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O Rio do Tempo

Por Rogério Gava

A metáfora do tempo como um rio é antiga. Há quase dois mil anos, Marco Aurélio, o imperador filósofo, escrevia: “O tempo é uma torrente impetuosa, como um rio que tudo carrega. Mal se vislumbra alguma coisa e ei-la que some. Surge outra, e já se vai também”. Mas a alegoria mais famosa sobre isso veio de Heráclito de Éfeso. O leitor deve lembrar: o filósofo grego comparava o fluxo da vida a um rio, em cujas águas era impossível banhar-se duas vezes. Parece pegadinha, mas não é: cada vez que entramos em um rio correm novas águas; assim, em cada mergulho o rio será outro (e nós também). Era esperto esse Heráclito.

O “Rio do Tempo” nos lembra que tudo flui, muda, se esvai. Nada permanece. Tudo o que é, imediatamente já começa a cessar de ser. Gosto da seguinte explicação dada por um pensador: “tente levantar um dedo no futuro: o dedo sobe e esse futuro já não é mais”. E em um milésimo de segundo o dedo em riste já será passado. Isso nos ensina que só existe o momento presente; esse momento que, tão logo ocorre, já desaparece. O presente em perpétuo movimento. Heráclito chamava essa constante transformação de “devir”. A eterna mudança de tudo.

Esse tempo que é mistério, que corre como um rio, não é o tempo que contamos em nossos relógios. Que marcamos em nossos calendários. “Chronos”, o tempo medido, é uma invenção do homem. Uma das maiores invenções humanas, aliás. Já pensou a confusão que seria viver sem os dias da semana? Sem as horas e minutos para organizarmos nossos compromissos? Tudo isso, porém, não passa de pura arbitrariedade. Tem o lado bom: isso quer dizer que as segundas-feiras não existem! E que nossa idade é mero ponto de vista. Em Mercúrio, por exemplo, o ano tem oitenta em oito dias: pelo calendário mercuriano, portanto, eu já teria passado dos duzentos anos. Já em Saturno eu ainda usaria fraldas…. Nossos relógios marcam uma ilusão. Vou devolver o meu na loja.

O Rio do Tempo é nosso eterno enigma. Um mistério que angustiava até mesmo Santo Agostinho: “Se ninguém me pergunta o que é o tempo, eu sei; mas, se me perguntam e eu quero explicar, já não sei”, dizia ele. O doutor da igreja, no entanto, sabia das coisas. Ele já advertia não haver passado, nem presente; tampouco futuro. Chamava o presente de “um nada entre dois nadas”. Algo que nunca chega a existir, pois está sempre deixando de ser, falava.

A verdade, enfim, é que nossa vida é um rio; o tempo, um “desva-rio”. Um delírio que nos assombra e encanta, indecifrável e impenetrável. Até mesmo para os filósofos e sábios. Talvez seja melhor mesmo deixar essa questão para os poetas, esses seres iluminados que a tudo clareiam com seus versos. Como fez o Drummond, quando escreveu: “Flui a vida como água, como água se renova. Se a vida me foge, afago-a em cada esperança nova”.

Passa o tempo; segue a vida. Corre o rio.

Primeiras Palavras: Carpe Diem de Botequim

 Rogério Gava 

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A máxima é conhecida: Carpe Diem. “Aproveita, colhe o dia”. Nos foi legada pelo poeta romano Horácio, que em suas Odes escreveu: “A vida é curta; abrevia as remotas expectativas. Mesmo quando falamos, o tempo, malvado, nos escapa. Aproveita o dia, e não te fies tanto no amanhã”. Uma verdadeira pérola de sabedoria.

Horácio escreveu esse texto há dois mil anos. Sua mensagem continua simples e encantadora. Pena que acabou mal interpretada. O Carpe Diem, coitado, virou sinônimo de puro hedonismo, de busca pelo prazer desenfreado. Afinal, se algum dia vamos morrer, o melhor é aproveitar ao máximo o aqui e agora. E que se dane o resto! É o “Carpe Diem de Botequim”, típico da conversa de bar. Pobre Horácio: ficaria triste em saber que rumo tomou seu ensinamento.

Nestes tempos vaporosos, onde o novo fica velho em um dia e os valores estão um tanto desbotados, o “Carpe Diem de Botequim” ganhou lugar de destaque: “Viva o hoje, esqueça do amanhã. Aproveite enquanto é tempo! Goze ao máximo! Afinal, você tem o direito de ser feliz”. O culto ao prazer instantâ- neo virou a religião moderna. Repare como ele domina a propaganda, os anúncios nas revistas e na televisão. Na internet. E vai entupindo a cabeça de todos nós, com a falsa promessa de que aproveitar a vida dessa forma exacerbada é o segredo da felicidade. Ledo engano.

Se tudo fosse “aproveitar o presente”, então para que se preocupar com as gerações futuras? Com nossos filhos e netos? Por que lutar contra as injustiças? Se preocupar com as crianças abandonadas, refugiadas? Com a corrupção que grassa? Para que, afinal, ser honesto? Fiel às pessoas que amamos? Se o negócio é aproveitar o dia, então, quem pode mais, chora menos! Eis justamente a falha do “Carpe Diem de Botequim”. Ele nos reduz a meros hedonistas festeiros, irresponsáveis, para quem curtir a vida é a única coisa que importa. Triste existência essa, subjugada pelo prazer egoísta e insensato.

O Carpe Diem legítimo tem outro significado. Ele nos fala que nossa existência é curta, sim, frágil como a chama de uma vela ao vento. Que não temos certeza de nada, a não ser do instante que estamos vivendo. E que, cientes disso, não devemos perder o momento presente. O Carpe Diem verdadeiro não propõe que esqueçamos nossos projetos, dando de ombros ao dia de amanhã. Tampouco que devemos nos atirar ao gozo de todas as nossas veleidades. Ele só nos lembra que somos mortais, e, ao final, o que importa é viver enquanto é tempo. É bom fazer planos, mas, sejamos honestos, não sabemos se vamos estar aqui para realizá-los. O certo, então, é seguirmos com eles, mas sem jogarmos a felicidade para algum ponto futuro. O que importa é o caminho; não a chegada. Mais vale a paisagem da estrada do que o próprio destino.

Horácio nos diz que o tempo não deve ser desperdiçado. Isso não significa, contudo, que devamos viver de forma irresponsável. Tresloucada. Pelo contrário: saber que a areia da ampulheta está escorrendo deve nos fazer viver “a cada dia o seu dia”. Sabiamente. De que forma? Por exemplo, quando não deixamos para amanhã aquilo que podemos fazer hoje, estamos sabendo “aproveitar o dia”. Quando, em meio à correria cotidiana, lembramos de dizer “eu te amo” para as pessoas especiais de nossa vida, estamos vivendo no verdadeiro espírito do Carpe Diem. Parar para contemplar o pôr do sol, admirar o firmamento estrelado, saborear uma refeição singela feita com carinho. Sentir o cheiro da grama molhada. Tomar banho de chuva e voltar a ser criança. Tudo isso é Carpe Diem.

“Tempus fugit”, cantava Virgílio – outro poeta famoso –, lembrando que “o tempo voa”, foge de nossas mãos. Colhe o dia, responde Horácio. Mas, colhe-o com sabedoria. Há que se viver o hoje, sem dúvida. Mas, não há que se querer fazer tudo neste exato instante. “Apressa-te lentamente”, diziam os sábios antigos. Isso nos ensina a passear pelo nosso singelo jardim sem perder tempo, mas saboreando o instante. Sem a ansiedade de querer percorrê-lo em um só dia. Querendo todas as flores que encontramos pelo caminho. O Carpe Diem autêntico nos lembra que colher flores, por certo, não é o mesmo que arrancá-las.

O Funeral dos Neandertais

Rogério Gava

sem-titulo-1Imagine o mundo há trezentos mil anos. Estamos em plena era glacial. O gelo recobre boa parte do que irá tornar-se a Europa. O frio é implacável e o alimento escasso. Nessa paisagem, uma cena perdida no tempo: em uma gruta próxima a um riacho, um grupo de Neandertais – nossos parentes longínquos – se prepara para mais um dia de labuta na inóspita Idade da Pedra.

Já amanheceu e o líder do bando, junto com dois companheiros, sai para garantir o almoço. As mulheres ficarão nas imediações do acampamento, cuidando das crianças e mantendo o fogo aceso. Não muito longe dali, no alto de um declive, os caçadores encontram um cervo desavisado. Uma presa relativamente fácil para os robustos e hábeis Neandertais. Eles escalam o morro com cuidado para não afugentar o animal. Mas, eis que um dos homens se desequilibra e cai lá de cima. Em pânico, os outros descem correndo a encosta para acudir o coitado. Encontram-no, no entanto, já sem vida, deitado ao sopé do monte.

O morto, porém, não será deixado aos abutres. A família Neandertal irá sepultá-lo em uma pequena cova aberta próxima ao acampamento. Antes de lançar terra à sepultura, as mulheres depositarão flores silvestres ao lado do corpo. Também alguns ossos e dentes de animais. Os companheiros ecoarão alguns sons, cobrirão o sepulcro e finalmente irão embora. Uma cena simples, mas com um significado grandioso: pela primeira vez na história, um grupo de homens acaba de enterrar um morto.

Até onde se sabe, os Neandertais foram os primeiros humanos a realizar sepultamentos. O porquê de agirem assim ainda é um mistério. Para alguns paleontólogos, isso evitava simplesmente que o cadáver atraísse predadores indesejados. Mas há aqueles que conferem a essa prática um significado especial: os Neandertais assim agiam por terem tomado consciência do fim. Por isso se preocupavam em celebrar a partida dos que pereciam. A tristeza pela morte inexorável; o sentimento de perda pelos que partiam: foi isso que fez com que os Neandertais passassem a sepultar os membros do grupo.

Discussões científicas à parte, prefiro essa segunda hipótese. É mais poética. Mais inspiradora. Gosto de pensar nos atarracados e fortes Neandertais se despedindo respeitosamente de seus mortos. Uma atitude que começou a separar o homem ainda mais dos outros animais. E que seguiu por centenas de séculos, até nossos dias. Uma atitude que ajudou, também, a nos tornar humanos.

A dúvida, no entanto, persiste. Os Neandertais tinham realmente consciência da finitude? Acreditavam na vida após a morte? Era por isso que sepultavam os mortos? Ninguém sabe ao certo. Talvez nunca saberemos. Perguntas sem resposta. Indagações que cercam o mistério do Alfa e Ômega da existência. Esse enigma que se põe diante do homem desde que, em um dia qualquer esquecido na história, um Neandertal suspirou diante do fim.