Manejo e criação de abelhas sem ferrão atrai cada vez mais adeptos

Por Rodrigo De Marco

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Nos últimos anos, uma prática sustentável tem ganhado cada vez mais adeptos no Rio Grande do Sul. É o manejo de abelhas sem ferrão. Uma alternativa, inclusive, para quem busca um passatempo e deseja ter um contato próximo à natureza, sem precisar estar numa área rural. No entanto, é preciso estudar e se informar sobre a forma correta de realizar esse manejo.

 

Pensando nesse público diferenciado, no dia 12 de dezembro, ocorre a 4ª edição do curso “Criação de abelhas sem ferrão: um hobby doce e sustentável”. O ministrante será o engenheiro agrônomo e especialista Johannes Humbertus Falcade. O curso ocorre nas dependências do restaurante Valle Rústico, em Garibaldi.

 

De acordo com Falcade, será um dia inteiro de aulas práticas. “O curso vai das 9h até às 17h30, onde serão passadas informações sobre todo o manejo de abelhas sem ferrão, para quem quer iniciar a criação. Ensinamos como transferir da isca para uma caixa. É importante lembrar que temos dois grandes grupos de abelhas sem ferrão manejáveis: as Meliponas e as Trigonas. Dentro dessas duas grandes famílias existem diferentes espécies. No Rio Grande do Sul são 24 espécies, no Brasil mais de 300 e no mundo umas quatro mil”, explica.

 

O curso será ministrado para um número limitado de 20 pessoas. A programação inclui almoço e degustação de diferentes tipos de mel. Ao final do dia, serão sorteadas três caixas de abelhas com enxames, prontas para a criação. Inscrição e informações pelo Instagram @vallerustico.

 

Um hobby para jovem advogado

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A curiosidade sobre o mundo das abelhas impulsionou o advogado Matheus Leites Bernardo, 29 anos, a adquirir e manejar abelhas sem ferrão. Além do prazer em manter contato direto com as abelhas, Bernardo descobriu a paixão por uma nova atividade. Confira a entrevista.

 

Como surgiu o interesse em criar abelhas sem ferrão?

Matheus: Sempre gostei de abelhas e tive noção da importância delas para o equilíbrio ecológico e para a dispersão e reprodução de espécies da flora. Até pouco tempo não tinha noção da existência de abelhas nativas sem ferrão, ou melhor, com ferrão atrofiado (não funcional). Achava que só existiam as abelhas apis comuns. Comecei a conhecer mais sobre elas há uns cinco meses, através do meu irmão, que passou a adquirir e a estudar abelhas nativas brasileiras.

 

Estás há pouco tempo nessa atividade. Ainda te considera um entusiasta?

Matheus: Meu interesse passou a aumentar à medida que vou descobrindo o amplo e incrível universo que é o da Meliponicultura. Considero-me, ainda, mais um entusiasta do que um conservador, hobbista ou empreendedor. Tenho apenas duas caixas na minha casa, uma de abelhas Jataí e outra de abelhas Manduri.

 

Qual a quantidade média de mel produzida por essas abelhas?

Matheus: A quantidade de abelhas nas caixas e de mel produzida depende da variedade de espécies existentes. As Manduris formam colônias de 300 a 350 indivíduos e podem produzir até três litros de mel a cada verão, dependendo das condições climáticas e geográficas e de um bom manejo por parte do meliponicultor. As Jataís formam colônias de mais de mil indivíduos e não produzem proporcionalmente tanto mel, embora este seja um dos mais apreciados e medicinal dentre todos.

 

A criação exige um cuidado especial ou uma pessoa sem técnica pode manejar facilmente em casa?

Matheus: Para mim, que me considero um hobbista iniciante e com apenas duas caixas, a criação delas é relativamente simples. É necessário, sim, ter conhecimento básico sobre a vida e o comportamento das abelhas sem ferrão, para que o cuidado e o manejo seja ideal para o bom desenvolvimento desses seres. Por exemplo, o verão é mais tranquilo para o meliponicultor, já que as temperaturas mais elevadas permitem às operárias sair para forragear (coletar pólen, néctar e resina). Então, elas mesmas “fazem o serviço”. É importante, nessa época, ter cuidado com a invasão de outros insetos na caixa, como pequenas formigas ou forídeos. Nas épocas mais frias do ano, é preciso estar atento, ajudando-as com suplementos de pólen e xaropes caseiros e naturais, que as auxiliam na produção de mel. Qualquer pessoa pode iniciar a criação de abelhas nativas, não é preciso uma formação específica em Biologia ou algo do gênero. Só é recomendável que a pessoa faça cursos e estude sobre o tema, para que possa ter sucesso na empreitada. Além disso, é necessário que haja uma fonte natural de água potável próxima (rios, arroios), ou mesmo artificial. Se o meliponário tiver um número realmente grande de caixas e espécies deve fazer o registro no Ministério da Agricultura.

 

Existe local ideal para colocação das caixas?

Matheus: É importante que as caixas estejam localizadas fora de casas ou apartamentos, em local mais elevado (para evitar possíveis predadores ou ataques de outros insetos) e com sombra. O ideal é que seja uma região arborizada e com plantas que  possam fornecer os recursos básicos, como néctar, pólen e resina.

 

Pretendes estudar ainda mais sobre as abelhas sem ferrão e, futuramente, aumentar a tua criação?

Matheus: A intenção, agora, é fazer um curso pela Embrapa, para ter melhor conhecimento sobre a meliponicultura, porque ainda há muito para aprender. É um universo fascinante. Pretendo adquirir mais caixas futuramente.

 

Na história do Brasil

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As abelhas nativas ou abelhas sem ferrão (ASF) já viviam no Brasil muito antes das espécies estrangeiras chegarem aqui. As melíponas povoam diversos biomas do território brasileiro, com mais de 300 espécies.

 

A meliponicultura é a atividade de criar abelhas deste grupo, diferindo da apicultura, que é a atividade de criação das abelhas Apis mellifera, popularmente conhecidas como “europeias” ou “africanas”.

 

Por volta do século XVIII, os jesuítas trouxeram abelhas da Europa do tipo Apis para o Brasil. O objetivo era produzir cera para as velas usadas nas missas. Na década de 1950, pesquisadores da Unesp levaram para o interior de São Paulo algumas abelhas da África, também do tipo Apis, que tinham bastante produtividade. Contudo, algumas abelhas, operárias e rainhas, escaparam do laboratório, indo parar diretamente na natureza. Do cruzamento com outras abelhas do tipo Apis – as europeias, surgiu o que conhecemos, hoje, por abelha Apis mellifera ou africanizada, sendo conhecida também pelo poderoso ferrão que possui.

 

Meliponicultura

É a criação racional de abelhas sem ferrão (Meliponíneos), especialmente das famílias meliponini e trigonini. Na meliponicultura, as colmeias são organizadas em meliponários, praticada há muito tempo pelos povos nativos da América Latina, em especial do Brasil e do México. Os objetivos da meliponicultura estão na produção e comercialização de colmeias (ou parte delas), mel, pólen, resinas, própolis e outros substratos como atrativos e ninho-iscas, além das abelhas serem os principais agentes da polinização e conservação da biodiversidade, ou simplesmente a proteção das espécies contra a extinção. Os povos indígenas já manuseavam as abelhas sem ferrão e utilizavam o seu mel para diversos tratamentos de saúde, entre eles a catarata.

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