A Palavra

Por Rogério Gava 

A palavra é um milagre. Foi pela palavra que o homem se distanciou dos outros animais e se tornou homem. Sem palavras não teríamos criado a literatura, a poesia, a ciência, a arte. Os deuses. O mundo humano é o mundo da linguagem. Das letras que criam palavras e das palavras que geram frases. Frases que permitem a fala e tornam possível a conversa. Conversas que nos aproximam dos outros e de nós mesmos.

 

A etimologia é sábia: conversar nasce do latim conversaris, que por sua vez deriva de vertere, significando virar, voltar-se para. Conversar, portanto, é voltar-se para o outro e com ele trocar palavras. Conversar é também partilhar versos, a linha da escrita, sempre a retomar o curso. Uma metáfora dos antigos latinos para o movimento do arado na lavoura, que trabalha a terra, sulcando-a em vaievém. Coincidência ou não, nosso idioma abriga em palavra o verbo lavrar, o ato de revolver o solo, preparando- o para a semeadura. Conversar, portanto, é arar a terra dos sentimentos. Semear palavras para colher significados. Brotar descobertas.                Palavras, é verdade, também podem castigar quando são mal ditas (malditas) ou mal-entendidas. Observa Montaigne que a palavra é sempre metade de quem a pronuncia e metade de quem a ouve. Repare que em toda discussão mais acalorada sempre aparece o “mas não foi bem isso o que eu disse!”. Prova de que as palavras, por vezes, saem de nossa boca de acordo com sua própria vontade. E aí nos colocam em maus lençóis.

 

Palavras são traiçoeiras e temperamentais. São como as abelhas: têm mel e ferrão. É por isso que as conversas – sabemos – nem sempre fluem com serenidade. Elas podem ser traídas pelas próprias palavras que carregam. Mas quando funcionam, quando têm qualidade, podem salvar vidas. A boa conversa alivia, conforta, aconchega.

 

Não por acaso a conversa é a base da psicanálise, a conversa com alma – psyche – criada por Freud. Ensinava o poeta Pessoa que “quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma”. Freud concordaria; ele costumava dizer que poetas e escritores foram os primeiros desbravadores do inconsciente. Isso porque a palavra é a chave para o acesso aos fantasmas que se escondem em nosso sótão. E ninguém entende melhor de fantasmas e daquilo que não enxergamos do que os poetas e prosadores.

 

A invenção da palavra é um mistério que o próprio tempo engoliu. É provável que jamais saibamos como passamos do grunhido ao discurso; o momento em que começamos a pensar por meio da linguagem; quando sons articulados viraram símbolos e começaram a dar sentido a tudo, até mesmo ao que nunca enxergamos.

 

Pela palavra criamos tudo o que existe. E tudo o que, imaginamos, talvez possa existir. Pela palavra abstraímos. Filosofamos. Oramos. Inventamos a palavra e ela nos tornou humanos.

 

Do livro “FELICIDADE”

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