Rogério Gava

Notas sobre a Peste

Por Rogério Gava

rogeriogava@integracaodaserra.com.br 

Leio que um vírus, mede, em média, cem nanômetros. Descubro que um nanômetro equivale à milionésima parte de um milímetro. A cabeça de um alfinete mede um milímetro. Caberiam aí, portanto, cerca de dez mil vírus como o “coronavírus”. Mais uma prova de que tamanho, definitivamente, não é documento. Algo tão pequeno (que nem se sabe ao certo se é ser vivo, ou não, a discussão é grande) simplesmente mostra toda a fragilidade da vida. E a pequenez de todos nós. Se essa tragédia servir para diminuir nossa arrogância, já terá deixado um legado. Do que duvido, entretanto.

O romance, “A Peste”, escrito em 1947 pelo filósofo franco-argelino Albert Camus (1913-1960), voltou à baila nestes tempos de epidemia. A história se passa na década de 1940 em Oran, pequena cidade banhada pelo Mediterrâneo, ao norte da Argélia. A vida seguia normal, todos correndo em prol de seus interesses. Trabalhar e ganhar dinheiro. Então, ratos começam a surgir dos esgotos e morrer aos milhares. Logo, as pessoas são infectadas. A doença se dissipa rapidamente. Muitos padecem. Têm febre. As mortes se multiplicam. Os corpos se amontoam nas ruas. O pânico se instala. A cidade é fechada. Inicia-se a quarentena. O exílio de todos em suas próprias casas. A peste não olhava para a cor da pele, classe social, gênero ou idade. Pestes são democráticas; assim como a morte. Em determinado momento, as baixas começam a diminuir. As portas da cidade se abrem. As pessoas voltam a se reunir. Após meses de sofrimento, a peste acaba. A mensagem de Camus: a peste escancara o egoísmo e a insensatez humana; também faz emergir a reflexão sobre a vida que se vive, sobre o individualismo e a solidariedade. Sobre nossa esmagadora precariedade. Triste homem que só aprende com a peste. Ou pior, que talvez nunca aprenda.

Em anedota (mas é na graça que dizemos o sério), leio que o coronavírus é ecológico. Menos aviões nos ares; menos carros nas ruas. Em Veneza, a água brilha, cristalina, como nunca se vira. A salvo dos turistas. A camada de Ozônio se recupera. Em outro lado, há o econômico. Menos poluição, menos produção, mais desemprego e tragédia social. O vírus, anticapitalista, desafia a sociedade do capital. As engrenagens que nos sustentam também nos matam. Difícil cilada essa em que nos metemos.

A peste é a sina do homem. É bíblica. O faraó do Egito que o diga. Em Atenas, quatrocentos anos antes de Cristo, uma praga matou mais de trinta mil pessoas. Em Roma, no século dois antes de nossa era, o que hoje se imagina ter sido varíola, matou mais de cinco milhões. A pior de todas, a peste bubônica, a terrível Peste Negra, varreu a Europa dos tempos medievais. Em quatro anos, metade da população do velho mundo foi dizimada (cinquenta milhões de mortos). No início do século passado, a Gripe Espanhola ceifou cinquenta milhões de almas. Cólera, Tuberculose, Tifo, Febre Amarela, Aids, Ebola, Malária, Sarampo. Cada peste é uma batalha. Pare de as combater, e elas voltam. A guerra nunca estará vencida.

* * *

“E chega talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acorda os ratos e os manda morrer numa cidade feliz.”

Albert Camus

 

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