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Veganismo em Alta

Filosofia que rejeita o uso e consumo de produtos de origem animal está em franca expansão no Brasil e no mundo

Por: Rodrigo De Marco
Edição: Kátia Bortolini

A filosofia vegana, que rejeita o uso e o consumo de produtos de origem animal, terá um crescimento mundial significativo neste ano em relação aos anteriores, segundo reportagem do site The World in 2019, da revista inglesa The Economist, que aborda e discute tendências e projeções. Na matéria, de autoria do jornalista Jonh Parker, postada em dezembro do ano passado, é enfatizado que as vendas de alimentos veganos nos EUA, até julho de 2018, aumentaram dez vezes mais rápido do que a comercialização de alimentos como um todo. Também conforme a reportagem, as empresas que não se adaptarem, atendendo a uma crescente demanda por parte de pessoas desfavoráveis ao consumo de produtos de origem animal, podem ficar para trás. Os veganos também boicotam os produtos de marcas que realizam testes em animais, eventos como rodeios e locais como zoológicos. É prática entre os veganos pesquisar muito antes de escolher o que consumir, desde os alimentos até produtos de higiene, medicamentos, cosméticos e vestuário.

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Mercado brasileiro atento ao movimento

O aumento do número de adeptos ao movimento no Brasil, nos últimos anos, é pontuado pelo surgimento de lojas especializadas em grãos, pelo acréscimo de produtos veganos em grandes redes de supermercados e pelo surgimento de restaurantes com opções veganas no cardápio. Receitas de pratos veganos, tanto em impressos, como nas redes sociais, também têm se tornado cada vez mais comuns. Além disso, grandes marcas de cosméticos do Brasil, como O Boticário, estão desenvolvendo produtos específicos para atender esse novo público.

“Repensar velhos conceitos”

Ser adepto ao veganismo não significa apenas mudar os hábitos alimentares, mas também repensar velhos conceitos
sobre o meio ambiente e a vida animal, afirma o músico Daniel Poletti, 31 anos, morador de Bento Gonçalves, que não ingere alimentos de origem animal há pelo menos 10 anos. “O meu custo diário com alimentação não passa de RS 5,00, entre o café da manhã e o jantar. Vivo basicamente à base de grãos, arroz, feijão e lentilha. Pago R$ 3 por um pé de brócolis que pode durar até três dias. Para fazer uma massa com molho vermelho, por exemplo, também gasto pouco, preparando a base do molho com tomate e cebola”, ressalta. O músico também evita a utilização de produtos de higiene testados em animais. Ele mesmo elabora o creme dental, o sabonete e o shampoo que utiliza.

Daniel Poletti (matéria veganismo)

O processo que levou o músico a deixar de consumir carne e outros produtos de origem animal iniciou numa visita
técnica a um frigorífico. “Vimos, desde o princípio, mais do que o consumidor pode ver, e aquilo me chocou demais.
Mais do que a morte, mais do que ver o bicho sendo morto, me chocou a forma como o gado vivia ali, porque não era uma vida e depois uma morte, não havia vida, era uma semivida”, afirma. Na ocasião, ele tinha de 17 para 18 anos e se tornou vegetariano aos 20 anos.

Em defesa dos animais

Vegetariana há mais de dez anos, a médica veterinária comportamentalista Joice Peruzzi, de 34 anos, moradora de
Porto Alegre, há dois anos migrou para o estilo de vida vegano como alternativa à redução de maus-tratos contra animais. Ela salienta que a filosofia vegana, voltada a diminuição do consumo e ao acréscimo de tempo livre para lazer, reflete em qualidade de vida. Joice ressalta que a mudança da alimentação vegetariana para a vegana, apenas com vegetais e grãos, foi gradual. A veterinária acentua que a mudança do cardápio carnívoro para vegetariano ou vegano deve ser acompanhada por um nutricionista.

Joice Ok

“Para começar, é possível adotar um dia por semana sem comer carne, diminuindo gradativamente o uso de produtos de origem animal na dieta. É preciso mudar o paladar e, aos poucos, se consegue fazer isso”, afirma.

A veterinária salienta que a alimentação vegana é fácil de preparar em casa. Ela acrescenta que as receitas, tanto para pratos salgados como para doces, disponíveis em livros e em redes sociais, como o Insta gram, são bem variadas.

CRUDIVORISMO

Além do veganismo existe o crudivorismo, uma doutrina alimentar em que os alimentos consumidos são de origem agrícola e crus, defendido como um modelo ainda mais alternativo e saudável de alimentação.

“Aprendi o que é saúde e bem-estar”

A médica veterinária Lis Rosinato, de 32 anos, residente em Porto Alegre, é vegana e crudívora há cinco anos. Lis, que no Instagram é conhecida como Lisraww, compartilha sua experiência na rede social, para quase quatro mil seguidores. Segundo ela, o processo de transição do veganismo para o crudivorismo foi simples.

Lis Rosinato (matéria veganismo)

“Comecei priorizando alimentos vegetais frescos e orgânicos, e isso me gerou um bem-estar imenso. Minha saúde, como um todo, teve uma melhora significativa. Continuei fazendo cursos e testando receitas, e quando vi já tinha me tornado crudívora”, relata. Lis relata que na época em que sua alimentação incluía carne, queijo e leite, entre outros alimentos de origem animal, adoecia com frequência.

“Aprendi o que é ter saúde e bem-estar sendo vegana e essa consequência foi o que me motivou a saber mais. Na alimentação crudívora comemos alimentos na sua forma crua, mas usamos técnicas como fermentação, germinação (no qual se faz possível a ingestão de grãos crus, como grão de bico e lentilha), marinação e desidratação, entre outros. O crudivorismo é uma extensão do veganismo, com a utilização de alimentos crus e de algumas técnicas diferentes”, explica. Lis afirma que o veganismo transformou sua vida, aumentando sua autoestima e o seu condicionamento físico.

“Além de ter revertido inúmeros problemas de saúde, também rejuvenesci, sou muito mais ativa, e acredito que essa consciência também me fez ser muito mais empática comigo mesma e com o próximo. Aprendi a não dar tanto valor ao material e isso fez com que mudasse muita coisa na minha vida também. Participo de congressos online sobre alimentação, tenho alguns vídeos no youtube, ofereço palestras gratuitas e dou cursos de alimentação vegana e crua. É preciso sair da zona de conforto e entender a importância atual do veganismo, seja pela saúde, seja pelo meio ambiente ou pela empatia e compaixão aos animais”, destaca.

De acordo com ela, no Guia Alimentar para a População Brasileira, editado pelo Ministério da Saúde em 2014, é admitido que produtos de origem animal podem ser prejudiciais à saúde e ao meio ambiente e também a alimentação vegana é reconhecida como saudável. “E assim tem sido em vários lugares com diversos profissionais”, observa
ainda Lis.

Dieta saudável e barata

Nutricionista afirma que é possível ter uma dieta vegana, com boa qualidade de vida e gastando pouco

“A redução de consumo de produtos de origem animal é uma questão de saúde e ética ecológica. Embora o consumo de carne não seja absolutamente imprescindível para uma alimentação saudável, qualquer restrição alimentar pede maior atenção para um equilíbrio nutricional. Nossa tradicional alaminuta sem ovo e bife é um prato vegano. Arroz, feijão, couve e farofa também são veganos (quando não utilizam carne para temperar). Se você for em uma fruteira, a maioria dos alimentos do local serão veganos, feirinhas de pequenos agricultores da região também. Engana-se quem pensa que ser vegano e saudável precisa comer alimentos caros”, explica.

Kelly Todescatto (pauta veganismo)

Ela observa que a absorção de nutrientes através de vegetais é um passo importante para garantir uma saúde de qualidade. Segundo a nutricionista, dietas ricas em fontes vegetais estão relacionadas com a redução dos níveis séricos de colesterol, do risco e prevalência de doenças cardiovasculares, de hipertensão arterial, de diversos tipos de câncer e diabetes tipo II.

“Alimentos como feijão, grão de bico, lentilha, aveia e semente de abóbora são fontes seguras de proteínas em uma dieta vegana equilibrada”, garante.

Conforme ela, quando a alimentação é baseada em plantas, existe um aumento nos níveis séricos de antioxidantes exógenos e maior atividade de antioxidantes endógenos, promovendo proteção contra a oxidação e maior estabilidade genômica.

Ainda de acordo com ela, o leite é um alimento que pode ser facilmente substituído por outras opções como castanhas, tofu, gergelim, rúcula, brócolis e couve-flor.

VEGANISMO EM FILME

O estilo de vida vegano tem conquistado um espaço importante na sociedade, e muito desse respaldo e reconhecimento é resultante da produção de filmes sobre o tema. Ao longo dos últimos anos uma série de documentários têm ganhado espaço e projeção, evidenciando de forma impactante razões pelas quais o veganismo ganha cada vez mais espaço e reconhecimento. Com base nisso, o Jornal Integração da Serra deixa algumas dicas de filmes sobre o tema.

Cowspiracy
A conspiração da vaca

Cowspiracy toca em um ponto bastante sensível da sociedade atual: a degradação ambiental. Mas o que é realmente importante no filme é o fato dele mostrar o que a maioria dos governantes e entidades políticas fingem não ver: o fato de que a criação de animais é a maior causa de desmatamento, poluição e degradação ambiental do mundo atual.

Vegucated
Veganizado
Este documentário é com certeza uma referência para quem não consegue se desligar dos alimentos derivados, mas deseja se tornar vegano. Aqui, alguns jovens onívoros convictos e amantes de queijos, leite e carnes são convidados a aderir ao veganismo por seis semanas. Apesar das reclamações iniciais, estas serão uma das seis semanas mais importantes de suas vidas.

A carne é fraca

Este documentário realizado pelo instituto Nina Rosa é um dos mais conhecidos. De fato, ele ainda é um dos principais documentários a

transformar onívoros em vegetarianos e veganos, já que mostra com clareza a crueldade e o sadismo por detrás da alimentação carnívora ocidental e seu sistema de produção.

Terráqueos

Veganismo não é só alimentação e é por isso que este filme entra na lista. Aqui, mostra-se a realidade cruel a que nossa sociedade submete milhões de animais todos os anos, tanto para a sua exploração ligada à alimentação, quanto a vestuário, pesquisa, entretenimentos e afins. Assim, deixe este documentário para o final, pois todo vegano ou vegana precisa saber que o sistema em si sobrevive às custas da exploração animal em todos os sentidos.

Foodmatters
O alimento é importante
O veganismo, além de ser ético para com os animais e com a natureza, é ainda muito saudável e saboroso e uma boa maneira de se conscientizar disso é assistir ao documentário “Food matters”, que mostra como a alimentação atual (excesso de açúcar, sal, gordura animal, agrotóxicos, transgênicos e afins) está destruindo o ser humano aos poucos, transformando-o em um escravo da indústria farmacêutica.

“Quem semeia assassinato e dor não pode colher alegria e amor”

“Enquanto o ser humano for implacável com as criaturas vivas, ele nunca conhecerá a saúde e a paz. Enquanto os homens continuarem massacrando animais, eles também permanecerão matando uns aos outros. Na verdade, quem semeia assassinato e dor não pode colher alegria e amor”, disse o filósofo grego Pitágoras por volta de 500 anos antes de Cristo.

No mesmo período, Siddhārtha Gautama, o Buda, conversou com seus seguidores sobre a importância da alimentação isenta de ingredientes de origem animal. Assim, Pitágoras e Siddhārtha se tornaram as primeiras referências de uma consciência que mais tarde ajudaria a moldar o veganismo.

Pitágoras

Muito tempo depois, no século I, o filósofo grego Plutarco escreveu “Do Consumo da Carne”. No Discurso Primeiro, ele define o apetite humano por carne como uma manifestação de luxúria, lascívia supérflua. “Aos inocentes, aos mansos, aos que não têm auxílio nem defesa  a esses perseguimos e matamos. Só para ter um pedaço da sua carne, os privamos da luz do sol, da vida para que nasceram. Tomamos por inarticulados e inexpressivos os gritos de queixume que eles soltam e voam em todas as direções”, registrou.

Mas foi só a partir do século XV que houve um crescimento exponencial de pensadores e artistas que viram no vegetarianismo uma filosofia de vida em condições de contribuir para a libertação animal e humana, já que ao se alimentar da carne o ser humano torna-se prisioneiro de si mesmo, das suas próprias incoerências.

Veganismo se popularizou nos movimentos de contracultura das décadas de 60 e 70 

Quando Elsie Shrigley e Donald Watson usaram pela primeira vez a expressão “veganos” para descrever os vegetarianos que não consumiam derivados do leite, em novembro de 1944, a dieta e o estilo de vida definitivamente não eram “legais”. Os vegetarianos antipáticos se recusavam a associar-se a movimentos radicais. O veganismo criou uma reputação amigável e louca por saúde. A dieta tornou-se popular com os movimentos contraculturais das décadas de 60 e 70 – a maioria particularmente hippie – mas ainda com um ar de exclusividade. Atualmente, muitos vegetarianos radicais ignoram a reputação virtuosa e promovem o veganismo como um estilo de vida moderno.

Watson

Já a Associação Americana de Dieta atesta que os vegetarianos e os veganos possuem índices de massa corporal, pressão sanguínea e níveis de colesterol mais baixos do que os não vegetarianos. Também apresentam índices menores de diabetes tipo 2, câncer de colon,
câncer de próstata, hipertensão e doenças cardíacas.