Rogério Gava

Sobre “Problemas” e “Mistérios”

Por Rogério Gava

rogeriogava@integracaodaserra.com.br

 

“Sertão, argúem de cantô,

Eu sempre tenho cantado

E ainda cantando tô,

Pruquê, meu torrão amado,

Mundo te prezo, te quero

E vejo aqui teus mistéro

Ninguém sabe decifrá.

A tua beleza é tanta,

Qui o poeta canta, canta,

E inda fica o qui cantá”

Patativa do Assaré, EU E O SERTÃO – Cante lá que eu canto Cá – Filosofia de um trovador nordestino (1982).

 

O QUE É UM MISTÉRIO? Essa pode parecer uma pergunta estranha, ou até mesmo trivial. Afinal, todos sabemos o que a palavra mistério significa. Mas, se pensarmos melhor, nos damos conta de que empregamos esse termo para representar questões absolutamente distintas. Dizemos “a cura do câncer é um mistério”, “o sentido da vida é um mistério”, “óvnis são um mistério”, ou mesmo “estou lendo um mistério policial”. Fica evidente de que estamos falando de “mistérios” bem diferentes. Não deveríamos, então, utilizar palavras diferentes para designar esses dois “níveis” distintos de mistérios?

 

A filosofia – sempre zelosa com todas as definições – justamente nos ensina a fazer essa distinção, diferenciando “problemas” de “mistérios”. Um problema é uma questão para a qual “ainda” não temos resposta, uma lacuna provisória de conhecimento, mas que poderemos transpor. Problemas são tratáveis cientificamente: vamos aprendendo sobre eles, refinando nosso conhecimento e acumulando novas informações e insights a seu respeito, até que, um belo dia, o problema é revelado. O antídoto para os problemas, portanto, se chama “ciência”.

 

Quando dizemos que a descoberta da cura do câncer continua sendo um mistério (ou da Covid 19, para usar a tragédia que assola o mundo neste momento), estamos na verdade nos referindo a um “problema”; uma condição presente, mas que, com certeza, será alterada no futuro (assim como os antibióticos elucidaram o “mistério” das infecções). O mesmo vale para a questão de haver, ou não, vida extraterrestre. Chegará o dia em que teremos a elucidação desse fato. Podemos não saber quando e como isso será feito; mas não há dúvidas de que se trata de uma realidade tratável pela ciência.

 

Um problema tem outra característica básica: ele é sempre externo a nós. É algo que se coloca diante de nosso caminho, um obstáculo a ser transposto, uma nuvem a embaçar a visão. E da mesma forma como retiramos uma pedra com uma picareta, ou ligamos os faróis para iluminar a neblina, ferramentas e técnicas nos ajudam a lidar com os problemas, contornando-os e elucidando-os. Problemas são, portanto, fatos temporariamente impermeáveis à compreensão, e que, pela nossa própria ignorância, temos como mistérios impenetráveis.

 

Existem, no entanto, os “verdadeiros mistérios”. O sentido da vida, por exemplo: haverá o dia em que iremos desvelá-lo? Não sabemos. É o tipo de questão que nos deixa perplexos, pelo simples fato de nos envolver de corpo e alma. Diante de questões como essa, temos a sensação e que nossa ignorância não é temporária; sentimos, ao contrário, a clara sensação de que nossa inteligência nunca as irá alcançar. O mesmo vale para o mistério de Deus, da morte, ou da mente. Da criação do universo. Se os problemas são externos a nós, os mistérios fazem parte de nosso ser. Eles nos “engajam”, para usar a expressão do filósofo francês Gabriel Marcel; deles fazemos parte viva. Um mistério legítimo nos engloba e compromete.

 

Ao contrário do que ocorre com os problemas, mistérios não são tratáveis cientificamente. É impossível tentar provar, pela ciência, se Deus existe, ou não. Ou se haverá algum tipo de continuidade após nossa morte. Aqui, pisamos em outro terreno. Movediço e obscuro. São questões que nos tocam profundamente: ficamos estarrecidos com sua grandeza e nossa incapacidade de revelá-las. O Mistério nos absorve; somos parte dele. Um problema é um obstáculo; um mistério é comprometimento inescapável. Humano.

 

Essa distinção entre problemas e mistérios, se por um lado nos ajuda, traz embutida uma consideração incontornável: não serão os mistérios apenas problemas ainda por resolver? Será que nossa ignorância não nos cega, hoje, da mesma a forma como cegava os partidários de Ptolomeu e da ideia da Terra como centro do universo? Há cinco séculos, por exemplo, a composição da matéria era um completo mistério; até que o homem dissecou a estrutura do átomo. O mistério, na verdade, não passava de um problema. Mas, se todas as questões que entendemos como mistério, na verdade se mostrem problemas, podemos então perguntar: existem, afinal, mistérios?

 

Assim como um strike derruba todos os pinos no jogo de boliche, chegará o tempo em que conheceremos tudo e nenhum mistério restará em pé para nos envolver? Paradoxalmente, essa própria dúvida se configura em um novo mistério: o mistério de “saber o que podemos saber”. Até onde podemos conhecer? A esse respeito, lembro do filósofo Descartes, que ao mergulhar em suas meditações revelava sentir o espírito repleto de dúvidas, como se estivesse imerso em águas muito profundas, não conseguindo firmar os pés nem tampouco se manter à tona. O mar caudaloso do mistério muitas vezes parece querer nos afogar.

 

Na verdade, penso que a impossibilidade de desvendar um mistério nos empurra cada vez mais para ele. Talvez seja nesse ponto mesmo que more a grande aventura da humanidade. Diante do mistério, não nos prostramos, e seguimos nossa marcha humana rumo ao que desconhecemos. Como disse o cientista cognitivo Steven Pinker, em iluminada passagem, mistérios estão sempre sendo promovidos a problemas, ao mesmo tempo em que haverá sempre mistérios por resolver.

 

O mistério faz parte de nosso próprio DNA. Quem não se pergunta a respeito do enigma da vida e da morte, de Deus, do universo infinito. Do sentido, enfim? São mistérios inescapáveis. Inexoráveis. Só deixarão de nos assombrar quando não estivermos mais aqui. Serão eles uma interrogação eterna, grave, para sempre incompressível? Humildemente, temos que admitir que não sabemos. Como disse o grande Guimarães Rosa, “tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida?”.

 

gava 3

0 respostas

Deixe uma resposta

Escreva um comentário
Sinta-se livre para contribuir

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *