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Angústia, drama e CTI: conheça a história de Patrícia Freitas Marques, sobrevivente da Covid-19

Por Rodrigo De Marco

rodrigo@integracaodaserra.com.br

A pandemia do coronavírus (Covid-19) tem silenciado cidades, isolando pessoas e acendido um alerta vermelho quanto o seu poderio de destruição. Mais de 200 mil pessoas morreram por complicações da Covid-19 em todo o mundo. A porto-alegrense Patricia Freitas Marques, 56 anos, foi uma das vítimas do coronavírus e por 10 dias lutou pela vida num Centro de Terapia Intensiva (CTI) de Porto Alegre. Patricia começou a adoecer no dia 23 de março e o que parecia ser apenas uma gripe comum, em questão de poucos dias, evoluiu para pneumonia. Hoje, em casa, a sobrevivente continua o processo de recuperação, aprendendo a lidar com o trauma causado pelo período que ficou internada. Patricia está curada, mas o medo e a ansiedade têm refletido na sua rotina. O pulmão segue se recuperando, assim como as forças de uma mulher guerreira. Confira a entrevista exclusiva concedida por Patricia ao Jornal Integração da Serra e se puder fique em casa.

Confira a entrevista exclusiva concedida por Patricia ao Jornal Integração da Serra e, se puder, fique em casa.

Integração: Quais foram os primeiros sintomas do vírus e quais foram as primeiras medidas que tomou?

Patricia: Os primeiros sintomas foram muito sutis. Uma leve irritação na garganta e poucos episódios de tosse seca. Assim permaneceu durante cinco dias, quando a tosse aumentou um pouco e tive o primeiro episódio de aumento de temperatura. 37,4 graus foi quando liguei para a emergência do hospital do meu plano de saúde e a recomendação foi de ficar em casa e tomar antitérmico, e que se agravasse aí sim ir até lá. Dois dias depois tive uma piora nos sintomas, com muito cansaço, dor no corpo, tosse, enjoo, inapetência, desânimo e alguns episódios de pouco aumento de temperatura. Foi quando fui até a emergência do hospital e fazendo uma tomografia fui diagnosticada com pneumonia e “suspeita “ de covid-19. Fui medicada com antibiótico, tamiflur e medicação pra enjoo. Não foi feito exames para o covid-19 pois estava em falta. Eu tive grande piora nos sintomas nos três dias que se seguiram, e aí sim um grande aumento na temperatura. Foi quando retornei ao hospital e fazendo nova tomografia a pneumonia agravou e já tendo os testes foi feito os exames comprovando o coronavírus.

Integração: Como foi receber o diagnóstico de coronavírus?

Patricia: Na verdade quando recebi o resultado da covid-19 já estava na CTI fazendo oxigênio. É um grande aparato de cateteres, injeções, exames e monitoramento e já tinha certeza que era o vírus. Inclusive tinha a indicação de ser entubada a qualquer momento pois minha saturação era muito baixa, (oxigenação). Então não me surpreendi com o resultado e estava calma, apesar de tudo.

Integração: A internação ocorreu quantos dias após adoecer e por quanto tempo ficou em tratamento intensivo?

Patricia: A minha internação ocorreu dez dias após o primeiro sintoma que foi a leve irritação na garganta e fiquei na CTI por dez dias, indo depois para um quarto quando já estava negativada da Covid-19.

Integração: Os médicos chegaram a cogitar um tratamento com cloroquina?

Patricia: Sim, o médico conversou comigo e com meus filhos sobre a hidroxicocloroquina e a possibilidade do seu uso, e que inclusive tanto eu como meus filhos teríamos que assinar um termo de autorização do seu uso, mas felizmente foi quando logo depois começou a minha melhora.

Integração: Tu tiveste medo de morrer? Conte sobre o período de internação.

Patricia: Bem, nunca tive medo de morrer e essa possibilidade real não me assustou em nada. Minha preocupação era com meus filhos, família e com meu namorado que teve contato direto comigo e com o vírus. Estar internada em uma CTI de isolamento não é nada agradável. Ficamos longe de quem amamos e sem saber o que acontece do lado de fora, sem saber se estão bem ou não, e isso preocupa muito, inclusive porque nesse caso tanto um dos meus filhos como meu namorado tiveram contato comigo, portanto com o vírus também. Essa preocupação durou dias e também eu me preocupava muito com minha mãe, em como ela teria reagido em saber que eu estava com o vírus e mal na CTI, até que foi permitido que entrasse uma carta dos meus filhos dando notícias deles, da família. Para quem não sabe, a CTI para casos da Covid é completamente isolada com sérias normas de proteção.

Integração: Quais foram os piores momentos durante o tratamento?

Patricia: Ainda em casa sofri muito com os sintomas. Na CTI passei por várias injeções, gasometrias diárias, cateteres entre outras coisas que judiam quem já está frágil e deficiente. Mas, de tudo que passei fisicamente e apesar de tudo, o mais difícil foi enquanto ainda estava na emergência (que também era isolada para a Covid-19) ver pela porta de vidro meu filho Pedro. Ver ele me vendo mal me fez sofrer bastante. Saber a preocupação visível em sua fisionomia causada por mim e que o risco de morte era grande. Para mim o que mais me fez sofrer foi imaginar a dor que ele e os outros filhos teriam. Isso foi o pior de tudo.

Integração: como está sendo o processo de recuperação?

Patricia: Já em casa a recuperação está bem, faço exercícios de fisioterapia respiratória, boa alimentação. Ainda me canso dependendo do esforço feito, mas evoluindo bem. Posteriormente terei que fazer exames para avaliar pulmões, fígado, anemia, pois estão comprometidos pela doença e tratamento.

Integração: Houve impacto psicológico? Tens ficado em isolamento domiciliar?

Patricia: Psicologicamente estou afetada sim. Tudo que passei me afetou e já estou tratando. Quanto ao isolamento domiciliar penso que estar isolada em casa é infinitamente melhor que estar isolada em uma CTI. Portanto, é muito bom estar em casa. Continuo com todos os cuidados e medidas de prevenção. Aliás, muito mais cuidadosa que antes.

Integração: Antes de ser infectada tu temia passar por essa situação ou pensava que não iria ocorrer contigo?

Patricia: Antes de ser infectada e conhecer de perto o bichinho, (vírus) e o “estrago” que ele faz, não tinha medo de contrair. Meu medo era de contaminar outras pessoas e por isso estava tomando os cuidados necessários, mas mesmo assim contrai a Covid-19.

Integração: Após vencer essa batalha tão árdua, hoje, qual é o teu maior medo?

Patricia: Após vencer essa batalha e sentir e conhecer o quão mal pode fazer o vírus, meu maior medo é de perder as pessoas que amo, especialmente meus filhos que permanecem trabalhando, inclusive com missões humanitárias pela Covid-19 e, portanto, bem expostos.

Integração: Como tu define a Patrícia Freitas Marques frente a essa situação? 

Patricia: Como me defino? É bem difícil falar de mim mesma. Mas acho que posso me definir sim como guerreira, pois apesar de tudo, me esforcei tanto com os exercícios que precisava fazer de fisioterapia quanto principalmente não deixando a moral cair, apesar de tudo. E, ainda lutando psicologicamente.

Integração: Que mensagem tu deixaria para os leitores do Jornal Integração da Serra e para quem ainda está resistente quanto a gravidade de uma contaminação por Covid-19?

Patricia: Bem, digo e peço aos leitores do Integração da Serra que o vírus é real e mata. Eu não tive contato com ninguém que estivesse sabidamente contaminado. Mas muitas pessoas estão contaminadas “assintomaticamente” ou seja: estão contaminadas e não desenvolvem os sintomas e essas são as pessoas que mais estão contaminando outras pessoas. Daí então a importância do isolamento social e para quem precisa sair de casa ter o máximo de cuidado usando máscara, mantendo a distância e cumprindo com todos os rituais de higiene que já sabemos quais são. Eu particularmente já contraí, mas isso não evita que eu seja uma condutora, então sigo com todos esses cuidados mesmo estando negativada do vírus. Saliento que nosso clima está mudando e com o frio chegando os casos respiratórios naturalmente aumentam e a imunidade baixa é uma porta escancarada para o “bichinho “ (vírus) entrar. Reforço: Não ter sintomas não significa que não esteja contaminado e essa tem sido a maior causa de propagação do vírus. É como uma roleta russa, ninguém sabe se está ou será o próximo. E, pode ser fatal.

Fotos: Luciano André Lemos e Divulgação 

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