Rogério Gava

Virtutes Sabbato

Por Rogério Gava

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

Um escritor já partido, psicanalista, observa: “há aqueles momentos em que uma inquietante incerteza nos invade, quando nossa identidade vacila… naqueles instantes em que nos perguntamos: O que faço eu aí?”. Não poucas vezes nosso “eu” parece se dissolver, e aí já não sabemos quem somos. A sensação lembra a loucura, embora, há tempos se diga, o medo de enlouquecer seja o melhor antídoto contra a perda da razão. O desamparo (apavorante) de não se sentir “eu mesmo”, a presença de algo (alguém?) que não sabemos o que (quem) é. A angústia sem face, a falta sem rosto, o absurdo sem forma, esses rochedos intransponíveis e cujo topo nos desafiam desde o sempre. Contra eles, ainda bem que existe a realidade de pedras, paus e contas a pagar.

 

Leio e reflito: “tudo o que se precisa saber sobre a vida está no Eclesiastes”. Concordo. O poema de Qohelet, o pregador, “o que sabe”, o que fala na assembleia (de onde, “Eclesiastes”, pelo grego ekklesia, raiz latinizada de nossa “igreja”, a assembleia dos crentes), nos instiga há mais de dois mil anos. Nós, latinos, o conhecemos sob o slogan de São Jerônimo, eternizado na Vulgata: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Se não carente de sentido (vanitas, a vaidade, também é vazio, vácuo; basta observar o “oco” das pessoas “cheias de si”), devo confessar que nunca me convenceu. Foi ao descobrir outras traduções do hebraico que a mensagem do pregador brilhou: “vapor de vapores, nada de nadas, névoa de nadas, fumaça de sentido”. Verdade do Eclesiastes: tudo é corrida contra o vento, tudo se dissipará e nada vale a pena. Até a própria sabedoria, pois sábios e néscios terão o mesmo destino: a sepultura e o esquecimento. O Eclesiastes é o canto da desesperança e do ceticismo. Estranho que tenha passado ao crivo dos censores do cânon, aliás. Como já se disse, é um Nietzsche antes de Nietzsche, o filósofo do martelo, demolidor de dogmas. Urdido, ao que se sabe, no século III antes de Cristo, não se tem ao certo quem o escreveu (há certeza histórica de que não foi Salomão, como o próprio autor quer fazer crer), ou mesmo se foi obra de uma só pessoa ou de múltiplos autores. Esses detalhes históricos, no entanto, não são o que mais importa. Havel havalim / hakkol hável, “névoa de nadas, tudo névoa nada”, nos sugere o erudito tradutor brasileiro Haroldo de Campos, debruçado sobre o original hebraico. Mais do que entender sua origem, é o leitmotiv, o slogan, a legenda, o lema do Eclesiastes que deve sempre nos fazer pensar.

 

Sábado é um dia repleto de virtudes, de excelências. Dia de sabores simples e, por isso mesmo, inigualáveis. Sábado tem seu próprio aroma, perfume singular. Dia sagrado de descanso, do Sabá. Dia de Saturno. De Cronos. Para o meu avô era o dia do banho. “Porque hoje é sábado”, escreveu poeticamente Vinicius de Moraes. E Clarisse Lispector notou que sábado é a “rosa da semana”. Há muito, tenho uma certeza: o paraíso, se existir, deve ser um eterno dia de sábado.

 

O escritor Cristóvão Tezza conta, em uma de suas crônicas, que apesar de extrovertido e inclinado a uma boa conversa, ele no fundo se vê como uma antissocial clandestino, que disfarça bem o prazer de ficar sozinho.  É um pouco o que sinto, quando quero fugir de uma festa na qual não me encontro muito à vontade. Ou quando batem visitas desavisadas, a interromper seja lá o que for que eu esteja fazendo. Mas, ainda bem que nessas horas vale a educação, a camaradagem, além, penso, do senso gregário dos primatas que somos, herança ancestral de todos nós. Se os outros, muitas vezes, são inconvenientes, vale lembrar que é somente por eles, ao final, que nos enxergamos.

 

Penso nas “Três Marias”, as estrelinhas que todos apontam ao céu. Pois é, desde que aprendi serem parte do cinturão de Órion, o caçador, e que seus nomes são Alnilan, Alnitak e Mintaka, algo se perdeu. Foi assim também quando gravei a forma das constelações no céu estrelado; desde então parei de enxergar apenas estrelas. O Manoel de Barros, poeta pantaneiro, quando menino morava junto a um rio que fazia volta atrás da casa onde residia. Então, um homem, belo dia, lhe disse que aquilo se chamava “enseada”. Desfez-se o encanto. O rio em curva já não era mais um rio em curva, que ao poeta menino lembrava uma cobra de vidro. Foi, a partir daquele instante, apenas e somente uma enseada. “Acho que o nome empobreceu a imagem”, escreveu ele. Os nomes que damos a tudo depauperam esse tudo que nomeamos.

 

“Um beijo realista para você”, disse a pequena de sete anos ao pai. Que até hoje não conseguiu entender o significado daquela frase tão doce e singela.

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