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Temperaturas médias de janeiro foram as mais elevadas dos últimos 40 anos

Pesquisadores da Embrapa afirmam que, desde 1976, não fazia um janeiro de temperaturas médias tão altas

Os últimos meses têm sido marcados por altas temperaturas na Serra Gaúcha, e em Bento Gonçalves não está sendo diferente. Desde 1976, o mês de janeiro não atingia temperaturas médias tão altas. O último mês, segundo a estação meteorológica do Instituto Nacional de Meteorologia – INMET, instalada na sede da Embrapa Uva e Vinho, em Bento Gonçalves, registrou 14 dias em que a temperatura máxima absoluta atingiu valores superiores a 30°C, sendo a máxima registrada de 33,4°C, nos dias 1 e 2. As temperaturas ‘média máxima’, ‘média mínima’ e ‘média’ foram de 28,9°C, 19,5°C e 23,5°C, respectivamente.

Este verão já é considerado um dos mais quentes das últimas décadas, principalmente as noites de janeiro, muitas com o céu nublado, o que acentuou a sensação térmica, afirmam o pesquisador e Chefe Geral da Embrapa, Mauro Zanus e a pesquisadora Maria Emília Borges Alves.

Mauro Zanus (matéria VERÃO)

De acordo com eles, um dos causadores desse calor excessivo para a região é o fenômeno climático El Niño, caracterizado por causar chuvas e temperaturas acima da média na região Sul do Brasil. “Em Janeiro já tivemos uma amostra disso, apesar da chuva ter ficado dentro do normal, a temperatura ficou bem acima da média. Entretanto, nota-se que a frequência (número de dias de chuva) está acima do normal e esta condição pode ter efeitos mais negativos sobre a qualidade dos frutos e as operações de colheita do que o volume de chuvas em si”, afirmam os pesquisadores.

Maria Emilia Borges Alves- pesquisadora da Embrapa (matéria VERÃO)

O verão 2019 não é um dos mais quentes apenas em função das temperaturas máximas, mas também pelo fato do chamado calorão ser intenso durante todo o dia, incluindo a noite. A explicação é que as próprias temperaturas mínimas seguem elevadas, aumentando o desconforto. “Ainda que os valores das temperaturas máximas absolutas impressionem, as temperaturas médias retratam melhor a sensação de calor excessivo, que se manteve acima do normal durante as 24 horas do dia, com o registro de temperaturas mínimas elevadas, reduzindo a sensação de conforto térmico que geralmente ocorre ao anoitecer”, explicam os pesquisadores da Embrapa Uva e Vinho.

A realidade do aquecimento global

“No último século a temperatura média do planeta aumentou em 0,7 grau Celsius, e a previsão é que até 2100 o aumento vai ser de 1,6 a 4 grau Celsius se as emissões de gases de efeito estufa oriundas da atividade humana continuarem a crescer. Essa é uma média, mas em algumas regiões serão muito mais e em outras menos. Uma das principais consequências desse fenômeno é a ocorrência de eventos climáticos extremos cada vez mais pronunciados e frequentes, como: chuvas torrenciais, períodos longos de estiagem, ondas de calor e de frio mais intensas e alterações na velocidade e intensidade dos ventos, todos já vivenciados pelos gaúchos nos últimos anos. “afirma o diretor de Meio Ambiente da CPFL Energia, Rodolfo Nardez Sirol.

André Sirol- Diretor de Meio Ambiente da CPFL Energia

Ele acrescenta que isso se deve ao aquecimento global, desencadeado por atividades humanas, a abertura de novas áreas de agricultura e pecuária em áreas de floresta e, principalmente ao grande crescimento da população mundial. “Já estamos com mais de 7 bilhões de pessoas no planeta. Precisamos de mais práticas conservatórias do solo na agricultura. Quanto menos precisarmos impermeabilizar o solo e fazer ilhas de calor, nos processos de urbanização, melhor será. Além disso, o ordenamento das construções precisa de cuidado especial”, explica. Conforme Sirol, as consequências do aquecimento global podem ser catastróficas para a Terra, caso não haja continuidade da mudança de pensamento em relação à preservação do meio ambiente. Ele reitera que o desenvolvimento sustentável está sendo muito praticado ao redor do mundo. Ainda, segundo ele, a cada dia cresce o número de consumidores priorizando produtos de empresas com baixo impacto ambiental.

Sobre o Brasil, nesse contexto, salienta que o país permanece dentro do acordo de Paris que objetiva fortalecer a resposta global à ameaça das mudanças climáticas em curso, aprovado em 2015 pelos 195 países participantes que se comprometeram em reduzir emissões de gases de efeito estufa. Ainda de acordo com Sirol, a COP 21 (que frequenta desde 2010, sendo que sua última participação foi no ano de 2017) celebrou o Acordo de Paris, o qual reuniu as ações voluntarias dos países para limitar o aquecimento global até 2 graus em 2100. Também se comprometeram a revisar essa ambição após 5 anos, ou seja, 2020, quando os países apresentarão novas propostas para limitar o aumento da temperatura em 1,5 graus até 2100. Sirol participa das conferências de mudanças climáticas da ONU, as quais são conhecidas pela sigla em inglês COP (Conference of the Parties) e são realizadas anualmente.

As metas principais apresentadas pelo Brasil são: redução de 37% nas emissões até 2025, tendo como ponto de partida as emissões de 2005 e possível redução de 43% das emissões até 2030.

Para alcançar tais metas, uma série de indicações terão de ser seguidas em diversos setores da gestão pública dos recursos naturais até 2030: aumentar a participação da bioenergia sustentável na matriz energética brasileira para 18%; fortalecer o cumprimento do Código Florestal; restaurar 12 milhões de hectares de florestas em áreas degradadas; alcançar desmatamento ilegal zero na Amazônia brasileira; chegar a participação de 45% de energias renováveis na matriz energética; obter 10% de ganhos de eficiência no setor elétrico (basicamente no seguimento industrial); promover o uso de tecnologias limpas no setor industrial e estimular medidas de eficiência e infraestrutura no transporte público e áreas urbanas.

O alerta da dermatologista

Atualmente, muitas jovens, assustadas com a possiblidade de câncer de pele, evitam ao máximo a exposição ao sol, essencial para absorção de vitamina D, de extrema importância na menopausa para a preservação óssea da mulher. O Jornal Integração da Serra conversou com a médica dermatologista Flávia Casagrande para a prestação de esclarecimentos.

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Porque é importante para a mulheres um certo período de exposição ao sol?

A exposição solar é importante para conversão da pré-vitamina D em vitamina D ativa, durante toda a vida do indivíduo. O hipoestrogenismo no período pós-menopausa e idade avançada são os principais fatores para o desiquilíbrio no processo de remodelação dos ossos em mulheres, resultando em diminuição da massa óssea e consequente osteoporose. A longo prazo níveis subótimos (abaixo de 30 ng/ml) podem comprometer a qualidade óssea, porém vários outros fatores de risco devem ser considerados para a reposição de vitamina D.

Qual é o tempo médio diário de exposição a luz solar para evitar a carência de vitamina D no organismo?

Como dermatologista, oriento que a pessoa se exponha diariamente ao sol, evitando horários de pico, ou seja, antes das 10 horas e após as 16 horas. A exposição em períodos de maior incidência solar pode ser realizada em áreas de menor cronicidade à irradiação solar, como região palmo- -plantar, região medial de membros superiores ou inferiores, abdome, dentre outras.

Até alguns anos atrás era comum ver nas ruas apenas senhoras usando sombrinha para proteção do sol. Hoje, também há moças e adolescentes usando sombrinhas com o mesmo objetivo. A sombrinha ajuda a proteger a pele do sol?

Sombrinhas e guarda-chuvas diminuem a incidência solar à superfície da pele, porém não filtram homogeneamente senão houver no tecido fator de proteção ultravioleta. Tecidos escuros sem o fator de proteção UV absorvem mais os raios solares. Sombrinhas de tecidos claros, que maior refração aos raios solares, são as mais indicadas para essa finalidade. Também vale usar chapéu e óculos escuros nos horários de solo forte. Mas, a utilização diária de filtro solar é de suma importância para reduzir os riscos de câncer de pele, em áreas foto expostas. O filtro deve ser aplicado no mínimo duas vezes ao dia em épocas de intensa radiação solar, como o verão.

O fenômeno El Niño

O El Niño é um fenômeno climático de escala global. Caracteriza-se pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, predominantemente na sua faixa equatorial. Ocorre em intervalos médios de 4 anos. Esse aquecimento é geralmente observado no mês de dezembro, próximo ao Natal, por isso recebeu o nome de “El Niño”, em referência ao “Niño Jesus” (Menino Jesus), que foi dado por pescadores peruanos.

Em anos sem a presença do El Niño, os ventos alísios sopram de leste para oeste, acumulando água quente na camada superior do Oceano Pacifico perto da Austrália e Indonésia. Como as águas do oceano no Pacífico Oeste são mais quentes, há mais evaporação e formam-se nuvens numa grande área. Para haver formação de nuvens o ar teve que subir. Nos níveis superiores da atmosfera os ventos sopram de oeste para leste, assim o ar frio desce no Pacífico Leste (junto à costa oeste da América do Sul), completando a circulação atmosférica de grande escala chamada “Circulação de Walker.”

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Os ventos alísios, junto à costa da América do Sul, favorecem um fenômeno chamado de ressurgência: a água fria do fundo do oceano flui para a superfície carregando nutrientes e micro- -organismos que servirão de alimento para os peixes, permitindo o surgimento de uma cadeia alimentar nessa região.

Em anos de El Niño, ocorre enfraquecimento dos ventos alísios, fazendo com que a camada de águas superficiais quentes do Pacífico se desloque ao longo do Equador em direção à América do Sul. Há um deslocamento da região com maior formação de nuvens e a célula de circulação de Walker fica bipartida. Podem ser observadas águas quentes em praticamente toda a extensão do Oceano Pacífico Equatorial. Esse fenômeno interfere na circulação geral da atmosfera.

De acordo com a intensidade, o El Niño pode ser fraco, moderado ou forte. As anomalias climáticas associadas a esse fenômeno são desastrosas e provocam sérios prejuízos econômicos e ambientais.

No Brasil esse fenômeno causa um grande aumento de chuvas na região Sul, o que pode acarretar prejuízos aos agricultores. Na região Norte ocorre redução de chuvas nos setores norte e leste da Amazônia, levando ao aumento significativo de incêndios florestais. No Nordeste também ocorre diminuição das chuvas, sendo que no Sertão nordestino essa diminuição pode alcançar até 80% do total médio do período chuvoso. Ocorre também aumento nas temperaturas do Sudeste e Centro-Oeste.

Grandes secas na Índia, Austrália, Indonésia e África são causadas por esse fenômeno. No Peru, Equador e no meio oeste dos Estados Unidos ocorrem enchentes. Na Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana e Guina Francesa as chuvas são reduzidas, com exceção da costa da Colômbia que recebe intensas chuvas.