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Escolas se reinventam com o ensino à distância

Por Rodrigo De Marco 

rodrigo@integracaodaserra.com.br

@sr_demarco 

O ensino à distância tem se tornado realidade nos últimos meses. Com o avanço desenfreado da pandemia do coronavírus no Brasil, as redes de ensino infantil, fundamental e médio, das escolas estaduais, municipais e particulares, tiveram que se adaptar às pressas às aulas virtuais. A promessa do retorno presencial foi sendo substituída por uma realidade diariamente pautada no online. Professores e alunos têm juntado forças para que as avaliações continuem, evitando a anulação desse ano letivo. O Jornal Integração da Serra entrevistou profissionais das três redes de ensino, para informar as medidas que as escolas sediadas em Bento Gonçalves têm utilizado no repasse de conteúdos aos estudantes.

 

Foram ouvidas as professoras da Escola Municipal de Ensino Fundamental Lóris Antônio Pasquali Reali, Elisandra Deitos, e da Escola Mestre Santa Bárbara, Vanessa Colle, além das diretoras do Mestre, Margarida Mendes Protto, e da Rede Sagrado de Educação, Irmã Maria Diva da Silva e sua vice-diretora, Júlia Tomedi Poletto.

 

“Para ser professor, é preciso saber mais que o conteúdo, é preciso usar o coração”

 

“Ser professor é sempre fazer as coisas com amor”. A frase resume o pensamento da professora do Mestre, Vanessa Colle, 39 anos, que demonstra amor e dedicação intensa na arte de ensinar. Exercendo a profissão há 9 anos, Vanessa tem formação na área de Linguagens, Língua Portuguesa e Literatura.

 

De que forma avalia o ensino voltado integralmente para o online?

Vanessa: O ensino online mostrou-se um imenso desafio para nós, professores, mas também para os estudantes. A educação à distância tem suas vantagens, como um contato direto mais frequente, mas tem, também, desvantagens, por exemplo, o contato interpessoal.

 

De que forma tem observado o comprometimento dos alunos?

Vanessa: Da mesma forma que em sala de aula física. Temos alunos, em sua maioria, muito comprometidos, questionadores e interessados. Mas, igualmente, alguns não se preocupam com as aulas e deixam de realizar ou preocupar-se com as atividades domiciliares.

 

Qual é seu ritmo semanal de aula?

Vanessa: Varia de acordo com o número de períodos semanais. Como era antes do afastamento. Literatura, um período semanal, e Língua Portuguesa, quatro períodos.

 

Está realizando lives com os alunos?

Vanessa: Estou realizando lives com os alunos para a correção dos exercícios e para tirar dúvidas. Os alunos têm, em sua maioria, acessado o aplicativo oferecido pelo governo e, como na aula presencial, temos pelo chat as conversas paralelas.

 

O formato online das aulas tem rendido algumas boas surpresas, já que muitos alunos têm apresentado resultados positivos.

 

Qual o significado que a palavra Professor representa na sua vida?

Vanessa: Depois de 11 anos de trabalho no comércio, tornei-me professora de um projeto assistencial para crianças carentes. Eles ensinaram-me que, para ser professor, é preciso saber mais que o conteúdo, é preciso usar o coração. Por isso, ser professor é sempre fazer as coisas com amor. Em meio à pandemia, confirma-se o que dizia Vigostki: “o ser humano é um ser social”. Por isso, temos tanta falta das aulas presenciais, mas sabemos, também, que esta situação é passageira. E quando melhorar, certamente, professores e alunos voltarão à escola com uma visão diferente, dando mais valor às relações sociais.

 

Adequação à nova realidade

 

A Escola Mestre Santa Bárbara está entre as mais tradicionais da rede estadual de Bento Gonçalves. Atualmente conta com 1.100 alunos e uma equipe de 57 professores, incluindo a direção. A diretora do educandário, Margarida Mendes Protto, 56 anos, que atua há 35 anos na área da educação, com versatilidade e dinâmica, lidera uma equipe eficiente. Margarida tem formação em Pedagogia, Ciências Licenciatura, com habilitação em Ciências e Matemática e Pós-Graduação em Psicopedagogia.

 

Como diretora da Escola Mestre, qual tem sido a orientação para professores e alunos nestes últimos meses?

Margarida: É para que os mesmos sigam as orientações da mantenedora, seguindo o decreto do Governador, bem como o cuidado consigo mesmo e com o próximo, e nos adequarmos com a nova realidade, para continuarmos conectados, mantendo o vínculo com todos os segmentos da comunidade escolar, sem perder foco.

 

Como as tarefas escolares têm sido organizadas para os alunos e de que forma tem sido feita a avaliação?

Margarida: Como esta pandemia nos pegou de surpresa, pois estávamos com o nosso calendário de 2020 organizado para colocar em prática presencialmente, tivemos que nos reorganizar drasticamente em poucos dias, correndo contra o tempo e nos deparando com várias dificuldades. Num primeiro momento, os professores foram orientados para organizar as atividades, bem como as devolutivas das mesmas, que poderiam ser por grupos de WhatsApp, Facebook, e-mail ou cópia física (retirada na escola de acordo com o cronograma). A partir do último mês de junho, o Governo  Estadual disponibilizou a plataforma Google Classroom, a qual  professores e alunos tem acesso e se comunicam, tirando dúvidas e realizando as avaliações.

Estamos ainda nos adaptando, mas a plataforma é muito boa. Os professores trocam experiências entre si e auxiliam os alunos. Através dela, temos como visualizar o acesso, as devolutivas e interações. Alguns estudantes, por falta de acesso à internet ou mesmo por outras dificuldades, têm demonstrado desmotivação e desinteresse. Em compensação, a maioria apresenta bom domínio da tecnologia, com retorno favorável.

 

Quais tem sido os maiores desafios no ensino a distância nesses tempos de pandemia?

Margarida: O maior desafio é manter nossos alunos motivados e com acesso à plataforma, bem como o bem-estar dos professores e familiares. O ensino remoto não é o ideal, mas se tornou necessário mediante a pandemia, pois nada substitui a interação presencial aluno x professor, aluno x aluno. É nesse momento que ocorre uma aprendizagem não somente de conhecimento, mas de convivência, trabalho em equipe, envolvimento em projetos institucionais e sociais.

 

 

Qual o significado que a palavra Professor representa na sua vida?

Margarida: O significado da palavra professor “resiliente”, pois ele transforma dificuldades em oportunidades para novos desafios, pois ele reinventa, transforma, cria… Nesse momento de pandemia, percebemos que a escola, além de ser um espaço de construção do conhecimento, é de convivência, de interação, de construção de laços afetivos, empatia e solidariedade. Além disso, todos nós estamos sentindo essa falta, que nos completa como seres atuantes no ambiente escolar.

 

“Eu nunca tinha pensado no quanto a sala de aula é um lugar de igualdade”

 

A professora municipal Elisandra Deitos, 34 anos, licenciada em História e Pedagogia, que leciona desde 2013, trabalha Literatura com a Educação Infantil, Língua Inglesa com as séries iniciais e História com as séries finais do Ensino Fundamental, em 40 horas semanais. Os alunos de Elisandra estão na faixa etária entre 4 e 15 anos. Ela pode ser considerada uma professora dinâmica e extrovertida, com extrema facilidade para contar histórias infantis aos pequenos das séries iniciais, de forma online.

 

Em tempos de pandemia, alunos e professores tiveram que se adaptar ao ensino à distância, totalmente online. Como está sendo essa experiência?

Elisandra: Sempre usei tecnologia e me adaptar a esse novo formato não foi difícil. Antes mesmo de iniciarem as aulas remotas, já comecei a assistir tutoriais para conhecer programas de gravação de aulas. Quando as aulas começaram, achei interessante e importante manter o contato e os alunos em atividade. Eu via o lado bom de não precisar acordar tão cedo, não precisar lidar com indisciplina e trabalhar no conforto do lar. Depois do primeiro mês, essa pandemia me mostrou o quanto o ensino presencial é importante, em aspectos que eu nem imaginava.

 

Quais têm sido os maiores desafios enfrentados nesse período de adaptação do novo formato (temporário) de ensino?

Elisandra: O maior desafio é a desigualdade de recursos. A escola pública é muito diversa. Temos desde alunos com computador, internet e impressora, até os que necessitam de cestas básicas para conseguirem se alimentar. Eu nunca tinha pensado no quanto a sala de aula é um lugar de igualdade. Na escola conseguimos garantir os mesmos recursos para todos. Na aula presencial geralmente tenho dois planejamentos, o padrão e o da inclusão. Nesse novo formato, tenho três ou quatro planejamentos diferentes para uma mesma turma. A escola fica aberta para que alunos sem acesso à internet recebam o conteúdo impresso. O planejamento de aulas remotas exige muito mais tempo e pesquisa para adequar o conteúdo dentro das necessidades particulares de cada aluno. E, mesmo assim, a qualidade do ensino para quem tem mais recursos é superior.

 

Os alunos têm respondido bem a esse novo formato?

Elisandra: A maioria dos alunos sim. Como somos uma escola rural, temos poucos alunos (em torno de 200). Dessa maneira, conseguimos cobrar semanalmente dos alunos, com o apoio dos pais, as tarefas atrasadas. Mas eles também relatam sentir muita falta da escola, do convívio com os colegas e, principalmente, do lanche da Dona Geni.

 

Tens realizado lives?

Elisandra: Já tentei reunir uma turma ao vivo, mas há pouca participação dos alunos. Por isso, o momento foi só para conversar. As aulas acontecem através de vídeo-aulas, disponibilizadas numa plataforma de ensino que toda a rede municipal está usando, ou em material impresso para os estudantes sem internet. Não acho justo realizar aulas com lives porque, em nenhuma turma, 100% dos alunos possuem acesso à internet.

 

Na tua opinião, esse formato online está sendo satisfatório?

Elisandra: Sim e não. Acho importante manter esse vínculo com os estudantes e não deixar o ensino paralisado. Por outro lado, isso está agravando o desiquilíbrio entre os estudantes com mais e menos recursos. Há alunos que só podem fazer as atividades na tela do celular dos pais, de noite, quando eles voltam do trabalho, até que durarem os dados móveis. As aulas estão disponíveis, mas a qualidade do ensino está comprometida para muitos alunos.

 

A Secretaria Municipal de Educação tem auxiliado vocês nesses meses?

Elisandra: Até o último mês de maio, só os professores tinham acesso à plataforma. Em pouco tempo, ela se tornou acessível para todos os estudantes da rede municipal, em função do apoio da Secretaria Municipal de Educação, que trabalhou para isso funcionar nesse curto espaço de tempo. A Secretaria também tem oferecido cursos e palestras com assuntos relevantes para os professores se atualizarem.

 

Qual o significado que a palavra Professor representa na sua vida?

Elisandra: Não poderia ter escolhido profissão melhor. O meu termômetro é a minha satisfação e felicidade quando recebo o retorno dos alunos. O planejamento das aulas também é um momento que me proporciona muito prazer. Palestrar para o computador a Revolução Francesa, por exemplo, foi muito frustrante, especialmente nesse momento político e econômico em que vivemos, no qual eu teria tantas relações históricas para trazer em discussão e acalorar debates sobre o atual cenário.

 

“A educação online está sendo um desafio para todos: escola, educandos e famílias”

 

O Colégio Sagrado Coração de Jesus está entre os mais tradicionais da rede particular de Bento Gonçalves. Atualmente atende cerca de 1.350 alunos e é composto por um corpo docente que totaliza 75 educadores e 12 profissionais que atuam na equipe pedagógica. Para a diretora, Irmã Maria Diva da Silva, e a vice-diretora, Júlia Tomedi Poletto, desde os primeiros sinais de que os dias seriam diferentes, foi preciso pensar coletivamente na diversificação de estratégias para as atividades domiciliares diárias.

 

Como tem sido a orientação para professores e alunos?

Irmã Maria Diva da Silva e Júlia Tomedi Poletto: Desde os primeiros sinais de que nossos dias seriam outros, reunimos o corpo docente para pensar coletivamente na forma em que conduziríamos o trabalho durante o isolamento social. Para auxiliar nesse processo, realizamos formações e contamos com a presença de especialistas da área da saúde e da educação, os quais também contribuíram para que pensássemos nas propostas com cuidado, especialmente atentando para o excesso de telas que nossos educandos estariam expostos. Assim, aliando as formações voltadas para a tecnologia com as orientações recebidas dos especialistas da saúde, buscamos uma justa medida na diversificação de estratégias para as atividades diárias domiciliares.

 

De que forma a Rede Sagrado avalia esse ensino voltado para o online?

Irmã Maria Diva e Júlia: Em nível de Rede, seguimos com a plataforma que já usávamos, o Office 365, ampliando os acessos para todas as turmas e aprimorando as ferramentas oferecidas nessa plataforma, especialmente o Teams, por meio do qual as interações, as postagens do material de aula e tantos outros elementos são trabalhados. Diante do fato de que permaneceríamos em distanciamento, em meados de abril, reestruturamos as aulas e iniciamos as atividades síncronas.

 

Como estão sendo organizadas as atividades?

Irmã Maria Diva e Júlia: O Colégio Sagrado Coração de Jesus está trabalhando com a modalidade de Educação Online, oferecendo atividades síncronas – interação imediata entre educador e educandos; e assíncronas – gravações de aulas, uso do material didático, realização de pesquisas, trabalhos, produções textuais, sarau virtual, entre outros processos. Diariamente o educando do Ensino Fundamental II e Ensino Médio tem lives com os educadores especialistas, bem como realiza atividades no formato assíncrono. Indiscutivelmente, autonomia, organização, responsabilidade e honestidade são valores que estão sendo desenvolvidos de forma pontual com nossos estudantes, os quais estão se reinventando nesse processo de aprendizagem.

 

De que forma estão trabalhando com alunos do Ensino Fundamental e da Educação Infantil?

Irmã Maria Diva e Júlia: Para nossas crianças do Ensino Fundamental I, estamos acompanhando com muita atenção o engajamento nas atividades e nas lives. No caso dos pequenos da Educação Infantil, a manutenção do vínculo com os educadores e a importância da conexão entre escola e família são os fios condutores das nossas escolhas pedagógicas. Ao pensar nas lives, nas vídeoaulas e nas atividades, nos pautamos nesse olhar atento para a infância. Assim, o trabalho tem sido diversificado, com encontros em grupos, individuais, usando a casa da criança como um laboratório de aprendizagem, contando com a parceria das nossas queridas famílias. Importante dizer que, quinzenalmente, fazemos reuniões online com o corpo docente para avaliar o que pode ser alterado na dinâmica de trabalho, pois nos preocupamos com a saúde mental e física dos nossos educandos. Além disso, desde o início de abril, mantemos um diálogo e uma proximidade com as famílias, por meio do nosso “Plantão de Escuta”, reuniões de pais, entre outros.

 

As avaliações estão ocorrendo de que forma?

Irmã Maria Diva e Júlia: Feitos os encontros com os educadores, semanalmente, enviamos para casa uma organização de como será a semana seguinte de trabalho do educando, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. A avaliação tem sido feita por meio de instrumentos variados, aproveitando os recursos tecnológicos, mas também valorizando as experiências que nossos educandos estão tendo em suas casas, no espaço de convívio familiar deles.

 

Quais têm sido os maiores desafios?

Irmã Maria Diva e Júlia: Sabemos que a educação online está sendo um desafio para todos: escola, educandos, famílias. Todavia, percebemos que há um engajamento e um esforço de todos para se adaptarem a essa nova modalidade. Estamos nos reinventando juntos.

 

Qual o significado que a palavra Professor representa?

Irmã Maria Diva e Júlia: Acolhida, inovação e ousadia. Essa é a marca da Família Sagrado! Nosso compromisso, acima de tudo, é o cuidado com os educadores, com as famílias e, especialmente, com os nossos educandos, que são a razão da existência do nosso Colégio.

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Vanessa

Vanessa Colle tem formação na área de Linguagens, Língua Portuguesa e Literatura e é professora da Escola Mestre

Margarida

Margarida Mendes Protto, diretora da Escola Mestre Santa Bárbara

Elisandra Deitos

Elisandra Deitos é licenciada em História e Pedagogia e é professora da Rede Municipal de Ensino

Sagrado

Da esquerda para direita: diretora do Colégio Sagrado, Irmã Maria Diva da Silva e a vice-diretora, Júlia Tomedi Poletto

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