dia do gaucho 2

Bento Gonçalves vivencia evento com oficinas online e drive-in

Por: Rodrigo De Marco

rodrigo@integracaodaserra.com.br

Edição: Kátia Bortolini

katia@integracaodaserra.com.br

Momento presencial ocorre com o Cinema no Parque, na ABCTG

com o tema “Gaúchos sem Fronteiras”, os Festejos Farroupilha 2020 estão sendo vivenciados no formato online, devido às medidas sanitárias relativas a contenção da pandemia do Coronavírus. O tema do evento objetiva a ampliação do conhecimento da sociedade gaúcha sobre as raízes históricas do Rio Grande do Sul e a manutenção das tradições entre aqueles que migraram para outros estados e países, mas cultivam, no seu dia a dia, os hábitos da cultura gaúcha.

 

Em Bento Gonçalves, a programação, repleta de atrações, começou no último dia 13, com homenagem à tradicionalista Ivete Dalla Valle e show de Lisandro Amaral, seguindo até o dia 20, com lives de oficinas transmitidas da ABCTG, na Linha Sertorina, sobre Chimarrão, Culinária Campeira, Churrasco, Encilha, Charque, Danças Gaúchas de Salão e Declamação. A atividade presencial será a do Cinema no Parque. O drive-in ocorre no dia 18 de setembro, às 20 horas, na sede da ABCTG. No telão, o filme Tropeiro Velho, estrelado por Teixeirinha e Mari Terezinha. O ingresso é um quilo de alimento não perecível.

 

O Integração da Serra, motivado pela importância dos Festejos Farroupilha na manutenção e ampliação da cultura gaúcha, conversou com tradicionalistas que vivenciam os Festejos em grande estilo. Confira os depoimentos do professor e tradicionalista Álvaro Machado de Mesquita, do empresário Leandro Magnaguagno, proprietário da loja Recanto Nativo, especializada em produtos voltados à cultura gaúcha, da homenageada Ivete Dalla Vale e do patrão do CTG Laço Velho, Sérgio De Toni.

Álvaro Mesquita

 

“O início foi pela poesia”

Um dos ícones da cultura gaúcha em Bento Gonçalves, Álvaro Machado de Mesquita cultiva a tradição desde os 14 anos

 

O professor Álvaro Machado de Mesquita, 81 anos, natural de Lagoa Vermelha, um dos ícones da cultura gaúcha em Bento Gonçalves, se apaixonou pelas tradições aos 14 anos, em atividade estudantil, declamando uma poesia de Jaime Caetano Braun em homenagem a Paixão Cortes, um dos fundadores do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG).

 

“Era o ano de 1955, eu estava na rua lendo o Diário de Notícias e lá tinha uma poesia de Jaime Caetano Braun. Estava com a bicicleta parada na frente da escola, olhando o jornal, quando uma professora chegou e disse que eu tinha sido escolhido para declamar uma poesia para o Paixão Cortes, que visitaria a escola. Eu tinha apenas 14 anos. Aceitei e comecei e me preparar para a apresentação. Bem pilchado, subi ao palco para declamar a poesia. O sucesso da apresentação me motivou ao cultivo das tradições gaúchas”.

 

“Quando mudei com a família, de Osório para Bento Gonçalves, para lecionar no Colégio Aparecida, um tio que já residia no município e foi um dos fundadores do CTG Laço Velho, em 27 de agosto de 1957, me incentivou muito a participar do movimento tradicionalista local. Quando ingressei no Laço Velho, fui recebido como patrão da Estância de Osório”, conta.

 

Hoje, após mais de seis décadas, o professor e tradicionalista, com enorme prestígio no município e região, segue atuante em prol da manutenção da cultura gaúcha. Para ele, os festejos de 2020 demonstram que, mesmo no formato virtual, as comemorações da Semana Farroupilha estão ocorrendo com enorme sucesso e representatividade. “O importante é manter a tradição. Hoje podemos afirmar, com orgulho, que existem mais de 1.500 CTGs filiados ao Movimento Tradicionalista espalhados pelo mundo, inclusive na Rússia e na China. O lema desse ano expressa essa representatividade”, conclui.

Ivete Dalla Valle

IVETE DALLA VALLE

A homenageada dos Festejos 2020

 

Neste ano, a homenageada dos Festejos Farroupilha em Bento Gonçalves é a tradicionalista Ivete Dalla Valle. Desde muito jovem apreciava música e frequentava bailes e festas junto com seus pais e familiares, onde aprendeu os passos de dança. De caráter plural, exerceu por 30 anos a profissão de bancária e a de professora em escolas particulares. Iniciou sua participação no Movimento Tradicionalista depois de frequentar bailes no CTG Laço Velho, onde foi convidada, juntamente com sua irmã Iraci, a fazer um curso de Danças Gaúchas de Salão. Após recebeu o convite para ingressar na Invernada Artística do CTG Laço Velho. Logo em seguida, Ivete passou a fazer parte da Patronagem (Diretoria) do CTG Laço Velho como Sota-Capataz (Secretária), Diretora Cultural e integrante do Departamento Campeiro, secretariando todos os Rodeios na parte campeira. De lá para cá, Ivete participou de diversos eventos em cidades do Rio Grande do Sul e também fora do país, como Uruguai. Na 11ª Região Tradicionalista atuou como diretora do Departamento Cultural e secretária por várias coordenadorias.

 

Neste ano, és a homenageada dos Festejos Farroupilha em Bento Gonçalves. Como estás vivenciado esse momento?

Ivete: Ser a sexta pessoa e a segunda mulher a receber esta homenagem aumenta minha responsabilidade como tradicionalista. É desnecessário dizer da honra e alegria em ser a homenageada dos Festejos Farroupilhas de 2020, mesmo que realizados de uma forma tão diferente. O trabalho está longe de terminar, pois há muito a se fazer pela tradição, mantendo a essência e, principalmente, aceitar as mudanças e acompanhar os tempos modernos para não nos tornarmos obsoletos.

 

Já recebestes inúmeras homenagens e honrarias. Alguma em especial?

Ivete: Todas as homenagens que recebi foram muito importantes. Representavam momentos distintos que estavam sendo vividos. Cada um deles de valor inigualável. Ser a homenageada dos Festejos 2020, pela prefeitura de Bento Gonçalves e ABCTG, representa a valorização de toda minha trajetória no tradicionalismo. É o reconhecimento do trabalho que sempre busquei realizar com dedicação, de forma íntegra e com muito amor.

 

Como surgiu o interesse pelo tradicionalismo?

Ivete: Iniciei minha participação no Movimento Tradicionalista quando fui convidada, juntamente com minha irmã Iraci, a fazer um curso de Danças Gaúchas de Salão, promovido pelo MTG e que habilitava a ministrar aulas de danças de salão, sendo este o primeiro curso do gênero na 11ª Região Tradicionalista. Seguiu-se o convite para ingressar na Invernada Artística do CTG Laço Velho. Em seguida, passei a fazer parte da Patronagem do CTG Laço. Posteriormente, fui convidada a desenvolver palestras, fazer parte de comissões culturais, secretarias e a ser avaliadora de concursos. Com o convívio nos Centros de Tradições Gaúchas, percebi que são espaços de integração, onde nos reunimos para reviver os costumes e tradições. São locais de acolhimento, onde procura-se respeitar as diferenças individuais. Isso fez com que passasse a gostar cada vez mais dessa participação.

 

Como está sendo a experiência de vivenciar esses festejos de forma virtual?

Ivete: Quando abrimos os Festejos Farroupilhas desse ano ressaltamos que 2020 está sendo marcado por momentos muito difíceis. Nunca em minha vida imaginei que teríamos que manter distância das pessoas que amamos. Que nos abraçaríamos de longe e aprenderíamos a sorrir com os olhos. Nos damos conta que, devido a pandemia, o Movimento se tornou mais tecnológico, com atividades online. Sem a cuia passando de mão em mão, sem abraços, sem danças, transformamos as redes sociais em galpões virtuais. E isso não vai mudar totalmente. Esse será o futuro. As redes sociais que antes nos afastavam, hoje são as ferramentas mais usadas para nos aproximarmos de quem e daquilo que gostamos.

 

Qual é a atual representatividade das mulheres no tradicionalismo?

Ivete: Desde os primórdios do Movimento Tradicionalista Gaúcho, tivemos a participação feminina, seguindo o exemplo das mulheres gaúchas que mantiveram a economia do Estado, em tempos de guerras, pois os homens partiam para a luta e as mulheres mantinham as estâncias produtivas. A mulher, com o passar dos anos, foi conquistando seu espaço, antes timidamente e depois de forma mais atuante, se fazendo necessária, pela competência, trabalho e dedicação. As pioneiras foram desbravando e conquistando os espaços, antes ocupados por homens. Já temos mulheres exercendo o cargo de Conselheiras, Coordenadoras Regionais, Vice-presidentes e, neste ano, pela primeira vez na história do Movimento, tivemos duas mulheres pleiteando o cargo máximo dentro do MTG. Hoje, o MTG está sendo administrado por uma mulher.

 

Qual é a representatividade do dia 20 de setembro na Revolução Farroupilha?

Ivete:  A data de 20 de Setembro não é somente para festas. Setembro é um mês cívico, de reflexão e agradecimento pelos que deram suas vidas para o Rio Grande do Sul conquistar o respeito merecido pelos governantes. Nos utilizamos do ufanismo e das festividades para conscientizar nossas crianças e jovens de que temos cultura e tradição rica, que somos um povo diferenciado, trabalhador e aguerrido.

 

Considerações gerais.

Ivete: Uma história de vida não se faz sozinha. Muitas pessoas fizeram parte dessa caminhada. Por isso, agradeço a todos que possibilitaram que eu viva esse momento. Aos meus pais, por serem visionários e, numa época bem diversa, ensinaram que o estudo e o conhecimento eram o caminho. Aos meus familiares pelo apoio, incentivo, por sempre acreditarem em mim e pelos exemplos a serem seguidos. Aos meus amigos e tradicionalistas, agradeço o companheirismo e o comprometimento. Sou grata à ABCTG e sua diretoria, aos coordenadores da 11ª Região Tradicionalista, aos CTGs de Bento Gonçalves e região e ao Movimento Tradicionalista Gaúcho por me fazerem crescer como ser humano e pelas oportunidades e valorização da minha história. Agradeço, também, à imprensa pela divulgação de todo nosso trabalho. Gratidão ao Poder Público Municipal por apoiar e incentivar a causa tradicionalista.

gaita e bombacha

Gaita, paixão e bombacha

Apaixonado pela cultura gaúcha, o comerciante Leandro Magnaguagno, trajado com sua indumentária, alegra eventos tocando gaita

 

Desde quando participas ativamente do movimento tradicionalista?

Magnaguagno: Desde o ano de 2004, quando iniciamos nossa trajetória no comércio, com a inauguração da Recanto Nativo, na época com espaço reduzido e pouco mais de 300 itens à disposição dos clientes. Desde então nos engajamos nas entidades da cidade e região para ajudar no fomento à cultura e manutenção de nossos costumes. Fui diretor de Eventos e de Divulgação da 11ª Região Tradicionalista (RT), integrante do Conselho de Ética da 11ª RT, organizador dos Festejos Farroupilhas de Bento Gonçalves por dois anos, 2008 e 2011, e desde 2012 sou instrutor de Danças Gaúchas de Salão, responsável pelas aulas no CTG Laço Velho. Desde 2017, com a ajuda de mais dois casais, Guilherme Greselle e Mariana Dal Mas, Regis Arcari e Paula Masiero, atendemos também outros CTGs e entidades da cidade e região, além de prepararmos coreografias para casamentos e aniversários. 2020 iniciou com agenda lotada de eventos, bailes e formaturas programadas para o ano todo. Surpreendidos com a pandemia do Coronavírus, todos cursos foram suspensos e os eventos cancelados ou adiados, sem previsão de volta. Neste momento de distanciamento controlado percebemos, nas manifestações em redes sociais e nos poucos contatos mantidos, que o amor pelas coisas da nossa terra permanece aceso e vivo dentro dos gaúchos. A ansiedade de retomarmos as nossas rodas de chimarrão, de nossas aulas de danças e dos fandangos nos CTGs é grande, mesmo sentimento de todos os integrantes das invernadas e departamentos das entidades.

 

Como defines os Festejos Farroupilha?

Magnaguagno:  Como momento de enfatizar ainda mais nossa cultura, nossos usos e costumes.

Recanto fachada

 

Com a pandemia e os festejos no formato online, houve uma diminuição nas vendas da Recanto Nativo?

Magnaguagno: Sim, a pandemia está afetando muito, as vendas diminuíram cerca de 80%. No entanto, vamos nos reinventando e criando algumas formas para poder passar por este momento delicado.

 

Vocês têm apostado em vendas online? De forma geral, foi uma estratégia para driblar esse momento de dificuldades?

Magnaguagno: Não focamos em sites, só através das redes sociais, mas sim, estamos atendendo desta forma. Muitos produtos estão sendo enviados para o Brasil todo.

 

A loja conta com quantos itens?

Magnaguagno: Atualmente a loja conta com mais de 5.000 itens, desde utensílios para o churrasco e chimarrão, como gamelas, tábuas, facas, espetos, cuias, bombas e outros acessórios. Também atende na linha de indumentária, bombachas, botas, lenços, chapéus, vestidos para prendas e prendinhas e muitos outros artigos de artesanato relacionados com nossa cultura.

 

No período dos Festejos Farroupilha se observa o acréscimo de pessoas usando a indumentária gaúcha?

Magnaguagno: Sim, procuramos usar a nossa indumentária durante o ano todo. Nesses dias, ainda mais, para tornar presente às novas gerações a presença da cultura em nossa vestimenta.

 

O que tu poderias dizer para quem ainda não conhece a Recanto Nativo e busca uma referência para a compra de uma indumentária de destaque?

Magnaguagno: A Recanto Nativo está sempre à disposição dos peões e prendas de Bento Gonçalves e região. Prezamos pela qualidade no atendimento e em todos nossos produtos, com boas condições de pagamento e ótimos preços.

de toni

Sexta Farrapa no CTG Laço Velho

Patrão do CTG Laço Velho, Sérgio De Toni, ressalta que as redes sociais estão ajudando a entidade a enfrentar esse ano atípico

O CTG Laço Velho sedia muitos eventos. Qual era a previsão da programação para esse ano?

De Toni: Tínhamos previsto um ano repleto de atividades e eventos, com uma vasta programação artística, cultural e campeira. Porém, em março, fomos surpreendidos pela pandemia ocasionada pela Covid-19. Tivemos que cancelar todas as atividades até o momento.

 

Quais as ações realizadas pelo CTG para driblar o momento de crise?

De Toni: Fizemos um organograma de fluxo de caixa, tomando medidas de contenção de despesas, cancelando as atividades artísticas e campeiras onde tinha professores e músicos contratados. Reduzimos o quadro de funcionários, dando uma atenção ainda maior para as despesas.

 

Quais são as programações ainda para 2020 e as projeções para 2021?

De Toni: Temos expectativa que as atividades possam retornar antes do final deste ano. Ainda temos alguns eventos programados, como jantares, bailes e shows. Há também grande expectativa dos integrantes das invernadas, que estão desde o último mês de março sem ensaiar e participar de rodeios. Estamos otimistas, acreditando que a situação irá se normalizar em 2021, para que possamos retomar com todas as nossas atividades. Já temos eventos programados para o ano de 2021, além de outros projetos, como uma pesquisa histórica dos 63 anos do Laço Velho, para a publicação de um livro, além estarmos projetando um festival estadual de danças tradicionalistas. Será uma grande novidade em nossa cidade e região.  Nosso CTG, em especial, está programando a “Sexta Farrapa”, que acontecerá todas as sextas-feiras à noite na sede do Laço Velho, onde estaremos comercializando pratos típicos da culinária gaúcha, mas sempre respeitando todos os protocolos de segurança para combate a Covid-19, onde o cliente poderá ficar um pequeno período conosco ou retirar o prato no local.

 

O que o CTG Laço Velho representa para sua vida?

De Toni: Ingressei no Laço Velho no ano de 1998. Desde então me dedico muito à entidade. Já fui vice, tesoureiro, coordenador artístico. Esse é o meu terceiro mandato como Patrão. O Laço Velho é parte da minha vida, tanto pessoal quanto profissional. É como se fosse minha segunda casa, pois é onde passo a maior parte do meu tempo. Graças ao meu trabalho junto ao CTG, já recebi prêmios, homenagens e o reconhecimento da comunidade, mas nunca fiz tudo sozinho, sempre tive todo apoio das patronagens e dos departamentos.

Filhos Leandro (2) Ok

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