ZéVitor: um poeta entre o pop e a rima

Por Rodrigo De Marco

rodrigo@integracaodaserra.com.br

Com um sorriso largo e a poesia desenhada em jogos de palavras, o cantor carioca José Vitor Antunes (ZéVitor), 21 anos, esbanja simpatia e bom humor. Filho do ator global, Jackson Antunes, o jovem artista começa a trilhar sua história na música. Ainda aos 19 anos lançou o primeiro álbum intitulado “Cronológico”, marcado pela mescla do pop com rima. Em três anos ZéVitor já mostrou sua cara no cenário brasileiro e em setembro deste ano lançou um clipe com o cantor cearense, Fagner. A parceria resultou na regravação da música “Versos Ardentes”, lançada por Fagner em 2014. Numa conversa descontraída realizada no Dall’Onder Grande Hotel, casa da Festa Nacional da Música 2019, Zé Vitor contou sobre sua trajetória na música, influências, e os planos para a carreira.

 

Integração: Existe uma comparação artística entre você e seu pai?

ZéVitor: Talvez em algum nível dentro de mim, mas é muito mais na parte de atuação do que na música, que são dois caminhos diferentes. Mas eu pude beber muito desse universo dele, pela convivência com os poetas. Tem a literatura de cordel, as poesias, da terra do sertão. Me alimento muito disso, dessa convivência com ele e do universo dele, com os poetas, cantores sertanejos. Mas é mais algo que me alimento do que me comparo.

Integração: Teu pai já declarou ser fã da música sertaneja, tua linha, por outro lado, é mais voltada ao pop. Quem são tuas principais Influências na música?

ZéVitor: Eu cresci em Teresópolis, lugar que não tinha internet, quase que não tinha televisão, e tive contato tardio com muitas coisas. O primeiro som que escutei foi descendo a serra de fusca com o meu primo, e era o som do Shawlin, que é o cara do hip hop underground, tem o Gabriel O Pensador também, e dessa forma fui me entendendo. Tem o MC Marechal que também é um cara das antigas do hip hop. Eu também sempre gostei de Cazuza, eu amo Cazuza.

Integração: As suas músicas são carregadas de poesia. Quando você escreve, que mensagem pensa em transmitir às pessoas?

ZéVitor: O sertão tem essa coisa de falar da água, da terra, do campo, do pássaro. Tento passar no meu som o sentimento de olhar para o amor de uma forma mais saudável, e cada vez mais desconstruindo esses padrões que vem de muitos anos atrás engessado. Quero cantar a minha música para encher o coração das pessoas de coisas boas. Essencialmente eu canto para levar uma nova visão para o coração das pessoas, um novo olhar para o mundo, um retorno ao tempo real, fora desse tempo corrido, louco da cidade, onde não olhamos mais para o outro, não o escutamos. É repensar, fazer uma reciclagem de você mesmo, e se a música puder ser uma centelha de mudança que ela seja.

Integração: Atualmente o Brasil atravessa por um momento delicado no campo social, político e artístico. Isso tem afetado nas tuas criações, impactado, de certo modo, no momento em que fores escrever?

ZéVitor: Eu também tenho o meu lado B, tem muitas críticas suaves também. E quando criamos, tudo em nossa volta influencia. Se formos pensar no quesito social, humano e do tempo que estamos passando, sair na rua e ver pessoas no chão sem ter o que comer, pessoas sem emprego, é lógico que isso influencia e impacta a gente, porque somos um reflexo do externo e o externo às vezes é um reflexo do interno. Tem esse espelho do micro, do macro. Às vezes tento não ir tanto para política, mas não é questão de não se posicionar, é não falar coisas que agrediriam pessoas, porque elas instantaneamente já refratariam o que tem a dizer e não te escutariam. As críticas que tento fazer é o lugar do sentimento humano, da compaixão, da humanidade. É algo simples, mas se pararmos para pensar vamos chegar cada vez mais a lugares onde vamos perceber que o materialismo virou esse deus e as pessoas trabalham e se matam para comprar coisas. Que mundo é esse? É o mundo onde vemos o ódio imperando, ou é o amor, quase que divino?

Integração: De que forma você observa o cenário da música alternativa?

ZéVitor: Eu amo esse cenário, temos ótimos artistas. Escuto Tim Bernardes, Paulo Novaes, Jade Baraldo que está fazendo um trabalho lindo, enfim, eu amo essa galera. No próprio pop temos ótimos nomes, o Vitor kley, que é um ser iluminado, um moleque bom trazendo uma mensagem linda para o coração das pessoas. Essa galera me dá felicidade de escutar. Penso que os momentos de dificuldade são muito importantes para criarmos força e despertar o que está adormecido. Quanto mais as coisas forem ficando difíceis no cenário externo, social e humano, mais a arte vai fluir, e mais vezes isso vai trazer mudanças.

dueto

Integração: Recentemente você fez uma parceria com o cantor Fagner. Como foi realizar esse trabalho em conjunto com esse mestre da música brasileira?

ZéVitor: Ele é um monstro sagrado, um gigante, e ver um cara com tanto tempo de estrada, de música e trabalho feito pela arte é incrível. Foi um convite feito por ele, que havia reencontrado o meu pai depois de um tempo. E nós estávamos no estúdio e acabamos nos encontrando e ele fez esse convite pra mim. Ir para o estúdio com alguém que admiramos e nos inspiramos é algo para lembrar eternamente. Foi contagiante, muito especial, e eternamente vou lembrar e admirar.

Integração: Quais são os teus próximos projetos na música?

ZéVitor: Tem um EP de três faixas saindo no final de novembro. O nome é “Crônicas de um amor” e tem a produção musical de Mayam Rodilhano. A verdade é que nós que escrevemos somos meio tolos, saímos na esquina e nos apaixonamos. Estou passando por um momento meio alucinante dentro do meu coração, um momento bom. Posso dizer também que a tristeza me traz muita inspiração, muita energia para criar. Eu sempre tive a música dentro de mim como algo que tinha que tirar, e a música é uma transmutação de sentimento. Quando estou triste escrevo que nem louco (risos), é maravilhoso. O CD tem doses de esperança, muita dose de amor e uma tentativa de entendimento, de que temos que aceitar as coisas da forma como são.

Integração: De que forma observas a indústria fonográfica brasileira?

ZéVitor: Cada vez mais vamos ter novas formas de se trabalhar, menos formulas, cada vez mais liberdade está por vir, no sentido de criação, em todas as plataformas. Temos pessoas que em alguns anos atrás nunca teriam possibilidade de ter visibilidade, e hoje temos as plataformas disponíveis para os artistas independentes. É uma grande ferramenta para os novos talentos. Toda tecnologia que vem é para ajudar. É algo extremamente lindo que temos para trabalhar, porque é a possibilidade de encontrar pessoas e artistas novos. Precisamos das mudanças e tudo que vem para dar possibilidades é positivo para gente.

Integração: Como foi conhecer Bento Gonçalves e participar da Festa Nacional da Música?

ZéVitor: Nunca tinha vindo, eu gosto muito dessa terra. Meu primeiro clipe que foi “Plano de Futuro”, eu escolhi Gramado como cenário e é incrível participar da Festa Nacional da Música, ver tanta gente que admiramos, que escutamos, nos espelhamos, é um gigantesco carinho para o coração e a alma. Eu amo esse frio, o vinho, o clima daqui. É muito especial. Eu amo escrever aqui. Abro a janelinha, deixo o frio entrar e estou em casa (risos).

Confira o vídeo em que ZéVitor canta “Versos Ardentes” com Fagner 

Fotos: Rodrigo De Marco e Divulgação 

ZéVitor

 

 

 

 

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