Conexão PSI: Viver no virtual

A pandemia da Covid-19 nos trouxe mudanças radicais no modo de viver e se relacionar. No momento em que um vírus desconhecido e letal passou a circular no mundo, fomos obrigados a nos refugiar em casa para nos protegermos. O isolamento social forçado nos obrigou a reinventar o trabalho, a convivência, o lazer e o ensino-aprendizagem.

Em 2020, diante dos limites de uma doença para a qual ainda não se tinha vacina, os seres humanos adaptaram criativamente seu modo de vida, criando um universo que se pode dizer paralelo à vida real: a vida virtual.

Se é verdade que ainda estamos nos habituando, é preciso dizer que os avanços das tecnologias digitais e dos relacionamentos virtuais já vinham se desenvolvendo em diversos âmbitos, como as plataformas de trabalho e ensino virtuais, as redes sociais, os jogos virtuais e os aplicativos – inclusive de relacionamentos amorosos.

O que a pandemia fez foi nos empurrar de vez para esse mundo paralelo. Uma das realidades mais evidentes é que a nossa casa passou a ser conhecida por colegas de trabalho e de turma e o nosso trabalho ou a nossa escola, passou a ser frequentado por nossos filhos, familiares e até por nossos animais de estimação. Da cintura para cima: camisa, colares – da cintura para baixo: abrigo e chinelos. “Você está com o microfone desligado” pode ter sido a frase mais falada em 2020. A experiência nesse mundo virtual nos rendeu, com certeza, confusões e vexames, mas nunca foi tão fácil chegar numa reunião, num curso ou mesmo organizar um evento.

Na roda de conversa realizada pelo grupo de psicólogas da Conexão Psi – BPW Bento Gonçalves, na última segunda feira do mês de abril, a vida virtual foi discutida em todos os seus aspectos, rendendo, além de risadas, o aprofundamento da compreensão do que nos causa prazer e sofrimento.

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Prazer e sofrimento

Migrar nossa vida para o ambiente virtual foi, de fato, a salvação para mantermos as relações sociais, o trabalho e a vida escolar. Aprendemos a usar tecnologias que não nos interessavam outrora ou simplesmente não estávamos habituados. Amigos mais “pós-modernos” foram nossa alavanca para aprendermos a baixar aplicativos, fazer vídeo-chamadas, partilhar slides, mudar fundos de tela e toda a sorte de artimanhas digitais coloridas, engraçadas e necessárias. Em meio a um mundo externo caótico e perigoso, entramos no seguro mundo virtual, onde se chega do outro lado do mundo apertando algumas teclas.

Não há como não reconhecer que toda essa facilidade nos gera imenso prazer, pois nunca imaginávamos poder estar em vários lugares ao mesmo tempo, sermos mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Tempo e espaço se reconfiguraram. Até nós mesmos já não somos um só. A virtualidade nos permite ser duplos, triplos. Podemos estar assistindo um curso e arrumando a cama; podemos estar em duas reuniões diferentes, uma em cada ouvido; podemos controlar a água do feijão ao mesmo tempo em que damos opiniões sobre investimentos financeiros numa reunião de trabalho. E os filhos? Estão sempre por perto, geralmente sob nossa supervisão indireta e discreta, quando não gritam bem na hora que o microfone está aberto. Alguns se incomodam com latidos, choros de criança, marido alheio passando sem camisa por trás, outros já aprenderam a se divertir com quem não maneja bem, definitivamente, a nova tecnologia. 

Vivemos a sedução de, supostamente, fazer tudo que queremos fazer ao mesmo tempo e agora. Por outro lado, cresce a sensação de cansaço, sobrecarga e até a ansiedade ou sintomas depressivos. Quando vemos, estamos desanimados, quando vemos, estamos ansiosos, quando menos esperamos, parece que falta alguma coisa. E pode ser que falte mesmo. Nossa corporalidade, com seus limites e seus sentidos. Falta o toque e o abraço, mesmo que não falte a companhia, uma vídeo-chamada, uma mensagem. Falta a comunicação que fazemos através do nosso corpo, uma piscadela, um sorrisinho de canto de boca que só aquele colega de trabalho cúmplice percebe; aquela percepção de que é a hora de virar para trás e falar com o colega porque o professor não está vendo, aquela percepção de que é a hora de fazermos uma pergunta num curso, ou de calar… Falta tempo também. Tempo de fazer tudo que acreditamos que podemos fazer ao mesmo tempo. Então, estamos sempre correndo. Correndo mais que antes e correndo sem as pernas. Se usássemos as pernas, talvez percebêssemos quando estamos cansados, qual o nosso limite.

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Limites necessários

Nunca foi tão necessário estabelecermos limites. Ao lado do prazer de poder fazer muitas coisas e estar em vários lugares ao mesmo tempo, o excesso está nos levando à exaustão, à fadiga, à ansiedade. Se não cuidarmos podemos não perceber quando estivermos prestes a desenvolver um quadro emocional, um transtorno, até uma doença psiquiátrica. Sem os limites do nosso corpo, precisamos reconhecer limites subjetivos, principalmente aqueles que precisamos dar quanto ao nosso próprio desejo de poder. Nunca foi tão importante fazermos escolhas e entendermos que em cada uma delas existe uma renúncia. Precisamos da paz, por isso precisamos barrar os estímulos; precisamos da criatividade, por isso precisamos da falta e do tédio. Precisamos, enfim, aprender a tolerar, a aceitar e, por que não, a agradecer. Precisamos encontrar uma maneira de nos preencher do que realmente faz sentido para nós e para isso, precisamos nos conhecer.

O autoconhecimento é fundamental para viver no virtual. Ao final, esse caminho para fora, nos exige um caminho para dentro. A vida virtual nos convoca a estar cada vez mais atentos ao que mora dentro de nós, nossos valores, nossos ritmos, nossos limites, nossas escolhas. Sem isso, perdemos a identidade e sobrevém o sofrimento. “Seu microfone está ligado: primeiro, ouça a si mesmo”.

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