Suicídios: Por que e para que?

Por: Rodrigo De Marco

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Edição: Kátia Bortolini

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Hoje, além do porquê, a Psiquiatria investiga para que, anualmente, mais de um milhão de pessoas no mundo cometem suicídio. No Brasil, ocorrem cerca de 11 a 12 mil mortes por ano, sendo a segunda causa de morte entre jovens de 15 e 29 anos. Em Bento Gonçalves, o acréscimo de casos em 2019, de 19 mortes, em relação a 2018, de 11 mortes, preocupa profissionais que atuam na área da saúde mental. Prevenir o suicídio é uma das funções das equipes multidisciplinares dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) do município. Os CAPS recebem pessoas maiores de 18 anos com ideações suicidas, esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão e síndrome do pânico, entre outros transtornos psíquicos.

Aumento na procura por ajuda

A coordenadora do CAPS do bairro Maria Goretti, psicóloga Tatiane Valenti Cattani, explica que mais da metade dos suicídios ocorridos em Bento Gonçalves, em 2018 e 2019, foram de pessoas na faixa etária dos 20 aos 30 e dos 40 aos 50 anos. Tatiane diz que, desde o último mês de maio, aumentaram os encaminhamentos por casos de depressão e crises de ansiedade, que podem levar ao suicídio.

 

“O isolamento social está acarretando agravamento desses sintomas. É a ansiedade pelo emprego e por ficar longe de familiares e amigos. Os meses de junho, julho e agosto são os mais difíceis, além do final de ano, de novembro a dezembro, que também são meses críticos”, explica.

 

Conforme a coordenadora, jovens e mulheres são os que mais têm procurado ajuda no CAPS.  “Temos observado aumento de jovens com dificuldades para sair da adolescência e encarar a vida adulta. Percebemos que a galera mais jovem vem com essa fragilidade. A parte boa é que, nessa fase, as intervenções são mais leves. Quanto mais tempo se leva para procurar ajuda, pior é. O público feminino é muito maior que o masculino, até porque elas aderem mais ao tratamento”, observa.

 

Os CAPS trabalham com três modalidades de atendimento: intensivo, semi-intensivo e não intensivo. Se a pessoa frequentou o CAPS mais do que 12 dias no mês é caracterizado como intensivo. Semi é de 12 para menos e não intensivo é o paciente que não é semanal. Ainda conforme a psicóloga, neste mês de agosto foram retomados os encontros com o grupo de crise, que havia parado em função da pandemia. Ela acentua que, atualmente, o CAPS do bairro Maria Goretti presta atendimento médico e psicológico presencial e online, por vídeochamada.

 

Adolescentes se automutilando

“Em 2019, ficamos muito assustados com a quantidade de adolescentes de Bento Gonçalves tentando suicídio por meio de medicações e ou se automutilando”, relata a médica assistente do Caps II, Graciela Castro Sant’Anna, que também atua na UPA do bairro Botafogo como reguladora de leitos psiquiátricos pelo SUS no município. Ela atribui parte desse comportamento à tentativa de chamar a atenção dos pais ou responsáveis. “A adolescência, para muitos, é marcada por turbulências da fase de transição entre a infância e a vida adulta, de intensa produção hormonal e de muitas indefinições sobre o futuro. A maioria dos jovens precisa de amparo familiar. Muitos também demandam ajuda psicológica, mesmo à distância”, salienta a médica.

 

Segundo ela, o preconceito relacionando a psiquiatria ao atendimento de “loucos” diminuiu bastante com o advento da internet. “Hoje, em função da pandemia, tem muita gente fazendo sessão por meio de vídeo chamada. Se tu tens um bom vínculo com o terapeuta, é válido procurar essa ajuda. Saliento que estamos na UPA 24 horas, sempre à disposição”, afirma Graciela.

 

“Identifica-se a ocorrência de doenças mentais em pelo menos 90% dos suicídios”

“Houve uma retração nos atendimentos nos primeiros meses da pandemia, o que parece ter se estendido também a outras especialidades. Não obstante, o isolamento social e suas consequências, como o aumento do consumo alcoólico, da violência doméstica, o desemprego e os problemas financeiros decorrentes, podem gerar uma maior ocorrência de transtornos mentais em pessoas mais vulneráveis. Com isso, espera-se uma maior procura por atendimentos nos próximos meses. A intensidade e a frequência dos atendimentos podem variar. Vale dizer, por exemplo, que alguns problemas mentais têm um padrão e curso relacionados à sazonalidade, como, por exemplo, estados depressivos costumam piorar no inverno”. A interpretação é do médico psiquiatra Jose Luiz de Medeiros, de extenso currículo na área.

 

Segundo ele, a depressão, principal causa de suicídio, pode ser identificada por sinais e sintomas como alterações do sono e do apetite, perda de interesse e prazer, diminuição da energia, retraimento social, baixa autoestima, sentimento de culpa, desesperança e abuso de álcool e outras drogas.

 

O médico cita ainda outras doenças e transtornos que podem levar a pessoa à morte, caso não procurar ajuda médica. “Inúmeras doenças mentais geram um grande sofrimento e incapacidade. Entre elas destaco os Transtornos de Ansiedade e o Alcoolismo, ambos muito prevalentes na população. O suicídio é um grave problema de saúde pública e tem sido um desafio aos médicos compreender e preveni-lo. A cada ano, cerca de 1 milhão de pessoas se mata. Entre os diversos fatores correlacionados são relevantes a genética e o histórico familiar, a presença de doenças mentais, assim como estressores socioeconômicos”, salienta.

 

Setembro Amarelo

10 de setembro é o Dia Mundial de Combate ao Suicídio. Foi pensando na importância de abordar o tema de uma forma mais ampla para a sociedade que, em 2014, a Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP, em parceria com o Conselho Federal de Medicina – CFM, criou oficialmente o Setembro Amarelo.

 

São registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de 1 milhão no mundo. Cerca de 96,8% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos mentais.

 

A fita amarela foi escolhida como símbolo do programa que incentiva aqueles que têm pensamentos suicidas a buscar ajuda. Em 2003, a Organização Mundial da Saúde (OMS) instituiu o dia 10 de setembro para ser o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio.

 

Busca por ajuda

No Brasil, o Centro de Valorização da Vida – CVV oferece atendimento voluntário e gratuito 24 horas por dia a quem está com pensamentos suicidas ou enfrenta outros problemas. “Mesmo que você não tenha certeza de que precisa de nossa ajuda, não tenha receios em entrar em contato com a gente. Um de nossos voluntários estará à sua disposição”, explica a equipe do site www.cvv.org.br. A organização, uma das mais antigas do País, atua no apoio emocional e na prevenção do suicídio por meio do telefone 188 e também por chat, e-mail e pessoalmente.

A vida interrompida aos 18

Era uma manhã como tantas outras cinzentas, de um domingo de inverno, quando o silêncio que predominava no bairro Progresso foi interrompido por sirenes, gritos e aglomeração da vizinhança em frente à casa da família Damiani, motivada pela presença de policiais e do Instituto Médico Legal (IML). Até então ninguém sabia o que havia ocorrido. Em pouco tempo, no entanto, os fatos viriam à tona. Naquele 28 de julho do ano de 2010, a vida de uma família mudaria para sempre. Vinícius Damiani, de apenas 18 anos, havia acertado a própria cabeça com um tiro. Hoje, 10 anos após a morte do irmão, a caçula da família, Bárbara Damiani, 21 anos, conversou com o Integração da Serra sobre o ocorrido e como foi a superação da perda de um irmão. Não são poucos adjetivos que sintetizam quem era Vinícius. Alegre, querido, amigo, solidário, sorridente, parceiro. Essas são algumas palavras ditas por Bárbara, emocionada. Ela conta que Vini, como era carinhosamente chamado, sempre foi uma pessoa repleta de luz e muito amor.

 

Domingo cinzento

Naquela manhã, Bárbara e os pais estavam na chácara da família, onde normalmente passavam os finais de semana, quando foram avisados pela irmã Kelen, na época com 26 anos, que alguma coisa teria acontecido com Vinícius.

 

“Foi horrível. Quando chegamos, o carro dele estava na frente da casa, descartando a possibilidade de acidente. A gente queria entrar na casa para ver, mas tinha a perícia dentro. A minha irmã estava indo para Caxias do Sul, quando foi avisada pelo meu primo que morava no primeiro andar da residência. Ele desceu as escadas e ouviu gemidos, mas pensou que o Vini estava com alguém. Quando voltou, sentiu que havia algo estranho. Bateu na janela e ninguém respondeu. Foi então que resolveu arrombar e conseguiu entrar na casa. De imediato, se deparou com Vini, coberto de sangue, em cima da cama, com os pés para baixo. Logo chamou o SAMU”.

 

O jovem ficou ainda alguns dias internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Tacchini, vindo a ter a morte encefálica confirmada naquela mesma semana.

 

Os sinais

Bárbara, ao longo da entrevista, não escondeu as lágrimas ao recordar o irmão. De acordo com ela, alguns sinais apontavam que Vinícius não estava bem, mas ele negava ajuda médica.

 

“Eu tinha 12 anos. Não entendia muito bem, sabia que devia dar apoio aos meus pais. Depois entendi que era uma coisa que ia acontecer cedo ou tarde, em decorrência da convivência familiar. Não sabia como ajudar. Era mais minha mãe que conversava com ele e ela não conseguia muito também. Hoje, recordando o comportamento que ele tinha, era óbvio que dava sinais, mas não tínhamos esse conhecimento. Ele falava, principalmente naquele mês de julho, que ia se matar. Meu pai dizia que ele poderia ficar com a casa, que não precisava sair de casa, mas ele dizia que não ia ficar e que também não iam ter a presença dele. Ele afirmava que a vida não tinha sentido”, diz.

 

A união da família 

Segundo Bárbara, a união da família foi essencial para superar a dor da morte. “A minha mãe é bem religiosa, conseguimos seguir pela união, nos unimos muito mais e nos damos apoio. Nós começamos a entender a realidade e observar até as atitudes que poderíamos melhorar e fazer coisas melhores pensando nele. A união que tivemos deu o suporte a mais. A minha irmã saiu de casa, então eu fiquei e ajudei todo mundo”, afirma. Ela ressalta que campanhas voltadas à prevenção do suicídio, como a do Setembro Amarelo, são super válidas. “Se na época tivéssemos mais informações, talvez pudéssemos ter evitado o que ocorreu. Até hoje é um tabu falar sobre isso. E é algo que acontece. Quanto mais falarmos e soubermos sobre o assunto, mais fácil será para tratar. É difícil saber o que acontece na cabecinha da pessoa. É sempre muito válido falar sobre isso”, complementa.

flor

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