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Colonos da nova era: pequenos produtores da região aderem ao cultivo orgânico

Por Júlia Freitas

No dia 25 de julho é comemorado o Dia do Colono. A data é uma homenagem aos imigrantes europeus que encontraram terra inóspita no Brasil e transformaram-na em verdadeiros lares e cidades, através do trabalho árduo. Tiveram de empreender para sobreviver. Nos municípios da Serra Gaúcha, muitos de seus descendentes ainda tiram da terra o sustento de suas famílias em pequenas propriedades com vários cultivos, entre eles uva, pêssego e hortifrutigranjeiros.

Na virada do século, o mercado de produtos orgânicos passou a ganhar mais destaque e valorização no país através dos movimentos em prol do meio ambiente e da saúde humana, prejudicada pelos agrotóxicos.

Na Serra Gaúcha, a tendência foi absorvida e colocada em prática em várias propriedades rurais.

Família Boroto

Pioneirismo na produção de espumante orgânico no Brasil

Entre as propriedades onde as famílias aderiram à produção orgânica está a de Acir Boroto, localizada na Linha Presidente Soares, interior de Garibaldi. Na área de terra de 15,8 hectares, a Família Boroto elabora vinhos espumantes com uvas 100% orgânicas. O agricultor, de 48 anos, além de dar continuidade ao trabalho do avô, começou a tratar o fruto de forma natural. Atualmente, a família elabora cerca de três mil litros por ano de espumante orgânico. “O primeiro do país”, afirma Boroto.

Orgânicos - Acir Boroto

O espumante é comercializado pela Cooperativa de Produtores Ecologistas de Garibaldi (Coopeg), da qual Acir é um dos fundadores. A iniciativa visa reunir e apoiar agricultores da região que produzam de forma orgânica e natural. A propriedade da família também faz parte da Via Orgânica, roteiro com atrações e iniciativas que prezam pela sustentabilidade ambiental, social e cultural e aliam o alimento à saúde.

No porão de chão batido da antiga casa, a bebida é deixada para descanso, ao estilo champenoise, onde a fermentação acontece dentro da garrafa. No local, Boroto também recebe visitação de turistas, aos quais é oferecido tábuas de frios típicos, pão e sobremesas “resgatadas”, como a torta alemã, iguaria de biscoito e geleia de uva antigamente consumida pelos imigrantes. Além disso, os visitantes podem conhecer as videiras orgânicas de carroça e aprender sobre a história das propriedades da região.

A iniciativa de começar a produção orgânica nasceu da necessidade de sobrevivência na crise financeira enfrentada pelos viticultores no final da década de 80 e início dos anos 1990. ”As indústrias vinícolas estavam pagando pouco pela uva, então resolvemos buscar outras alternativas”, ressalta. Também incentivado pela necessidade de banir agrotóxicos, comprovadamente danosos à saúde humana, Boroto começou a elaborar espumante orgânico e encontrou maior espaço com a fundação da cooperativa, em 1999. “Começamos em pequenas parcelas, até transformar a produção em 100% orgânica”, conta.

Orgânicos - plantação organica - foto julia freitas

A valorização dos produtos de uva orgânicos e pioneiros no Brasil, entretanto, não veio do comércio local. “No primeiro ano, fizemos 80 garrafas de espumante. Destas, mandamos uma de amostra para o supermercado Pão de Açúcar”. Na ocasião, participaram de um concurso da rede com mais de 18 países. Ficaram em primeiro lugar. “Aí a coisa começou a andar, mas não vendia nada aqui, tudo lá”, conta.

Apesar do impulso inicial proporcionado pela multinacional, a família decidiu começar a fortalecer o mercado local. “O Pão de Açúcar começou a exigir marca própria, mas com 1.200 garrafas que produzíamos não dava”, conta. Atualmente, a família atende diversos comércios locais, como restaurantes e lojas, além de feiras renomadas, tudo através da comercialização da cooperativa. Recentemente, a entidade participou da Bio Brazil Fair 2018, em São Paulo, evento internacional destinado à divulgação, venda e troca de informações de produtos orgânicos e agroecológicos.

Em visita à Via Orgânica, em Garibaldi, a apresentadora e madrinha do projeto, Bela Gil, conheceu a propriedade da Família Boroto e elogiou o espumante produzido de forma orgânica até em postagem no Instagram. “Fez um bom marketing”, comenta Acir, que se diz honrado pelo reconhecimento da celebridade.

Boroto afirma que seu trabalho é prova de que plantar orgânico é possível. “Tem as dificuldades, mas nossa produção mostra que é possível, mesmo com todas as adversidades do clima e da região”, afirma. Atualmente, são cultivadas na propriedade as uvas Isabel, Moscato Embrapa, Niágara, Carmen, Bordô, Lorena e Sauvignon Blanc. Os espumantes produzidos são o Brut e o Demi Sec, que contam com três selos de certificação: o Orgânico Brasil, de Produto da Agricultura Familiar e Produto Agroecológico.

No final de 2017, Acir perdeu o filho Miguel, de quatro anos, vítima de um tumor. Poucos dias depois, seu pai, que começou a produção das uvas orgânicos com ele, faleceu. À época, Acir pensou em desistir da produção de espumante, mas a memória de seu filho brincando nas terras fez, aos poucos, retornar ao trabalho que tanto gosta. “Pensamos em abandonar, desabou tudo…, mas depois pensei bastante em meu próprio filho, que amava isso aqui”, conta, emocionado. Seu trabalho acrescenta mais à trajetória de seus ascendentes desbravadores de uma nova terra e, ao mesmo tempo, se alinha com uma sociedade que cada vez mais preza por um futuro com menos danos à vida humana e ambiental.

ZITA BORTOLINI
Produção orgânica em jornada de volta às origens

A produtora rural Zita Bortolini produz mais de 130 espécies orgânicas em uma área de dois hectares, localizada na Linha Vitória, interior de Carlos Barbosa. Há dez anos, seu irmão, Breno Bortolini, hoje associado à Coopeg, trocou a vida de caminhoneiro pelo cultivo orgânico em busca de maior qualidade de vida. Enquanto isso, Zita, que trabalhou como professora por quinze anos, estava longe das terras de sua família. Além dos anos dedicados ao magistério, foi proprietária de uma loja de peixes no litoral gaúcho e corretora de imóveis. Há cerca de cinco anos, após o pai dos sete irmãos sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC), Zita voltou para casa e, inspirada pelo irmão, decidiu arriscar na plantação de alimentos orgânicos.

Orgânicos - Zita

“Comecei a ver a terra de outra forma, com mais carinho e amor”, afirma. Ela relembra que seus antepassados não utilizavam agrotóxicos, introduzidos na região com o passar dos anos para o trato de uvas varietais, entre outros cultivos. “É uma volta às origens”, constata. Zita busca, além das hortaliças tradicionais, cultivar ervas, frutos e folhas diferenciadas. Uma das apostas da produtora é a produção de frutas vermelhas, como a framboesa, e também as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs). Completamente orgânica, a produção dos alimentos também segue o Calendário Biodinâmico, que leva em conta para o plantio as fases da lua e as estações do ano.

Atualmente, Zita é uma das 11 associadas da Associação Mandala Ecológica (AME), fundada há um ano e ligada à certificadora agroecológico EcoVida, um selo de abrangência nacional. A produtora também possui a certificação do selo Orgânico Brasil, que afirma ser um processo burocrático, porém necessário. “Quase desisti por conta da complexidade de toda a documentação necessária no trâmite”, afirma. Ainda assim, avalia como essencial para a devida fiscalização das produções para que ninguém venda produtos com agrotóxicos alegando ser orgânico.

Orgânicos - Zita cultiva orgânicos em dois hectares

A agricultora, que trabalha com a ajuda de sua mãe, Lourdes, e outros colaboradores, comercializa os produtos em Carlos Barbosa, Garibaldi e Bento Gonçalves. Zita conta que a associação deve ser selecionada para participar de uma feira em Porto Alegre, o que considera um grande avanço para os produtores associados. “Quando vendemos na feira, evitamos o papel do atravessador e existe uma relação direta do produtor com o consumidor. Neste contato, a pessoa conhece e sente a credibilidade do produto vendido”, comenta. Também visa, futuramente, desenvolver parcerias com restaurantes locais.

“A cura está na natureza, onde há fruta e verduras com as vitaminas e sais minerais que o ser humano necessita”, ressalta. Sobre a reclamação de várias pessoas sobre o valor mais alto pago por produto orgânico, Zita argumenta: “é preferível gastar mais em alimentos e menos em farmácias”. Conforme ela, a questão é discutida com os próprios consumidores ”para a criação de uma nova consciência alimentar”.

Nova lei para registro, fiscalização e controle de agrotóxicos no Brasil

No último dia 26 de junho, uma comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 6299/02, que trata do registro, fiscalização e controle dos agrotóxicos no país. O parecer do relator do projeto, o deputado Luiz Nishimori (PR-PR), foi aprovado por 18 votos a favor e 9 contrários. O projeto flexibiliza o uso de agrotóxicos no país. Entre as alterações, o principal ponto visa alterar a fiscalização na regulamentação de novos insumos agrícolas. Atualmente, a regulamentação de insumos agrícolas é realizada por três entidades. A Anvisa e o Ibama são responsáveis pela análise de risco à saúde humana e ao meio ambiente, respectivamente. Já o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) define a eficácia do agrotóxico. A nova lei determina que apenas o Mapa será o agente responsável pela regulamentação do produto e as outras duas organizações perderão poder de veto sobre o registro do insumo.

Entidades da comunidade científica, como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e o Instituto Nacional de Câncer (Inca) divulgaram notas e realizam campanhas contra a aprovação do projeto, alegando que o mesmo põe em maior risco o meio ambiente e a população, além de desconsiderar os comprovados danos à saúde humana causados por agrotóxicos.

Sobre as determinações do poder político sobre a questão, Zita não demonstra otimismo. “Existem interesses econômicos de grandes empresas envolvidas, que lucram com a doença, por isso não tenho muita esperança de reversão da decisão. Ainda assim, é importante que chame a atenção da população para a causa”, opina. Mas as adversidades não a fazem desanimar com o trabalho que escolheu e que não trocaria por nenhum outro. “Amo o que faço, a gratificação por perceber e trabalhar com uma terra cheia de vida é inexplicável”, afirma.

Homenagem ao Dia do Colono: Empreendedor inicia cultivo de abacaxis em Santa Tereza

Reportagem: Natália Zucchi | Edição: Kátia Bortolini

IMG_20170630_150454530_HDREm uma visita a casa de sua mãe, Paulo Lorenzini viu no abacaxi uma oportunidade de negócio. Ao observá-lo entre as frutas recém compradas, encontrou uma nova chance de investir na agricultura, após tentativas descartadas de produzir tomate e cana, no município de Santa Tereza. Esforçado, pesquisou e estudou os meios de produção do abacaxi sozinho, através da internet. Mas foi a partir do apoio da Secretaria de Agricultura de Santa Tereza e da Emater, que o atual auxiliar de produção, hoje com 38 anos, passou a produzir pés de abacaxi em uma área de terras de um hectare, a cerca de mil metros das margens do rio Taquari. Após pouco mais de dois anos, ele está cultivando quatro mil pés de abacaxi, de quatro variedades diferentes.

Como a média é de dois anos entre produzir cada muda e nascer o primeiro fruto, os primeiros dez abacaxis ficaram prontos em dezembro de 2016. Agora em 2017, a expectativa também é de uma colheita simbólica, mas com abacaxis doces, de excelente qualidade.

IMG_20170630_144123895_HDRCultivadas uma a uma por Lorenzini, as mudas são uma alternativa de multiplicar o fruto sem a semente, para posteriormente produzir de forma original. Ele plantou a coroa do abacaxi, onde concentram-se as folhas, em um substrato depositado em copos plásticos e esperou criar as raízes. Com o intuito de otimizar a produção da forma mais ecológica possível, recolheu copos plásticos usados em bailes e festas do município e os higienizou para o uso. O cultivo das mudas também conta com o apoio de restaurantes de Bento Gonçalves e de Garibaldi. Lorenzini busca semanalmente sobras de abacaxi para o aproveitamento da coroa. Segundo o empreendedor, a plantação conta com maior predominância da variedade de abacaxi Pérola, e com outras três variedades ainda não identificadas.

O abacaxi leva de 90 a 120 dias para amadurecer, conforme o período e as condições climáticas. De forma natural, o abacaxizeiro fornece apenas um fruto por safra, em que a colheita ocorre no verão, nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro.

IMG_20170630_150616761“Quando o fruto nasce, é um espetáculo da natureza. Ele vem vermelho como sangue, é realmente muito bonito. Conforme cresce ele vai escurecendo, e depois migra para tonalidades de laranja e amarelo, até estar maduro. Nesse ano, espero vê-los ainda na metade de agosto para poder iniciar a colheita no período correto”, exalta Lorenzini. Ele também acrescenta que, ao redor da raiz desses frutos, os brotos originais ficarão concentrados. A partir deles, Lorenzini pretende ampliar a produção para dez mil pés de abacaxi nos próximos anos. Mesmo sem uso de agrotóxicos, a produção não é considerada orgânica por utilizar fósforo e potássio para correção de solo. Mas ele garante que não serão aplicados pesticidas.

Conforme o secretário de Agricultura de Santa Tereza, Ernani Michelon, que acompanha o processo, “quando o sol é mais forte, os frutos são enrolados em plásticos para proteger dos raios UV”. Conforme o técnico da Emater, Aldacir Pancotto, que também acompanha o processo, a primeira safra prevista para dezembro de 2017 promete surpresas quanto ao sabor dos frutos. “O município de Santa Tereza tem áreas de terra vermelha, ricas em potássio, que deixam o abacaxi menos ácido e muito mais doce. Nosso clima também influencia. Estamos numa região de vale, de muito calor, propício para o cultivo da fruta. Se fosse no frio intenso da Serra, não iria se desenvolver tão bem”, explica Pancotto.

Especial de capa

Empreendedorismo no meio rural –  Em homenagem a todos agricultores é comemorado, em 25 de julho, o Dia do Colono. A data foi instituída em setembro de 1968 pela da Lei Federal 5.496. Popularmente, a data se tornou conhecida em 1924, em função das comemorações do centenário da vinda dos alemães para o Rio Grande do Sul. A reportagem de capa desta edição do Jornal Integração da Serra homenageia a todos os que tiram seu sustento da terra gerando alimentos e riquezas para suas cidades. São quatro histórias de empreendedorismo rural, como acréscimo de rentabilidade.