Sidi e mãe

“Mãezinha, não se preocupe, a gente vai passar por essa”

Por: Kátia Bortolini

katia@integracaodaserra.com.br 

Nem mesmo a chuva, o frio, as dificuldades financeiras e de saúde inibem dona Ivani Casagranda, 65 anos, mãe de uma das figuras folclóricas de Bento Gonçalves, o famoso “Sidi Loco”, como é conhecido Sidinei Casagranda, de 44 anos. Dona Ivani recebeu novamente, na última quinta-feira (16), a reportagem do Integração da Serra em sua casa, no bairro Vila Nova II, onde também residem Sidi e seu padrasto, Luis Cardoso, de 66 anos. Em 2015, estivemos pela primeira vez na residência para fazer uma reportagem sobre o Sidi, publicada na edição de setembro do mesmo ano (www.integracaodaserra.com.br/edições anteriores).

 

Na primeira reportagem, estive na casa de Sidi com o repórter Lucas De Lucca. Nessa, a entrevista foi feita em conjunto com o jornalista Rodrigo De Marco. No sábado do último dia 11 de julho, encontrei com o Sidi no Super Apolo da Vico. Como sempre, a gente conversou, mas ele me pareceu apreensivo ao perguntar se eu poderia ir na casa dele para fazermos outra entrevista, na qual ele diria “mãezinha, não se preocupe, a gente vai passar por essa”. Ouvi falar que Dona Ivani tinha sido demitida de uma loja do centro, onde há oito anos trabalhava na faxina… perguntei ao Sidi: a mãe está sem emprego? Ele confirmou, com cara de triste… disse a ele que tentaria ir na semana seguinte. Conseguimos ir na tarde de quarta-feira, mas tanto ele como a mãe não estavam em casa. O padrasto comentou que ele tinha avisado sobre a entrevista e estivera esperando por nós nos últimos dias. Combinamos para voltar às 13h30min do dia seguinte, mas atrasamos um pouquinho. Quando chegamos, cadê o Sidi? Já tinha ido para a sua peregrinação diária. Dona Ivani e seu Luís disseram que não teve jeito de segurar Sidi por mais de tempo em casa, porque ele tem medo de perder o horário do ônibus, mais restrito em função da pandemia. “Ele acorda, almoça, sai e geralmente volta entre 2 e 3 da manhã. De sábado para domingo chega por volta das 5 ou 6h. Eu não consigo dormir até ver o meu filho entrando em casa. Ele chega sempre assoviando e cantando. O álcool gel fica em cima da mesa para quando ele chegar. A toalha dele em cima da cama, pijama em cima da cama. Logo que chega, faço ele tomar banho. Ele tem que se lavar bem para preservar a mãe que tem (risos).

 

Só consigo segurar ele em casa se der medicação para dormir. Foi à base dessas medicações que uma clínica odontológica da cidade conseguiu fazer as extrações dentárias e a prótese móvel, ofertadas ao Sidi”, relata Dona Ivani. A prótese é para repor os dentes que Sidi perdeu em acidente ocorrido em 2008. Ele estava no banco do carona, quando o motorista que o levava para casa bateu em um poste. Sidi não usava cinto. Além dos dentes, seu rosto foi atingido pelos cacos do para-brisa, deixando a marca que ele tem até hoje no lado esquerdo da face.

 

Sidinei é o segundo filho de Ivani e de Agenor, que faleceu em 2000, vítima de acidente de carro. Ele tem um irmão e duas irmãs que atualmente moram no município de Pato Branco, no Paraná. Os pais de Sidi se separaram após 24 anos de convivência. “Agenor nunca deu muita atenção aos filhos. Mesmo assim, quando ele faleceu, Sidi ficou muito mal. Por muitos anos perguntava se o pai ia voltar”, conta Ivani.

mãe de sidi 2

Ivani Casagranda e Luis Cardoso

 

Cachorro quente, pizza e “bigoli”

 

Sobre a situação atual, ela relata que a sua demissão, ocorrida no último mês de maio, tem deixado Sidi tenso. Ela trabalhou oito anos numa loja do centro da cidade, na faxina. ”Sidi não se conforma. Teve um dia que ele foi na loja perguntar porque a mãe dele tinha sido demitida”. Ela acrescenta que ele também tem ficado muito irritado por estar chovendo dentro de casa, entre a cozinha e o corredor, em função da falta de algerosa numa parte da residência, que estava sendo ampliada para ser o novo quarto do Sidi.

 

“Esses dias ele perguntou porque eu não faço uma lasanha, pizza, “bigoli”. Disse que estava cansado de comer arroz e feijão. Cachorro quente e pizza é com ele mesmo” (risos). A preocupação que Dona Ivani tem com o filho é o fiel retrato de uma verdadeira mãe. Ela e o padrasto se desdobram para dar o máximo de amor e conforto para ele.

 

“O Sidi representa um amor imenso. Para mim, ele é uma alegria. Trabalhava para dar mais conforto a ele, porque recebo somente pensão de salário mínimo. Ele está precisando muito de calça e blusão tamanho G”, afirma. Para Dona Ivani, a iniciativa de Sidi em chamar a reportagem pode ter sido a de solicitar auxílio para donativos. Dentro de sua simplicidade, comenta a história de uma moça que escapou de ser assaltada por intervenção do Sidi. Ela esteve na casa de Dona Ivani, querendo compensar Sidi de alguma forma. “Sugeri que ela desse um shampoo. Ele adora”.

casa de sidi 2

Dona Ivani mostra local da infiltração de água na casa

 

História de vida

É possível afirmar que Sidi é um vencedor, um sobrevivente. Ele não sabe ler, nem escrever. Também não sabe olhar as horas e contar dinheiro. Segundo a mãe, até os 15 anos Sidi tinha convulsões, causadas por disritmia cerebral de sequelas do parto, ocorrido em 18 de outubro de 1976, no Hospital Santa Terezinha, de Erechim.

 

“Ele pesava quatro quilos e foi retirado a fórceps. Ficou 24 dias entre a vida e a morte no hospital em Erechim, mais 17 em outro hospital, em Passo Fundo. No décimo quinto dia teve sua primeira convulsão”. Na ocasião, Dona Ivani foi avisada pelos médicos que ele sobreviveria, mas teria sequelas. A família se mudou para Bento Gonçalves em busca de oportunidade de emprego quando Sidi tinha sete meses. Ele entrou na Escola Municipal de 1º e 2º Graus Alfredo Aveline com oito anos, em 1984, mas ficou por menos de quatro meses, quando foi transferido para a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), que frequentou por nove anos. Através da APAE, foi trabalhar numa mecânica e no Corpo de Bombeiros, mas não deu certo porque, segundo Dona Ivani, ele mexia em tudo, não parava quieto.

 

Doações

Quem quiser ajudar a família com doações, deve entrar em contato com Dona Ivani pelo telefone (54) 99681.2447. Podem ser alimentos, roupas e calçados para Sidi e também materiais de construção para o término da reforma da casa.

Fotos: Rodrigo De Marco e Divulgação

água da chuva

Água da chuva é coletada na residência para diminuir gastos

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