Casa Zandoná vai fechar

Por Rodrigo De Marco

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Após 70 anos, armazém à moda antiga encerra as atividades no final deste mês

A Casa Zandoná, de Bento Gonçalves, um símbolo de resistência do comércio a moda antiga, está encerrando as atividades após 70 anos de atendimento ao público. O armazém, situado no bairro São Francisco, fecha as portas no próximo dia 31 de dezembro. Aberto no ano de 1948, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o espaço conquistou gerações e está entre os comércios mais antigos da cidade. Atualmente, o atendimento é prestado pelos irmãos Zeferino Maria Zandoná, 85 anos, Célio Antônio Zandoná, 65 anos e Irma Zandoná Ferrari, 83 anos. Com o fechamento iminente do espaço, Zeferino, que começou a trabalhar no armazém em 1949, quando tinha 14 anos, esbanja um largo sorriso de gratidão e se diz feliz pelas décadas dedicadas ao comércio.

“No meu primeiro dia no armazém meu tio disse que eu deveria levar o trabalho a sério e nunca roubar nenhuma agulha de ninguém. Até hoje lembro desses conselhos”, ressalta Zeferino. Ele analisa que a trajetória da Casa Zandoná foi marcada por passagens boas e também por fases ruins. “Nos governos Sarney e Collor a maioria dos armazéns da cidade quebraram, foi difícil naquela época. Nós conseguimos sobreviver, mas muitos perderam seus negócios”. Ele salienta que no decorrer desses nãos só fez amigos. “Não tenho nenhum inimigo, esse é o principal legado”, diz.

Aos 85 anos, pode-se dizer que Zeferino tem uma excelente memória afetiva. Ele não esconde a emoção ao recordar dos tempos de garoto, em que era possível até mesmo jogar futebol na rua em frente ao armazém.

“Aqui não tinha calçamento, nem asfalto, era estrada de chão mesmo. Aqui na frente nós jogávamos bola porque o armazém não fechava ao meio dia. Enquanto um ia almoçar, o outro ficava aqui trabalhando e nesse momento vinha os amigos jogar bola aqui na frente. Isso foi nos anos 1950. Todas as casas ao redor eram de madeira e tinha muito mato”, recorda Zeferino.

Ainda segundo o comerciante, os 70 anos de trabalho junto à comunidade lhe ensinaram ainda mais sobre amizade e companheirismo.

“Eu queria agradecer todos os meus clientes, que foram sempre muito legais conosco. Quero dizer as lideranças políticas e empresarias que continuem batalhando pela cidade e pelo comércio, e que não se preocupem só com o lado financeiro, mas em termos humanitários também. O segredo do sucesso é amizade e trabalhar honestamente”, salienta.

A variedade de produtos na Casa Zandoná ainda é comentada entre muitos moradores da região. Até hoje o local é lembrado por dispor produtos e utensílios de marcas antigas, de boa qualidade. O armazém comercializa panelas de ferro, de alumínio econômica, lampiões e urinol de esmalte que, segundo Zeferino, tem boa saída. Na infraestrutura do estabelecimento se destaca um grande baleiro, o mesmo da época da abertura do armazém. Para fazer os cálculos do estabelecimento, os irmãos Zandoná usam uma somadora datada de 1950.

A história

A história do armazém iniciou em 1948, quando o carreteiro Angelo Zandoná, de 27 anos, deixou de fazer frete com carroça na região de Bento Gonçalves, para abrir um bar na localidade chamada de “loti” (lotes) pelos moradores do município. O bar, que inicialmente vendia bebidas como vinho, cerveja, graspa e suco de uva logo transformou-se em um armazém com oferta de diversos produtos alimentícios e de limpeza, entre outras utilidades domésticas.

Em meados de 1949, Zeferino, sobrinho de Angelo, de 14 anos, passou a ajudar seu tio nos negócios do armazém. No mesmo ano, a Casa Zandoná amplia sua oferta de produtos, entrando no ramo de armarinhos, ferramentas agrícolas e ferragens. O irmão do Zerefino, Célio Antônio, entra no negócio familiar em 1973, aos 19 anos.

Fotos: Rodrigo De Marco 

Armazém Zandoná

Armazém Zandoná (máquina somatória)

2 respostas
  1. Airton RIGONI
    Airton RIGONI says:

    Bom dia amigos e clientes do ARMAZEM ZANDONÁ!
    Quero parabenizar a família ZANDONÁ em especial o sr. Angelo (in memoriam) e o sr. Zeferino !
    Vocês foram exemplo para diversas gerações. Sempre com um sorriso cativante no rosto nos atendiam como se fôssemos seus familiares. Foram excelentes lembranças.
    Nunca vi em nenhum momento, principalmente a dupla Angelo e Zeferino, de “mau humor”.
    Vocês foram verdadeiros heróis em manter o tradicional ARMAZEM ZANDONÁ por mais de 70 anos.
    Somos testemunhas da dedicação e do carinho com que tratavam os clientes! Simplesmente se contarmos às pessoas de hoje elas não acreditariam que pudesse ter existido e sobrevivido um comércio tão tradicional e pessoal para os clientes.
    Queremos aproveitar a oportunidade para cumprimentá-los pelo trabalho exemplar oferecido nestes 70 anos de atividades comerciais. Nunca esquecendo o Célio, que tenho vaga lembrança pois saí de Bento Gonçalves em 1976.
    Um NATAL cheio de alegrias, paz e harmonia pra vocês e suas Famílias!
    Um ANO NOVO todo disponível para a confraternização, o descanso e o “aproveitar a vida”, mesmo sabendo que vocês exerceram as suas atividades sempre com o maior prazer. Era a vida pra vocês!

    E, “Que Deus continue dando a vocês e suas famílias de tudo o suficiente”.

    Abraços,
    Alfredo RIGONI – (In Memoriam)
    Luci RIGONI – Carlos Barbosa.RS
    Airton RIGONI – Almada. Portugal
    Silvio RIGONI – Pôrto Alegre.RS
    Silvana RIGONI – Pôrto Alegre.RS
    Sandra RIGONI – Carlos Barbosa.RS
    Fernando RIGONI – Florianópolis.SC

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  2. ADEMIR SIGNOR
    ADEMIR SIGNOR says:

    CONHECI E CONVIVI COM O ARMAZEM ZANDONA, INICIALMENTE COM SEU ANGELO E DONA ADELAIDE , SUA IRMÃ, COM A IRMA, O ZEFERINO E O MENEGOTTO E FINALMENTE COM O CÉLIO EM MORAVA NA MESMA RUA GOES MONTEIRO, E ALI ENCONTRAVAMOS TUDO O QUE ERA NECESSÁRIO.
    VAI DEIXAR SAUDADES, EM ESPECIAL O CÉLIO QUE FOI O QUE MAIS TINHAMAOA AMIZADE.

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