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Colonos e motoristas: nem a pandemia e as adversidades desmotivam esses profissionais

Neste ano, a passagem do Dia do Colono e do Motorista, no último dia 25 de julho, foi lembrada com ênfase, uma vez que as duas atividades se tornaram ainda mais essenciais nesse período de pandemia. A certeza de uma mesa farta, com produtos de qualidade, é resultante da continuidade do trabalho do colono e do motorista.  Para contemporizar a situação das duas categorias no momento atual, o Jornal Integração da Serra entrevistou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares de Bento Gonçalves, Cedenir Postal, e o empresário César Anderle, diretor da Anderle Transportes.

 

“Os agricultores são guerreiros e têm força de vontade para superar qualquer obstáculo”

 

De que forma a pandemia impactou a atividade rural?

Cedenir Postal: As vendas de alguns produtos, principalmente hortifrutigranjeiros, diminuíram drasticamente.  Em todo o Brasil, os que vendem produtos in natura em feiras ou para restaurantes, principalmente frutas e verduras, estão sendo bastante prejudicados. Os agricultores do município e região continuam cuidando desses plantios, que podem levar meses ou até mais de ano para serem retomados. A natureza continua, apesar da pandemia, e os agricultores têm que trabalhar. A maioria está tomando cuidado, com medo do coronavírus, mas com a consciência de que não podem parar, porque se fizerem isso não terão a produção ali na frente. Feiras que abrem espaço para as agroindústrias venderem seus produtos, como a ExpoBento, Expointer, Expoagro e Afubra, a princípio foram canceladas ou adiadas, também acarretando prejuízos para os pequenos produtores.

 

A estiagem, seguida do excesso de chuvas, agravou as dificuldades no meio rural?

Postal: Sim, a estiagem, que iniciou em novembro do ano passado e adentrou 2020, ocasionou perdas nos cultivos de hortifrutigranjeiros. Posteriormente, tivemos que lidar com as restrições impostas pela pandemia e, agora, nos últimos dias, com a chuva em excesso. Esse está sendo um ano atípico e problemático para certos cultivos agrícolas do município e região. Mas o agricultor é persistente, segue adiante e continua plantando. Se a seca levou a safra, na primeira chuva ele semeia a terra pensando na safra seguinte. Os agricultores são guerreiros, têm força de vontade para superar qualquer obstáculo.

 

Atualmente qual é a principal reivindicação dos trabalhadores rurais?

Postal: O que a gente mais reivindica é infraestrutura e políticas públicas voltadas para o pequeno agricultor, desde estradas, internet, luz elétrica com qualidade. Nós atendemos os municípios de Bento Gonçalves, Santa Tereza, Monte Belo do Sul e Pinto Bandeira. Apesar de Bento ser o maior e mais rico, é onde o meio rural mais está abandonado, principalmente nas estradas. Queremos também que a burocracia não dificulte o trabalho dos agricultores. Eles querem um preço justo dos seus produtos, uma valorização por parte dos governos, ter espaços para venda e juros mais baratos.

 

O que o Dia do Colono e do Motorista representa para vocês?

Postal: O Dia do Colono e do Motorista representa para nós, agricultores, motivo de orgulho, em primeiro lugar. São duas profissões importantes, uma que produz e a outra que transporta. Eu digo para todos os colonos e motoristas para terem orgulho do que fazem. Antigamente o colono era desprezado e, às vezes, até mesmo ridicularizado. Hoje, a maioria da população valoriza o trabalho do colono. Muitas vezes dependemos de situações que fogem do nosso controle, como as climáticas, mas o agricultor é persistente, enfrente os problemas e segue em frente.

 

Transportes: “Juntos somos cada vez mais fortes”

 

Os nossos motoristas, contratados e subcontratados, não pararam em momento algum, pois a matéria-prima de nossos alimentos precisava ser transportada até as indústrias.

 

De que forma a Anderle Transportes se adaptou a esse período de pandemia?

César Anderle: Por se tratar de atividade essencial, transporte de grãos (soja, trigo, milho), não paramos em nenhum momento, pois tínhamos de abastecer as unidades fabris de esmagamento de soja, indústrias de ração animal e as próprias trading exportadoras de grãos. Tivemos sim, no mês de março, que nos adaptar nos primeiros quinze dias de trabalho home office, onde conseguíamos atender nossos clientes via celular e sistema operacional para o deslocamento dos motoristas até os locais de embarque e desembarque. Já os nossos motoristas, contratados e subcontratados, não pararam em momento algum, pois a matéria-prima de nossos alimentos precisava ser transportada até as indústrias. De lá para cá, fomos atendendo os protocolos de segurança, orientando para o distanciamento entre as pessoas e fornecendo máscaras, viseiras e álcool em gel.

 

Os negócios da empresa foram impactados?

Anderle: Felizmente não tivemos impacto negativo. Conseguimos obter melhores números em termos de produtividade, pois a demanda no primeiro semestre foi maior em razão do Rio Grande do Sul exportar mais grãos pelo porto de Rio Grande pela própria elevação do dólar e fomentando melhor a venda do produto soja, dos fazendeiros do estado para países importadores deste tipo de grão. Tememos para o segundo semestre de 2020 uma baixa nos volumes transportados em razão da própria estiagem, que assolou o nosso estado no início do ano. A seca reduziu em 45,8% a produção de soja no RS, que somou 10,6 milhões de toneladas, segundo a Emater.

 

Qual a projeção para 2020 e a expectativa para 2021?

Anderle: Acreditamos muito no crescimento na faixa de 20 a 25% em comparação com o ano passado. Traçamos metas e contratamos profissionais adequados para entender melhor o nosso cliente. Isso tem dado resultado na produtividade e na confiança dos mesmos com a nossa organização. Investimos nos estados do Paraná e Mato Grosso para atender os clientes daqui e mesmo aqueles dos estados de origem para sanar uma possível baixa de volumes no Rio Grande do Sul. O ano de 2021 é promissor, pois as expectativas de plantio são grandes. O setor de fertilizantes e pesquisa do agronegócio vem se desenvolvendo e qualificando nossos empresários do setor agropecuário e isso tem nos dado respaldo para seguirmos firmes e determinados na busca de melhores números em termos de competitividade e compreensão de mercado.

 

Considerações gerais.

Anderle: Acredito ser oportuno comentar que precisamos muito do empresário para a continuidade da economia. Sem ele, a máquina para, literalmente, e isso não pode acontecer. Todos dependemos do esforço e motivação do empresário para continuar acreditando num ambiente de negócios saudáveis e sustentáveis. Muitas vezes, somos taxados de capitalistas em demasia. Porém, não vejo dessa forma, pois todos precisam de capital para a conquista de seus sonhos. As pessoas de bem sabem que, sem o incentivo de quem aloca recursos, não haverá distribuição de renda sensata para as classes colaborativas. O lema da empresa é: Transportando Confiança. Mas a frase mais impactante que usamos é: Juntos somos cada vez mais Fortes. A sociedade somente será forte se entender essa frase. Isso vale para o setor privado, mas muito mais para o público. Sempre argumento, em minhas falas, sobre a necessidade de olhar para o umbigo do outro e não somente para o nosso.

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Cedenir Postal, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares

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César Anderle, diretor da Anderle Transportes

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