passar do tempo, registrou-a como Vinícola Vaccaro e Cia Ltda. Atualmente, a empresa também elabora vinhos finos e espumantes. A produção é comercializada para turistas, em feiras e eventos e em pontos de vendas da região e da grande Porto Alegre.

A produção vitivinícola aliada a rota turística Estrada do Sabor, inaugurada em 2001, garante trabalho para a família de Francisco Vaccaro, conhecido como Chico, e para a de José Vaccaro. Chico e a esposa Natalina trabalham diretamente com o turismo e a gastronomia. A atividade conta com a participação da nova geração representada pelos irmãos Vinicius e Willian e o primo Diego, filho de José. Vinicius é formado em Administração, Willian em Enologia e Diego, em Turismo. Já José lida tanto nas parreiras como na vinícola, em várias frentes. Nos últimos cinco anos, os sócios investiram na reforma da sede da empresa e em novos varietais.

>>> VEJA TAMBÉM: Homenagem ao Dia do Colono: Empreendedor inicia cultivo de abacaxis em Santa Tereza

materia capa (13)O nono Augusto Francisco, pai de Chico, recebe os turistas na propriedade com passeio regado a histórias e lembranças da família. Além da boa conversa, ele leva os turistas para visitar o “museu do nono”, espaço no porão da casa com pertences históricos. Natalina comanda a cozinha com o apoio da sogra Maria, responsável pelo toque caseiro muito procurado pelos turistas. Os eventos são regados a vinho e suco de uva à vontade para acompanhar as mais tradicionais receitas da família, entre elas o frango recheado assado no forno a lenha, localizado no terreno da propriedade. Eles recebem grupos entre 10 e 45 pessoas, durante a semana e também no final de semana, somente mediante reserva. “A família não pode ficar sobrecarregada. Precisamos ter nosso próprio tempo para garantir boa recepção aos grupos, porque o atendimento é primordial. Além disso, gostamos dos pequenos grupos. Nos tornamos mais íntimos”, afirma Natalina.

Para eles, o turismo já fazia parte da vida antes mesmo do empreendimento. Chico conta que recebiam muitos parentes com frequência, há- bito comum das comunidades do interior. Segundo ele, isso também fez com que o recebimento dos turistas seja feito de forma natural, espontânea, como se cada um realmente fosse parte da família. “Turismo é coisa boa, só gente amiga. Eles gostam de conversar, gostam de ouvir nossas histórias, não tem vergonha de perguntar. Eu gosto muito”, comemora. Mas não só de trabalho que os Vaccaro interagem com o turismo. Chico conta que as viagens para outras cidades e outros estados sempre foram comuns. A maioria delas para visitar os parentes espalhados por Santa Catarina e Paraná, entre outros Estados. “A gente também tem que conhecer outros lugares, outras rotas. Isso é bom para a nossa qualidade de vida e também para ampliarmos nossa visão dentro do nosso atendimento”, acrescenta Natalina.

Antes era o braço e o boi

materia capa (12)O nono Augusto, que acompanhou as mudanças na comunidade e nos negócios com o passar dos anos, lembra com carinho da sua infância. Ele conta que as famílias vizinhas seguiam o mesmo padrão do interior, de colher uva e fazer vinho, e que a maioria delas foi evoluindo junto. “Antigamente a despesa era pouca. Hoje a renda aumentou, mas o custo de vida é alto. No tempo que eu era guri, o dia a dia era muito mais simples. Lembro que a gente não se importava muito com o que vestia. Íamos para a escola de pés descalços. No início da vinícola, a uva era moída com a mão. Na época, a luz vinha da parte central de Garibaldi e qualquer problema na rede deixava a gente sem luz, mas para nós era natural ficar no escuro. Hoje, se a gente fica sem luz, não faz mais nada”, analisa. Para ele, além do orgulho do passado, fica a satisfação com o presente, onde os filhos dão continuidade ao trabalho do seu pai. “Antes era o braço e o boi. Mas o que nunca faltou foi uma xícara de café cedo pela manhã. Nossa família sempre foi amiga do trabalho”.

Especial de capa

Empreendedorismo no meio rural –  Em homenagem a todos agricultores é comemorado, em 25 de julho, o Dia do Colono. A data foi instituída em setembro de 1968 pela da Lei Federal 5.496. Popularmente, a data se tornou conhecida em 1924, em função das comemorações do centenário da vinda dos alemães para o Rio Grande do Sul. A reportagem de capa desta edição do Jornal Integração da Serra homenageia a todos os que tiram seu sustento da terra gerando alimentos e riquezas para suas cidades. São quatro histórias de empreendedorismo rural, como acréscimo de rentabilidade.

LEIA MAIS: Homenagem ao Dia do Colono: Empreendedorismo feminino na agroindústria Sabores da Montanha

LEIA MAIS: Homenagem ao Dia do Colono:Família de São Pedro obtém acréscimo na renda com horticultura

 

 

 

Homenagem ao Dia do Colono: Família de São Pedro obtém acréscimo na renda com horticultura

Reportagem: Natália Zucchi | Edição: Kátia Bortolini materia capa (8)

Foi com o cultivo da uva que Flávio Strapazzon, de 78 anos, morador de São Pedro, distrito de Bento Gonçalves, sustentou a família, passando tanto por períodos prósperos como dificultosos. Foi sucedido na lida da viticultura pelos filhos Lucimar, 41 anos e Celso Antônio, 50 anos, que há 20 anos diversificaram a produção da propriedade, investindo em horticultura. “Foi uma alternativa. Observamos que era uma cultura de crescimento rápido e contínuo. Além disso, logo vimos que o retorno financeiro em relação a uva era bem mais rápido”, ressalta Celso Antônio Strapazzon.

horticultura (2)A lida com as parreiras e hortaliças envolve sete pessoas das famílias de Celso Antônio e Lucimar Strapazzon. Os irmãos e familiares dividem as tarefas e se ajudam. Lucimar cuida mais dos parreirais. Celso, das estufas de hortaliças e morangos e na plantação de tomates. A colheita e separação é feita por todos, de manhã cedo e no fim da tarde.

A família produz rúcula, alfaces, radicci, tomate e temperos, como salsa e cebolinha. A produção é feita de forma convencional, mas com orientações e controle da Emater, respeitando a aparência natural dos alimentos e também o meio ambiente, utilizando produtos registrados. Eles comercializam a produção para festas em comunidades e abastecem restaurantes e mercados de Bento Gonçalves e região, além de serem fiéis aos clientes da feira livre de Bento Gonçalves. Nas manhãs de sábado, a família comercializa parte da produção na feira que ocorre na praça Centenário, no centro da cidade.

horti (2)Gessi Strapazzon, esposa de Flávio, ressalta que a família sempre teve um pequeno canteiro, exclusivo para consumo próprio. Ela acrescenta que há cerca de 30 anos fortes geadas queimaram os parreirais da família, trocados na época pelo plantio de tomates. “Foram tempos difíceis. Superamos com a solidariedade da comunidade”. As dificuldades financeiras continuavam, mesmo com a plantação de tomates. A situação começou a melhorar em 1997, quando a família montou a primeira estufa para horticultura. Com o retorno financeiro, aos poucos, novos investimentos foram feitos. Em 2001, a segunda estufa foi concluída, bem maior que a primeira.

Hoje, a propriedade tem três grandes estufas de hortaliças, uma de morango e outra de tomate cereja. “As pessoas gostaram dos produtos, se fidelizaram. Ampliamos nossas estufas e, com a produção maior, fomos atrás de novos clientes, como supermercados e restaurantes de Bento Gonçalves e região”.

Verão: menos alface, destaque ao morango

materia capa (3)Há cerca de 12 anos, a família também cultiva morangos semi-hidropônicos. A cultura veio como alternativa à queda da venda de alface durante o verão. Suzana, filha de Celso, explica que no verão a alface fica pronta para consumo em cerca de 30 dias, aumentando a produção. “Quando o calor chega, o pessoal também planta em casa. Além disso, muita gente tem feito hortas criativas em apartamentos.
Assim, eles acabam deixando de consumir dos produtores durante o período”, acrescenta. Ela explica ainda sobre o cultivo da alface. “Colhemos no fim do dia, quando o sol e o calor baixam, assim elas não murcham. Isso mantém a qualidade de vida útil do alimento”, destaca. “Mesmo na horticultura, o trabalho também é pesado. Corremos o risco de não colher quando o tempo não ajuda”, afirma.

materia capa (7)O pai Celso acentua que o trabalho na agricultura tem que ser planejado conforme a demanda das produções, entre outros fatores. “Os confortos da vida moderna exigem muito. Para ter mais qualidade de vida hoje é preciso plano de saúde, seguro de carro, de casa, entre outros itens. A renda de nossas famílias vem do nosso trabalho conjunto, que tem dado certo”, comemora ele.

Já as inovações tecnológicas foram decisivas para a manutenção do cultivo da uva. Em 1995, através de financiamentos bancários, a família comprou um trator, agilizando o processo e aumentando a produção. “Hoje é um trabalho de uma só pessoa, mais assertivo. O tempo gasto é um pouco menor também”, ressalta Lucimar, filho de Gessi e Flávio. Gessi acentua que, se não fosse pelo trator, a família teria deixado de trabalhar com a uva.

Feira livre: um ambiente amigável

horti (3)Vender na feira em Bento Gonçalves já é tradição da família. Celso salienta que foi seu tio, Rústico Strapazzon, um dos fundadores da feira, quem o incentivou a apostar no comércio de hortigranjeiros. Às 3h15min da madrugada do sábado, eles acordam para organizar os produtos que serão oferecidos na feira. “Moramos perto da cidade e a estrada é de fácil acesso, fatores que facilitam o comércio da produção. Mas o horário da madrugada em que trabalhamos para distribuição nos mercados e para chegar na feira está muito perigoso. A violência cresceu muito em Bento Gonçalves nos últimos anos”, observa Celso.

A família se divide e intercala sábado a sábado na feira. O pai, Flávio Strapazzon, hoje com 78 anos, deixou de liderar o comércio na feira há dois anos, e agora apenas frequenta o local, esporadicamente, para reencontrar os amigos. “A feira cresceu muito. Mas, a maioria das pessoas ainda gosta de conhecer o produtor, de conversar com a gente. Muitos vão à feira exclusivamente para bate-papo. É um ambiente
amigável”, destaca Celso.

A família valoriza o conhecimento e a experiência do “nono” Flávio, sempre consultado antes de decisões importantes. “O aval final vem sempre dele”, acentua Lucimar.

Especial de capa

Empreendedorismo no meio rural –  Em homenagem a todos agricultores é comemorado, em 25 de julho, o Dia do Colono. A data foi instituída em setembro de 1968 pela da Lei Federal 5.496. Popularmente, a data se tornou conhecida em 1924, em função das comemorações do centenário da vinda dos alemães para o Rio Grande do Sul. A reportagem de capa desta edição do Jornal Integração da Serra homenageia a todos os que tiram seu sustento da terra gerando alimentos e riquezas para suas cidades. São quatro histórias de empreendedorismo rural, como acréscimo de rentabilidade.

LEIA MAIS: Homenagem ao Dia do Colono: Empreendedor inicia cultivo de abacaxis em Santa Tereza

Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bento muda Diretoria após eleição acirrada, antecedida por decisões judiciais

trabalhadoresruraiss (5)O agricultor Cedenir Postal, de 42 anos, no último dia 26 de junho foi eleito o Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bento Gonçalves, numa eleição acirrada, marcada por decisões judiciais e intervenção da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (FETAG). “O mais importante é que foi um processo democrático, onde o associado pode ir às urnas e escolher a nova diretoria. Vejo de forma positiva o pleito, apesar de alguns entraves, que teve a participação de mais de 700 associados. E o nosso trabalho vai estar bem focado no agricultor e na atuação do Sindicato como uma entidade representativa dos agricultores de Bento Gonçalves e das extensões de base de Monte Belo do Sul, Santa Tereza e Pinto Bandeira”, ressalta Postal.

Morador de São Luiz (Tuiuty) e produtor de frutas e verduras, Cedenir Postal tem paixão pelo que faz. Ele tem na família o apoio para assumir este novo desafio, que é comandar o Sindicato. Casado com Rosane Greselle e pai das meninas Fabiana e Eliana, Postal divide a vitória, também, com os companheiros da primeira composição da Chapa2, que iniciaram o processo de disputa pela presidência da entidade. “Foram meses de dedicação e luta pela oportunidade de participar da eleição, mas que, infelizmente, não puderam mais concorrer, pois pertencem aos municípios que não fazem legalmente parte da base de extensão, já que falta a regularização junto ao Ministério do Trabalho. Por isso um agradecimento especial a: Onécimo Pauleti, Gilmar Massoco, Jandir Lazzari, Roberto Brun, Gentília Gonzatti, Elenite Vignatti, Lourdes Gnoatto, Maria Ferrari, Jaqueline Bona e Ires Maria Canossa Lava, que apoiaram a Chapa 2 até o fim,
mesmo não podendo concorrer” agradece Postal.

trabalhadoresruraiss (1)O novo Presidente do Sindicato comenta que o objetivo é trabalhar em conjunto com todos os associados e resgatar os agricultores que se distanciaram da entidade, visto que dos mais de quatro mil que fazem parte do cadastro do Sindicato, apenas pouco mais de mil estão em dia.

Ao assumir a presidência do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, o agricultor  Cedenir Postal reiterou o compromisso de reintegrar os municípios de Monte Belo do Sul, Santa Tereza e Pinto Bandeira como extensão ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais. “Vamos, também, buscar a regularização junto ao Ministério Público do Trabalho e Emprego para que a entidade seja reconhecida como um Sindicato”, enfatiza o presidente. A Federação dos Trabalhadores na Agricultura – FETAG-RS, em 2013, comunicou a todos os sindicatos, inclusive o de Bento Gonçalves, a obrigatoriedade da regularização junto ao Ministério do Trabalho. Como não foi atendida a legislação, o Sindicato
está inativo, desde 2009.

Resultado da eleição

A eleição foi realizada no dia 26 de junho e levou às urnas 747 votantes, sendo que a Chapa 1, com o candidato Ivandro Lerin, obteve 359 votos e a Chapa 2, de Cedenir Postal, conquistou 376 votos. Foram três votos brancos e nove nulos.

A nova Diretoria

Presidente – Cedenir Postal; 1º Vice Presidente – Ivone Frá Osmarin; 2º Vice Presidente – Terezinha Belitzki Tonet; Secretário Geral – Gema Pilan Toniolo; 1º Secretário – Cassiano Buffon; 2º Secretário – Maria Cantelli Merlo; Tesoureiro Geral – Valdir Zorrer; 1º Tesoureiro – Fabiano Orsatto; 2º Tesoureiro – Geraldo João Rasera; Suplente do vice-presidente: Carlos de Costa; Suplente do 2º Secretário: David Benatti; Suplente do 2º Tesoureiro: Gabriel Petroli; Conselho fiscal efetivo: Auri Flamia, Elias Pellicioli, Gabriel Cimadon; Conselho Fiscal suplente: Carlos Baretti, Ivanor Passaia, Aelite Maria Comachio Trentin

Homenagem ao Dia do Colono: Empreendedor inicia cultivo de abacaxis em Santa Tereza

Reportagem: Natália Zucchi | Edição: Kátia Bortolini

IMG_20170630_150454530_HDREm uma visita a casa de sua mãe, Paulo Lorenzini viu no abacaxi uma oportunidade de negócio. Ao observá-lo entre as frutas recém compradas, encontrou uma nova chance de investir na agricultura, após tentativas descartadas de produzir tomate e cana, no município de Santa Tereza. Esforçado, pesquisou e estudou os meios de produção do abacaxi sozinho, através da internet. Mas foi a partir do apoio da Secretaria de Agricultura de Santa Tereza e da Emater, que o atual auxiliar de produção, hoje com 38 anos, passou a produzir pés de abacaxi em uma área de terras de um hectare, a cerca de mil metros das margens do rio Taquari. Após pouco mais de dois anos, ele está cultivando quatro mil pés de abacaxi, de quatro variedades diferentes.

Como a média é de dois anos entre produzir cada muda e nascer o primeiro fruto, os primeiros dez abacaxis ficaram prontos em dezembro de 2016. Agora em 2017, a expectativa também é de uma colheita simbólica, mas com abacaxis doces, de excelente qualidade.

IMG_20170630_144123895_HDRCultivadas uma a uma por Lorenzini, as mudas são uma alternativa de multiplicar o fruto sem a semente, para posteriormente produzir de forma original. Ele plantou a coroa do abacaxi, onde concentram-se as folhas, em um substrato depositado em copos plásticos e esperou criar as raízes. Com o intuito de otimizar a produção da forma mais ecológica possível, recolheu copos plásticos usados em bailes e festas do município e os higienizou para o uso. O cultivo das mudas também conta com o apoio de restaurantes de Bento Gonçalves e de Garibaldi. Lorenzini busca semanalmente sobras de abacaxi para o aproveitamento da coroa. Segundo o empreendedor, a plantação conta com maior predominância da variedade de abacaxi Pérola, e com outras três variedades ainda não identificadas.

O abacaxi leva de 90 a 120 dias para amadurecer, conforme o período e as condições climáticas. De forma natural, o abacaxizeiro fornece apenas um fruto por safra, em que a colheita ocorre no verão, nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro.

IMG_20170630_150616761“Quando o fruto nasce, é um espetáculo da natureza. Ele vem vermelho como sangue, é realmente muito bonito. Conforme cresce ele vai escurecendo, e depois migra para tonalidades de laranja e amarelo, até estar maduro. Nesse ano, espero vê-los ainda na metade de agosto para poder iniciar a colheita no período correto”, exalta Lorenzini. Ele também acrescenta que, ao redor da raiz desses frutos, os brotos originais ficarão concentrados. A partir deles, Lorenzini pretende ampliar a produção para dez mil pés de abacaxi nos próximos anos. Mesmo sem uso de agrotóxicos, a produção não é considerada orgânica por utilizar fósforo e potássio para correção de solo. Mas ele garante que não serão aplicados pesticidas.

Conforme o secretário de Agricultura de Santa Tereza, Ernani Michelon, que acompanha o processo, “quando o sol é mais forte, os frutos são enrolados em plásticos para proteger dos raios UV”. Conforme o técnico da Emater, Aldacir Pancotto, que também acompanha o processo, a primeira safra prevista para dezembro de 2017 promete surpresas quanto ao sabor dos frutos. “O município de Santa Tereza tem áreas de terra vermelha, ricas em potássio, que deixam o abacaxi menos ácido e muito mais doce. Nosso clima também influencia. Estamos numa região de vale, de muito calor, propício para o cultivo da fruta. Se fosse no frio intenso da Serra, não iria se desenvolver tão bem”, explica Pancotto.

Especial de capa

Empreendedorismo no meio rural –  Em homenagem a todos agricultores é comemorado, em 25 de julho, o Dia do Colono. A data foi instituída em setembro de 1968 pela da Lei Federal 5.496. Popularmente, a data se tornou conhecida em 1924, em função das comemorações do centenário da vinda dos alemães para o Rio Grande do Sul. A reportagem de capa desta edição do Jornal Integração da Serra homenageia a todos os que tiram seu sustento da terra gerando alimentos e riquezas para suas cidades. São quatro histórias de empreendedorismo rural, como acréscimo de rentabilidade.