Sísifo

Por Rogério Gava

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

Na mitologia grega, Sísifo era o mais inteligente e astuto dos mortais. Certa vez, Zeus, deus dos deuses, incomodado com seu comportamento, lhe enviou Tânato, a Morte. Sísifo não se intimidou: enganou Tânato e o trancou em um calabouço. A partir de então, ninguém mais morreria, o que irritou ainda mais os deuses. Zeus, vendo aquilo, liberta a Morte e essa sai novamente ao encalço de Sísifo, e agora o alcança. Sísifo vai ao inferno, mas não se dá por vencido: lá consegue ludibriar Hades, guardião da morada dos mortos, e retorna ao mundo. Vive longa vida e morre de velhice. Mas seu castigo estava guardado: ao chegar ao inferno, e por ter logrado a Morte por duas vezes, ele é condenado a arrastar eternamente uma imensa pedra até o cume de uma montanha, só para vê-la rolar ladeira abaixo assim que próxima ao cume. E assim, nesse sobe e desce infeliz e sem sentido, estava colocada a maldição de Sísifo. Até o fim dos tempos.

 

O mito de Sísifo é uma das pérolas da sabedoria universal. Ele expressa uma experiência fundamental e que toca a todos os homens. Em pleno século XXI, todos sentimos a dor de Sísifo em nossa vida cotidiana. Isso porque, o mito nos fala da inutilidade de todos os nossos afazeres sob o Sol. Sísifo é o próprio Eclesiastes: cético e desesperançoso, às voltas com a falta de sentido de todos os nossos atos. Esse herói nos mostra que nada mais fazemos do que rolar a nossa pedra, o nosso fardo diário feito de labuta e rotina, até o dia em que a morte nos alcançará.

 

Nem tudo é amargura, no entanto, em Sísifo. Se soubermos olhar, há nesta história uma mensagem de perseverança e coragem. Camus, filósofo francês do absurdo, nos diz que na descida de Sísifo atrás da pedra também mora a alegria. Sim, não há como escapar da rocha descomunal – quinhão de todo homem, mas nela também habita o sentido da existência. “É preciso imaginar Sísifo feliz”, arrebata o filósofo. Enquanto a pedra despenca morro abaixo, Sísifo pode apreciar a paisagem, ele está livre – mesmo que temporariamente – e a pedra que se dane! O rochedo (a dor de viver) nada pode contra os momentos felizes que vivenciamos em nossa curta jornada pela Terra. Mesmo que a pedra tenha que ser novamente empurrada.

 

A pedra de Sísifo simboliza a vida como ela é, com seus percalços, fracassos, erros, medos, angústias e frustrações. Mas também com alegria, esperança, beleza, fantasia e, sobretudo, o amor. Há que se aceitar a pedra que rola montanha abaixo, após tanto esforço em com ela subir. Essa rocha, que para sempre despencará, desafiando nossa determinação. Mas desistir da pedra é pior do que ser esmagado por ela, pois então nada mais restará a não ser a falta total de sentido.

 

Sísifo nos ensina que não há sol sem sombra; luz sem escuridão. A pedra que sobe o morro é também aquela que de lá cai. É preciso aceitar o lado “pedra” da vida. Mas sem autocomiseração e, muito menos, complacência. É necessário atuar sobre a pedra, mesmo sabendo que, ao final, ela irá parar ao pé da montanha. Sísifo provou ser mais forte do que a pedra por nunca desistir de empurrá-la. A própria luta em face da pedra já tem todo o sentido de que Sísifo precisa. Isso vale a todos nós. Ao final, tudo é questão de como empurramos nossa pedra diária. Podemos fazer isso com amargura ou alegria.

 

A história de Sísifo faz lembrar o nosso poeta Drummond: “No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho/tinha uma pedra/no meio do caminho tinha uma pedra”. As pedras, esses obstáculos com as quais nos defrontamos por toda a vida, estão aí, é fato. Mas o poeta nos lembra que, se é certo de que haverá pedras, ninguém deve carregá-las consigo, no entanto. Não se colocam pedras em uma cesta, aumentando o peso da jornada. A existência já é pesada por si só. Pedras, lembremos, podem servir para construir uma escada. Uma casa. Uma catedral. Pedras, ao final, tem o sentido que damos a elas. Assim como na vida.

 

É preciso aceitar a pedra; arrastar a pedra; vencer a pedra. Camus tinha toda a razão: é preciso imaginar Sísifo feliz.

 

0 respostas

Deixe uma resposta

Escreva um comentário
Sinta-se livre para contribuir

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *