teatro

Os desafios do teatro em tempos de pandemia

Por Rodrigo De Marco

rodrigo@integracaodaserra.com.br 

@sr_demarco 

“Teatro é como sexo. É uma coisa que a gente diz: quero isso para mim”. A frase é da atriz Cristiane Torloni e resume o vício e o tesão de quem faz teatro, do ator que brilha no palco, independente do cachê que recebe. Em tempos de pandemia, no entanto, os palcos fecharam as cortinas e os artistas tiveram que encontrar alternativas para manterem a chama da arte acesa. No dia 19 de setembro é celebrado o Dia Nacional do Teatro e para recordar a data e de quem faz arte na região, o Integração da Serra conversou com atores que têm demonstrado irreverência e criatividade para driblar as dificuldades de um ano de palcos vazios. Conversamos com o professor, bailarino e ator Moacir Corrêa, com a atriz e diretora cênica Juliana Gedoz Tieppo e com o ator e professor multifacetado garibaldense, Guilherme Carniell.

Guiga

Guiga: o ator das múltiplas cores e faces

Se teatro é tesão e um vício, certamente Guiga está entre os atores que mais experimenta e aproveita cada centímetro do palco

 

Guilherme Carniel, o Guiga, já interpretou inúmeros personagens, dos mais diversos estilos e características. A alegria e energia deixada nos palcos é apenas um detalhe no trabalho do ator. Atualmente é um dos artistas da Companhia Teatral Acto, que conta com nove atores e atrizes.

 

Conte um pouco sobre tua história de vida e a ligação com a arte.

Guiga: Sou Guilherme Carniell, nascido e criado em Garibaldi. Eu sempre gostei de criar cenas, desde pequeno. Conforme fui crescendo, foram surgindo experimentações cênicas no bairro, na catequese, na escola e eu sempre estava metido e liderando projetos culturais. Hoje eu percebo como a arte sempre foi muito presente em minha vida. Já fiz vários personagens bíblicos, posso dizer que minha carreira de ator começou na catequese com as encenações de Páscoa e Natal. Na adolescência eu comecei um curso de teatro, mas precisei parar por questões de agenda. Então, na vida adulta, já cursando a graduação de Publicidade e Propaganda, a Cia Teatral Acto abriu vagas para seletiva de atores e atrizes. Sem perder tempo me inscrevi e passei. Isso foi em 2015, quando o teatro fazia parte de uma noite da minha semana, eu via essa arte mais como hobby ou um passatempo, um momento para relaxar. Porém esse hobby foi virando paixão e, quando eu vi, estava me matriculando no curso profissionalizante de atores e atrizes da Escola de Teatro Tem Gente Teatrando, de Caxias do Sul. Foram dois anos de estudos e práticas teatrais que abriram a minha mente e me fizeram focar nessa carreira cada vez mais. Hoje, sou ator e publicitário. Também atuo como professor de teatro no Espaço Coletivo das Artes, dando aula para crianças, adolescentes, adultos e uma turma virtual, com alunos até de São Paulo. Além disso, participo do elenco da Cia Teatral Acto, Grupo de Teatro Hora Vaga, Coletivo de Artistas Feixe de Vime e Grupo Cênico Orelhas de Abano. E hoje, eu tenho 100% de certeza que o teatro foi o principal responsável pelo Guilherme que eu me tornei.

 

Fale sobre a história da Companhia Teatral Acto.

Guiga: A Cia Teatral Acto surgiu em setembro de 2013 na cidade, por uma demanda da própria comunidade, interessada no estudo e prática da arte cênica. Seu plano de trabalho contempla o desenvolvimento das técnicas artísticas, o estímulo e o exercício de criatividade e da percepção, o desenvolvimento do trabalho em grupo, do improviso. Desde sua fundação, tem a direção da atriz Manuela Guerra e, atualmente, conta com os subsídios do Fundo Municipal de Cultura, da Prefeitura de Garibaldi. Montagens da Cia Teatral Acto: A Maldição do Vale Negro (2014), As Cartas Não Mentem Jamais (2016), iClown (2018), As Aventuras de Dara e Pinguinho (2019) e Um pobre, um louco, um milionário (2019). Além das peças, o grupo já montou esquetes teatrais, saraus literários, intervenções artísticas e animações de festas e eventos.

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Guiga, sei que és apaixonado pela arte que desenvolve no teatro. Quando e como foi que começaste a te interessar pelos palcos e a pensar em ser ator?

Guiga: Eu sempre gostei de me apresentar, na escola e tudo mais. Mas acredito que foi no início de 2017 que comecei a me ver como ator profissional. Logo depois disso surgiu o curso profissionalizante pela Tem Gente Teatrando, que me mostrou todas as possibilidades de trabalhar com teatro, não apenas em cena.

 

Quais foram os personagens que interpretaste que mais te marcaram na carreira?

Guiga: Essa pergunta é difícil, eu poderia listar aqui todos personagens que já fiz, cada um tem uma história e foi importante para mim num momento específico da minha vida. O Nino, por exemplo, lá de 2016, foi o primeiro personagem de uma produção grande, ele era o protagonista do espetáculo musical As Cartas não mentem jamais. Durante a preparação dessa peça, eu vivi tanta coisa e o Nino acabou amadurecendo muito nesse período. Da fase do curso profissional, tenho dois personagens guardados no meu coração: o Bobo da Corte, da peça Rei Lear, do Shakespeare é um deles. Até então eu sempre tinha feito comédia, estava empolgado por fazer tragédia e observar como seria meu desempenho num drama. No final, eu recebi o papel do Bobo (risos), e foi ótimo. Esse papel deu dimensões do meu corpo como eu nunca tinha reparado anteriormente. O segundo personagem do curso, foi o que eu criei para o meu trabalho de conclusão, o benzedeiro. Foi um projeto 100% autoral, cenário, texto e personagem, e o principal motivo desse monólogo foi homenagear meu avô Jusa, que é benzedeiro. Toda a trajetória de criação desse personagem foi extremamente íntima e pessoal. No dia da estreia, em uma cena em que eu benzo a plateia, me direcionei ao meu avô e o benzi. É um momento que ficará marcado para sempre em minha memória. E o último, que mais amo, é o Le Guilhotim, um personagem criado para a peça Um pobre, um louco, um milionário, da Cia Teatral Acto. Tenho um carinho imenso porque foi um trabalho construído do zero praticamente, com a direção da Manuela Guerra e da Simone de Bordi. O Le Guilhotim mostra um lado meu que tento esconder no dia a dia, mas que em cena fica perfeito.

 

Além de atuar, sei que és extremamente envolvido com movimentos culturais de Garibaldi. Na tua opinião, o que poderia ser feito pela cultura para fortalecer ainda mais a cena artística da cidade?

Guiga: Além de ator e professor de teatro, desde o ano passado atuo como presidente do Conselho de Políticas Públicas Culturais (ConCult) de Garibaldi. É um trabalho às vezes cansativo, mas que dá frutos gratificantes, como foram as Lives da Cultura, um projeto que teve como parceria a Secretaria de Turismo e Cultura e a Associação Allegro. Tenho certeza que a cena artística local seria mais fortalecida com a união cada vez maior da classe. As lives mostraram o peso e o impacto da cultura garibaldense e muitos artistas entraram em contato com o ConCult. Além do mais, agora estamos em período eleitoral, é de extrema importância cobrarmos dos candidatos alternativas para a pasta da cultura e propor ideias também. Exigir a Casa de Cultura, leis e editais para promover a economia criativa. A arte salva, mas é preciso lutar para salvá-la.

 

Quais são os principais desafios de atuar?

Guiga: O principal desafio é a exposição, parece um pouco óbvio, não a exposição de subir num palco, na frente da uma plateia. A exposição que eu falo é de se permitir ser observado e julgado. Muitos processos de construção de personagens são extremamente pessoais: resgate da infância, relembrar algum trauma, desgaste físico e emocional. Não é simplesmente decorar um texto e pronto. Além disso, por ser ao vivo, precisamos estar atentos a tudo, qualquer coisa pode acontecer durante uma apresentação, seja de palco ou de rua, ou até numa live. Uma vez, por exemplo, um colega de palco deslocou o ombro em cena e precisamos continuar sem ele. Além disso, aprender a lidar com a crítica e saber ouvir os outros. Afinal, ator tem o ego inflado (risos), então é preciso ter muito cuidado para não cair na linha egocêntrica.

 

Tu achas que atores e artistas de uma forma geral ainda sofrem bastante preconceito? Como tu observas a realidade do teatro na Serra Gaúcha?

Guiga: Acredito que muita gente não vê o artista como um profissional. Um exemplo disso são cachês com valores baixos ou pedir para fazer algo de graça. Além disso, a classe artística depende muito de editais para sobreviver. É raro encontrar algum artista com um salário fixo mensal. Outro fator que contribui para esse preconceito é a valorização do artista internacional, mas o artista que atua na tua cidade é esquecido. Porém, mesmo assim, a classe artística regional luta e resiste. Um exemplo disso foi a criação de um grupo com representantes culturais das cidades da Serra Gaúcha para debatermos ideias sobre o setor e levá-las à Secretaria de Cultura do Estado. Enfim, é muito importante o apoio da população para enaltecer os artistas da região.

 

Qual foi o principal impacto da pandemia no teu trabalho de ator e como foi driblar as dificuldades de 2020?

Guiga: A pandemia foi e está sendo um momento bem difícil. Aos poucos estamos nos adaptando a interagir e se apresentar para uma câmera, mas faz falta esse contato com o público, olho no olho. Sempre falamos que metade é o ator e metade é a plateia. E agora a nossa metade é o olho de uma lente. O principal impacto que eu vejo são as salas de ensaio vazias, que estão retomando aos poucos as atividades em bandeira laranja. Desde março tornamos as aulas presenciais em virtuais, metade dos alunos não conseguiram acompanhar por questões financeiras ou por não conseguirem se adaptar. E se adaptar, sem dúvida, é o mais difícil nesse momento. O teatro tem muito contato humano, e transmitir isso por uma vídeo-chamada está sendo um desafio. Mas precisamos resolver nossos problemas e pensar em possibilidades. Por isso, está sendo interessante fazer parte desse movimento de “reinvenção” do teatro. Hoje me sinto muito mais preparado e maduro como professor de teatro por ter mantido minhas turmas em ambiente virtual e já ter apresentado espetáculos por meio de lives. É um desafio, mas se aprende muito com ele. Tem artistas falando que estamos vivendo um novo período renascentista e, em partes, concordo com essa teoria. O processo de adaptação é desgastante e repleto de incertezas, mas quando vemos os resultados e percebemos que conseguimos impactar a vida de alguém, durante uma pandemia, por meio de vídeo, isso nos motiva a continuar pesquisando formas de fazer arte.

 

Como tem sido realizar as lives da cultura?

Guiga: Foi um projeto imenso, pensado, planejado e executado em tempo recorde. Acredito que o principal legado dele foi mostrar como Garibaldi está repleta de artistas e que temos material cultural de qualidade. Além disso, participar de um projeto que proporciona ao artista uma possibilidade de se apresentar com estrutura de qualidade e dar visibilidade foi incrível. Conheci muita gente e muita gente conheceu o ConCult, principalmente. Por mais que 2020 tenha sido um ano conturbado para a classe artística, sinto que 2021 vai ser agitado, porque tem muito projeto sendo feito, ideias sendo criadas e muita vontade de voltar aos palcos, para a rua, para as aglomerações e, podem ter certeza, que a classe artística garibaldense já está se aquecendo para esses novos projetos.

 

Moa

Moacir Corrêa: mais de 40 anos dedicados à arte

Um dos atores com trajetória ímpar e diferenciada tem décadas de atuação e prêmios conquistados por diversos trabalhos. De personalidade forte e um perfeccionismo digno dos grandes artistas, Moacir Corrêa, o Moa, como é carinhosamente conhecido, coleciona peças, trabalho, história.

Conheça um pouco mais sobre esse grande artista.

 

Conte brevemente sobre sua história no teatro?

Moa: Me apaixonei pelo teatro quando fui pela primeira vez, aos 9 anos assistir a uma peça (O Rapto das Cebolinhas) no antigo Cine Marco Polo. Fiquei fascinado pela magia naquele palco. Saí da apresentação e coloquei na minha cabeça que um dia eu iria fazer Teatro. Em meados de 1970 eu iniciei na Escola Polivalente, hoje Escola Landell e lá subi pela primeira vez no palco para dançar e fazer Teatro e nunca mais parei. Participei do 1º Festival de Teatro de Bento Gonçalves e segui até a 7ª e última edição. Participei do primeiro Curso de Teatro em Bento com um professor do Rio de Janeiro e continuei participando de outros cursos e oficinas por aqui e em outros lugares. O meu primeiro prêmio como Ator ganhei em 1984 com a peça O Pequeno Príncipe atuando com sete personagens. A partir daí vieram muito mais prêmios como Ator, Ator Coadjuvantes, Diretor, Figurinista e Melhores Espetáculos. No final da década de 1980 resolvi apostar no Teatro Profissional, até então eu fazia teatro e tinha outras profissões como a Militar e depois Carteiro. Foi uma época bastante dinâmica porque também estudava dança na Escola Renascença de Dança e Cantava num Coro (eu era Tenor). Enfim, do final de 1970 até o final da década de 1990 eu realizei muita coisa no campo do Teatro, Dança e Canto. Foi muito produtivo. No ano 2000, eu e minha mestra em dança moderna Cecy Franck criamos o Centro Integrado de Artes Cênicas o qual ficou estabelecido no centro da cidade por 9 anos. Muitas crianças sem poder aquisitivo e adultos também, tiveram o privilégio de fazer aulas de dança, canto, teatro e capoeira gratuitamente com ótimos professores que acreditaram no projeto. Me graduei e me pós graduei em Dança. Fiz alguns aperfeiçoamentos e dei aulas se dança fora do país e apresentei Teatro também no exterior. Hoje sou o artista cênico mais antigo da cidade em atuação. Coloquei muita gente no palco seja no Teatro ou na Dança e algumas estão por ai ainda hoje no mundo das artes.

 

Que idade tinha quando começou a se interessar por teatro e quais foram as principais influências?

Moa: Não tive nenhum artista na família, portanto nenhum referencial, e como eu comentei, aos 9 anos assisti a minha primeira peça e me apaixonei. Subi no palco pela primeira vez em 1975 quando tinha 11 anos de idade. A peça O Rapto das Cebolinhas de Maria Clara Machado, que foi a primeira peça que assisti e a principal influência para me apaixonar pelo teatro. (Meu primeiro momento mágico)

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Tu tens mais de 40 anos de carreira e dezenas de peças realizadas. Quais são os trabalhos que mais te marcaram até hoje e qual o legado que deixaram para tua vida?

Moa: Nesta minha trajetória foram inúmeras montagens teatrais e conhecendo muita gente que me ajudaram a realizar os trabalhos. Lembro que naquela época eu catava literalmente, pessoas na rua para fazer teatro. Preparava elas e escolhia o texto que iria representar. Muitas destas pessoas ganharam prêmios de ator nesta época e continuam até hoje no teatro. Uma inclusive mora e trabalha com Teatro nos Estados Unidos. Em 1981, eu estava no exército e participei do Grupo Causas & Efeitos, foi maravilhosa a experiência neste grupo. Lembro quando fomos apresentar a peça O Templo das 7 Confissões em Santa Catarina na casa do autor da peça, Rio Apa. Eu fazia um mendigo que incorporava uma entidade maligna e morria no final, porém, na apresentação, o autor que estava assistindo na plateia criou um personagem na hora e ele entrou no palco, me ressuscitou e nos digladiamos e improvisamos o final. Ele quem matou o personagem. Foi uma experiência fantástica que me marcou pois improvisei com o próprio autor. Outro momento emocionante foi quando eu apresentava uma peça infantil na Escola Cenecista e quando acabou a peça, já estávamos saindo da escola quando um garoto autista me abordou e entregou um desenho que ele fez de mim e disse que eu era o herói dele “O Homem máquina”. Me emocionei!

 

Tu já realizaste inúmeros espetáculos natalinos. Poderias dizer que esse é um dos estilos de peça que mais gosta de fazer?

Moa: Montei muitos espetáculos natalinos em Bento Gonçalves, Santa Tereza, Pinto Bandeira, Monte Belo do Sul, Arvorezinha, Ilópolis, Nova Roma…enfim, entrei no espirito natalino…heheheh! Mas eu adoro mesmo são peças infantis, acho que as crianças ajudam a viajar na estória e elas são muito sincera quando gostam ou não. Quando eu entrei de cabeça na profissão, eu escrevi peças infantis e algumas com parceria de minha amiga Ivone Balsan, para apresentarmos nas escolas. Fazíamos o verdadeiro “caça níquel”. Escrevíamos e montávamos os cenários e figurinos dos nossos trabalhos nas férias e em março agendávamos nas escolas, com 4 apresentações no dia. Corríamos de escola em escola. Fazíamos um circuito anual.  Era cansativo, porque eu ainda era aluno na Escola de Danças e participava do Grupo da escola.  Mas foi prazeroso e divertido!  Foi o que me ajudava a pagar as contas e comprar os meus alimentos naquele período.

 

Me recordo das aulas que ministrava no centro de Bento na primeira década dos anos 2000. Quais são as lembranças e qual a comparação que poderias fazer com 2020?

Moa: Pois é, e você também chegou a fazer uma oficina de teatro comigo lá, não é? Eu adoro recordar os belos trabalhos que montamos no Centro Integrado. Foram aulas de Ballet, Dança Moderna e Contemporânea, Jazz, Capoeira Teatro e Expressão Corporal, Música, canto, Oficinas abertas ao público, Saraus, espetáculos de Dança e Teatro e apresentações de bolso que fazíamos ali mesmo no espaço com preços acessíveis ou gratuitos. Nós levamos os grupos para Festivais de Dança e Teatro. Fomos bastante premiados.  Foi possibilitado muita aula gratuitas para muita gente ali com o apoio da Fundação Casa das Artes e Prefeitura. E nenhum de nós éramos funcionários público. Acho que consegui realizar os objetivos do projeto junto com diversos colegas artistas que confiaram e acreditaram em mim. Sem eles não teríamos feito a história acontecer. Ninguém realiza um projeto deste porte sozinho. Sou muito grato aos companheiros que participaram.

 

Tu tens realizado lives e aulas no formato online?

Moa: Sim. Eu dei aulas para meus alunos de Dança e Alongamento. Este ano também sou convidado pelo Bento em Dança para dar aula online com Live. Mas não sou fã deste formato.

 

Como poderias classificar o Moacir professor e artista nesse 2020 marcado pela pandemia?

Moa: A pandemia atrapalhou a vida de todo mundo e principalmente para nós que somos artistas que precisamos de uma audiência. Ainda bem que antes desta loucura toda, eu pude relaxar um pouco e dar um pulo até a Argentina para visitar meu amigo Miguel Angel Klug, que é o primeiro bailarino do Teatro Argentino de La Plata. Foi uma experiência incrível. Aproveitei e dei aula de dança para alguns bailarinos da Companhia. Pessoas de um talento fenomenal. Em seguida de minha volta entramos em quarentena e tudo parou. Consegui dar algumas aulas on-line. E justo neste ano em que eu recebi diversos convites para realização de trabalhos, a pandemia empatou! Fui um dos profissionais convidado para o 27º Seminário de Arte e Educação na Universidade Estadual. Também havia iniciado um trabalho de preparação técnica para dançarinos, tive que interromper. E até uma gravação de um vídeo clip seria rodado em minha casa, teremos que remarcar. Enfim, ainda bem que grande parte destes projetos foram remarcados e já acertamos novas datas.

 

O que a arte representa na sua vida e quais são as suas projeções para 2021?

Moa: Não sei o que seria de mim se não fosse as Artes. Há um turbilhão de ideias que se aflora dentro de mim e que precisa de vasão. Se não fosse a Arte eu teria pirado de vez, entrado em colapso emocional, ou sei lá… sucumbido! Eu preciso estar fazendo alguma coisa: Escrevendo, coreografando, projetando alguma obra seja ela nas artes cênicas ou artesanais, ou simplesmente curvado sobre meu jardim plantando e arrumando os canteiros. Espero realizar todos estes projetos de 2020 e mais alguns que surgirem em 2021. Estou envelhecendo, mas ainda com uma mente bem esperta e voraz para a realização de novos projetos de vida e profissional.

 

Juliana

“A principal regra da arte é que não tem receita”

Diretora cênica Juliana Gedoz Tieppo fala os desafios da arte

 

No último ano tu apresentaste a peça Não Há Ninguém, recortando as diversas facetas da violência ao longo do espetáculo. De que forma surgiu a ideia de criar essa peça e quais foram os principais desafios para abordar um tema tão delicado?

Juliana: O grupo resolveu tratar dessa temática por estar atento a realidade que nos cerca. Começamos o trabalho no início de 2018, e desde então acredito que essa temática é cada vez mais importante. Percebemos a violência como um tema muito potente e instigante para a criação, por perpassar o cotidiano de todos nós. Exploramos a multiplicidade de violências, não somente aquelas ligadas a agressividade, mas também a inércia e o silêncio, as violências instauradas na estrutura da nossa sociedade, as violências disfarçadas de afeto ou brincadeira, enfim, são muitas possibilidades, é um tema muito amplo e instigante. Sobre as dificuldades em relação ao tema, não houve. Cada colaborador esteve atento à relação entre a temática e seus contextos sociais, mas em nenhum momento estávamos executando um processo de catarse das violências da vida dos envolvidos, visto não serem utilizados aspectos psicológicos ou autobiográficos no processo. Na verdade, eu acredito que o principal (bom) desafio foi escolher dentro do grande leque de criações que foram feitas, quais usaríamos para formatar um espetáculo.

 

Já pensaste em produzir e encenar num mesmo trabalho?

Juliana: Eu não seria produtora e encenadora de um mesmo projeto, porque são línguas diferentes. Eu costumo dizer que o produtor é quase um tradutor. Existe o universo artístico e existe um outro universo de fundo de natureza econômica, busca de recursos, organização, logística, orçamento. São dois mundos muito distintos e um precisa do outro. Se torna um pouco difícil ocupar as duas produções num mesmo projeto. Cada um tem que estar focada em coisas diferentes. A principal regra da arte é que não tem receita, cada um tenta de uma maneira diferente. Em projetos que atuo como direção eu prefiro não atuar como produção e vice-versa.

 

De que forma tu poderias avaliar o auxílio emergencial da Lei Aldir Blanc, considerada de extrema importância para classe artística?

Juliana: Esse auxílio emergencial é muito importante porque em primeiro lugar temos que reconhecer os trabalhadores da cultura como trabalhadores. E o próprio setor é um setor que gera renda, desenvolvimento, emprego, além de valor agregado. Além das coisas subjetivas que sabemos que a arte traz, é um setor econômico importante. É preciso falar para o restante da sociedade do quanto o setor da cultura é importante para a economia e que gera muito dinheiro, trabalho e desenvolvimento. Ter uma lei que apoia isso, em primeiro lugar reconhece a importância dos trabalhadores e da cadeia produtiva. É importante entender que é uma lei pontual, é uma leia emergencial, vale para esse ano. Ela tem um fim emergencial. Foi uma que foi construída de uma maneira muito bonita porque teve o engajamento de todos artistas de nosso país. Precisamos pensar em políticas públicas e leis da cultura em outros momentos também, não só nesse momento emergencial.

 

Como observas a articulação da Secretaria de Cultura de Bento na obtenção de parte desses recursos para artistas da cidade?

Juliana: Acho que vai muito bem, visto que Bento entrou no primeiro lote dos recursos, e só conseguiu entrar no primeiro lote porque teve o plano aprovado, e Bento foi um dos primeiros a mandar. Ainda quando a lei estava em tramitação no congresso já se falava sobre isso. Nós temos uma secretaria que não trabalha sozinha, trabalha com conselho, sociedade civil e que dialoga bastante. Ela faz bastante pela cultura e vejo uma boa vontade por parte dos trabalhadores públicos e por isso tem esse reconhecimento. Temos que estar sempre pensando e repensando. Sempre tem coisas para melhorar. Eu avalio de maneira muito positiva e acredito que é um universo que está tentando fazer mais, inclusive.

 

Qual foi o impacto da pandemia no teu trabalho e planos como artista?

Juliana: Sabemos que a pandemia afetou todas as artes, principalmente as artes cênicas. Existe uma grande dificuldade nesse ponto. Particularmente vi vários espetáculos online. Em março teve muita disponibilização de gravação de teatro na internet, e ao longo do tempo isso foi se transformando até o momento de termos espetáculos pensados para ambientes online, sala de plataformas de streaming. Tivemos espetáculos que não poderiam ser realizados no âmbito físico, de maneira tradicional. São novas possibilidades e um novo campo que se abre e teste para uma nova linguagem. Eu acho que precisamos entender a particularidade de cada artista. A arte é um lugar de multiplicidade muito grande e qualquer padronização é fadada. Mas tem grupos que estão usando esse período para se aprofundar em pesquisas teóricas, tem artistas que estão usando o período para estudar e se voltar para outros pensamentos. É um período difícil e os projetos de 2020 não é criar projeto, mas sobreviver.

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