oração

Tempos incomuns

Por Ancila Dall’Onder Zat

Professora 

ancila@italnet.com.br 

Estamos reclusos, em quarentena, em plena Quaresma. Esta nos convida à reflexão, à oração e à ação solidária. A quarentena, entretanto, recomenda ficarmos em casa, abrindo, neste espaço de tempo, uma gama de possibilidades para a ação solidária. Exemplos se multiplicam no mundo inteiro.

Aliás, o mundo foi surpreendido por algo invisível, mínimo, mas máximo nas suas consequências. O poeta Eurípedes da Macedônia costumava dizer: “Os deuses criam-nos muitas surpresas: o esperado não se cumpre e, ao inesperado, um deus abre caminho”. Na interpretação de Edgar Morin, “…ainda não incorporamos a mensagem de Eurípedes, que é a de estarmos prontos para o inesperado”.

As civilizações sempre acreditaram nas certezas cíclicas e repetitivas, apesar da existência de fenômenos probabilísticos. Nessa perspectiva, alguns fatos abalaram a certeza histórica dos últimos séculos, porque nunca teriam imaginado que: um atentado em Serajevo desencadearia uma Guerra Mundial, cujo Tratado de Paz traria o germe para a segunda Guerra Mundial; ocorreria a depressão dos “anos 30” nos Estados Unidos; na reviravolta da supremacia nazista na segunda Guerra Mundial; haveria uma Guerra Fria; o Império Soviético implodiria em 1989; a Guerra do Golfo esfacelaria a Iugoslávia; um “onze de setembro” aconteceria nos Estados Unidos (o ataque das Torres Gêmeas). O mesmo poder-se-ia lembrar na área da saúde com a gripe espanhola, SARS (síndrome respiratória aguda), H1N1 (gripe suína) e outras.

Esses fatos nos apontam para a incerteza dos fenômenos aleatórios – Laplace. Nem a mente humana ou um supercomputador poderiam prever. A humanidade se surpreende porque não está preparada para o novo.

No século de Pericles, Tucídedes, ao reportar-se à Guerra do Peleponeso, descreve a peste que assolou Atenas. Os homens levaram suas mulheres e as crianças, as ovelhas e a mobília para as ilhas adjacentes, já que não havia remédio para combater o mal. Na quarentena, acreditaram que a sentença lhes fora dada e passaram a aproveitar a vida e gozar de suas riquezas. Esqueceram o bom senso e as virtudes.

Hoje, vivemos essas circunstâncias reclusos, mas solidários e em comunhão com os nossos familiares, amigos e vizinhos, graças aos avanços da tecnologia, através dos meios de comunicação e das redes sociais.

A quarentena permitiu vivenciar, de forma mais profunda, a Quaresma e a Páscoa em seu real significado.

O recolhimento, com certeza, revigorará o ânimo de todos na luta contra este mal. Sairemos deste episódio com mais fé, mais solidariedade e humanidade. Mostra-nos, também, que precisamos estar preparados para o imprevisível.

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