A Guerra do Esporte

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

Um jogo é uma batalha de mentirinha, mas pena que muitos esqueçam disso.

 

A paixão pelo esporte é onipresente. Ou melhor, a paixão pela “competição” esportiva. Considerem – estimado leitor e cara leitora –  uma partida de futebol: o que vale aí não é se o jogo foi feio ou bonito, agradável ou enfadonho: se nosso time venceu (ou se classificou, mesmo que tenha empatado – ou até perdido – e jogado horrivelmente), estaremos satisfeitos. O que apreciamos é ganhar, apesar do discurso histórico de que o importante, ao final, seja competir. O fato é que somos obcecados pela rivalidade. Por que isso acontece? Por que esse verdadeiro “darwinismo esportivo”?

 

A explicação é simples: uma competição esportiva é, ao final, um substituto para a guerra. Um jogo é um conflito simbólico, uma batalha de mentirinha. Um combate artificial. Uma partida de futebol, por exemplo, é o eco de nosso passado primevo. Das lutas no Coliseu. Duvida? O que dizer então das pelejas da UFC, do MMA, boxe e pancadarias em geral? Homens das tribos afegãs jogavam polo com as cabeças decepadas de inimigos. No “Pot ta Pok”, espécie de futebol praticado pelos antigos Maias, do time que perdesse era escolhido um jogador para ser sacrificado. Evoluímos um pouco, por certo. Mas quantas vezes um jogo, uma competição esportiva, não viram uma batalha campal com saldo de mortos e feridos? Uma briga entre nações? Uma loucura sem qualquer controle?

 

Esporte é uma guerra de embuste, mas lida com o poder de verdade. Em 1936, Hitler quis mostrar ao mundo a supremacia da raça Ariana por meio do esporte. Para azar do ditador, eis que um negro americano – Jesse Owens – ganha quatro medalhas de ouro e se torna o grande astro da Olimpíada de Berlim. Ponto para a civilização. Mas fica a marca de que a competição esportiva tem muito de conflito, de mostrar a superioridade de um time, de uma cidade, de um estado, de um país sobre o outro. Guerra de mentirinha. Sem sangue (quase sempre), mas com muito suor e orgulho em jogo.

 

Já se entrou em guerra por causa do esporte, como ocorreu entre San Salvador e Honduras, em 1969. Os dois países, que na época já brigavam como gato e rato, tiveram seus níveis de hostilidade levados ao infinito após uma série de três partidas pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 1970. Foi uma guerra generalizada: jogadores, torcedores e imigrantes nos dois países foram expulsos, perseguidos e assassinados. As duas nações romperam relações diplomáticas e iniciaram o conflito. A guerra terminou sem vencedores quatro dias depois. Resultado: quase dois mil mortos.

 

A língua do esporte trai sua origem bélica: o atacante é “matador”; o time “trucidou” o adversário; os torcedores estão preparados para a dura “batalha” da decisão. O corredor “matou” os adversários no cansaço. Atacar, defender, brigar, desafiar, contra-atacar, bater, gritar, chutar, derrubar, agarrar, rebater, acertar. Todas essas expressões de guerra encarnadas em todos os esportes. Às vezes tudo isso foge do controle. Cai-se no fanatismo. E só lembrar as tragédias, os hooligans ingleses. Os mais de 100 mortos no estádio de Heysel, na Bélgica, em 1985, na final da Copa dos Campeões entre Juventus e Liverpool. O quebra-quebra em frente aos estádios. A necessidade de milhares de homens da Brigada nas arenas modernas. Exércitos de guardas contra exércitos de torcedores.

 

No esporte deve haver vencedores e derrotados: senão não teria graça. Deve haver rivalidade, e muita. Dá para imaginar um Brasil x Argentina sem clima de hostilidade? De antipatia mútua? Um GRENAL de sangue doce? Esporte é concorrência, é disputa entre tribos. É por isso que empate não tem graça. Só, é claro, quando classifica o meu time ou desclassifica o rival. Mais vale ver o adversário perder do que meu time ganhar, muitos diriam.

 

Enfim, competir fascina. Lutar contra inimigos também. É só ver o sucesso dos videogames entre as crianças e adolescentes. A concorrência empresarial. Isso faz parte de nossa natureza. Pensando bem, é bom que tenhamos o esporte para dar vazão a nossa agressividade. Nem que seja para tocar flauta no vizinho. Que nos gozará na semana seguinte, quando nosso time perder. E que fique só nisso. Jogo é divertimento. Apenas isso. E é sempre melhor brigarmos de mentira do que nos matarmos de verdade.

 

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