Rogério Gava

O Tempo que o Tempo Tem

Por Rogério Gava

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

O que é o tempo, afinal? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas, se me perguntam e eu quero explicar, já não sei.

 

Santo Agostinho, Confissões XI, 14

 

Tempus Fugit! O tempo foge, corre sem cessar. Mas, evadirá mesmo esse tempo? Passam realmente os momentos? Ou será esse fluir mais uma de nossas ilusões? Nascido com o próprio universo, o tempo nos abisma. Indecifrável e impenetrável, nos assombra e encanta. Sob nossos olhos dissolve-se o tempo. E com ele nossa compreensão.

 

O sábio Agostinho foi o primeiro a nos advertir sobre a ilusão do tempo. Para o bispo de Hipona, passado, presente e futuro são quimeras, equívocos de nossa consciência. Isso porque o passado nunca existe, justo por ser um momento que já não é. O mesmo vale para o futuro, que não existe, visto ainda não ser. Assim, o presente não passa de um ponto sem duração na linha do tempo. Para o filósofo da igreja, o presente que habitamos é, portanto, “um nada entre dois nadas”. Pesada essa!

 

Pensemos no tempo dos relógios, o tempo que rege nossa vida. Se o presente é feito de segundos, esses segundos serão sempre divisíveis, ininterruptamente. A matemática não falha: um trilionésimo de segundo é um espaço de tempo muito pequeno, por certo, mas mesmo esse espaço absurdamente exíguo poderia ser dividido outros trilhões de vezes. Para sempre. É lógico, portanto, pensar que o presente nunca chega a existir. O presente é um futuro (que ainda não é) que se transforma incessantemente em passado (que já não é mais). Um nada, portanto, pois nunca chega a durar de fato. Efetivamente, não há presente. É louco, eu sei, mas faz sentido, o leitor concorda?

 

Se o presente, então, é esse nada, o que diabos é o instante que habitamos? É justamente uma passagem eterna entre um nada que não é e um nada que já não é mais. Dedução tão simples quanto desconcertante. O tempo, dessa forma, assume a natureza de tudo o que temos, o momento perene que chamamos de “agora”. O “eterno agora”, para usar a expressão maravilhosa criada pelo grande teólogo Paul Tillich. É o eterno devir, professado pelo grego Heráclito há mais de vinte e cinco séculos. Tudo muda, tudo se esvai. Tudo o que é, imediatamente já começa a cessar de não ser. O tempo nos ensina a não perdermos tempo. Tempus Fugit: Carpe Diem. O tempo foge… aproveite o dia. Os gregos sabiam das coisas…

 

Sejamos honestos: a verdade é que não sabemos o que é o tempo. Ele é tal e qual a Esfinge de Édipo, sempre a nos provocar. Até mesmo Einstein acabou dando o braço a torcer ao tempo, afirmando que sua passagem deveria ser vista como uma mera percepção da consciência, sem, portanto, qualquer significado físico concreto.

 

Enfim, o tempo, desde que é tempo, segue indecifrável. Como disse o filósofo Whitehead: “é impossível meditar sobre o tempo e o mistério da passagem criativa da natureza sem uma emoção avassaladora diante das limitações da inteligência humana”. Sábias palavras. O tempo – exista ele, ou não – será para sempre um mistério.

 

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