memórias

CONTANDO MEMÓRIAS

Pedro Maria Gonçalves

Esta coluna, assinada com o pseudônimo de Pedro Maria Gonçalves, foi criada para reportar histórias engraçadas e fatos pitorescos ocorridos em Bento Gonçalves e outros municípios da região, com os nomes dos envolvidos devidamente preservados. A proposta é de resgate de memórias de histórias ainda não registradas, para legado à posteridade. Se você, caro leitor, souber de fatos e histórias do perfil editorial da coluna que mereçam ser registrados, nos contate na redação. Vamos adorar reportar!

tourada

A tourada que não aconteceu

Vou começar contando a história de uma tourada que não aconteceu, na década de 1960, época em que a população de Bento Goncalves girava em torno de 35 mil habitantes. Eu tinha entre 10 e 11 anos de idade. Era uma tarde muito fria. Brincávamos na rua quando vimos diversos caminhões chegando em um terreno baldio, situado na esquina da rua 13 de Maio, com a General Osório, que era utilizado por circos que visitavam a cidade. Os recém chegados levantaram uma paliçada, uma espécie de cerca de madeira grossa. Aí instalaram uma arquibancada e se formou uma arena, e nós olhando. Vendo nossa curiosidade infantil, falaram que à noite ia ter tourada no local. As touradas tinham sido proibidas pelo presidente Getúlio Vargas, na década de 1940. Mesmo assim, aconteciam clandestinamente, de forma itinerante. Eles não tinham touros. Em cada cidade alugavam um de matadouro para o evento. Eu não tinha dinheiro para o ingresso, que aconteceria às 8 horas da noite, mas meu padrinho pagou e lá fui eu, todo feliz, ver a novidade. O público, de cerca de 150 pessoas, lotava as arquibancadas, enfrentando um frio medonho. Não sei como foi a divulgação, mas funcionou. O touro, alugado em um frigorífico local, foi transportado de caminhão até a arena improvisada. Desceu do veículo, que estava de ré, empacando na entrada. Tanto o toureiro como as pessoas que tinham transportado o touro tentaram, de várias maneiras, forçar a movimentação do animal. A plateia gritava que o touro era velho. Ficaram lá por 30 minutos tentando movimentar o animal, de várias formas. Só faltou botar fogo embaixo do rabo dele.  Aos organizadores, restou cancelar a tourada. A maioria queria o dinheiro do ingresso de volta. Eles enrolaram, prometendo o espetáculo para a noite seguinte, com outro touro.  Mas, no dia seguinte já não tinha ninguém lá.  Chegaram ao entardecer e sumiram ao amanhecer.

O eucalipto voador

Outro fato malogrado que nos anos 1960 presenciei com amigos de infância foi uma tentativa de derrubar um eucalipto com duas bananas de dinamite, numa área urbana arborizada, com árvores frutíferas, na esquina da rua General Osório, para continuidade da rua 13 de Maio, que ligaria o Centro ao Botafogo.

 

Essa era uma tarde, como tantas outras, em que nos reuníamos sentados no muro onde atualmente está localizado o Clube Corintians, quando vimos dois homens entrando no bosque, parando ao lado de um grande eucalipto. Logo após começaram a perfurar o tronco do eucalipto, com arco e pua. Sentindo que iríamos presenciar algo estranho, nos entrincheiramos num terreno baldio nas imediações. Não deu outra. Eles colocaram as dinamites nos furos do caule do eucalipto e acenderam o estopim. O eucalipto subiu como um foguete, caindo do outro lado da rua, derrubando a rede elétrica de 22 mil volts, que abastecia toda a cidade. Foi um forte estouro, com faíscas para todo o lado, sendo que a terra ficou esturricada. A cidade ficou mais de um dia sem luz, pifaram motores de indústrias, foi uma zona total.

Compadecidos com o artista

Nos meados dos anos 1970 era raro acontecer, na cidade, shows de artistas de projeção nacional. Por isso, fiquei surpreso ao me deparar com um cartaz no Aliança anunciando uma apresentação do cantor, compositor e escritor carioca Jorge Mautner* no clube, para logo mais à noite. Até hoje não sei quem promoveu a vinda do artista ultraesquerdista ao município, em pleno regime militar. Sei que eu era uma das seis pessoas da plateia, que ficou compadecida com o artista pela situação. Foi então que alguém deu a ideia de levar ele para se apresentar num baile que iria acontecer no Susfa. Fui um dos que se dispuseram a acompanhar Mautner até o clube para providenciar a apresentação dele durante a festa. A presidência do clube ficou honrada, após uma breve apresentação do currículo do artista e o conjunto que tocava o baile logo dividiu o palco. A maioria dos que estavam no local não conhecia as músicas de Mautner e aí pela terceira interpretação alguém começou a vaiar, seguido por muitos. Fiasco total!

 

*Jorge Mautner ingressou no Partido Comunista Brasileiro em 1962. Foi preso em 1964 como ativista político. É liberado, sob a condição de se expressar mais “cuidadosamente”.  Em 1966, vai para os Estados Estados Unidos, onde trabalha na Unesco, na tradução de livros brasileiros. Conhece Paul Goodman, sociólogo, poeta e militante pacifista anarquista da nova esquerda, de quem recebe significativa influência. Em 1970, vai para Londres, onde se aproxima de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Volta ao Brasil e começa a escrever no jornal O Pasquim. Nesta época, conhece Nélson Jacobina, que seria seu parceiro musical nas décadas seguintes. Em 10 de dezembro de 1973, no período mais duro da ditadura militar, participa do Banquete dos Mendigos, show-manifesto idealizado e dirigido por Jards Macalé, em comemoração dos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

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