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Histórias da 2ª Guerra Mundial, vividas por Francisco Pértile, de São Valentim

O pracinha Francisco Pértile faleceu aos 96 anos nesta terça-feira, 21 de novembro. As últimas homenagens ao veterano da Segunda Guerra Mundial estão sendo prestadas na capela mortuária de comunidade de São Valentim.  Seu Pértile, como era conhecido na região, foi o entrevistado da sobrecapa da edição nº 102, do Jornal Integração da Serra. Leia abaixo o conteúdo completo da reportagem publicada em dezembro de 2009.

Veterano, que participou da tomada de Monte Castelo, em 1945, manteve viva as memórias do front através de palestras em escolas

veterano

Francisco Pértile, de 89 anos, comemorados no dia 4 de dezembro, tem uma história de vida diferente da maioria dos descendentes de imigrantes italianos da região Nordeste do estado, por ser um veterano de guerra.

A continuidade da vida na colônia, primeira opção em 1942 para os jovens agricultores, era muito pacata para o espírito aventureiro do sagitariano Pértile. Aos 22 anos, ele saiu da comunidade de São Valentim, interior de Bento Gonçalves, para servir no 5º Regimento de Cavalaria Mecanizado, em Quarai, fronteira com o Uruguai. A têmpera do soldado que servia no 5º Regimento era forjada pelo sacrifício, por vários motivos, entre eles, a falta de higiene no local e o serviço de cuidador de cavalos. Sete soldados morreram de tifo. Pértile era um dos melhores soldados do regimento. Fazia parte da tropa de elite.

Após 22 meses de treinamento em Quarai, veio uma notícia: os melhores soldados deviam se apresentar para uma viagem ao Rio de Janeiro, preparatória ao ingresso na Força Expedicionária Brasileira (FEB) que lutaria na 2ª Guerra Mundial, ajudando os Aliados contra o Eixo. Pértile era um deles.

Pértile residia novamente em São Valentim, com a esposa Rosa Cobalchini. É pai da psicóloga Roseli Pértile Possamai e avó dos gêmeos Otávio e Juliano, de sete anos. Mas, da saída de São Valentin, aos 22 anos, ao casamento com Rosa, também natural de São Valentim, aos 42 anos, acumulou muita história para contar.

Por Cristiane Moro e Kátia Bortolini, com participação de Delano Brandelli Pieta

Integração – O que o senhor sentiu ao saber que iria ingressar na Força Expedicionária Brasileira para lutar na Europa?
Pértile –  A notícia me deixou alegre. Saímos de São Valentim, onde nasci e me criei, em quatro pessoas, em 02 de fevereiro de 1942. Já em Quaraí, ficava muito tempo cuidando de cavalos. Não gostava. Quando surgiu a oportunidade de mudança, mesmo sendo para participar de uma guerra, não tive dúvidas em aceitar. Dos quatro de São Valentin, apenas eu fui pra Europa. Dois dos outros companheiros não foram por causa da altura, e o outro, chegando ao Rio de Janeiro teve varicela e acabou ficando no Brasil. Do Rio Grande do Sul, foram soldados de São Francisco de Paula, Bom Jesus, Garibaldi e Caxias do Sul, entre outros municípios. Na maioria, descendentes de italianos. A viagem ao Rio de Janeiro, de trem, demorou oito dias.

Integração – E depois, o que aconteceu?
Pértile – 
 Ficamos 65 dias no Rio de Janeiro comendo, bebendo, passeando, indo à praia e namorando. Não precisávamos pagar nem o trem, nem o bonde. Após, fomos para a cidade de São João Del Rey, em Minas Gerais, onde, durante 78 dias, recebemos treinamento especí- fico para combate, de militares norte-americanos. Depois, voltamos ao Rio de Janeiro onde ficamos mais seis meses recebendo orientações de oficiais do Exército dos Estados Unidos.

Integração – Quando partiram do Brasil rumo à Europa?
Pértile –   Em setembro de 1944, num navio da frota americana, de sete andares. Éramos em sete mil e quinhentos soldados, entre eles o Frei Horlando, que se tornou um grande amigo. Morreu no front com um tiro no peito. A quantidade total de brasileiros na guerra foi 25.300.

Integração – Quanto tempo durou a viagem à Europa?
Pértile –  Foram 12 dias para cruzar o Atlântico. Íamos desviando dos submarinos alemães que já tinham afundado sete navios norte-americanos, como aquele em que nós estávamos. Chegando no porto de Nápoles, na Itália, ficamos mais três dias dentro do navio, ancorados. A cidade estava destruída. Foram três ataques aliados, que causaram umas 16 mil mortes no local. Após o desembarque, passamos por 30 dias de instruções, para avançarmos pela Itália.Também foi traçado o primeiro objetivo, que era conquistar Monte Castelo, posto fortalecido do exército alemão, que impedia o avanço aliado ao norte da Itália.

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Integração – Em que língua falava com os outros militares?
Pértile – 
A maior parte do tempo em italiano. Muitos brasileiros de nossa tropa eram descendentes de italianos. Vá- rios norte-americanos também eram descendentes de italianos e me entendiam. Falava português só com os brasileiros que não entendiam o italiano. Para a comunicação em inglês e em outras línguas com os oficiais, havia intérpretes.

Integração – Algum fato marcou antes da luta no front?
Pértile – 
Sim. Ganhei uma batalha antes mesmo de iniciar a luta. Teve um dia em que todos os soldados saíram em pequenos caminhões, um atrás do outro. O motorista que estava nos levando errou o caminho. Entramos em um local cheio de lama, onde o caminhão tombou. Se o caminhão não tivesse tombado, andaríamos mais um quilômetro e nos encontraríamos com as tropas alemãs. Eu não sei como, o motorista conseguiu pegar a estrada errada, se todos os caminhões iam para a mesma direção, que burro (…), esse ali sim era um facão mesmo (…) (risos) Ficamos lá, durante  toda noite, sem luz, para não chamar a atenção dos alemães, esperando para que os norteamericanos viessem nos socorrer. Depois, nos preparamos para subir o Monte Castelo.

Integração –Como foi a batalha de Monte Castelo?
Pértile – 
A batalha de Monte Castelo durou cerca de três meses. Ela fazia parte do Plano Encore, feito pelos aliados para desalojar os alemães e liberar a passagem para o norte da Itália. Nesse tempo, norte-americanos e brasileiros, auxiliados por ingleses e franceses, tentaram, por quatro vezes, romper o cerco alemão, com a infantaria. Os nazistas criaram um cinturão praticamente intransponível. Lembro como se fosse hoje. Dia 24 de novembro, participamos de um ataque a Monte Castelo. Fomos repelidos violentamente pelos alemães. Doze brasileiros não voltaram. Em um quinto ataque, juntando todas as forças disponíveis, os aliados conseguiram tomar o local. Era o dia 21 de fevereiro de 1945. As perdas dos brasileiros foram significativas: 443 perderam a vida, apenas em Monte Castelo.

Integração – O que aconteceu em seguida?
Pértile – Dois dias depois de tomar a base alemã, os aliados se encontravam novamente em batalha. Desta vez, a tomada de Castel–nuovo foi mais rápida. Os soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB), liderados pelo soldado Nelson de Mello, causaram enorme estrago nas linhas alemãs e tomaram a posição. A seguir, veio a Batalha de Montese, um maciço considerado um dos maiores trunfos alemães para bloquear o avanço para os Alpes. No dia 14 de abril, os aviões da Força Aérea bombardearam a posição, seguidos pela artilharia pesada. No dia 3 de maio de 1945, todos falavam na batalha do dia seguinte, mas, para nossa surpresa, não houve combate porque nas primeiras horas do dia 4 de maio, a Alemanha se rendeu, colocando um ponto final na 2ª Guerra Mundial.

Integração – Vocês tinham alguma folga, ou guerrearam o tempo inteiro?
Pértile – Algumas tropas ganhavam folga. Aquela em que eu estava, não. O meu comandante dizia “meu batalhão é forte, não precisa descansar”. Ele bebia bastante e nos colocava na luta.

Integração – Vocês comiam e dormiam dentro das trincheiras? Tomavam banho? Onde urinavam e defecavam?
Pértile – 
A comida vinha até nós. E para dormir, nos revezávamos. Dentro da trincheira cabe apenas uma pessoa. Cada um dormia cerca de três horas. Banho, tomamos uma vez só depois que a guerra iniciou. As necessidades eram feitas na neve. Na trincheira, além de alimentação, recebíamos um jornal com informações sobre a guerra e as cartas da família. Fui condecorado com a medalha “Cruz de Combate de 1ª Classe”, maior distinção do Exército Brasileiro na Segunda Guerra Mundial. Fiquei sabendo três dias depois, através do jornal do front.

Integração – Por que o Sr. foi condecorado com essa medalha?
Pértile – Segundo eles, pela bravura. Estávamos em quatro, o sargento, mais dois soldados e eu, em campo, numa patrulha e fomos vistos pelo inimigo, que nos atacou com granadas. Os dois soldados e o sargento foram atingidos. Eu os retirei do local, para deixá-los a salvo e, depois, me escondi em um rio, ficando lá por mais de 40 minutos. Os dois soldados não resistiram aos ferimentos. O sargento ficou totalmente surdo. As patrulhas eram muito perigosas. Para reconhecer o território, ficávamos totalmente expostos.

Integração – O Sr. sabe precisar quantos soldados matou?
Pértile – Nas trincheiras, não. Mas em patrulha, matei um soldado alemão e forcei a rendição de outros três que o acompanhavam.

Integração – Qual a lembrança mais triste dessa guerra?
Pértile – A da guerra civil entre os próprios italianos. A quantidade de mortes foi muito grande. Eram os partagianos, guerrilheiros antifascistas da resistência italiana, lutando contra partidários do Mussolini. Os de um partido pegavam pessoas do partido oposto para fazer crueldades, como arrancar os olhos de uma pessoa e deixá-la viva. Queimavam as roupas das mulheres e as casas. Numa ocasião, uma mãe veio nos contar que o filho dela foi jogado para o alto, numa disputa entre um italiano do partido de Mussulini e alemão do exército de Hitler para ver quem fincava melhor a espada nas costas da criança.

Integração – O senhor teve medo de morrer?
Pértile – Não. Depois que ganhamos as primeiras batalhas, eu pensava: se ganhamos as anteriores, ganharemos as próximas também. Uma noite, ainda no Rio de Janeiro, encontrei um soldado que também deveria ir a guerra. Mas ele desertou, porque achava muito perigoso. Ele disse que eu deveria fazer o mesmo. Que deveria largar a farda e voltar ao Rio Grande do Sul. Não aceitar ir à guerra por um país, é como não fazer mais parte dele. Além disso, se eu desertasse não teria mais direito a nada.

Integração – O senhor viu muita gente morrendo?
Pértile – Sim. Nos primeiros dias, no front, foi muito triste. Uma das cenas que nunca esqueci foi a de um soldado de nossa tropa morrendo e chamando pela mãe, entre gritos de dor. Nós não podíamos socorrer os feridos durante as batalhas, então ele permaneceu lá. Depois de alguns minutos, caiu uma granada em cima dele. Porém, depois de algum tempo, acostumei a ver pessoas morrendo.

Integração – O que era feito com os feridos?
Pértile – Eram levados pela ambulância. Pela lei da guerra é proibido alvejar ambulâncias. Depois de socorridos, ficavam na enfermaria. Caso precisássemos de mais soldados, voltavam.

Integração – Vocês tinham contato com os prisioneiros de guerra?
Pértile – Não. Mas pude observar que os alemães eram muito patriotas. Capazes de morrer pelo país. Eles carregavam, no bolso, comprimidos que matavam, caso precisassem ingerir. Eu não me mataria pelo Brasil, vou morrer o mesmo! Os alemães, apesar de perderem a guerra, foram considerados os melhores soldados do mundo. Iniciaram a guerra com 40 milhões de soldados, e em pouco tempo, já haviam tomado toda a Polônia. Eram donos dos armamentos mais potentes, como uma metralhadora que disparava 1.300 tiros por minuto.

Integração – Existia diferença entre os soldados?
Pértile – Entre nós e os americanos, nenhuma. Aliás, eles nos tratavam muito bem, com muito respeito.

Integração – Depois da guerra o senhor teve pesadelos?
Pértile – Sim, com as cenas de mortes que assisti. Durante um tempo sonhei muito com isso, mas depois resolvi esquecer, porque era melhor.

Integração – Assim que terminou a guerra qual era o cenário na Itália?
Pértile – De pobreza e devassidão, até pela guerra civil… As mães, em troca de comida, levavam suas filhas virgens para os soldados. Nós quase sempre tínhamos bastante alimento. Então, quando elas vinham, sempre procurava ajudar, mas nunca aceitei ficar com as filhas em troca disso.

Integração – Como foi no dia em que a guerra acabou?
Pértile – Todos choraram de emoção. Os sinos da cidade tocaram o dia inteiro. Ficamos felizes porque sabíamos que nós éramos os vencedores. Como já disse, no dia quatro de maio de 1945, teria o último ataque contra a Alemanha, porém, os alemães se entregaram, e nós não precisamos lutar. A vitória foi dada no dia oito.

Integração – Após o término da guerra, por quanto tempo você permaneceu na Europa?
Pértile – Fiquei mais quatro meses na Itália. Ganhamos um uniforme especial, para andarmos em Roma. Era a hora da festa.

Integração – E depois da volta ao Brasil, o que aconteceu?
Pértile –
Voltei ao Brasil como reservista, aos 26 anos. Fiquei um tempo em São Valentim, na casa dos pais, em período de readaptação. Em seguida comecei a trabalhar como motorista de caminhão, transportando madeira para Getúlio Vargas, profissão exercida durante 15 anos. Depois, atuei como servidor público federal, até a aposentadoria, como reservista.

Integração – Legados positivos da participação na Segunda Guerra?
Pértile – Conhecer outros países, outras culturas e, até hoje, ter história para contar. Há mais de dez anos, recebo convites de escolas e colégios de Bento para falar aos jovens sobre a 2ª Guerra Mundial. Gosto desses convites. Aceito todos. Normalmente fico cerca de duas horas falando sobre o assunto, entre relatos e respostas. Essas palestras deixam os fatos vivos na minha memória. Também tenho orgulho de ter integrado a vitoriosa Força Expedicionária Brasileira.

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Falece, aos 96 anos, Francisco Pértile, ex-combatente da 2º Guerra Mundial

veteranoEstão sendo prestadas, na capela mortuária de comunidade de São Valentim, as últimas homenagens ao pracinha  Francisco Pértile, de 96 anos. Pertile participou como combatente da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na 2ª Guerra Mundial, com os Aliados,  contra o Eixo, em 1944. O veterano, que participou da tomada de Monte Castelo, em 1945, mantinha viva as memórias do front através de palestras em escolas do município e região.

O corpo será enterrado às 18 horas desta terça-feira, 21, no cemitério de São Valentim. Ele era casado com Rosa Cobalchini, também de São Valentim, pai de Roseli Pértile Possamai e avó dos gêmeos Otávio e Juliano. Seu Pértile, como era conhecido na região, foi o entrevistado da sobrecapa da edição nº 102, do Jornal Integração da Serra. Clique aqui para ler a reportagem completa.

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