paternidade

Dia dos Pais 2020: paternidade nos dias de hoje

Por: Rodrigo De Marco

rodrigo@integracaodaserra.com.br 

Edição: Kátia Bortolini 

katia@integracaodaserra.com.br 

“Paternidade, na subjetivação e na cultura” é o tema escolhido pelo Instituto de Ensino e Pesquisa em Psicoterapia – IEPP Serra Gaúcha, para sua VIII Jornada Científica, que ocorre nos próximos dias 7 e 8 de agosto, em formato virtual.

 

O evento, coordenado pelas psicólogas Izadora Cenci Zir e Karin Milani Zottis,  vai reunir   profissionais renomados. Estão confirmadas as presenças da psicóloga e psicanalista Maria Elisabeth Cimenti, fundadora, docente e supervisora do IEPP, Ruggero Levy, psicanalista, membro efetivo e analista didata da sociedade psicanalítica de Porto Alegre e da International Psychoanalytical Association (IPA), e do médico psicanalista e escritor, Celso Gutfreind, autor de 39 livros.

 

Na jornada, será debatida a função paterna na formação do caráter das pessoas. O Jornal Integração da Serra reporta um pouco da importância da missão da paternidade nas entrevistas que seguem, com as organizadoras do evento, psicólogas Izadora Cenci Zir e Karin Milani Zottis e com o médico psicanalista e escritor, Celso Gutfreind.

 

A inscrição para participar do evento, direcionado a psicólogos, médicos e estudantes, deve ser feita plataforma Sympla, em www.sympla.com.br.

 

Pensando sobre a Paternidade

 

Quais as razões pelas quais foi escolhido o tema da Paternidade para esta Jornada Científica?

Izadora e Karin: Na atualidade, individual, social e culturalmente, percebemos muita intolerância frente às diferenças, muitos jovens sem rumo, a expansão cada vez maior da drogadição, da falta de sentido, de respeito às leis social e culturalmente estabelecidas para um bom convívio e progressos em todas as áreas. Como estas são questões bastante ligadas ao exercício da função paterna, entendemos que pensar a paternidade seria de bom auxílio.

Muitas famílias não contam com a presença paterna real, ou mesmo com um representante masculino, para cumprir com a função paterna. Sabemos que esta função pode ser exercida por outra pessoa, homem ou mulher, que não seja o pai biológico, mas qual a razão desta ausência real? Pensamos ser importante refletir a respeito, pois percebemos as dificuldades de crianças e jovens em suas relações com a paternidade.

 

Qual a importância da figura masculina na formação da personalidade da criança?

Izadora e Karin: Na psicologia/psicanálise entendemos a função paterna sendo representada pelo pai, que simboliza a entrada de um terceiro, um outro, diferente, na relação primeira da mãe com o bebê. A aceitação da entrada do pai nessa relação desperta a capacidade de esperar, a tolerância às diferenças e às frustrações, que são algumas das características de um psiquismo que contou com a função paterna na sua constituição. O pai apresenta-se para ampliar os espaços de relacionamento e para instituir e reafirmar muitas normas necessárias à vida em sociedade.

Além do mais, a presença paterna é muito importante para que a função materna seja exercida da melhor forma. O pai é figura importante para garantir ao par mãe-bebê um ambiente seguro, em que a mãe possa dedicar-se apenas à criança, tamanha a importância dos primeiros meses de vida para a saúde psíquica de uma pessoa. As mães têm encontrado formas de lidar com essa falta, quando necessário, mas além da sobrecarga imposta a elas, é provável que fiquem lacunas.

Evidentemente que os problemas sociais e psicológicos não se resumem às questões de relacionamento paterno, mas estamos escolhendo nos debruçarmos sobre esta questão, buscando compreender melhor muitos aspectos dos conflitos que chegam aos consultórios, por exemplo.

 

Existe uma fase ideal para ser pai?

Izadora e Karin: Ser pai envolve responsabilidades e desejo. Um certo grau de maturidade emocional e condições para prover as necessidades afetivas e garantir os direitos fundamentais para o desenvolvimento de uma criança. Em princípio, é o que se espera.

Conforme Eizirik (2001), ser pai e ser mãe produzem mudanças psicológicas no homem e na mulher. Os pais deparam-se com as tarefas psicológicas de renunciarem à sua própria condição de filho ou filha e de mobilizarem identificações com seus próprios pais, a fim de assumirem o papel de pai ou mãe perante o filho. Assim sendo, a fase ou momento ideal, se é que o ideal existe, depende muito de cada um, de suas vivências e de quando se sentiria “pronto”, decidido a assumir as responsabilidades decorrentes da paternidade. Mas sabemos que a vida não segue padrões ideais.

 

Existe um perfil predominante dos pais na cultura ocidental?

Izadora e Karin: Hoje entendemos que os conceitos de maternidade e paternidade são construções simbólicas produzidas no âmbito social de uma cultura. Ao longo dos séculos houve mudança nos papéis dos homens e mulheres na sociedade. No que se refere à maternidade e paternidade, visualizamos vários modelos de configuração familiar e também vemos a mulher se corresponsabilizando com o sustento financeiro dos filhos/família e homens participando dos afazeres domésticos e cuidados afetivos dos filhos, papéis que antigamente estavam respectivamente vinculados apenas ao masculino ou ao feminino.

Assim, temos pais/homens bastante participativos na criação dos filhos, biológicos ou não, afetivamente muito ligados, responsáveis, como também percebemos muita ausência da figura masculina nas famílias. De acordo com o último Censo Escolar, realizado pelo Conselho Nacional de Justiça, divulgado em 2013, havia 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai na certidão de nascimento. Por que isso acontece?  Qual o papel da sociedade nessas situações e quais as implicações e influências disso na constituição da subjetividade da criança?

Sendo assim, nos perguntamos: como ficam os conceitos de maternidade, paternidade e filiação, frente a tantas mudanças e possibilidades?

 

A autoridade paterna ainda predomina sobre a materna?

Izadora e Karin: O exercício da autoridade é outro aspecto que se transformou muito com o tempo, bem como a compreensão do que seja e signifique a autoridade. Talvez até possamos pensar que pais e mães estejam bastante confusos sobre seus papéis. As demandas sociais, de trabalho, de tempo, não têm contribuído para que saibam exatamente o que fazer na educação de seus filhos, nem para a qualidade nas relações, que têm sido, muito frequentemente, superficiais. Além do que, isso varia muito conforme o casal e a família.

Neste momento, nós estamos focando na importância e nas dificuldades de estabelecer uma paternidade exercida adequada e efetivamente, que contribua para a saúde mental e social das crianças e jovens, futuros adultos que conduzirão nossa sociedade.

 

A independência feminina tem levado as mulheres a optarem por métodos de reprodução assistida quando decidem ter filhos. Qual o impacto disso na paternidade e nas relações familiares?

Izadora e Karin: A entrada da mulher no mercado de trabalho produziu várias transformações, juntamente com os avanços tecnológicos, como também, o advento da pílula anticoncepcional, que desvinculou a sexualidade do ato sexual com objetivo de fecundação. A evolução da ciência seguiu permitindo mudanças, como todas as decorrentes da reprodução assistida.

A possibilidade de gerar um filho sem a presença física de um parceiro de vida ou da relação com um homem conhecido, permitiu que as mulheres organizassem sua vida de forma bem mais independente, como nunca se havia pensado, com o auxílio da ciência. As mudanças culturais, aliadas às científicas, e umas possibilitadas pelas outras, abriram também para casais homoafetivos a experiência de ter filhos, sem ser pela adoção.

Todos esses avanços e novas formas de constituição familiar já são uma realidade entre nós. Aos poucos saberemos, pelas vivências, quais as necessidades que surgirão desses processos. O que temos são famílias constituídas das mais diversas formas e a ideia de que as origens fazem parte da história da pessoa e de sua subjetividade, desde o momento em que são sonhadas, pensadas por alguém.

paternidade na subjetivação

PROGRAMAÇÃO

07 de agosto (sexta-feira)

19h30min – Inserção na plataforma Zoom

19h40min – Lançamento Oficial do livro “A menina que morava no sino”, de Celso Gutfreind, com a participação de Pablo Morenno, da Physalis Editora

20h10min – Abertura

20h15min – “Narrar, ser mãe, ser pai – se a parentalidade me fosse contada” – Dr. Celso Gutfreind

21h – Rodada de perguntas

21h15min – Encerramento

 

08 de agosto (sábado)

9h – Inserção na plataforma Zoom

9h10min – Painel: Paternidade na subjetivação e na cultura

Função paterna e subjetivação – Psicóloga Maria Elisabeth Cimenti

Funções parentais e a subjetivação em tempos de turbulência e incerteza – Dr. Ruggero Levy

Ser mãe e pai na cultura contemporânea – um relato – Dr. Celso Gutfreind

10h15min – Intervalo

10h25min – Rodada de perguntas

11h – Encerramento da VIII Jornada

 

Mediação

Izadora Cenci Zir – Psicóloga Coordenadora do Depto. Científico

Karin Milani Zottis – Psicóloga Coordenadora da Jornada Científica

A inscrição dá direito a um exemplar do livro “A menina que morava no sino”.

 

“A paternidade é uma construção, um

processo, marcado por tempo e história”

 

Afirmação é do médico e escritor, Celso Gutfreind

celso

 

Como médico psicanalista e com experiência na escrita de livros voltados para crianças, a partir da visão da psicanálise, de que forma observa esse debate acerca da paternidade?

Gutfreind: Um debate fundamental para a nossa cultura e nossos afetos, fundamentais à construção da nossa personalidade e relações humanas, indissociáveis. A pergunta, interessante, oferece a lente dos livros voltados para crianças e a psicanálise. A paternidade é uma construção, um processo, marcado por tempo e por história. Aqui entram os livros, oferecendo representações disso tudo e colaborando, na forma e no conteúdo, com a paternidade. E a psicanálise é a casa, o espaço, o cenário que revisa e (re) constrói processos como este, que são subjetivos e vão muito além do nosso eixo biológico. Enfim, literatura infantil e psicanálise são muito importantes para a paternidade.

 

Você tem dezenas de livros publicados e uma carreira consolidada, tanto como médico, quanto escritor. Como é aliar as duas funções?

Gutfreind: São complementares e certamente uma colabora com a outra. O médico ajuda o escritor, oferecendo uma experiência humana e de vida extraordinária, que, indiretamente, o escritor aproveita, e o escritor ajuda o médico, tornando-o mais sensível, humano e empático, a partir da experiência com a palavra. As duas se somam para preencher a minha vida profissional e pessoal.

 

Como você descreveria sua carreira de médico e escritor?

Gutfreind: Difícil resumir, a essa altura do caminho. Penso que são parecidas, valem-se de recursos em comum como chegar ao objetivo de dizer, simbolizar, representar, elaborar as vivências da vida. Sinto-me à vontade nas duas, apesar das dificuldades, e me sinto ocupando as mesmas trincheiras para melhorar as pessoas (eu incluído) e, assim, o mundo.

 

Em novembro do último ano você lançou o livro “O Terapeuta e o Lobo”, relacionando literatura com terapia para crianças. O que foi que o impulsionou a escrever essa obra e como tem sido o retorno desse trabalho?

Gutfreind: Este trabalho é fruto de uma longa jornada em Paris, nos anos noventa, como clínico e pesquisador, quando desenvolvi um projeto de pesquisa clínica junto a crianças separadas de seus pais e morando em abrigos públicos. Montei equipes que utilizavam o conto como mediador na psicoterapia dessas crianças, a maioria maltratadas e com transtornos de conduta. Ouvir histórias foi fundamental para a melhora psíquica dessas crianças e o conto se mostrou um mediador excelente para a técnica psicoterápica infantil, como já são o desenho e o jogo. O livro relata essa experiência, acrescida de desdobramentos, vividos em novos projetos análogos a este, que desenvolvi no Brasil. O retorno que obtive foi maravilhoso, já que o livro teve a primeira edição há quase vinte anos e, de lá para cá, embasou projetos em diversos lugares (escolas, clínicas, hospitais) sobre a utilização terapêutica do conto, o que me causa sempre uma enorme satisfação. Ensaios nem sempre são longevos ou se mantêm atuais e este vem se mantendo, possibilitando reedições revistas e ampliadas. Sinto muito orgulho disso.

 

Atualmente trabalhas em projetos na área da literatura?

Gutfreind: Sim, vários, ao mesmo tempo. Termino um livro de poemas para crianças, chamado Ó senhor do sorvete & outros poemas refrescantes, que sairá no ano que vem, pela editora Physalis. Um livro de poemas para adultos, chamado A arte que se baste, que sairá pela Artes & Ecos. E, que me perdoe o público colorado, um livro chamado Poema Azul, parceria com o fotógrafo Achutti, com textos e fotos sobre as ruínas do estádio Olímpico. Sairá pela Bestiário. Enfim, sigo trabalhando bastante na literatura, assim como na psicanálise.

 

Na sua visão, qual o significado de paternidade?

Gutfreind: Imenso, na nossa cultura. Tradicionalmente, a partir de nossas principais referências, valorizamos o pai como portador da regra, do limite, do enquadre, de ajudar a suportar o que não é possível na realidade. Mas, hoje, isto se ampliou, o pai está sendo visto também em seus aspectos maternos e, sobretudo, oferecendo uma diferença, uma outra fonte para diversificar nossos processos subjetivos e necessários de construção de apego. A um ou a dois enlouquecemos, o pai segue sendo este terceiro que filtra esta loucura, mas as hipóteses sobre a sua importância vêm se ampliando.

 

Qual a expectativa em relação a sua participação na Jornada Científica?

Gutfreind: Enorme expectativa, o evento está muito bem organizado, os convidados são muito legais (refiro-me aos meus colegas Ruggero e Elizabeth) e está havendo bastante procura. Os eventos virtuais têm permitido ampliar o público, trazendo aqueles que, por questões geográficas, não poderiam estar presentes. Cria-se uma corrente, uma matriz de apoio. E o fato de haver mediação de tela não tem impedido um encontro também real, verdadeiro.

Acrescento que estou me preparando bastante para a Jornada Científica, onde lançarei virtualmente um livro fantástico sobre a adoção, chamado “A menina que morava no sino”.

psicóloga karin

Karin Milani Zottis, psicóloga Coordenadora da Jornada Científica do IEPP Serra Gaúcha

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Izadora Cenci Zir, psicóloga Coordenadora do Departamento Científico do IEPP Serra Gaúcha

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