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O que é ser humano? É ser uma tarefa!

padre_ezequielPadre Ezequiel Dal Pozzo

O que nós sabemos sobre a vida? Tenho dúvidas a respeito do quanto as pessoas sabem sobre a arte de viver. O que me parece é que alguns apenas vivem. E vivem em relativa mediocridade. Estão no básico e não vão sair dele. Quando falo em básico não me refiro ao essencial. O essencial exige atenção, empenho, busca e me faz mergulhar na profundidade da vida. O básico é simplesmente viver sem perguntar-se sobre o porquê afinal estamos neste mundo.

A vida para que seja boa e verdadeira deve ser assumida como tarefa. Tarefa não é um peso. A vida deve ser leve, fluir, não se sobrecarregar e nem travar. Isso depende do nosso jeito de encará-la. Eu preciso assumir a tarefa de construção de mim mesmo. Não posso delegar a outros essa tarefa. Eu mesmo sou artífice da minha vida.

Somos seres inacabados. Estamos sempre em construção até o instante final. Podemos apreender de tudo e fazer-se e refazer-se a cada momento. Nenhuma pessoa que assume essa tarefa de ser sempre mais gente, dirá “já fiz tudo”, “sei tudo”, “não preciso mais aprender”. O fazer-se a cada instante envolve a humildade de ver sempre uma nova oportunidade de ser, fazer melhor, aprender com tudo no objetivo de ser o melhor que podemos. E o melhor que podemos ser é humanos. O humano, embora se diga sempre, “somos humanos, por isso erramos”, não possui aqui sentido negativo. Isso porque mesmo quando dizemos que o humano erra estamos falando a verdade. O que seria se não errássemos? O que seriamos se não tivéssemos a possibilidade real de crescimento? Por isso, humano é exatamente aquele que percebe essa possibilidade de crescimento e na humildade percebe que todos estão no mesmo caminho. Ninguém chegou lá ainda. Ninguém é perfeito. Aquele que se tornou humano é mais compreensivo, tolerante, acolhedor e inclusivo. Quem aprende a ser gente não exclui ninguém.

Se olharmos para Jesus, Ele primeiramente defende o humano. Ele olha e quer exaltar a característica comum a todos. Não se detém em rótulos, posição social, tipo de religião ou raça. Exatamente porque toca naquilo que é humano é que pode tocar a todos e salvar a todos. Se olharmos para o humano da pessoa e não para outras características, estamos olhando o mínimo humano. O mínimo humano é o elemento básico que aproxima toda a humanidade e faz com que nos demos as mãos.

O mínimo humano é ver na pessoa a grandeza e o valor independente disso ou daquilo. Por isso, antes de tudo assumamos a tarefa de sermos humanos e não outras coisas. O resto vem de acréscimo. Mas o nosso valor inviolável está em nossa humanidade, que é imagem e semelhança do Criador.

Alteridade: a visão do outro

ancilaAncila Dall´Onder Zat

Estava participando de um seminário de pesquisa qualitativa, quando tive contato pela primeira vez com o termo. Um tanto distraída anotei literalidade, mas a colega ao lado advertiu-me que era “alteridade”.

Fui ao dicionário Aurélio: “caráter ou qualidade do que é outro”. A explicação não era suficiente, porque pensava que outras palavras também tinham algo a ver “com o outro”, como solidariedade, bondade, piedade, amizade… pois não existiriam sem o outro. Mas, não poderia generalizar com a simples dedução. Por isso, prossegui na busca de significado no Aurélio (1ª ed., p.75). Para surpresa, não encontrei o vocábulo, entretanto explicava o significado de “alter ego”, no latim “outro eu”, ou seja, “amigo íntimo no qual se pode confiar, tanto como em si mesmo”.

A busca de outras fontes remeteu à Antropologia, que estuda “o homem inteiro” em todas as sociedades de forma contextualizada e salienta a importância da palavra “alteridade”. Todavia, a Antropologia, por estudar o Homem em sua plenitude e os fenômenos que o envolvem, é considerada a ciência da alteridade. Laplantine (2007), em sua obra, destaca a descoberta da alteridade, ou seja, a relação que nos permite identificar nossa pequena província de humanidade com a humanidade e, ao mesmo tempo, reconhecer o “outro” como semelhante, embora distinto com suas características peculiares. Ainda, a alteridade é distinta da empatia que “é identificar-se totalmente com o outro”.

Cortella (2015) refere-se à “capacidade de ver o outro como outro, e não como estranho”. Como somos para nós e para os outros? O autor exemplifica a arrogância como a incapacidade de alguém ter a visão de alteridade. Relaciona a arrogância e a ganância nessa perspectiva, explicando que a pessoa ambiciosa é a que quer mais, enquanto a gananciosa quer mais só para si.

Voltando ao termo, li que alter significa “o outro” e alius indica “o estranho”, termos que possibilitam entender o significado de: alienado, alheio, alien, alienígena, forasteiro e/ou estrangeiro para aquele que não é como nós ou assim considerado, evidenciando a não alteridade. A palavra também nos remete à filosofia de Platão, à lógica de Hegel e ao existencialismo do século XX.

Enfim, retornando ao caderno de anotações do Seminário de Pesquisa, observei ter escrito ao lado da palavra “alteridade”: a chegada do outro, fator humano e social, reconhecer-me também! Esta é a minha visão de alteridade!