Universo Feminino: Resiliência e Empoderamento

 

Em Bento Gonçalves, uma rede composta pelo Centro Revivi, Delegacia da Mulher e Patrulha Maria da Penha atua para garantir que a mulher vítima de violência sinta segurança para reconstruir sua vida. Em paralelo, profissionais de várias áreas experimentam o empoderamento

Reportagem: Rodrigo De Marco

Edição: Kátia Bortolini 

Mulheres

Por que ainda são vítimas?

“As mulheres representam 50% da população mundial. Os outros 50% são representados pelos filhos delas”.

Essa, entre outras afirmações e imagens exaltando o sexo feminino, foram postadas nas redes sociais no último 8 de março, Dia Internacional da Mulher, data comemorativa oficializada pela Organização das Nações Unidas na década de 1970. As mulheres do século XXI, além da maternidade, emocionalmente desempenham outras missões em busca do equilíbrio da família e da sociedade, atuando também no mercado de trabalho e na política com excelentes desempenhos. O resultado disso é que, a cada dia, ficam mais empoderadas. Mesmo assim, ainda são vítimas de relacionamentos abusivos e agressões físicas por parte de homens que precisam ter seu comportamento estudado, por darem a impressão de não ter sido gerados em um útero.

Em Bento Gonçalves, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), o Centro de Referência da Mulher que Vivencia Violência (Centro Revivi) e a Patrulha Maria da Penha trabalham em conjunto com o objetivo de combater a violência e amparar as vítimas de agressores. Em 2019, a Deam registrou 1.548 ocorrências envolvendo maus tratos a mulheres, crianças e adolescentes. O Centro Revivi atendeu 1.394 casos de violência contra a mulher em 2019, com um pequeno acréscimo em relação a 2018 (1.261 atendimentos). A Patrulha Maria da Penha, em 2019, realizou 259 visitas e encaminhou ao Poder Judiciário 198 medidas protetivas de urgência. Neste ano, até o último mês de fevereiro, a Patrulha encaminhou 44 medidas protetivas de urgência ao Fórum.

Delegada Deise

Coragem para buscar ajuda

Em 2019, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Bento Gonçalves registrou 1.548 ocorrências envolvendo maus tratos a mulheres, crianças e adolescentes. Segundo a delegada Deise Brancher, a maioria das vítimas mulheres tem entre 20 e 40 anos. Nos dois primeiros meses de 2020, quase 300 denúncias de agressão foram registradas no Deam. A Delegada afirma que, ano a ano, aumenta o registro de ocorrências e interpreta o acréscimo de forma positiva, “por representar que as mulheres estão cada vez mais encorajadas para denunciarem seus agressores”.

“Procuro ver essas estatísticas com bons olhos. As mulheres estão se encorajando para buscar ajuda. Encaminhamos os atendimentos para o Centro Revivi, unidade do município responsável pelo atendimento psicossocial e aconselhamento jurídico à mulheres que vivenciam a violência. Temos uma estagiária em Psicologia que auxilia no acolhimento da mulher. A abordagem demonstra o quanto é importante ir até o Centro Revivi”, explica.

Deise também afirma que existe um grande número de casos de reincidência. “Eu vejo que temos reincidência tanto por parte do homem agredindo a mesma mulher, como o homem sendo acusado por outras mulheres, como também uma reincidência de mulheres acusando novos parceiros. A violência na sociedade é um ciclo e, por isso, é extremamente importante o trabalho do Centro Revivi”, destaca. Para a Delegada, a sociedade patriarcal tem uma parcela de responsabilidade em casos de violência contra a mulher. “A sociedade patriarcal influencia na dificuldade da mulher em revelar o que está acontecendo, inclusive na criação dos filhos. Acaba-se reproduzindo a agressão como forma de solucionar os conflitos”, lamenta.

Capitã

Patrulha Maria da Penha

Foram os expressivos índices de violência contra mulheres em Bento Gonçalves, em especial os feminicídios, que impulsionaram a Brigada Militar a instituir no município, em 2015, a Patrulha Maria da Penha. A Capitã Estefanie Fagundes Gomes Caetano explica que a ação da Patrulha Maria da Penha atende especificamente casos de violência contra a mulher, “em razão da vulnerabilidade e hipossuficiência de gênero”, ocorrido em âmbito doméstico ou familiar. “O fluxo acontece da seguinte forma: em crime de violência doméstica, a guarnição do ostensivo é despachada para atendimento. Posteriormente, é registrado o Boletim de Ocorrência (BO) na Delegacia de Pronto Atendimento, com cópias encaminhadas à Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) e ao Poder Judiciário. Após o deferimento da Medida Protetiva de Urgência (MPU) pelo Poder Judiciário, é que a Patrulha entra em atuação. Se desloca até a casa da pessoa, entra no lar, olha no olho da mulher e sente se ela está passando por algum risco. No caso da confirmação de agressões físicas e de outros comportamentos abusivos, a Patrulha orienta a vítima sobre os seus direitos e informa como funciona a rede de enfrentamento à violência doméstica. É um trabalho de muito valor pois, a cada situação constatada, são tomadas as medidas de imediato, evitando a continuidade da situação. Ao seu dispor, a vítima terá os serviços do Deam e do Centro Revivi, além de atendimento de profissionais da rede pública e acolhimento em casa albergue”, explica a Capitã.

Vulnerabilidade

De acordo com ela, a Patrulha realiza o trabalho de pós-ocorrência, indo à casa da vítima para verificar com ela se o agressor está cumprindo as medidas deferidas pelo Poder Judiciário. “No dia da visita, a Patrulha verifica a situação da vítima e confecciona uma certidão. Essa certidão pode ser de: fiscalização de medida protetiva de urgência (quando a situação estiver dentro da normalidade), certidão de retorno do companheiro ao lar (quando a relação é restabelecida pela vítima), certidão de término de acompanhamento (quando a vítima informar e assinar que não necessita de acompanhamento), certidão de não localização da vítima e certidão de vulnerabilidade da vítima. A certidão de vulnerabilidade é encaminhada de forma urgente ao Poder Judiciário, relatando como está a mulher e a situação que está gerando a vulnerabilidade, como o descumprimento da medida de afastamento obrigatório da vítima, com a continuidade de ameaças e agressões. Essa certidão é analisada pelo Poder Judiciário que poderá, com base nela e demais informações, decretar a prisão preventiva do agressor, evitando um provável feminicídio”, explica Estefanie.

Rede de proteção

O efetivo que compõe a Patrulha Maria da Penha é do Estado Maior do 3º BPAT. Atualmente, nove soldados participam da escala de serviço e um realiza a parte administrativa, englobando a análise de medidas protetivas, organização dos roteiros de visita, busca de informações sobre o agressor, compilação dos dados das medidas protetivas, contato com outros órgãos para localizar a vítima da Maria da Penha, entre outras funções.

Conforme Estefanie, as mulheres vítimas de violência doméstica devem registrar o BO e também buscar apoio externo. “Na cidade de Bento Gonçalves temos uma rede muito forte de proteção, composta pelo Revivi, Deam e Patrulha Maria da Penha. Essa rede atua para garantir à mulher vítima de violência todos os seus direitos e realiza os trâmites necessários para que a vítima se sinta segura e possa reconstruir sua vida”, enfatiza a Capitã.

bombeira Kaemily Ok

Apaixonadas pela profissão

Desde o século XX muitas mulheres trabalham em várias áreas antes restritas ao sexo masculino, com amor pela profissão, aliado a altruísmo e persistência. É o caso da enfermeira Kaemily Lemes Colla Pellin, 30 anos, e da acadêmica de Biomedicina, Carolina Reali Dal Pai, 24 anos, duas das sete integrantes da Companhia Especial de Bombeiro Militar – Bento Gonçalves. Ao todo, a equipe da corporação é formada por 37 pessoas. Das sete bombeiras, seis atuam no serviço operacional de combate a incêndios e resgates de vítimas de acidentes de trânsito, entre outras funções, e uma trabalha no administrativo.

Há quase 8 anos na corporação, Kaemily garante que nunca sofreu preconceitos por ser mulher, porque na corporação não existe distinção de gênero. “Todos os integrantes da companhia são colegas. É assim que a gente se comporta, porque eles sabem que na rua devem contar com o trabalho da equipe. Percebemos que estamos conquistando nosso espaço. Às vezes, a mulher desmerece o seu potencial. Somos capazes de fazer tudo que os colegas homens fazem”, afirma a bombeira.

A rotina de trabalho não é das mais brandas. De acordo com a bombeira, existem três horários diferentes: 6, 12 ou 24 horas, podendo folgar até 72 horas. Kaemily é da turma das 24 horas, o que exige muita disciplina e dedicação.

“Temos uma média de seis atendimentos por dia, dos mais variados tipos. Atuamos principalmente em ocorrências de salvamento em altura, resgate veicular e atendimento pré-hospitalar. São muitas áreas de atuação e temos que estar em constante aperfeiçoamento, porque vemos e atendemos de tudo. A questão física também exige bastante”, relata.

O trabalho árduo e repleto de situações adversas é também recompensador. Kaemily guarda na memória um atendimento a acidente. “Foi uma saída de pista, na qual uma moça ficou presa dentro do veículo, sendo necessário retirar a porta com o uso do desencarcerador. Entrei no veículo para prestar o primeiro atendimento e fazer a avaliação. Retiramos ela e a conduzimos ao hospital. Alguns dias depois, ainda no hospital, ela deu entrevista a uma rádio local, ressaltando o atendimento da corporação. Após, veio pessoalmente agradecer a guarnição que atendeu o acidente. Segundo ela, o nosso atendimento evitou uma lesão mais grave na coluna. Esse é o tipo de coisa que nos marca bastante”, ressalta ela.

Segundo a bombeira, em atendimentos, quer ser a socorrista que estaria atendendo ela ou sua família. “Temos que fazer pelos outros o que gostaríamos que fizessem por nós”, conclui.

Bombeira Carol

Sempre pronta para diferentes desafios

Outra jovem bombeira que não mede esforços no trabalho é a veranense, estudante de Biomedicina, Carolina Reali Dal Pai. Com um largo sorriso, ela declara ser completamente apaixonada pela profissão. Há um ano na corporação, recorda a ocasião em que decidiu estudar para ser Bombeira.

“Em 2017, um temporal fez estragos em Veranópolis, cidade onde morava. Na época, eu trabalhava na Secretaria Municipal de Saúde e decidi ajudar os bombeiros nos atendimentos. Gostei, fui conhecendo, me informando e comecei a me preparar para o concurso. Hoje, eu posso dizer que é muito bom ser bombeira”, comemora.

Ela ressalta estar sempre pronta para diferentes desafios, e recorda de uma das situações mais comoventes em seu trabalho. Foi um feminicídio ocorrido em dezembro de 2019, na cidade de Canela. “Foi no final do ano, quando fui reforçar o atendimento para o Natal Luz. Em Canela, ocorreu um feminicídio num supermercado. O homem chegou atirando pelas costas da vítima, suicidando-se após o ato. Fomos fazer esse atendimento. Nessa hora, começamos a ver que a situação era complicada, porque essa mulher tinha medida de segurança, mas não bastou. Esse episódio me chocou bastante. Nós a levamos para o hospital viva, mas acabou não resistindo”, lamenta.

Carolina, que em pouco tempo de profissão já vivenciou várias situações tristes em atendimentos, afirma que os desafios diários a fazem crescer ainda mais. “Vou fazer curso para Sargento e assim por diante. É um ambiente bom para trabalhar. Gosto de ser bombeira. Não tem sentimento melhor do que o de ajudar alguém que precisa”, salienta.

Carolina recorda do apoio que teve dos familiares quando decidiu apostar no sonho de ser bombeira. “Minha família apoiou, me incentivando a estudar para o concurso. Hoje vejo que está mais acessível, cada vez mais, nós mulheres, vamos ganhando espaço. Gosto muito da região da Serra Gaúcha. Bento Gonçalves é uma cidade tranquila, e a população apoia bastante o Corpo de Bombeiros. É um lugar muito bom para trabalhar”, garante.

Regina Zanetti 2

O trabalho de destaque do Centro Revivi

Nem todas as mulheres agredidas registram o Boletim de Ocorrência (BO) na Delegacia da Mulher. Algumas procuram o Centro Revivi, unidade do município responsável pelo atendimento psicossocial e aconselhamento jurídico a mulheres que vivenciam a violência.

No ano passado, em relação a 2018, o Centro Revivi registrou acréscimo de 10,55% nos casos em andamento e queda de 13% em novos casos. No ano de 2019, foram prestados, em média, 117 atendimentos ao mês, entre casos em andamento e novos.

A coordenadora do Revivi, Regina Zanetti, lamenta que o registro de reincidência de agressões aumentou de 41 casos em 2018, para 95 casos em 2019. “A reincidência nos preocupa, porque sabemos que existem alguns fatores que levam a isso, entre eles a dependência financeira, os filhos, a própria cultura religiosa e o ambiente em que vivem. Mas a vergonha é ainda maior. É, de fato, o principal motivo, já que muitas pensam sobre o que o padre, o pastor ou os parentes irão dizer. Por outro lado, há muitos casos de mulheres, que depois de 30 anos sofrendo violência, resolveram quebrar o ciclo do sentimento de posse, que é muito grande. Eu considero o machismo alarmante”, afirma.

Outro ponto destacado por Regina é o fato de crianças, muitas vezes, presenciarem a própria mãe sendo agredida pelo companheiro. Situações que, segundo ela, podem acarretar traumas profundos. “O que as crianças enxergam dentro de casa, reproduzem na fase da adolescência e na vida adulta. A menina, que vê a mãe apanhar, poderá achar normal a violência contra mulheres. Tem que haver sim uma quebra de paradigma, uma desconstrução dessa cultura. Sempre onde há uma mulher agredida, existe uma criança ferida, seja psicologicamente ou fisicamente”, salienta.

De acordo com Regina, em 2019 houve um acréscimo de 68% no atendimento individualizado a familiares das vítimas (companheiros, ex-companheiros, irmãos, pais) em relação a 2018, devido à necessidade de conscientização no combate à violência doméstica e intrafamiliar.

Neste ano, o Centro Revivi está priorizando a capacitação de atendentes das unidades de saúde da rede pública municipal. “Sabemos que a mulher, muitas vezes, não se percebe perante a violência. Ela procura a unidade de saúde porque sente dores, entre outros sintomas. Na verdade, essa mulher está pedindo socorro”, explica a coordenadora. Regina acrescenta que as equipes das unidades serão treinadas para, nesses casos, mudar a abordagem e encaminhar as vítimas aos atendimentos especializados da rede. A Coordenadoria da Mulher e o Centro Revivi encaminham mulheres e homens com saúde mental comprometida, necessitados da intervenção de outros profissionais da área, entre eles psiquiatras, para atendimentos na rede pública de saúde, com predominância para o CAPS AD (agressores) e CAPS II (vítimas).

A equipe do Centro Revivi é formada por uma psicóloga, uma assistente social e estagiárias da área a partir do 5º semestre da graduação em andamento.

Neilene Lunelli (1)

Mulher de fibra e coragem

Líder sindical e política, com muita personalidade. Essa é a presidenta do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Bento Gonçalves (Sindiserp), Neilene Lunelli. Mesmo assim, no desempenho de sua luta social, Neilene já foi vítima de preconceito.

“Infelizmente os preconceitos existem. Já fui desrespeitada, inclusive por outras mulheres em redes sociais, e por pessoas que acreditam que determinados cargos lhe dão o direito de mentir e ofender. Um dos episódios, que aconteceu no meu último mandato como Vereadora, foi quando defendi a reabertura da Casa de Passagem para abrigar pessoas em situação de rua, durante um inverno rigoroso, e publicaram charges usando minha imagem e comentando que eu estava “importando mendigos para Bento”, entre outros absurdos”, conta.

Para a presidenta do Sindiserp, o mês de março deve ser celebrado por todas as mulheres “pois é um mês em que a cor rosa fala mais alto, porque ela simboliza a mulher de várias maneiras. É um mês que gosto muito, pois nos deixa mais alegres pelos carinhos e homenagens que recebemos. As pessoas precisam entender o que é respeito. E saber respeitar. Não só as mulheres, mas de uma forma geral. Hoje o que mais falta é respeito. É saber que onde começa o meu direito, termina o do outro. É saber conviver em harmonia e que ser mulher é um privilégio”, salienta.

Fotos: Rodrigo De Marco e Divulgação 

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