Rogério-Gava

O Braço Esquerdo de Guilherme II

Por Rogério Gava 

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

Guilherme II (1859-1941), último imperador alemão e rei da Prússia, foi um dos homens mais poderosos de seu tempo. Belicoso, arrogante, de personalidade complexa e difícil, a verdade é que um defeito de nascença parece ter marcado para sempre a psicologia do Kaiser.

Ao nascer, sob fórceps, teve o braço esquerdo lesado de forma permanente (a chamada Paralisia de Erb), uma deformidade que tentou esconder pelo resto da vida. As fotos históricas mostram sempre o imperador disfarçando a sequela, seja segurando a mão esquerda com a direita, seja apoiando o braço em uma espada ou bengala. Alguns historiadores propõem que o caráter neurótico de Guilherme e sua patente soberba, deviam-se ao defeito que o imperador jamais aceitou. Impossível saber, hoje, em que medida o braço esquerdo atrofiado fizeram Guilherme II ser exato aquilo que foi.

Essa história toda me toca, pois tive exatamente o mesmo problema ao vir ao mundo. Por sorte, recuperei quase que por completo os movimentos de meu braço esquerdo, que, do ponto de vista funcional, pouco até hoje me limitou. Mas fico pensando em como um acidente desses na largada da vida pode moldar tudo o que somos e sentimos. Não é fácil lidar como nossos complexos. Como bem disse Freud, todos nos sentimos em haver para com a vida, com o destino a nos dever por nossas desvantagens, sejam elas reais ou imaginárias. E seguimos pela existência exigindo reparação às dores que trazemos do berço, lambendo nossos ferimentos de amor-próprio.

O braço esquerdo de Guilherme II, muito provável, moldou o curso da história. Da mesma forma como a sexualidade perturbada e reprimida de Hitler contribuiu para conformar o caráter doentio do Führer e o curso dos horrores por ele impetrados. Claro, nada, na vida, é assim tão simples, e a teia da história é formada por milhões de fios. Mas não podemos negar que somos e agimos, em muito, a partir do que as circunstâncias fizeram de nós.

Por sorte e felizmente, entretanto, a vida também cede espaço para que tenhamos escolha, senão de mudar por completo o que nos sucedeu, pelo menos de olhar diferente para o sucedido. Como ensina Luc Ferry, filósofo que muito admiro, “situação não é determinação”. Nossa liberdade, diz ele, “se define precisamente nessa capacidade que temos de jogar com as situações de origem”. Como diz o ditado, “o importante não é o que nos acontece, mas aquilo que fazemos com o que nos acontece”.

Nascemos em determinadas situações, ninguém há de negar; não somos, entretanto, totalmente determinados por elas. Escrevo essas linhas e meu braço esquerdo não perde em nada para o direito, deslizando pelo teclado normalmente. Poderia ter sido diferente, digo a mim mesmo, até muito pior do que foi. Quantas e quantas vezes vi e vejo pessoas que tiveram o mesmo problema, mas não a mesma sorte. Também, tenho que admitir por honestidade, que tudo poderia ter sido melhor, ou até mesmo nada ter ocorrido. Mas faço a escolha de iluminar mais a primeira hipótese. Aceitando o que aconteceu e me adequando ao que veio a partir daí. A aceitação, tenho aprendido, é uma das chaves da felicidade. Para além disso, nunca ninguém foi, nem mesmo o último e poderosíssimo imperador da Alemanha.

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