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Bento Gonçalves já conta com Hospital Público, junto à UPA

 

Com a colaboração de entidades, empresas e voluntários, acabamentos do primeiro andar da torre de internação foram executados em tempo recorde, para a destinação de leitos voltados às vítimas da pandemia do coronavírus (Covid 19)

Por Rodrigo De Marco 

Edição: Kátia Bortolini

O cronograma de obras do hospital público, que está sendo construído em etapas junto à UPA do bairro Botafogo, foi acelerado pela pandemia do coronavírus. Em 30 dias, em obra emergencial envolvendo diversos segmentos da comunidade, foram feitos os acabamentos no primeiro dos quatro pavimentos da torre de internação. A ala tem 40 leitos, entre eles oito mini UTIs, e já está sendo utilizada para atendimento exclusivo às vítimas do coronavírus. Segundo o secretário municipal de Saúde, Diogo Siqueira, a utilização da ala, iniciada na última semana de abril, marcou o início das atividades do hospital.

prédio da upa

 

O cronograma de obras continua pelos acabamentos dos outros três andares da torre, que também sediará UTIs, e pela conclusão do bloco cirúrgico, que já possui as fundações prontas ao lado do prédio da torre. Segundo Siqueira, a estrutura está sendo montada para o hospital atender pelo SUS em âmbito regional, modalidade que habilita a instituição a receber recursos federais.

 

A obra emergencial para a ocupação do primeiro andar na torre de internação, de estrutura levantada, mas semiacabada, foi resultante de parceria entre a prefeitura de Bento Goncalves, o Centro da Indústria, Comércio e Serviços (CIC-BG) e a Associação das Empresas da Construção Civil da Região dos Vinhedos (Ascon Vinhedos). O projeto foi executado de 18 de março a 18 de abril deste ano, em mutirão coordenado por funcionários especializados da prefeitura e de construtoras associadas, e envolvendo a mão de obra de centenas de voluntários da comunidade, de ambos os sexos, em revezamento.

 

O CIC-BG, através do grupo “Unidos por Bento”, arrecadou doações de empresas e pessoas físicas. Para o término do andar já foram destinados R$ 320 mil.

 

Término da obra previsto para o final deste ano

A estrutura do hospital público está sendo erguida numa área de 12 mil metros quadrados, no bairro Botafogo, que antigamente sediava o extinto Hospital Walter Galassi. A aquisição dessa área pelo município, que pertencia a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), iniciou na administração do ex-prefeito Darcy Pozza (in memoriam) e foi semi-concluída na administração do ex-prefeito Roberto Lunelli (in memoriam). As obras do hospital iniciaram em 2011, na gestão Lunelli, pelo prédio da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) 24 horas, com 900 metros quadrados de área construída e pelo levante, sobre 600 metros quadrados da estrutura do esqueleto dos quatro andares da torre de internação do então chamado “Hospital do Trabalhador”.

Siqueira 2

 

O prefeito Guilherme Pasin terminou as obras da UPA, inaugurada em julho de 2015, na condição de Complexo Hospitalar de Saúde, com Laboratório de Patologia e Análises Clínicas e o Centro de Especialidades Odontológicas. Em 2019, a prefeitura executou o revestimento externo dos quatro andares da torre de internação e instalou esquadrias externas. O investimento da obra, de mais de R$ 727 mil, foi pago com recursos da Secretaria Municipal de Saúde, e permuta com imóveis do município.

 

De acordo com o secretário municipal da Saúde, Diogo Siqueira, o término dos acabamentos internos da torre de internação está previsto para ocorrer ainda no final de 2020, que também sediará a UTI.

prédio upa

construção upa

 

Mais um prédio será erguido

 

Siqueira acrescenta que já estão prontas as fundações para um novo prédio ao lado da torre de internação. Essa nova estrutura ocupará 2.478,20 metros quadrados do terreno e foi projetada para comportar sete andares, a serem erguidos a médio prazo. O primeiro andar sediará o bloco cirúrgico e uma central de material esterilizado.

 

Como funcionava a UPA antes da pandemia

A UPA 24h iniciou atividades em 18 de junho de 2015, para efetuar atendimentos de urgência e emergência durante 24 horas todos os dias da semana. Antes da pandemia e o início das obras da ala emergencial, a unidade contava com 120 funcionários, entre médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e radiologia, farmacêuticos, assistentes sociais e atendentes, que se revezavam em turnos de 6 e 12 horas. Ao atender um chamado de urgência, o SAMU/192, após prestar o primeiro atendimento ao paciente, o encaminhava para a UPA ou, em situações mais graves, para o hospital conveniado.

 

O prédio da UPA tinha capacidade para 350 atendimentos por dia. A estrutura era representada por salas para observação, intervenções de emergência, inalação, gesso, sutura, medicação, coleta de material para exames, esterilização, área de higienização, de lavagem e descontaminação, dois consultórios médicos adultos e dois pediátricos, assistência social, classificação de risco, repouso masculino e feminino, almoxarifado, banheiros/vestiários internos (masculino e feminino), administração e recepção entre outros setores. Na UPA, os pacientes podiam permanecer em observação por um período de 24 horas para elucidação diagnóstica ou estabilização do quadro clínico, em 16 leitos de observação.

Bento no combate ao Covid 19

Até o final de fevereiro deste ano, era difícil imaginar um quadro severo de coronavírus no Brasil, mas algumas prefeituras já começavam a trabalhar de forma preventiva. Bento Gonçalves saiu na frente e, em 28 de fevereiro, divulgou o primeiro boletim epidemiológico sobre o vírus na cidade. Desde janeiro deste ano, a prefeitura monitora a situação no município. Na época não havia casos suspeitos, mas os bastidores já indicavam um perigo iminente. Naquele momento, a população parecia não levar em consideração.

estrutura externa

 

Foi no 16º boletim epidemiológico, emitido em 14 de março, que apareceu o primeiro suspeito, posteriormente confirmado como infectado. Um homem de 60 anos, natural de Serafina Corrêa, teria contraído o vírus no Paraguai. Ele baixou na UTI do Hospital Tacchini, onde faleceu após mais de 30 dias de internação. A partir deste momento o cenário começou a mudar e medidas mais severas passaram a ser tomadas. Em uma semana comércios começaram a ser fechados, escolas encerraram as aulas, e o aviso de ficar em casa e evitar o contato social soava como o alerta máximo no combate ao coronavírus. Foi criado o Comitê de Atenção ao Coronavírus, reunindo as secretarias municipais de Saúde e Educação, Associação Médica de Bento Gonçalves (AMEB), Hospital Tacchini e Unimed, que repassa informações diárias para a população.

 

Ambulatório de Campanha

Em parceria com o Exército, no final do mês de março, foi instalado um ambulatório de campanha em frente a UPA para a triagem de pacientes com sintomas respiratórios.

 

Separação dos casos suspeitos e confirmados

O coordenador médico da UPA, Amauri Vargas, ressalta a importância do novo espaço para os leitos emergenciais. “A ala possibilita a separação de casos suspeitos e confirmados de coronavírus, com qualidade e suporte para manutenção de vida.  Segundo Vargas, foi elogiável a união de diversos segmentos da comunidade em torno do cumprimento dessa demanda emergencial de saúde pública. Ele também ressalta a prontidão de empresas da comunidade, que doaram respiradores mecânicos. O médico, natural de Curitiba, Paraná, há cerca de um ano trabalhando em Bento Gonçalves, classifica como acima da média o perfil solidário e voluntario da comunidade local.

médico upa

Capacidade de mobilização da comunidade

O prefeito Guilherme Pasin, frente a ameaça do coronavírus, solicitou o apoio do CIC-BG e da Ascon Vinhedos, para atender a medida emergencial de oferta de mais leitos hospitalares no município, em reunião ocorrida no Centro Empresarial, no dia 15 de março deste ano. O município entrou com a equipe técnica da obra em andamento e o CIC-BG ficou responsável pela arrecadação de materiais de construção, entre outros donativos. O cronograma, a adaptação do projeto e a coordenação da execução ficaram a cargo da Ascon Vinhedos.

voluntários

voluintários 2

 

A execução da obra foi acompanhada pelo presidente da Ascon, engenheiro civil Milton Milan, também responsável pelo projeto Bento + 20. Segundo ele, a experiência foi incrível. “A capacidade de mobilização da sociedade é impressionante. O projeto iniciou envolvendo três entidades e foi se multiplicando por um sem número de pessoas que aderiram à causa de várias formas. Tivemos o suporte necessário para o excelente andamento da obra, desde a mão de obra especializada, doação de recursos financeiros e materiais de construção, até o serviço geral voluntário. Ele ressalta que “os acabamentos foram feitos em tempo recorde, porque um grupo de trabalho voluntário não deixou faltar nada. O material necessário era instantaneamente disponibilizado. Moradores de Garibaldi e de outras cidades da região também se disponibilizaram a participar do mutirão”, ressalta Milan.

 

Montagem das camas

Com o auxílio de voluntários, o espaço preparado exclusivamente para pacientes com a COVID-19, foi equipado com camas, no último dia 21 de abril. Participaram da montagem das camas o grupo de jovens Calebe, voluntários da comunidade e equipe da Prefeitura.

camas 2

 

Estrutura interna já está sendo utilizada

quarto

estrutura interna

 

“Unidos por Bento”

Rogério Capoani*

Capoani 3

 

“Nós tivemos o primeiro encontro na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) no dia 15 de março, convocado pelo prefeito Guilherme Pasin e pelo secretário de saúde, Diogo Siqueira. Na ocasião, eles explanaram sobre os índices da Covid-19 e quais eram as projeções para o número de casos em Bento Gonçalves, julgando de suma importância finalizar um andar inteiro daquele hospital por precaução, nos permitindo 40 leitos a mais do que o sistema público e privado de saúde comportava. Diversas autoridades estavam presentes, como conselheiros do Hospital Tacchini e representantes da saúde pública, que sugeriram que o CIC-BG liderasse esse processo, para captar recursos junto a empresas e entidades – nós aceitamos essa missão. Já no dia 17, criamos um grupo chamado ‘Unidos por Bento’, onde iniciamos a busca pelos recursos, com uma projeção inicial de apenas captarmos o valor necessário para a construção física daquele andar. Tínhamos um orçamento estimado na casa dos 250 mil reais. Diante disso, no próprio dia 15, contatamos o Milton Milan, presidente da Ascon, que mostrou prestatividade e competência profissional para encabeçar o processo de planilhar e gerir toda a obra. Depois de 18h da criação do grupo, já contávamos com R$ 236 mil na conta – quase toda a meta atingida. Isso nos surpreendeu positivamente pelo engajamento das empresas, buscando mais informações junto ao CIC e chegando a cerca de 180 componentes do grupo, entre empresas e associações. O valor foi aumentando, tanto que no último levantamento que fizemos estávamos com uma quantia aproximada de R$ 690 mil em conta corrente, pois abrimos uma conta específica no Sicredi feita em nome do CIC – já que não tínhamos tempo hábil para abrirmos um CNPJ novo em nome de uma associação, que era o intuito inicial. Por isso, fizemos um termo de cooperação do CIC para com a prefeitura, onde constam os deveres de cada parte, e depois um termo de cooperação com cada colaborador que depositasse um valor na conta. No final do processo, que deverá acontecer dentro dos próximos 15 dias, faremos uma prestação geral de contas dentro do nosso site. Da arrecadação, reservamos 320 mil reais como garantia para terminar a obra física e depositamos 200 mil diretamente para o Comitê de Atenção ao Coronavírus. Ainda teremos um saldo na casa dos 200 mil que destinaremos à campanha ‘Unidos por Bento’, que tem como foco principal o “retorno responsável”, marca que registramos domínio pela entidade. O objetivo é conscientizar a população sobre os procedimentos adequados para o retorno às ruas, independente se for para quem irá trabalhar ou para o público em geral. Além disso, também utilizaremos esse saldo restante para conferirmos um aporte maior ao Comitê de Atenção ao Coronavírus para a aquisição de mais testes, que é a principal forma de mapear a pandemia, e outros EPIs aos profissionais de saúde.

 

Para o CIC-BG, foi um grande desafio ter a oportunidade de exercer seu papel social e fazer parte desse movimento tão importante para Bento Gonçalves. Criamos o grupo, mobilizamos as pessoas e tivemos êxito na captação dos recursos. Isso, para nós, foi muito positivo no sentido de fortalecimento, e também corroborando a credibilidade que a entidade tem. Instantaneamente após termos alcançado o êxito nessa missão, direcionamos os esforços da entidade para a representação dos interesses dos associados, grande proposito da entidade, no pleito pela retomada das atividades econômicas”

*Presidente do CIC-BG

 

“Prontos para o enfrentamento”

Guilherme Pasin*

Pasin 5

“Todas nossas ações foram planejadas para que pudéssemos não só achatar a curva epidemiológica na cidade, mas também ter tempo de reforçar a estrutura de atendimento médico para a população; e tudo isso, com embasamento em dados da saúde e científicos. Uma das ações foi a construção de 40 leitos de isolamento e oito mini UTIs para atender os pacientes com coronavírus. Com apoio da sociedade civil, empresários do Município e voluntários, realizamos a construção junto ao Complexo Hospitalar que já estava com a estrutura externa pronta, garantindo leitos de retaguarda para o atendimento no Hospital Tacchini e permitindo um atendimento com mais tranquilidade para a população. Estamos prontos para o enfrentamento ao vírus. Com toda certeza, esta será uma obra histórica para a nossa comunidade. Uma obra que carrega o DNA, as mãos, o sangue e o suor de muita gente que fez o melhor por nossa cidade. Quero agradecer a todos que participaram: sociedade civil, empresários, voluntários. Cada um é responsável por uma obra que salvará vidas”.

*Prefeito de Bento Gonçalves

 

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