O Equívoco do Apolítico

Por Rogério Gava

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

 

Política é a mais antiga das profissões.

Millôr Fernandes (1923-2012), escritor e humorista brasileiro

 

Um amigo confessa: votará em branco. Está, me diz ele, desiludido com a política. Não tento dissuadi-lo. Tampouco concordo com ele. Pede minha opinião. Disse que escreveria uma crônica a respeito. Ei-la.

 

A desilusão com a política é grande. Tem razão de ser. Escândalos se empilham sobre escândalos. Políticos chafurdam na lama da corrupção e das negociatas. Tudo isso faz da política algo desprezível. Abjeto. Detestável. A política virou politicagem. O que nos resta fazer? Negar sua existência? Abstermo-nos de fazer nossa parte? Deixar a política para os políticos?

 

Nada disso parece ser a melhor saída. Ignorar a política e o que podemos fazer por ela é deixar pista livre para qualquer um. O fascismo e o nazismo floresceram sob as barbas de toda uma nação. O dar de ombros ao que fazem com a sociedade e com o Estado pode ser fatal. O apolítico, figura que por vezes nos tenta, é o avestruz social. Enfia a cabeça na terra, mas deixa a retaguarda desprotegida.

 

Quando não participamos, não podemos depois nos queixar de quem governa. Mesmo que as escolhas que temos nem sempre sejam as melhores. O “menos pior” é preferível ao pior de todos, é o que se diz. Parece ser verdade. E não fazer política é justo o pior. É dar carta branca aos imbecis, aos corruptos de carreira, aos escroques. Sempre é possível separar o joio do trigo. Possível e obrigatório. Mesmo que o trigo a escolher seja de segunda classe. Ademais, cada povo tem a colheita que merece.

 

Que a posição apolítica parece equivocada, não há dúvidas. Aliás, a própria natureza do apolítico guarda uma incoerência interna, no sentido de que não seria possível evitarmos totalmente a política, mesmo que a negligenciássemos por completo. A esse respeito, o falecido escritor João Ubaldo Ribeiro falou tudo:

 

“É impossível que fujamos da Política. E possível, obviamente, que desliguemos a televisão, se nos aparecer algum político dizendo algo que não estamos interessados em ouvir. Isto, porém, não nos torna “apolíticos”, como tanta gente gosta de falar. Torna-nos, sim, indiferentes e, em última análise, ajuda a que o homem que está na televisão consiga o que quer, já que não nos opomos a ele. O problema é que, por ignorância ou apatia, às vezes pensamos que estamos sendo indiferentes, mas na verdade estamos fazendo o que nos convém.”

 

Falar de política é sempre oportuno, ainda mais neste novembro de eleições. A eleição é o DNA da política. É a festa da democracia, como querem alguns. Uma eleição é o confronto de oposições. Não necessariamente boas e ruins, mas antes de tudo diferentes. A escolha na urna pressupõe, a priori, programas, ideologias, interesses, alianças (espúrias, ou não), urgências, e, por que não, preconceitos e crendices. É só ver o matiz que se interpõe entre a esquerda e a direita. Aliás, não raramente vemos políticos escorregando – sorrateiramente – para longe dos debates delicados. O posicionamento nem sempre rende votos. Isso prova o quanto é difícil – e ainda mais na política – defender convicções de forma concreta e honesta. Verdade e política nem sempre andam de mãos dadas.

 

Por tudo o que é e deixa de ser, a política não pede nem ilusão, nem desprezo. Iludir-se com a política é acreditar que ela deveria ser o território do bem, do compromisso abnegado. Acreditar que as ideologias são isentas de interesse. Desprezá-la, é desacreditá-la ao extremo, lançando política e políticos ao lança chamas. Há bons e maus políticos, assim como há bons e maus médicos, advogados, engenheiros e professores. A corrupção, a falsidade e a arrogância não são prerrogativas de nenhuma atividade humana. Felizmente, a justiça e o amor tampouco.

 

O desencanto com a política não deve nos levar ao canto da sereia da indiferença, da apatia e do marasmo. Quando a razão adormece, os maus políticos triunfam. Onde o espírito crítico inexiste, a manipulação grassa. Onde termina a política começa a politicagem. Picadeiro dos vigaristas e dissimulados. Dos pilantras profissionais. E é preciso, sempre, agir contra eles.

 

A política, portanto, é direito e, mais do que tudo, dever. Direito por uma sociedade mais justa e dever de lutar por ela. Construí-la. Transformá-la. Todos os dias.

 

Para os cidadãos, que somos, nenhuma tarefa me parece mais urgente.

0 respostas

Deixe uma resposta

Escreva um comentário
Sinta-se livre para contribuir

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *