Match na busca da “cara metade”: quando o virtual antecede o real

Histórias de casais que encontraram seus companheiros através de aplicativos, jogo eletrônico e redes sociais

Por Rodrigo De Marco 

rodrigo@integracaodaserra.com.br

Edição Kátia Bortolini

katia@integracaodaserra.com.br

“Encontrar alguém, encontrar alguém, encontrar alguém, que me dê amor”. O trecho da música é da banda mineira Jota Quest, um dos hits da segunda metade da década de 1990, época em que a internet não era popular. O refrão da letra “grudou” numa época em que encontrar alguém remetia a espaços físicos como parques, bares e danceterias e a eventos festivos. No início dos anos 2000, os chats online oferecidos por alguns sites começaram a cair no gosto popular. Os tempos ainda eram de internet discada e os acessos em sites de relacionamentos ocorriam com mais frequência depois da meia noite. Com a internet sendo acessada, o telefone ficava ocupado.

 

Em 2004, o Orkut deu início à onda das redes sociais. O Facebook, que também surgiu em 2004, nos Estados Unidos, se popularizou no Brasil apenas em 2011. No ano seguinte, o Facebook já era a rede social mais utilizada no Brasil e em outros países da América Latina. Nos anos seguintes, o avanço da tecnologia proporcionou novas ferramentas para iniciar uma conversa e encontrar alguém, com a internet passando a ser o canal mais rápido e fácil para jovens em busca de um amor. Com o acesso de brasileiros a smartphones cada vez melhores, os aplicativos de relacionamento baseados em geolocalização começaram a ganhar adeptos no país. O Tinder, um dos mais conhecidos, chegou ao Brasil em 2013 e, mais tarde, em 2015, foi a vez do Happn. Desde então, encontrar alguém nunca foi tão simples.

 

Nessa reportagem especial elaborada para o Dia dos Namorados, o Jornal Integração da Serra conversou com casais que se conheceram pela internet e que continuam juntos, fazendo planos. Orkut e Tinder são alguns dos exemplos de redes sociais que uniram casais de diferentes gerações, em histórias de final feliz.

 

Camila 2

Camila e Alex: unidos pelo Orkut

Foi pelo Orkut, em 2009, que a professora Camila Cristina Fernandes, 30 anos, conheceu o engenheiro de produção, Alex Porfírio dos Anjos, 38 anos. Ela residia em Porto Alegre e ele, em Manaus.

 

O Orkut foi uma das redes sociais mais utilizadas no Brasil na primeira década dos anos 2000. Conte como foi a experiência de vocês com o aplicativo?

Camila: Quando comprei meu primeiro computador, em meados de 2009, não conhecia nada de redes sociais. Meu irmão mais novo me apresentou o Orkut (a rede social do momento). Ele me ensinou como funcionava a dinâmica e, em pouco tempo, já estava craque. O Orkut tinha “comunidades” (como se fosse as páginas que as pessoas seguem e curtem no Instagram ou Facebook). Eu havia criado uma comunidade, relacionada ao mundo jovem. A página tinha muitos membros, alguns deles mandavam convite de amizade no meu Orkut pessoal.  Em junho de 2010, recebi uma solicitação de amizade de um rapaz de Manaus. Além de mandar o convite, ele se identificou dizendo que eu era amiga do Orkut de um conhecido dele. Eu logo percebi que esse conhecido dele era alguém membro da comunidade que eu havia criado, então achei que não seria nada demais adicioná-lo também. Trocamos mensagens e, naquele instante, nossa amizade começou. Na época, eu tinha 21 anos e ele 29.

 

Quando ocorreu o primeiro encontro?

Camila: Conversamos por dez meses pela internet. Em abril de 2011 nos conhecemos pessoalmente. Recepcionei ele em Porto Alegre, no aeroporto, em companhia do meu irmão mais velho, de tios, sobrinha e prima… sim, foi um monte de gente (risos). Como meus pais não poderiam ir, devido ao trabalho, mandaram eles. Ele ficou oito dias hospedado em um hotel, em Novo Hamburgo, minha cidade, período em que iniciamos oficialmente o namoro. Voltamos a nos ver cinco meses depois, quando ele retornou para pedir, aos meus pais, a minha mão em noivado. Marcamos o casamento para o dia 24 de novembro de 2012, em Novo Hamburgo. Alguns dias depois viajamos para Manaus, onde permanecemos por cinco meses. Ele tinha que entregar o trabalho de conclusão de curso (TCC) e solicitar afastamento do trabalho. Tudo deu certo, graças a Deus.

 

Como é a vida de vocês hoje?

Camila: Em 2013 retornamos para o RS e estamos aqui desde então. Moramos dois anos com meus pais. Em 2015, compramos nosso apartamento. Em 2017, tivemos nosso primeiro filho, o Estêvão, a coroa do nosso amor. Hoje, nossa vida está super bem, estamos realizados e muito felizes com nosso casamento. Nossos planos para o futuro é ficar por aqui, fazendo o que amamos e cuidando da nossa família.

 

O que tu sugeres para quem quer utilizar aplicativos de relacionamento, mas tem receio?

Camila: Relacionamento à distância exige paciência, muita paciência. Uma coisa que aprendi é que, quando se ama de verdade, não existe barreiras, não existe distância, o amor tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Isso vale para todas as formas de relacionamento. No virtual, converse muito com a pessoa e também com seus familiares. Prepare o bolso também, passagem de avião não é algo baratinho. Todas as vezes que nos vimos pessoalmente pesquisamos ofertas de voos.

 

Gustavo e Isabela (1)

Isabela e Gustavo:

“Queremos muito construir uma vida juntos”

 

A preparação para o mestrado ocupava boa parte do tempo do advogado bento-gonçalvense, Gustavo Vinícius Ben, 28 anos, que sempre prezou pelo estudo. Mas foi o Tinder que coloriu um pouco mais seus dias. Através da rede social, o jovem advogado conheceu a estudante de Nutrição, Isabela Karohl, 24 anos. Na época, ele estudava em São Leopoldo e trabalhava em Novo Hamburgo, cidade onde morava Isabela. Em pouco tempo, no entanto, Ben iria se mudar para a cidade do Vale dos Sinos. Em dezembro de 2019 iniciaram o namoro e, mesmo com pouco tempo estando juntos, já fazem planos de vida familiar.

 

Vocês se conheceram pelo Tinder. Contem sobre como foi o desenrolar do papo de vocês a partir do primeiro contato online?

Isabela: Logo deu match (quando há interesse de ambos) e trocamos Instagram. O primeiro papo foi sobre insetos, já que no Instagram do Gustavo só tinha fotos deles.

 

Há quanto tempo cada um de vocês usava aplicativo de relacionamento quando rolou o match?

Isabela: Eu, Isabela, usava há apenas um dia. Na verdade, foi o tempo que usei o app. Já o Gustavo, usava o app há mais de um ano.

 

O objetivo inicial de vocês com o aplicativo era conhecer alguém e se envolver de uma forma comprometida? Contem sobre os motivos para entrar no Tinder.

Isabela: Meu objetivo era não ser a “amiga da turma” menos descolada, queria conhecer pelo menos um app de relacionamento, ou seja, entrei na zueira. A intenção do Gustavo era conhecer alguém legal (como estava escrito no perfil dele) para conversar e, quem sabe, se envolver.

 

Se conheceram pessoalmente quando?

Isabela: Começamos a conversar no dia 15 de outubro e nos encontramos pela primeira vez no dia 19 de outubro. Não perdemos tempo (risos).

 

Quanto tempo depois do primeiro contato online começou o namoro de vocês?

Isabela: Namoro mesmo, dois meses depois do primeiro contato online. Mas desde o dia que nos conhecemos, já não desgrudamos.

 

Nesses primeiros meses de namoro, já fizeram planos para o futuro?

Isabela: Estamos namorando há cinco meses, mas já sonhamos em casar e ter filhos. Por curiosidade já falei sobre casamento no nosso primeiro encontro e ele adorou (risos). Queremos muito construir uma vida juntos com uma casa grande, vários bebês e gatos.

 

Qual foi o local do primeiro encontro?

Isabela: Foi no Madre, um pub de Novo Hamburgo.

 

Vocês tiverem medo de usar aplicativos de relacionamento?

Isabela: Eu sempre tive receio, nunca sabemos o que podemos encontrar do outro lado da tela. Justamente por isso escolhi o lugar do primeiro encontro, onde sei que tem um cuidado maior com as mulheres, no caso, na porta do banheiro tem um bilhete avisando que se a mulher estiver em perigo é só ir até o bar e pedir o nome de um drink específico. Já o Guga, nunca teve medo, justamente por sempre tomar cuidado e, principalmente, por ser homem, mas se colocava no lugar das mulheres, imaginando o medo que elas poderiam sentir.

 

Que conselhos você dá para quem quer começar a utilizar um aplicativo de relacionamento, mas que ainda tem receio?

Isabela: Para nós deu tudo certo, pois é uma maneira a mais de conhecer alguém legal, porém diria para avisarem a alguma pessoa (amigo ou familiar) onde e com quem irão se encontrar pela primeira vez.

 

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Ingrid e Felipe: do Tinder para a vida

Não é difícil entender a popularidade do Tinder e os motivos que o classificam como um dos mais procurados aplicativos de relacionamento do mundo. Ingrid Baggio, 22 e Felipe Dawson, 28 anos, também se conheceram nessa rede social, em 2018. Em fevereiro deste ano, Dawson pediu Ingrid em casamento. Natural de Bento Gonçalves, ela mora em Porto Alegre e é acadêmica de Direito. Dawson é economista.

 

Conheceste o teu namorado no Tinder. Conte sobre o desenrolar do papo de vocês a partir do match?

Ingrid: Depois de darmos match, começamos a conversar imediatamente. A conversa sempre fluiu muito bem, mas demoramos algumas semanas até efetivamente marcarmos um encontro.

 

Há quanto tempo já usavas o Tinder?

Ingrid: Não sei precisar exatamente há quanto tempo usava, pois às vezes eu baixava o aplicativo, deixava instalado um tempo, não usava e acabava desinstalando. Ou então, usava por algumas semanas, ficava entediada e desinstalava de novo.

 

O teu objetivo inicial com o aplicativo era conhecer alguém em especial?

Ingrid: Baixei o Tinder por pressão de amigas. Uma delas conheceu o namorado pelo aplicativo, então era uma super defensora da ferramenta. Mas eu comecei a usar o app sem muitas expectativas.

 

Vocês conversaram por quanto tempo pelos aplicativos?

Ingrid: Conversamos por algumas semanas pelo Tinder, depois migramos para Instagram e Whats App.

 

Onde ocorreu o primeiro encontro de vocês?

Ingrid: Nos encontramos numa sexta-feira em um pub bem conhecido aqui de Porto Alegre. Eu não fiquei tão surpresa ao ver ele presencialmente, pois já tinha pesquisado bastante sobre ele em todas redes sociais (risos). Eu sei que é clichê falar em amor à primeira vista. Mas, no primeiro encontro, vi que ele era a pessoa certa para mim.

 

Quanto tempo depois do primeiro contato online começou o namoro de vocês?

Ingrid: Infelizmente, não sei precisar. Deveria ter anotado essas datas (risos). Mas não nos precipitamos. Lembro que conversamos um bom tempo antes de começar a namorar, em 2018.

 

Depois de dois anos de namoro, quais são os planos de vocês?

Ingrid: Em fevereiro desse ano, o Felipe me pediu em casamento em Londres. Foi muito lindo e especial. Então, agora o objetivo é casar mesmo!

 

Tu indicas a utilização de aplicativos de namoros para outras pessoas?

Ingrid: Indico, mas com muitas ressalvas. Eu sempre comentava com minhas amigas que achava o Tinder uma ferramenta muito esquisita, pois parece muito um cardápio humano: olhamos fotos, julgamos a aparência e aceitamos ou rejeitamos a pessoa. Porém, apenas fotos não são suficientes para conhecer alguém. Acredito que eu tive muita sorte em encontrar a pessoa certa, mas sabemos de inúmeros casos que acabaram muito mal. É difícil saber quais as reações, as intenções da pessoa que está falando contigo. Sugiro que se pense muito bem e pesquise muito sobre a pessoa antes de aceitar um convite para um encontro (pesquisar os antecedentes criminais também vale, meninas). Fica a dica.

 

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Vanessa e Eduardo:

“Pensamos muito em ter nosso cantinho”

Um match é o necessário para conhecer alguém, é uma ação simples que pode ser o ponto inicial de uma verdadeira história de amor. A estudante de Jornalismo, Vanessa Nava, 21 anos, e o Técnico de Manutenção, Eduardo Alexandre Danna Corso, 25 anos, que se conheciam de vista por causa de amigos em comum, começaram a conversar pelo Tinder, em 2016. O primeiro match foi despretensioso e pouco efeito teve, mas foi no último ano que rolou o segundo match na rede social, iniciando uma relação de cumplicidade e companheirismo. Hoje, eles planejam uma vida juntos e já sonham com planos a longo prazo.

 

Tu conheceste o teu namorado de que forma?

Vanessa: Nos conhecíamos de vista por causa de amigos em comum, mas nunca tínhamos conversado. Estava com 17 anos quando a gente deu match no Tinder e ele começou a conversar comigo. Na época, eu não buscava nada sério e a conversa não foi adiante. No ano passado, voltei a utilizar o aplicativo e nos damos match novamente. Logo ele me chamou no WhatsApp e conversamos sobre o que andávamos fazendo na vida, de sair um dia e assim o papo foi rolando.

 

Quais são os planos de vocês depois deste primeiro ano de namoro?

Vanessa: Boa pergunta. Pensamos muito em viajar, em ter nosso cantinho no mundo, mas o que realmente importa é a gente estar bem e feliz. Espero e torço muito para continuarmos dando certo e nos entendendo como agora. Atualmente, estamos querendo terminar as faculdades e comprar um apartamento.

 

Como foi o primeiro encontro de vocês?

Vanessa: Nosso primeiro encontro foi meio que acidental. Estava indo ao mercado com uns amigos e, no caminho, encontrei ele. Fiquei com vontade de sair com ele, mas não falei nada. Fui para a casa dos meus amigos jantar e depois enviei mensagem para o Eduardo, perguntando se podia ir na casa dele. Ele foi me encontrar e passamos uma noite inteira conversando, mesmo precisando acordar cedo no dia seguinte. Mas foi ótimo! Eu fiquei toda animada e feliz por poder conversar abertamente com ele sobre tudo.

 

Na tua opinião, as redes sociais facilitam a busca por novos amigos e por relacionamentos amorosos?

Vanessa: Sim, se considerar que atualmente todas as redes sociais permitem isso. Já saí com pessoas que conheci no Instagram, por exemplo. No Tinder conheci muita gente, a maioria amigos até hoje.

 

Já teve medo de usar aplicativos de relacionamento?

Vanessa: Nunca senti medo. Já tive encontros com pessoas de outras cidades e foi bem tranquilo, claro que sempre enviando a localização para minha amiga ficar me cuidando (risos). Existem muitas plataformas de relacionamento. Eu gosto de conhecer pessoas, de conversar sobre diversos assuntos. A tecnologia está ao nosso alcance, devemos utilizá-la.

 

O que dirias para quem quer começar a utilizar aplicativos em busca de relacionamento, mas que ainda tem receio?

Vanessa: Se joga! Estamos correndo perigo em qualquer lugar infelizmente. Os aplicativos são ótimos, pois permitem que converse bastante com a pessoa antes de marcar encontro. Caso sentir algo estranho, não saia com a pessoa.

 

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Débora e Vinícius: no embale dos jogos online

Não são apenas pelos aplicativos de relacionamentos que histórias de amor iniciam e, em muitos casos, se transformam em relacionamentos duradouros. A história da bento-gonçalvense Débora Provensi, 21 anos, e do mineiro Vinícius Silva, 24 anos, começou em 2009 através do jogo online Runescape. Na época, Débora tinha 11 anos e Silva, 13. Em 2016 começaram a namorar. Hoje, moram juntos e trabalham com marketing digital.

 

Jogo online, amizade e namoro? Como decorreu essa história?

Débora: Em meados de 2008, um primo me mostrou o Runescape (jogo no qual nos conhecemos). O jogo era (ainda é, eu acho) um MMORPG, no qual o principal objetivo é desenvolver habilidades. A história era bem aprofundada, com opções do que fazer durante o tempo online. E claro, havia o chat para interagir com os outros jogadores. Eu comecei jogando às vezes para passar o tempo, até que virou um pequeno vício. Em 2009, conheci o Vini e nos tornamos amigos. Nós dois éramos um pouco viciados no tal do RuneScape e isso só contribuiu para que a gente conversasse mais. Tínhamos também alguns amigos em comum (dentro do jogo), então era divertido. Conversávamos basicamente o dia inteiro, fosse pelo próprio jogo ou pelo MSN, tirando o período em que íamos para a aula. Jogamos até 2012.

 

Em que ano o relacionamento passou de amizade para amor?

Débora: Depois de pararmos de jogar, começamos a conversar pelo MSN e, após, pelo WhatsApp, até 2016. Sempre fomos muito próximos. Foi nesses anos que passamos “juntos” que surgiu o que a gente tem hoje. É bem difícil definir uma data para o começo do relacionamento, porque a gente sabia que gostava um do outro e que ia ficar junto um dia. Então, de certa forma, sempre estivemos “juntos”.

 

Como foi o primeiro encontro de vocês?

Débora: Em janeiro de 2016 ele veio para o Rio Grande do Sul prestar vestibular na UFRGS e aproveitou a viagem para me ver. Nos encontramos na rodoviária e foi muito constrangedor, a gente nem conseguia se olhar (risos). Demorou algumas horas para a vergonha de ambos passar. Depois do fim de semana juntos, ele voltou para Minas. Aí a gente já sabia que tinha que dar um jeito dele vir pra cá e ficar. Em fevereiro daquele ano ele veio novamente, e ficamos juntos por um mês. Em julho de 2016, ele voltou e não foi mais embora. Depois de algumas conversas, meus pais concordaram em lhe dar hospedagem até ele conseguir outro lugar, mas acabaram gostando tanto dele que acabou ficando por lá mesmo. Hoje, nós moramos sozinhos e tá tudo extremamente bem.

 

psicóloga

KARIN MILANI ZOTTIS

 Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica e Pedagoga 

@mor virtual. Será possível?

 

Como é possível que um sentimento tão nobre seja permeado por um recurso tão impessoal?! Sinal dos tempos… mas também lembro de um dito: “todos os caminhos levam a Roma”. Será?!

 

Eis que em nossa época surgem caminhos bem curiosos e que despertam muito interesse, como por exemplo, Tinder, Badoo, Happn, POF Brasil (sigla de “plenty of fish”-“cheio de peixe”) e Adote um Cara (este põe apenas a mulher no lugar da escolha). Estes os que ouvi serem os 5 maiores aplicativos de namoro, sem considerar a infinidade de sites de relacionamento e outras vias virtuais de encontro. É… as formas de encontro e relacionamento mudaram!

 

E quanto às oportunidades de encontros pessoais reais, aqueles onde é possível sentir o perfume e a força da presença e do olhar do outro diante de nós? Bem… ainda existem, mas parecem despertar temores, receios de rejeição ou constrangimento e, assim, como que saíram de moda e o interesse recai muito sobre a virtualidade, sobre “avatares”, para buscar um relacionamento. E assim, vamos perdendo valiosas habilidades de convívio e tolerância, entre outras.

 

Sabemos que várias relações iniciam a partir destes artifícios de encontros e terminam se efetivando, resultando em relacionamentos satisfatórios. São vários os exemplos e testemunhos de que isto é possível e é muito bom saber disto!

 

Existem, também, inúmeras situações em que não são bons os resultados destes encontros virtuais, pois a impessoalidade envolvida e as intenções de brincadeira ou de armação terminam por comprometer a integridade afetiva, moral e até mesmo física de envolvidos.

 

Bem, podemos pensar, então, que continuamos na mesma! Considerando que ao longo da história da humanidade, sem recursos virtuais, os encontros e os relacionamentos nem sempre deram certo, muitas vezes terminaram em dramas, como também, tantas outras, em belas histórias familiares.

 

Algumas coisas, porém, chamam atenção especialmente, como a forma de “oferta” na apresentação das pessoas nestes dispositivos de encontros – espécies de “buffet” – muito afinada com a sistemática consumista destes nossos tempos, que termina por colocar pessoas a serem avaliadas por sua aparência, de forma a subestimar outras características valiosas dos seres humanos, estratégia que nos permite “comprar” ou descartar em segundos. E a adesão a estas propostas impressiona!

 

Penso que grandes questões ficam no ar para refletirmos: o que leva as pessoas a se apresentarem desta forma? O que se passa numa sociedade que adota estes artifícios para o encontro humano? A busca será realmente por um encontro duradouro e profundo? Por que há tanta busca pelo superficial e efêmero? O que houve com a capacidade humana de criar vínculos? De suportar dificuldades em nome de algo maior? Fomos todos seduzidos ou contaminados pela possibilidade de consumir e descartar afetos?

 

Zigmunt Bauman chama a estes fenômenos de amor líquido, modernidade líquida, em que nada se estrutura, pelo contrário, tudo se esvai incontrolavelmente, deixando o rastro de um grande vazio existencial.

 

Nossa incapacidade de tolerância e paciência para as exigências de uma relação real, com pessoas reais, com todas as suas implicações, nos priva do encontro do amor, que é uma construção na contramão do ritmo atual, que enfatiza apenas o imediatismo e o descarte de qualquer desprazer e incerteza.

 

Nos resta acreditar que sejamos capazes de fazer sempre melhor uso da virtualidade e seus recursos, no sentido de humanizar e não de estereotipar encontros e relações, pelo uso banal e por desprezo ao valor dos vínculos.

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