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Educação para a Cidadania

matemáticaOs Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) indicam, entre outros, como objetivos do Ensino Fundamental, que os alunos sejam capazes de “compreender a cidadania como participação social e política…” e, em consequência, o exercício de direitos e deveres.

A afirmação nos remete, inicialmente, ao conceito de cidadania explicitado com propriedade pelo dicionário Aurélio como “qualidade ou estado de cidadão”, que é o “indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para com este”. Já na filosofia grega, o cidadão da polis – cidade –  submetia-se às suas leis na vivência da cidadania.

O escocês Gert Biesta, em seu artigo intitulado “Boa Educação na era da mensuração”, analisa e comenta os resultados das avaliações educacionais à luz das finalidades da educação. Ao fazê-lo lembra que uma boa educação precisa fazer distinção entre três funções: qualificação, socialização e subjetivação. Nesse sentido, apresenta duas propostas de educação para a cidadania baseadas na literatura e na matemática, ou melhor, na educação matemática.

Percebe-se o vigor da proposta ao enfatizar o sentido social da matemática no ensinar/aprender, norteado pela satisfação que o indivíduo sente ao usar a ciência no seu cotidiano, resolvendo problemas na condição de cidadão. É nesse sentido que a formação de hábitos, como o estudo diário e atitudes como o predispor-se a fazê-lo, favorecem a construção dos conceitos quantitativos e operatórios básicos para aprendizagens mais avançadas, que vivificam a convivência social em sua complexidade.

É curioso observar que o sentido social de uma educação matemática se revela desde cedo em pequenas ações de estimativas, de troco, de partilha, de troca e/ou conversão de moedas de países diferentes, na adoção de um sistema comum de medidas entre os países e em muitas outras situações.

Uma proposta de educação para a cidadania baseada na educação matemática deixa claro a necessidade de qualificação, ou seja, do conhecimento, das habilidades de cálculo, do raciocínio e, sobretudo, da compreensão matemática para tornar-se proeficiente e, assim, poder vivenciar no social a subjetivação em valores como a disciplina, o rigor, a correção e a justiça no pleno exercício dos direitos e deveres do cidadão.

Considero que a afirmação de Biesta mostra que a educação matemática tem muito a contribuir para a cidadania.

Alteridade: a visão do outro

ancilaAncila Dall´Onder Zat

Estava participando de um seminário de pesquisa qualitativa, quando tive contato pela primeira vez com o termo. Um tanto distraída anotei literalidade, mas a colega ao lado advertiu-me que era “alteridade”.

Fui ao dicionário Aurélio: “caráter ou qualidade do que é outro”. A explicação não era suficiente, porque pensava que outras palavras também tinham algo a ver “com o outro”, como solidariedade, bondade, piedade, amizade… pois não existiriam sem o outro. Mas, não poderia generalizar com a simples dedução. Por isso, prossegui na busca de significado no Aurélio (1ª ed., p.75). Para surpresa, não encontrei o vocábulo, entretanto explicava o significado de “alter ego”, no latim “outro eu”, ou seja, “amigo íntimo no qual se pode confiar, tanto como em si mesmo”.

A busca de outras fontes remeteu à Antropologia, que estuda “o homem inteiro” em todas as sociedades de forma contextualizada e salienta a importância da palavra “alteridade”. Todavia, a Antropologia, por estudar o Homem em sua plenitude e os fenômenos que o envolvem, é considerada a ciência da alteridade. Laplantine (2007), em sua obra, destaca a descoberta da alteridade, ou seja, a relação que nos permite identificar nossa pequena província de humanidade com a humanidade e, ao mesmo tempo, reconhecer o “outro” como semelhante, embora distinto com suas características peculiares. Ainda, a alteridade é distinta da empatia que “é identificar-se totalmente com o outro”.

Cortella (2015) refere-se à “capacidade de ver o outro como outro, e não como estranho”. Como somos para nós e para os outros? O autor exemplifica a arrogância como a incapacidade de alguém ter a visão de alteridade. Relaciona a arrogância e a ganância nessa perspectiva, explicando que a pessoa ambiciosa é a que quer mais, enquanto a gananciosa quer mais só para si.

Voltando ao termo, li que alter significa “o outro” e alius indica “o estranho”, termos que possibilitam entender o significado de: alienado, alheio, alien, alienígena, forasteiro e/ou estrangeiro para aquele que não é como nós ou assim considerado, evidenciando a não alteridade. A palavra também nos remete à filosofia de Platão, à lógica de Hegel e ao existencialismo do século XX.

Enfim, retornando ao caderno de anotações do Seminário de Pesquisa, observei ter escrito ao lado da palavra “alteridade”: a chegada do outro, fator humano e social, reconhecer-me também! Esta é a minha visão de alteridade!