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Fake News: compartilhamento de notícias falsas é 70% maior do que informações verídicas

Associação Gaúcha de Rádio eTelevisão em campanha contra “notícias falsas”

As “fake news”, inglês para notícias falsas, são consideradas um dos maiores males da atualidade. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Massachussetts Institute of Technology (MIT), o compartilhamento de notícias falsas é 70% maior do que informações verídicas. O estudo analisou mensagens do Twitter do período de 2010 até 2017. Recentemente, o Facebook lançou no Brasil um programa de verificação de notícias em parceria com duas agências nacionais de checagem de fatos, a “Aos Fatos” e a Agência Lupa.

A ação da empresa foi motivada por investigações que apontaram o papel crucial de notícias falsas publicadas na rede social para o resultado das eleições norte-americanas, em 2016. No Brasil, correntes espalhadas pelo Facebook e também virilizadas no WhatsApp são cada vez mais comuns. Um caso notório recente foi o compartilhamento de um post publicado pelo Movimento Brasil Livre (MBL), que acusava o Facebook de contratar “agências esquerdistas” para decidir quais notícias são “fake news” no novo sistema da empresa. A publicação teve mais de cinco mil  compartilhamentos. Ao contrário do propagado, as duas agências constituídas por jornalistas independentes foram escolhidas por fazerem parte da rede internacional de checagem de dados, International Fact-Checking Network (IFCN), e não por filiação partidária ou posicionamento ideológico.

“Jornal, rádios, tv, internet. A busca por informação evoluiu, o acesso é rápido e fácil. Mudou, mas o que nunca vai mudar é a confiança nos veículos de comunicação. Conteúdo de qualidade com profissionais que você confia. Desconfie de conteúdos espalhados em grupos de redes sociais e sem assinatura. Busque sempre uma fonte confiável. Os veículos jornalísticos seguem com seus princípios. Atender e contribuir para que a sociedade tenha acesso a informação verdadeira”.

Esse é o texto da campanha “Fake News”, da Associação Gaúcha das Emissoras de Rádio e Televisão (AGERT). Composta por spots  de 30” e um vídeo para as redes sociais e sites das emissoras, a campanha está veiculando
em todas as rádios e canais de televisão do Rio Grande do Sul.

O diretor de Qualidade da AGERT, Sandro Padilha, ressalta que a entidade está promovendo a campanha em função da disseminação de notícias falsas em redes sociais, blogs, grupos de WhatsApp e sites sem assinaturas. “Estamos iniciando mais um período eleitoral, momento em que devemos ficar ainda mais atentos com a distribuição deliberada de boatos ou notícias falsas”, acrescenta ele. Padilha ressalta que os veículos de comunicação contam com profissionais preparados para a busca da informação, apuração de fatos e elaboração de conteúdo jornalístico de qualidade.

A origem das fake news

“A fake news, mesmo não sendo algo novo, está sendo potencializada pelas redes sociais”. A afirmação é do jornalista, doutor em comunicação pela Universidade Federal de Rio Grande do Sul (UFRGS), Leonaro Folet. Ele acrescenta
que notícia falsa existe desde que o jornalismo se institucionalizou, no século 19. O pesquisador em comunicação, cultura e tecnologia atribui a potencialização das fake news nas redes sociais a dois fatores. O primeiro é resultado de um paradoxo: ao mesmo tempo em que a internet possibilitou a multiplicidade de pontos de vista sobre os fatos, também proporcionou a produção de sites a baixo custo e a criação de portais que graficamente remetem a de um jornal, mas reúnem informações de outros lugares, distorcem ao seu modo e divulgam como conteúdo jornalístico.

O segundo fator são a “bolhas” criadas nas redes sociais, que, baseadas nos perfis, só mostram conteúdos de pontos de vista similares ao do usuário. “Aliado a esses dois fatores está o fato de que não somos educados a lidar com muitas informações e verificar a veracidade do que compartilhamos, costumamos acreditar naquilo que confirma o que pensamos. Como o mundo se tornando cada vez mais digital, está feito o cenário da onipresença das notícias falsas
que vimos hoje”, completa o jornalista.

Folet afirma que a eleição de Trump nos Estados Unidos e a quantidade de notícias comprovadamente falsas ligando a falecida vereadora carioca Marielle Franco ao tráfico de drogas são exemplos de como a disseminação de conteúdo mentiroso pode causar danos àsociedade e à política. O pesquisador ressalta que existe uma batalha sendo travada. “De um lado, diversas agências jornalísticas de checagem de informações têm surgido para por em prática processos confiáveis de verificação de informação. De outro, estão grupos ligados ao espectro político que querem convencer a todo custo seus eleitores de que são melhores do que os seus adversários, mesmo que para isso se use e abuse de notícias não checadas, declarações inventadas e eventos que não aconteceram”. Entre esses grupos ele destaca o
Movimento Brasil Livre (MBL). De acordo com um levantamento realizado pela Associação dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo (AEPPSP), os canais Jornal Livre e Ceticismo Político, ligados ao MBL, são os sites
de notícias que mais disseminam informações falsas na internet.

fakenewslogo

Era da “pós-verdade”

Há quem diga que vivemos na chamada “era da pós-verdade”. O termo, que se popularizou a partir de 2016, com a enorme profusão de notícias falsas nas redes sociais é considerado a definição de um novo tempo, em que as pessoas não acreditam mais em fatos comprovados como reais e apenas consomem notícias que confirmam o que elas já pensam. Acusações e alegações sem base, factual e científica, tornam-se mais comuns. Enquanto é normal aceitar a noção de que a verdade pode ser subjetiva, a era da pós-verdade repudia a ciência e profissionais “experts”.

De acordo com Folet, políticos comprovadamente desonestos e preconceituosos, que agridem diversos postulados de direitos humanos prescritos por organizações como a ONU, passam a ser exaltados neste ambiente. “A era da pós
”-verdade seria um período em que não adiantaria trazer informações aceitas como verdades pelos mais diferentes entidades, órgãos e pesquisas confiáveis, pois as pessoas não estariam dispostas a acreditar naquilo que não concordasse com a visão de mundo delas”, explica.

Fake news - boatos senadi1

Ações de combate às fake news

O Conselho de Comunicação Social (CCS) do Senado Federal realizou, no dia 21 de março, um debate sobre “fake news” e eleições 2018 em plenário.

Segundo o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Tarcísio Vieira, participante da reunião, a propagação
de notícias falsas é um dos três principais desafios da Justiça Eleitoral nas Eleições de 2018. O secretário-geral da
Presidência do TSE, Carlos Eduardo Frazão, afirmou que o TSE estabeleceu Conselho Consultivo sobre Internet
e Eleições com o objetivo de debater a adoção de instrumentos para amenizar os efeitos da divulgação destes
boatos. Já o presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Paulo Tonet Camargo,
defendeu a responsabilização criminal e civil para agentes disseminadores de notícias falsas.

Atualmente, existem 20 projetos de lei, 19 na Câmara e um no Senado, em análise para tratar do tema. Com penalidades que variam de multas a partir de R$ 1.500 a até oito anos de reclusão para quem disseminar conteúdo falso. Apesar disso, algumas justificativas das propostas, ironicamente, contêm informações falsas. Foi o apontado pelo LAB Fake, laboratório de experimentação em jornalismo desenvolvido na Casa Pública, também sede da Agência Pública.

Sem nenhum projeto aprovado, algumas empresas de jornalismo realizam ações e campanhas de combate às fake News, como é o caso da Agência Pública.

Como mencionado, recentemente o Facebook implantou novo sistema de combate à disseminação de notícias falsas no Brasil. No projeto, as agências de checagem de fatos parceiras da empresa terão acesso às denúncias de notícias falsas feitas pela comunidade e avaliarão a veracidade das informações. Se confirmada a falsidade, o conteúdo terá a  distribuição orgânica diminuída de maneira significativa na linha do tempo dos usuários – ou seja, irá aparecer menos. Além disso, páginas responsáveis por compartilhar conteúdo comprovadamente falso mais de uma vez serão penalizadas com diminuição do alcance de suas publicações.

O programa também irá notificar pessoas e administradores de páginas que tentarem compartilhar o conteúdo falso sobre o diagnóstico das agências sobre este material.