maconha medicinal

Uso da Cannabis no tratamento de doenças divide opiniões

Qual o limite de ação para uma mãe dedicada, que tenta amenizar o sofrimento de um filho? Existe obstáculo ou discurso moralista capaz de impedir a força da vida?

Por: Rodrigo De Marco

rodrigo@integracaodaserra.com.br 

Edição: Kátia Bortolini 

katia@integracaodaserra.com.br 

 

Nesta reportagem especial sobre o uso medicinal da planta Cannabis, conhecida popularmente como maconha, o Integração da Serra reporta a história de uma mãe que encontrou num óleo, extraído de um tipo específico da erva, o controle para as crises de epilepsia enfrentadas por sua filha Caroline, 10 anos. A mãe, Liane Pereira, 51 anos, professora canoense, obteve na justiça o direito de plantar Cannabis no quintal de sua casa, por decisão do juiz Roberto Coutinho Borba, da 4ª Vara Criminal de Canoas, no dia 9 de abril de 2019.

 

Conversamos também com dois médicos, com visões antagônicas sobre o tema. Por um lado, o médico neurologista e docente da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), Jorge Luiz Winckler, que estuda os efeitos terapêuticos do canabidiol e é contra o cultivo caseiro para fins medicinais. Winckler defende a comercialização, autorizada pela Anvisa. Segundo ele, na elaboração caseira não tem como separar o CBD do THC, que é o princípio ativo com efeito psicotrópico.

 

A médica psiquiatra Eliane Nunes, fundadora da Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis Sativa – SBEC, defende o cultivo caseiro, salientando que a planta tem propriedade terapêutica, desde a raiz até a folha. Ela ressalta que todo o ser humano tem em seu organismo um sistema biológico composto por endocanabinóides, neurotransmissores retrógrados endógenos baseados em lipídios, que se ligam a receptores canabinóides e a proteínas.

mãe e filha

Mãe relata sucesso no uso de óleo à base da Cannabis em tratamento contra epilepsia

 

Liane é mãe de três filhos. Foi aos 40 anos, no entanto, com a chegada da caçula, que a vida da família foi impactada de forma repentina. Caroline nasceu em 2010 e, apenas com 25 dias de vida, assustou a família com uma crise convulsiva generalizada, seguida por uma internação hospitalar de 40 dias, marcada por outras crises.  O diagnóstico da doença viria depois de um mês e meio, quando a menina voltou a ser internada. Após consultas com neurologistas, a pequena Carol foi diagnosticada com epilepsia e medicada com anticonvulsivos, aliviando as crises.

 

“Carol engatinhou e caminhou nas fases certas, levando uma vida normal até os três anos, idade em começou a ter várias crises diárias de epilepsia. O tratamento era à base de muitos anticonvulsivos. Em 2014, foram oito internações, sendo uma delas de seis meses, e a Carol convulsionando direto. Em agosto de 2015 recebemos um diagnóstico triste de Síndrome de Dravet (doença genética rara, progressiva e incapacitante, também conhecida como epilepsia mioclônica grave da infância), uma epilepsia de muito difícil controle. Nessa época, a minha filha se distanciava do comportamento de crianças da idade dela, pela frequência das crises e pelo uso de anticonvulsivos. Ou estava em crise ou em pós-crise. Ela internava muitas vezes por estar num estado epilético, onde chegava a ficar 48 horas desacordada”, conta Liane.

 

Em 2016, por orientação médica, a menina começou a usar um óleo CBD importado. As crises diminuíram, mas, quando ocorriam, eram de forma mais intensa. Em 2017, Liane assistiu a uma reportagem na televisão sobre uma família de São Paulo que elaborava óleo artesanal de Cannabis para uso medicinal. Ela e o esposo foram até São Paulo para conhecer a família, ocasião em que também participaram da passeata Marcha da Maconha.

criança

carol

Fotos: Arquivo pessoal

O renascimento de Carol

 

A busca de um alento para a filha fez com que Liane ultrapassasse as barreiras legais. Após conhecer a família paulista e a forma de extração do óleo da Cannabis, Liane e o esposo voltaram para o Sul com mudas de maconha na bagagem.

 

Liane começou a fazer o plantio de forma ilegal, mas com documentos em mãos que provavam que o uso era exclusivo para o tratamento da filha. Um tempo depois, a professora entrou na justiça, solicitando autorização para o cultivo. Hoje, após mais de um ano cultivando a planta de forma legal, Liane não poupa palavras para agradecer o auxílio da família paulista.

 

“Com eles, aprendi desde o plantio e o cultivo, até a forma de elaborar o óleo integral da Cannabis, que há dois anos está sendo usando pela Carol. A planta chegou para trazer qualidade de vida para minha filha. Eu cresci ouvindo dizer que maconha era droga, que maconheiro não prestava. Após a utilização da Cannabis para a manutenção da vida e da saúde da Carol, entre o óleo importado e o caseiro, vejo a planta e a Marcha da Maconha de forma diferente. Hoje, eu posso afirmar que o THC foi fundamental para a parada das crises. Ela está há dois anos sem crises”, comemora.

 

Em 2019, a menina teve um salto na qualidade de vida e voltou a brincar e demonstrar o entusiasmo característico de uma criança.

 

“Em abril do ano passado retiramos a sonda gástrica e hoje ela come tudo pela boca. Em maio do ano passado doamos a cadeira de rodas dela para outra criança, porque ela não precisa mais. Foi contagiante ver a alegria dela ao andar pela primeira vez numa escada rolante do shopping, ver ela brincando e começando a entender as letras, a pintar desenhos com formas, respeitando os limites. Nós buscamos a Cannabis achando que ia trazer conforto e diminuir as crises, mas veio um monte de coisas junto. Trouxe muito mais conforto para ela. A última conquista que tivemos foi o desfralde dela, pois usava fraldas 24 horas por dia e, aos poucos, foi largando. Do último dia 30 de dezembro para cá, ela está dormindo sem fralda”, salienta.

 

Visivelmente emocionada, Liane deixa uma mensagem para as famílias onde há pessoas com doenças crônicas, cujos efeitos possam ser amenizados pelo uso medicinal da Cannabis. “Vale a pena toda a luta, vale a pena buscar. Não sei como ela estaria hoje se não estivéssemos usando o óleo de Cannabis. Lute, arregace as mangas e vá à luta. Transportei mudas de forma ilegal, tanto de avião como de veículo. Hoje vejo que valeu a pena cada passo dado. Pelos filhos se vai à luta e pela Carol eu faria tudo de novo. A Cannabis é a vida, e a vida não se espera. Faça justiça com as próprias mãos, plante, o resultado vale a pena”.

 

médico

Foto: Arquivo Ulbra

Médico defende a venda controlada

 

O médico neurologista, Jorge Luiz Winckler, tem estudado nos últimos anos os efeitos do canabidiol. Em 2018, organizou um Simpósio Internacional na Ulbra, sobre os efeitos medicinais do óleo extraído da Cannabis, com dois convidados de San Diego, Califórnia, como palestrantes. No simpósio foi apresentado um estudo sobre o uso de canabidiol em pacientes portadores de doença de Parkinson.

 

Segundo Winckler, a indústria HEMP MED havia se comprometido a financiar esse estudo, onde seriam incluídos 120 pacientes com doença de Parkinson, 40 deles tomando CBD PURO, 40 tomando CBD com traços de THC e 40 tomando placebo. Mas, de acordo com o médico, a indústria HEMP MED desistiu de patrocinar o estudo, e agora o grupo procura outro patrocinador. Ele afirma que existe a possibilidade de o estudo ser feito em parceria com a ANUC, ONG que atua com pessoas que usam o canabidiol.

 

“O nosso interesse sobre os estudos de CBD Medicinal surgiu em várias palestras que assisti nos congressos da AAN (American Academy of Neurology), nos quais tenho participado nos últimos 15 anos. Lá sempre ocorrem entre quatro a cinco palestras sobre esse tema. Os resultados que os norte-americanos apresentam são animadores”, explica.

 

O médico observa que a Anvisa autorizou a comercialização de canabidiol, mas como no Brasil continua proibido o cultivo da Cannabis para a base da medicação, existem várias marcas importadas do CBD sendo comercializadas no país para atender a atual demanda, em alta.

 

“Esta é uma excelente maneira de “queimar” um produto benéfico para muitas doenças, pela baixa qualidade de alguns óleos. Quando prescrevo o CBD a pacientes, recomendo os de denominação de origem controlada. Winckler é contra o cultivo caseiro para extração do óleo, afirmando que não é uma prática segura.

 

“Eu pergunto, como eles conseguem separar o CBD do THC, que é o princípio ativo que tem efeito psicotrópico? Certamente estão usando a planta in natura, o que é deletério para muitas pessoas. Por exemplo: um adolescente que usa THC, pode fazer uma virada esquizofrênica, e dificilmente volta ao normal. Por esse motivo, e outros mais, sou terminantemente contra o uso recreativo da maconha. O canabidiol não tem ação psicotrópica. Já o THC tem ação psicotrópica. É o responsável pelo “barato” causado pelo ato de fumar a folha e a floração da planta”, ressalta.

 

Segundo ele, o canabidiol pode ser usado para várias patologias, por ter ação anti-inflamatória cerebral e antiepiléptica, além de outra que está sendo estudada com profundidade: a ação antiapoptótica, que não deixa os neurônios degenerarem e morrerem. Esse efeito está aumentando o uso do CBD da planta no combate a doenças degenerativas cerebrais”, salienta.

 

Dra Eliana Nunes

Foto: Arquivo pessoal

Psiquiatra luta pelo cultivo medicinal

 

A psiquiatra Eliana Nunes tem um currículo vasto em prol da liberação do cultivo medicinal da maconha no Brasil, como idealizadora e fundadora da Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis Sativa – SBEC, entidade sem fins lucrativos, criada para fomentar políticas públicas na área de Cannabis Medicinal e promover estudos científicos. É responsável pela implantação do Fórum de Cannabis Sativa na Câmara Municipal de São Paulo, coordenando as quatro primeiras edições.

 

folha

Mães Jardineiras

 

Além disso, a médica é idealizadora do Projeto Mães Jardineiras, que apoia a organização da documentação clínica e jurídica do paciente que precisa usar medicamentos derivados da Cannabis. O projeto também dá acesso a atendimento de equipe multidisciplinar e a serviços de outras entidades que atuam nessa área. Além disso, leva subsídios teóricos sobre o autocuidado (ou do familiar), através do manejo terapêutico dos medicamentos derivados da Cannabis Sativa.

 

“Sempre me preocupei com populações vulneráveis e com as mulheres dessas comunidades. Daí surgiu o projeto Mães Jardineiras para dar atenção a crianças e mães da periferia que precisam usar o cannabiol por motivos de saúde”.

 

Eliana faz ressalvas sobre a PL 399, que autorizou a venda de canabidiol em farmácias de todo o país. “É um projeto de lei que exclui o cultivo e isso cria algemas, mais algemas das que já existem. A sociedade brasileira descriminaliza a Cannabis, tanto quanto os jovens negros de periferia. Esse preconceito vai contra a constituição do corpo humano, uma vez que todos temos um sistema endocanabinóide. É por isso que a Cannabis ativa um super macro medicinal, com propriedade terapêutica desde a raiz até a folha”, salienta.

 

A SBEC reúne profissionais da área da saúde como prescritores. Mais informações no site https://sbec.med.br.

 

 

“As Aventuras de Mary Pot”

 

No último dia 15 de agosto, foi lançado o fanzine Mães Jardineiras, explicando, através de histórias lúdicas, o uso da maconha medicinal. A revista foi projetada pela designer Paula Caroline e mais seis amigos, que resolveram criar “As Aventuras de Mary Pot”, uma personagem verde que, em companhia das amigas Jane e Sarah, aprende sobre as propriedades e alguns elementos da planta. Além das personagens, uma folha de cannabis e até um cérebro humano ganham falas que ajudam a explicar os temas.

 

Foi em conversa com a psiquiatra Eliane, que Paula decidiu fazer outra série de quadrinhos. A fanzine Mães Jardineiras foi desenhada a partir de personagens reais, como a médica e os pacientes. A ideia central é falar sobre os benefícios da planta. Na história, Leni, que é a folha de Cannabis, é uma repórter de um jornal fictício chamado Weed Stream TV.

 

A entrevista é composta por várias mães que plantam Cannabis, contando um pouco a trajetória de cada uma.

 

Na primeira edição, Leni, a Folha, entrevista o padre Ticão, do projeto que oferece cursos gratuitos sobre Cannabis medicinal na zona leste de São Paulo, e também a Dra. Eliane Nunes, onde eles falam sobre sociedade, saúde e religião.

 

 

Anvisa liberou venda de óleo de canabidiol

 

Em abril deste ano, a Anvisa, mesmo não reconhecendo o óleo canabidiol como medicamento, liberou a venda do óleo em farmácias de todo o país. Cada frasco de 30 ml pode chegar a custar R$ 2.500,00.

Em dezembro de 2019, a Anvisa aprovou a criação de uma nova categoria de produtos derivados de Cannabis. A Resolução entrou em vigor no dia 10 de março deste ano. A partir dessa data, as empresas interessadas em fabricar e comercializar esses produtos puderam solicitar o pedido de autorização à Agência.

 

No último dia 22 de abril, a Anvisa autorizou uma empresa sediada no Brasil para fabricar e comercializar o produto. Conforme a autorização, o canabidiol poderá ser prescrito quando estiverem esgotadas outras opções terapêuticas disponíveis no mercado brasileiro.

 

A Anvisa ressalta que a indicação e a forma de uso dos produtos à base de Cannabis são de responsabilidade do médico assistente, sendo que os pacientes devem ser informados sobre o uso dos produtos em questão. As informações fornecidas devem contemplar: os riscos à saúde envolvidos; a condição regulatória do produto quanto à comprovação de segurança e eficácia, informando que o produto de Cannabis não é medicamento; os possíveis efeitos adversos, tomando como exemplo, mas não se restringindo a isso, a sedação e o comprometimento cognitivo, que podem impactar no trabalho, no ato de dirigir e operar máquinas ou em outras atividades que impliquem riscos para si ou terceiros; e os cuidados na utilização. Além disso, o paciente ou, na sua impossibilidade, o seu representante legal, deve assinar Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) sobre a utilização do produto de Cannabis.

 

Já os produtos com concentrações de THC superiores a 0,2% só poderão ser prescritos a pacientes terminais ou que tenham esgotado as alternativas terapêuticas de tratamento. Nesse caso, o receituário para prescrição será do tipo A, com validade de 30 dias, fornecido pela Vigilância Sanitária local, padrão semelhante ao da morfina, por exemplo.

 

Por que produto e não medicamento?

 

Segundo a Anvisa, a regra para o registro de medicamentos novos ou inovadores prevê a realização de pesquisas clínicas que sejam capazes de comprovar a eficácia desses produtos, além de outros requisitos para o seu enquadramento como medicamentos. De acordo com a agência, o atual estágio técnico-científico em que se encontram os produtos à base de Cannabis no mundo não é suficiente para a sua aprovação como medicamento.

Como ficam as importações excepcionais?

 

As importações de produtos derivados de Cannabis, como o canabidiol, continuam autorizadas de acordo com a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 335/2020. Para a solicitação dessa autorização é necessário acessar a página de serviços do Governo Federal e preencher o formulário eletrônico para solicitar autorização para importação excepcional de canabidiol.

 

 

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