O impacto na arte

Artistas relatam drama vivido em tempos de pandemia

Por Rodrigo De Marco

rodrigo@integracaodaserra.com.br 

A pandemia ocasionada pelo novo coronavírus (Covid 19) tem transformado rotinas, exigindo que a população fique em isolamento domiciliar. Após mais de 30 dias, o Brasil ainda tenta lidar com as regras do isolamento e trabalhadores de diferentes segmentos têm se adaptado ao “novo mundo”. A área artística tem tentado se reinventar através de canais alternativos. As lives têm sido a saída para o show continuar, porém sem cachê, ficando apenas o amor pela arte. A economia passa por um dos testes mais duros das últimas décadas, assim como o bom senso da população. Shows musicais, festivais de cinema e apresentações de teatro seguem penduradas por um enorme ponto de interrogação. O Integração da Serra conversou com quatro artistas gaúchos de diferentes áreas, que relatam sobre os planos adiados e as dúvidas perante o coronavírus.

MOSAICO 2

Cortinas fechadas

Måhrcia Carraro trabalha há 12 anos como atriz e é uma das referências na região. A atriz está há nove anos à frente do Artistas No Palco Escola de Teatro, a única em Bento Gonçalves que conta com um profissional com formação em Licenciatura em Teatro, um dos pilares na fomentação de novos talentos. Além de dedicar grande parte do tempo ao teatro, Måhrcia atua também como produtora cultural. O cenário descrito pela artista é de dificuldades.

“Como atriz tive todos os espetáculos cancelados até outubro. São oito pessoas do grupo paradas, sendo que cinco delas não tem outra fonte de renda. Estamos aproveitando este tempo para organizar e reestruturar a Companhia e a Escola de Teatro. Estamos criando site, novos projetos, ensaiando, criando estratégias para tentar “driblar” a crise econômica e a principal: a do “coração”, porque não nos vemos pessoalmente há mais de um mês. A falta dos palcos está sendo a parte mais dura até agora. Nos próximos meses, acrescenta-se a ela a falta de dinheiro para saldar o aluguel, água, luz e internet do espaço e dos integrantes da Companhia. Comida pelo menos não vai nos faltar, porque contamos com a ajuda de familiares”, diz ela.

Marcia

De acordo com a artista, “as poucas turmas de teatro que restaram estão sendo ministradas através de grupo online. O que tem sido um desafio tecnológico e humano. Todas as ações da Companhia não estão visando remuneração, porque ainda não encontramos uma alternativa para executá-las como produto artístico, está mais para um momento de “casulo”, mas temos fé que borboletas virão”.

Måhrcia fala também sobre o que pensa em relação às lives realizadas pelos artistas e a classe artística de Bento Gonçalves. “Não tenho participado de lives porque a “invasão” delas em várias mídias não nos pareceu ainda como a melhor alternativa para o coletivo de teatro, mas achei que funcionaram perfeitamente para os músicos. O maior desafio da quarentena está sendo viver de arte de uma maneira nova e criativa. Acredito que a classe artística de Bento está unida. Tenho, inclusive, criado novo projeto com um grupo de artistas que já trabalhava comigo nos roteiros turísticos da região, que recebeu o nome de Nos Trilhos da Cultura. Se trata de um coletivo de artistas”, explica.

Ernani (Helio Alexandre)

O parar das máquinas

Ernani Cousandier é um artista inquieto, provido de criatividade através dos pincéis, da escrita e que também brilha comandando a banda Os Bardos da Pangeia, que após um longo período de hiato retornou com uma nova formação em 2017, lançando o disco “A Máquina está Grávida” em 2018. Cousandier, que há mais de 30 anos tem a arte como sua profissão, mesclando trabalhos na pintura e na música, hoje passa por um dos momentos mais delicados de sua trajetória.

O isolamento social freou os shows dos Bardos da Pangeia e tem imposto uma realidade dura e repleta de desafios e mudanças.

“Eu, na verdade, estou aqui literalmente na luta pela sobrevivência, tentando, com dignidade, tocar a família e criar minha filha. Ainda não utilizei lives, estou mesmo no básico, procurando maneiras de sobrevivência. A transmissão ao vivo pela internet é uma ferramenta e maneira de ficar ligado, mas estou pensando também em outros formatos. Acredito que há uma transformação a caminho e que é inevitável. Vamos ter que encontrar outros formatos e suportes para levar a arte adiante e comercializá-la”, acredita.

As mudanças que estão ocorrendo junto a pandemia têm instigado Cousandier a buscar outras formas de continuar o show. O artista, no entanto, é realista e diz jamais ter passado por um momento tão difícil em sua trajetória de décadas na música e pintura.

“Com a arte, tenho bastante expectativa e estou botando a cabeça para funcionar para ver como posso me adaptar. Eu trabalho há mais de 30 anos com arte. A profissão foi mudando com os anos, mas nunca de uma forma tão drástica como sinto agora. Pelo menos essa é a impressão que eu tenho. Espero ter forças e criatividade para conseguir ultrapassar e manter os trabalhos e tudo mais”, afirma.

Johnny Grace

Isolamento em ritmo de Elvis

Johnny Grace é músico há pelo menos 20 anos e há oito tem a responsabilidade de ser um dos melhores covers do Elvis Presley da América Latina. Com uma média de 12 shows ao mês, o músico tinha uma agenda agitada, agora interrompida pela pandemia. Só no mês de abril foram 13 apresentações canceladas. Além da vida agitada nos palcos, Johnny tem uma empresa de produções artísticas. Assim como Måhrcia e Cousandier, não está com perspectivas de trabalho.

“Não existem alternativas para trabalho nesse momento. Tenho uma empresa de produções artísticas e não tem como trabalhar para vender shows, contatos com clientes, pois está tudo parado e indefinido. Vamos reunir a equipe para ver o que podemos começar a fazer, mas tudo depende muito do que vai acontecer nos próximos dez dias”, diz.

Johnny tem levado a música de Elvis ao seu público através das lives, em voga no momento. “Tenho participado de lives. Fiz quatro nesse período de quarentena e todos os dias coloco uma gravação com músicas ou com algo específico relativo a Elvis. Não diria que a live é algo que possa dar projeção, mas é uma forma de estar próximo ao meu público e, de certa forma, matar a saudade do palco. Mas nada é comparado ao calor humano, a um show real. Estar olhando no olho do público, vendo a reação, a emoção. Isso uma live não proporciona para o artista. Mas as lives que eu fiz foram intensas e me senti muito feliz. A emoção vem depois ao ler as mensagens e aí tu pensa que foi como um show normal, só que sem contato físico”, afirma.

Os mais de 30 dias sem apresentações, no entanto, têm gerado preocupação, e as lives acabam sendo uma alternativa momentânea. Johnny não esquece dos colegas de banda, que também têm passado dificuldade nesses tempos de pandemia.

“Converso com os músicos que tenho mais afinidade e com a minha banda. Todos estão passando por um momento difícil. Todos dependem da arte para colocar comida na mesa. As lives enchem a alma, mas não enchem a barriga. Sei que muitos estão passando dificuldades tremendas. Imagina, o faturamento foi a zero. E as perspectivas são de mais semanas sem trabalho. A recuperação será lenta. Quando voltar, vai demorar para entrar no ritmo que estava. A cena musical estava muito boa (pelo menos para esses colegas com os quais eu converso)”, lamenta.

Ainda, segundo o músico, o ano de 2020 é uma incógnita. “Eu imagino uma volta para agosto ou setembro (tomara que isso aconteça antes). Imagina se for para agosto: metade de março, abril, maio, junho e julho sem faturamento. Zero. Então, 2020 será apenas para começar a levantar e 2021 para recuperação”, projeta.

Troian

A arte em espera

O ator e produtor cultural, Cláudio Troian, tem uma vasta carreira artística e hoje é um nome consolidado nas artes gaúchas. Natural de Porto Alegre, o artista se radicou em Caxias do Sul. No último ano, recebeu o título de Cidadão Caxiense em virtude do trabalho em prol da cultura que tem realizado nas últimas décadas. Troian é também Diretor Operacional do CineSerra, conhecido festival de cinema da Serra Gaúcha. A crise acarretada pela pandemia, no entanto, foi uma avalanche na vida artística de Troian.

“Sou atingido em um espectro amplo, uma vez que gerencio projetos culturais (de leis de incentivo culturais) nas sete áreas da cultura. Exposições agendadas foram canceladas, lançamentos de livros foram cancelados, lançamento de documentários foram cancelados, enfim, uma gama de produtos atingidos pela pandemia”, lamenta.

Um dos maiores prejuízos foi o cancelamento do CineSerra. O artista ainda não sabe se o festival poderá ocorrer neste ano.

“O festival deveria ter acontecido de 4 a 19 de abril e seria apresentado em dez cidades gaúchas (Garibaldi, Bento, Cotiporã, Caxias, Flores da Cunha, Nova Petrópolis, Gramado, Canela, Torres e Porto Alegre) e em 16 locais de projeções. Uma logística que consumiu mais de 90 dias para concatenar-se. Com a necessidade de atender às recomendações da OMS, cancelamos temporariamente as atividades e aguardamos a liberação efetiva e responsável do isolamento social para retomar os contatos. Calcule que iniciar 16 apresentações no curto espaço de tempo retilíneo de 16 dias será um esforço redobrado, sem previsão se, de fato, poderá ocorrer ainda neste ano”, explica.

As dificuldades econômicas também são citadas como um agravante em tempos de isolamento. “Já do ponto de vista econômico, a dificuldade amplia-se potencialmente. As contas ordinárias das pessoas (produtores, artistas, agentes, técnicos e outros fornecedores) sempre chegam. Luz, água, comunicações, aluguéis, supermercado, farmácia e outras necessidades. E agora, José, como fazer? Há algumas linhas de auxílios governamentais e editais de emergência lançados por alguns organismos do governo nas três esferas e na iniciativa privada”, diz.

Ainda, segundo o artista, a utilização das lives são bem-vindas e tem unido os artistas. “Quanto às lives, tenho observado que o argumento mais utilizado é o de “vamos dar as mãos” à distância (risos), porque não há muito o que fazer. Alguns caxienses estão fazendo lives com demonstrações (teatro e música) e solicitando depósitos como contrapartida. Mas, além disso, não se vê muita coisa”, salienta.

“Cultura em Casa” movimenta cena artística de Bento

A Secretaria de Cultura e o Conselho Municipal de Política Cultural estão promovendo uma corrente do bem artística. O projeto Festival Cultura em Casa Bento Gonçalves iniciou em março, envolvendo os agentes culturais e levando para a população diferentes formas de conexão com os artistas da cidade.

A ideia é valorizar a arte através de diferentes manifestações culturais. A principal delas é estimular os agentes culturais a promover a interação com o público em casa através manifestações artísticas em uma sacada ou varanda para seus vizinhos.

As apresentações são gravadas e transmitidas ao vivo pelas redes sociais para depois ser enviadas para compartilhamento nas redes sociais do Cultura Bento e na página do Facebook do Conselho Municipal de Política Cultural.

São aceitos também materiais em formato de vídeos e fotos de apresentações musicais e de diferentes veias artísticas, como pintura, desenho, fotografia, resenha de livros, crônicas, culinária, feitos dentro de casa. A Secretaria de Cultura também disponibiliza, em seus canais, materiais audiovisuais, como um vídeo da cidade produzido com recursos do  Fundo Municipal de Cultura.

Os canais de comunicação do Cultura Bento têm uma parceria de divulgação das lives promovidas no Instagram e Facebook dos artistas. A plataforma Guia Bento no Instagram (@guia.bento) também é parceira.

Para o presidente do Conselho Municipal de Política Cultural, Vinícius Nardi, “é fundamental, em tempos desafiadores, pensarmos em ações criativas para nos mantermos unidos, fortes e chegarmos do outro lado – vivos. Todos estamos engajados neste espírito e precisamos da colaboração coletiva para implementar esta e uma série de ações que estão sendo projetadas”, destaca.

Para participar do projeto, basta o artista entrar em contato por meio de mensagem direta no Facebook e/ou Instagram do Cultura Bento ou também por meio do e-mail culturabento@gmail.com. Todas as manifestações culturais deverão usar as hashtags de divulgação #festivalculturaemcasabento #timedebento #fiqueemcasa #bentocontraocoronavirus #culturabento #artistasdebentocontraocoronavirus #culturaunida.

Fotos: Divulgação e Vagão Filmes 

1 responder
  1. Ivete Todeschini
    Ivete Todeschini says:

    Há muito tempo, numa leitura de contexto eu anunciava: “os tempos são maus”, doía-me a ausência de substratos. De corpo e alma busquei na Cultura e Arte, respostas que transcendessem. Não nego, lutei! Como prenúncio sinto que Alma Humana está doente! Pior que o vírus!
    Soluções existem sempre. Creio num Deus criativo que inspirará ações! O diálogo, a solidariedade e o Amor serão premissas!

    Responder

Deixe uma resposta

Escreva um comentário
Sinta-se livre para contribuir

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *