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Consciência negra: O racismo estrutural na Serra Gaúcha

Por: Rodrigo De Marco

rodrigo@integracaodaserra.com.br

Edição: Kátia Bortolini

katia@integracaodaserra.com.br 

O espancamento de João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, até a morte, ocorrido em um hipermercado de Porto Alegre, no último dia 19 de novembro, associado a racismo, às vésperas do Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, causou comoção nacional, gerando protestos em cidades do Rio Grande do Sul e em outros Estados. Em Bento Gonçalves, a manifestação ocorreu na tarde do último dia 21 de novembro, na Via Del Vino, centro da cidade, organizada pelo Movimento Negro Raízes, coordenado pelo economista Marcus Flávio Dutra Ribeiro, de 50 anos.

O Integração da Serra reporta cinco depoimentos sobre a questão do racismo em Bento Gonçalves e região.

 

Movimento Negro Raízes reivindica

Coordenadoria da Igualdade Racial

negro raizes

 

O Movimento Negro Raízes, que surgiu em Bento Gonçalves em 2018, reivindica à prefeitura a criação da Coordenadoria da Igualdade Racial. O órgão terá a atribuição de propor, articular e executar políticas públicas voltadas para a defesa dos direitos étnicos e raciais. O coordenador Marcus Flávio Dutra Ribeiro, ressalta que a implementação da Coordenadoria vai facilitar ações do Movimento nas áreas de educação, e cultura, entre outras.

 

“Nas últimas eleições, enviamos questionário sobre racismo no município aos candidatos majoritários. Algumas respostas se demonstraram muito distantes da realidade da questão racial. O caso do Carrefour é emblemático, porque representa o contexto da pessoa que entra num supermercado e é vigiada. Racismo e intolerância geram violência e a violência não escolhe cor, atinge a todos”, observa Ribeiro.

 

O Movimento, com mais de 18 mil seguidores no Facebook, tinha planejado para este ano várias intervenções sobre a Consciência Negra em escolas da rede estadual sediadas no município, mas foram adiadas para o próximo ano, em função da pandemia do Coronavírus.

 

“Ser preto, aqui ou em qualquer lugar”

rogerio

 

“Sempre fui morador de Bento Gonçalves. Nem consigo lembrar da minha primeira experiência de racismo. Minha mãe, que é branca, conta que inúmeras vezes perguntaram a ela se eu “era adotado”. Ainda hoje, no local onde trabalho, clientes perguntam se sou estagiário. Quando digo que não, com cara de espanto, dizem: “mas tu não és daqui”. Como se por ser preto eu não pudesse ocupar o emprego que ocupo, nem ter o direito de nascer nessa cidade. Vejo também como os imigrantes haitianos são tratados. Impossível não pensar que, muitas vezes, quem assim os trata é descendente de imigrantes que vieram para cá por motivos muito parecidos ao dos haitianos”, desabafa o bancário Rogério Rodrigues, de 38 anos.

 

Enfrentar o racismo com sabedoria é uma das formas de Rodrigues lidar com a situação. Mesmo sendo bancário e com uma rotina atribulada e cansativa, encontrou na arte a forma de externar seus sentimentos e também, de certo modo, sua revolta. Na última semana, gravou em vídeo a poesia, de sua autoria, intitulada Tarja Preta, compartilhada dezenas de vezes em diversas páginas das redes sociais. Sem meias palavras, Rodrigues foi na veia e deixou escorrer um sentimento mesclado a dor, revolta e indignação. De acordo com ele, Tarja Preta foi gravado a pedido de sua amiga Eunice Pigozzo, que havia publicado nas redes sociais diversos trabalhos de artistas negros, em especial residentes de Bento Gonçalves, utilizando a #artistasnegrosbg.

 

Segundo Rodrigues, ao gravar a poesia, ele ainda não tinha conhecimento dos acontecimentos ocorridos no hipermercado Carrefour, em Porto Alegre. “A arte, de forma geral, em específico a poesia, me ajuda muito a externar sentimentos de forma que outras pessoas possam sentir algo com aquilo”, diz.

 

Para ele, “Poesia é algo que vem de dentro, do fundo da alma. Por capricho, enfeitamos esse sentimento com métrica, ritmo e rimas. Nos debruçamos sobre o sentimento, que muitas vezes é o vômito daquilo que engolimos todos os dias, na esperança de dar sentido a ele, tocar o coração e a alma das pessoas nem que seja apenas pela beleza. Levei duas décadas, vinte anos, para concluir Tarja Preta”.

 

Rodrigues recorda ainda de um dos fatos mais marcantes ocorrido há mais de duas décadas no Rio Grande do Sul. O enredo é muito parecido com histórias recentes, envolvendo personagens semelhantes.

 

“Mais ou menos há vinte e um anos atrás, um jovem de dezessete anos, assim como eu na época, preto como eu, periférico como eu, foi encontrado morto em uma localidade do interior do Estado. O “acusado”, que nunca foi preso, alegou que o rapaz estava roubando. Amigos da vítima disseram que ele apenas pulou o muro para buscar a bola que tinha caído lá dentro. Populares disseram que o rapaz não era boa coisa, que cheirava cola e roubava no supermercado. Há que diga que os assassinos eram policiais e quem encomendara a morte era o dono do supermercado. Mas o fato é que o rapaz foi encontrado morto em uma propriedade com vários tiros, de armas de diferentes calibres. Mas preto é sempre julgado e condenado, mesmo desarmado”, desabafa.

 

Ao longo da história, o mundo viu líderes negros erguerem as mãos e enfrentarem o racismo das ruas. O marco dessa luta está nos Estados Unidos, um dos países com histórico marcante da segregação racial.

 

“A luta pelos direitos civis nos Estados Unidos teve diversos líderes, alguns pacifistas como o pastor Martin Luther King. Mas penso que, sem os radicais, como Malcon X e os Panteras Negras, não se teria chegado a lugar nenhum. Na África do Sul, Mandela também fez a diferença, junto da sua esposa Winnie. Conheço pessoas inteligentíssimas que acabam aceitando a falácia que devemos perdoar o passado e seguir em frente como se nada nesses 500 anos de Brasil tivesse existido. Eu penso que precisamos da união do povo preto para exigir nossos direitos”, salienta.

 

TARJA PRETA

 

Preto quando entra no mercado é vigiado.

desarmado,

mas sempre cercado.

julgado e condenado,

às vezes até acorrentado e açoitado.

 

Olho no delinquente!

diz o segurança pro colega do lado.

 

Que é isso moço!?

Tenho uns trocados no bolso,

só quero comprar almoço

pros chegados.

 

Preto com dinheiro é traficante!

Ou assaltante!

o segurança

(que também é preto)

pensa nesse instante.

 

podia ser hoje,

podia ser aqui,

podia ser eu…

 

Mas todo dia!

no jornal, na página policial

tem um preto qualquer

bandido, marginal, indigente,

menor

algemado ou pior

 

nos olhos  só o escuro

uma grade, um muro

uma tarja preta.

 

Autoria: Rogério Rodrigues

Bento Gonçalves

 

“O racismo pode estar presente em

poucas palavras, em mínimas atitudes”

talita

 

O preconceito racial, na visão da estudante Talita Masiero, de 18 anos, do 3º ano da Escola de Ensino Médio Alfredo Aveline, autora do desenho da Branca de Neve Preta e do poema “Vidas”

 

O que originou a criação do poema e do desenho?

Talita: Nas aulas de Geografia e Ensino Religioso, a nossa professora, Eliana Passarin, sempre faz questão de abordar temas importantes da sociedade, como a intolerância racial. Estávamos abordando esse assunto e nos foi solicitado um trabalho que expressasse a nossa reflexão sobre o tema. A princípio não precisava ser um poema, porém, adoro escrever e disso saiu “Vidas”. A Branca de Neve na cor preta reporta a uma cena de preconceito racial envolvendo uma menina, que presenciei em 2017.

 

Qual foi o principal objetivo do desenho?

Talita: Desenhei a Branca de Neve Negra com o objetivo de mostrar, não só para os negros, mas para qualquer pessoa, que todos podem ganhar o seu lugar, ser o que quiser, independente de raça ou cor de pele. Precisamos de mais espaço para tratar sobre assuntos raciais, e fico imensamente grata ao ver que outras pessoas também se tocaram com o meu desenho. Até para mim, que fiz esse desenho, é tocante analisar o significado que ele possui.

 

Tu já escrevias poesias ou Vidas foi a primeira criação literária?

Talita: Eu amo escrever e sempre tento colocar no papel o que eu sinto ou penso em relação a algum assunto. Já escrevi outros poemas sim, mais pessoais… Mas Vidas, sem dúvida, é um dos meus preferidos.

 

Tens contato com grupos sociais de representatividade negra em Bento?

Talita: Por enquanto, apenas tenho contato com o casal que deu origem ao Movimento Negro Raízes, Solana e Marcus, mas adoraria conhecer outros grupos.

 

Já pensaste em realizar outros trabalhos em parceria com esse movimento?

Talita: Ainda estou em choque com a repercussão do meu poema e desenho com o movimento, então ainda não pensei. Mas sempre estou aberta a novos projetos, principalmente com esse movimento que tanto defendo.

 

Que ações as escolas poderiam tomar para tentar, ao menos, diminuir o racismo?

Talita: Acredito que projetos e trabalhos sobre o racismo e o preconceito são necessários, mas não são suficientes. O racismo pode estar presente em poucas palavras, em mínimas atitudes… As escolas precisam estar mais atentas e presentes para as possíveis vítimas dessa injustiça. Penso que o melhor caminho é mostrar aos alunos, fazê-los refletir sobre o fato de que uma sociedade é feita de pessoas, de diferentes raças, formas, personalidades e raças. E que a empatia se mostra cada vez mais necessária. Todos somos de uma única raça – a humana – e o que temos de diferente apenas é o que nos faz únicos, é o bônus.

branca de neve preta

 

VIDAS

 

Personalidades, cores, raças

Arco-íris de possibilidades

Pessoas, diferentes na sua forma

Ainda humanas, ainda desrespeitadas

 

Preconceito tão antiquado

Antepassado, longínquo

Falando que o branco é a solução

E o negro a abominação

 

Como podem, ainda hoje

Propagar tal ofensa irracional?

Como podem, depois de anos

Pregar que o negro é o mal?

 

Arco-íris de possibilidades, eu disse

Todas com sua alma, ainda humanas

E que ainda merecem respeito

E que ainda tem que provar seu valor

 

Negro é raça, com coração

Povo injustiçado, lutador

Que merece seu lugar, posição

Assim como qualquer pessoa

 

Talita Masiero

Aluna da turma 311

Escola Alfredo Aveline

Bento Gonçalves

Tutora: Professora Eliana Passarin

 

Processo histórico do estabelecimento de

afrodescentes na região da Serra Gaúcha

professor

 

Relato do historiador e coordenador de Relações Universitárias da Universidade de Caxias do Sul, Lucas Caregnato, 35 anos, eleito Vereador em Caxias do Sul no último pleito

 

“É importante destacar que a formação da região da Serra Gaúcha está relacionada a uma decisão, opção que o império faz, que é de atrair mão de obra livre no final do segundo reinado, por pressão da Inglaterra ao império brasileiro de que a escravidão acabasse e que a mão de obra livre passasse a ser dominante no Brasil. Grande parte dos países americanos já tinham abolido a escravidão, e o Brasil era um dos únicos países que ainda não o tinha feito. A economia vigente na principal potência da época, que era a Inglaterra, já se baseava na mão de obra livre e na industrialização. Com a mão de obra escrava tínhamos uma economia que não se dinamizava, não gerava mercado consumidor, não gerava a troca de moeda, compra de produto.

 

O pano de fundo principal da vinda dos imigrantes europeus é a atração da mão de obra livre e ocupação de terras devolutas, que era parte das terras aqui da antiga região de colonização italiana. Geograficamente estávamos numa região habitada por indígenas e que era atravessada por tropeiros, porém, a nossa historiografia não analisou, não estudou esses grupos que aqui viviam, então a produção historiográfica da nossa região também voltou seu olhar quase que exclusivamente aos povos europeus, que imigraram também por um processo de crise. Vale lembrar que a Itália e a Alemanha recém estavam se unificando, e havia um interesse desses reinos unificados que a população desses locais fosse diminuída. Os habitantes da península itálica, que vieram ao Brasil a partir de 1875, também vem de uma condição de exclusão do reino que recém se unificava e precisava excluir o excedente populacional. Em razão disso, temos a vinda dos imigrantes europeus, e aqui nessa região de terra devoluta e uma região voltada às colônias de imigração italiana era proibido, desde a lei de terras de 1850, que houvesse mão de obra escrava, justamente porque as colônias de imigração eram destinadas a mão de obra livre, por isso que na nossa região não tivemos a mão de obra escrava, em razão dessa questão legal. Já em algumas colônias de imigração alemã, nas décadas de 20, 30 e 40, principalmente no século XIX, havia a coexistência de mão de obra livre e a mão de obra escrava dos africanos e descendentes escravizados.

 

Nos Campos de Cima da Serra havia uma presença efetiva da mão de obra escrava. Nas últimas décadas do século XIX, muitos desses negros escravizados acabaram fugindo ou buscando nas cidades que estavam se formando, uma alternativa para suas vidas. Então, esse é um elemento importante a ser destacado. Uma alternativa era tentar buscar o trabalho que sobrava. Em Caxias do Sul, podemos perceber, em fotos e fontes históricas, que os negros trabalhavam na construção de estradas, de pontes, todos os trabalhos mais insalubres. O que a população citadina não fazia, sobrava para esses grupos. Eu gosto sempre de destacar o exemplo de Caxias, onde esses afrodescendentes vão se fixar em dois bairros. É o Complexo Jardineiro Ramos, conhecido como Burgo. O outro lado, perto do campo do Caxias, o Beltrão de Queiroz, conhecido como Vila do Cemitério. Eram regiões que não eram ocupadas pela sua geografia muito íngreme, mas que, ao mesmo tempo, não estavam distantes do centro urbano da cidade, o que possibilitava que essas pessoas que lá viviam pudessem buscar trabalho. Também é um elemento para a gente pensar, como o racismo estrutural se mantém. Mesmo findada a escravatura, esses afrodescendentes não vão conseguir ter as mesmas condições que outros grupos da nossa sociedade”.

 

“Mesmo quem é branco sofre preconceito aqui”

Adma e a mulher Kátia Soliman (1)

O encanador Adma Gama Soliman, de 35 anos, nasceu em Saint Louis du Sud, no Haiti. Foi criado pela avó, já que seus parentes mais próximos haviam ido morar na França quando ainda era criança. Ainda jovem, residiu na República Dominicana e na Guiana Francesa. Após o terremoto que devastou o Haiti, em 2010, ele tentou aprovar seu visto para encontrar os familiares, porém foi negado.

 

A história de Soliman no Brasil iniciou no Acre, onde se juntou a uma empresa de Bento Gonçalves que estava precisando de trabalhadores. Foi então que, em 2012, chegou na Capital Brasileira do Vinho, sendo considerado o primeiro haitiano a residir em Bento Gonçalves. Aqui fixou residência e casou com a brasileira Kátia Soliman. Ao deixar de trabalhar na empresa, Soliman passou a prestar serviços como encanador profissional.

 

Há dois anos, Soliman conseguiu obter a cidadania brasileira. Hoje, já bem adaptado com Bento Gonçalves, é reconhecido pela determinação, profissionalismo e altruísmo, ajudando centenas de outros imigrantes que aqui chegaram e se estabeleceram. Ao longo desses anos lutou contra um inimigo presente em seus dias: o racismo. A discriminação no trabalho e na rua era visível, mas foi com determinação, coragem e personalidade que venceu todas as adversidades e hoje é também um cidadão bento-gonçalvense.

 

No último pleito, Adma entrou para a história de Bento Gonçalves como o primeiro imigrante haitiano a concorrer a uma cadeira na Câmara de Vereadores. Ele mostrou desenvoltura e determinação ao longo da campanha, defendendo os imigrantes e a população mais carente. Não foi eleito, mas ampliou sua rede de contatos.

 

“Bento Goncalves é uma cidade limpa, bonita, de gente trabalhadora. Infelizmente, nessa mesma cidade progressista, observamos atitudes preconceituosas e desigualdades sociais. Mesmo quem é branco sofre preconceito por aqui, como o da condição financeira, entre outros. Moradores da periferia não são bem-vindos na sociedade em geral. A cor e a condição social da pessoa não têm nada a ver com a sua inteligência e caráter”, avalia.

adma e afillhada

menina

arte 2