Entrevista com o neurocirurgião Cássio Zottis Grapiglia

ESPECIAL 18 DE OUTUBRO- DIA DO MÉDICO 

“A recompensa dos pacientes, especialmente os da rede pública, é um verdadeiro motor, que faz a gente esquecer de todos os problemas da profissão”

INTEGRAÇÃO – Quando e como descobristes a tua vocação para a Medicina?

DR. CÁSSIO – Desde pequeno já gostava de ajudar e da ideia de tratar e curar as pessoas. Quando brincava com os soldados dos “Comandos em Ação”, sempre imaginava ser o médico, que andava no caminhão do exército com a cruz vermelha grande, para ajudar os soldados feridos na guerra imaginária…

INTEGRAÇÃO – Na graduação já tinhas identificado a área da Neurocirurgia como a em que te especializaria?

DR. CÁSSIO – Para mim sempre foi um desafio pensar que ainda não sabemos quase nada do cérebro. Outras áreas da medicina apresentam uma carga de conhecimento maior quando comparadas as ciências neurológicas. Do sistema nervoso, realmente ainda sabemos muito pouco. O contato entre duas células nervosas, por exemplo, pode criar processamentos absurdamente complexos, gerando uma infinidade de combinações de resposta. Então imagine milhares delas… A neurocirurgia sempre me cativou por gostar da área cirúrgica e por poder solucionar problemas neurológicos. A área estritamente clínica não foi minha primeira escolha devido a que temos, ainda hoje, várias doenças incuráveis, crônicas e degenerativas. Infelizmente, muitas vezes também temos que operar tumores incuráveis, mas faz parte do nosso labor.

INTEGRAÇÃO – Há quantos anos atua como especialista na área?

DR. CÁSSIO – Terminei a minha residência em 2009, após segui me especializando em Curitiba e São Paulo. Também participei de diversos cursos na Alemanha, Finlândia e EUA, sempre buscando ter contato com serviços de ponta.

INTEGRAÇÃO – Qual o cenário atual da Neurologia/Neurocirurgia no Brasil e no mundo? Houve avanços nas últimas décadas?

DR. CÁSSIO – Tratamentos mais avançados, sejam farmacológicos ou cirúrgicos, tem auxiliado na qualidade de vida dos pacientes neurológicos. Nas áreas de demência temos visto melhores resultados, e procedimentos cirúrgicos tem tomado um papel cada vez mais importante nos transtornos de movimentos anormais (por exemplo, Doença de Parkinson), e inclusive em problemas psiquiátricos. Tratamentos que envolvem células-tronco e avanços na área da neuromodulação vem se apresentam cada vez mais promissores, mas ainda temos que aguardar.

INTEGRAÇÃO – Nessa trajetória prestando atendimentos a pacientes, algum em especial ficou na tua memória? Por quê?

DR. CÁSSIO – Lembro de uma senhorinha com 80 anos que consultei na primeira semana que atendi no SUS – Unidade Central aqui em Bento. Ao terminar a consulta, ela me agradeceu e disse que estava feliz porque pela primeira vez alguém tinha explicado o que ela tinha (e ela havia entendido!), e ao contrário de outras vezes, não havia entrado por uma porta e saído pela outra com uma receita na mão… A recompensa dos pacientes, especialmente os da rede pública, é um verdadeiro motor que faz a gente esquecer todos os problemas da profissão.

INTEGRAÇÃO – Continuas estudando. Agora estás fazendo Doutorado? Por quê?

DR. CÁSSIO – Sim, terminei o Mestrado em Saúde Coletiva e agora estou na reta final do Doutorado. A área de Saúde Coletiva nos brinda inúmeros desafios, ainda mais em um país com um panorama de saúde complexo como o nosso. O SUS é uma luz para o mundo na área médica assistencialista e deve ser revitalizado e priorizado. Somos exemplo para vários países, mesmo como todos os problemas da rede pública. Tenho que confessar minha utopia de termos um sistema nacional realmente único de saúde, como nos países nórdicos, por exemplo, em que o empresário ou o político é atendido e operado pelo mesmo cirurgião, no mesmo hospital e com os mesmos materiais que o mais humilde operário. E o melhor, sem a cobrança direta de nenhum centavo… Mas infelizmente, desde que se passou a chamar o “paciente” de “cliente”, se corromperam as regras intrínsecas de bom relacionamento médico-paciente, gerando uma judicialização da medicina, aumentando exponencialmente os processos médicos. Com o foco na parte econômica, e não no assistencialismo, a medicina entrou no caos.

INTEGRAÇÃO – Sabemos que atendes pelo SUS, com boa vontade e gratidão? Por quê?

DR. CÁSSIO – Simplesmente pelo fato de ser a minha vocação. Não é uma roupa branca que nos faz melhor ou pior que o outro. Eu trato de nem usar guarda-pó para não assustar as pessoas ou distanciá-las. O médico tem que ter empatia com o paciente. Se não tem dedicação, humildade e compreensão, não pode ser médico.

INTEGRAÇÃO – De que forma interpretas o ser humano?

DR. CÁSSIO – Uma máquina perfeita que nós tratamos de desordenar. Fazemos todo o contrário dos animais e nos achamos superiores. Temos teorias e desculpas para tudo, para não dar-nos conta de que não somos nada. Somente quando entendemos o sentido da palavra humano (húmus = terra) é que entendemos que nascemos dela e que voltaremos a ela. E o oposto do húmus, que é o sacro = sagrado, é o que realmente nos governa…

INTEGRAÇÃO – Que dicas darias a futuros médicos?

DR. CÁSSIO – Desejo que sejam profissionais idôneos, dedicados, bem formados e especializados e que, antes de mais nada, saibam pensar realmente no paciente. Todo o resto é secundário ou consequência. Não se preocupem com quantidade, mas sim com qualidade, e que sempre possam se colocar na situação do outro. Muitas vezes é fácil criticar, mas compreender ou aceitar é muito mais nobre. O dinheiro jamais deve sobrepassar a ética, e deve simplesmente ser a consequência do seu trabalho bem feito e com dedicação. Nunca deve ser a finalidade principal. Que esses colegas realmente desejem fazer medicina e não negócio, e que trabalhem para o povo e não para os hospitais… desejo que não se vendam por migalhas, que obrem como caráter e que tratem de não se submeter a grandes organizações em que a opinião de administradores é muito mais considerada que a dos próprios médicos.

INTEGRAÇÃO – Considerações gerais.

DR. CÁSSIO – Acredito na concorrência como sendo algo frutífero para todos, e que nos auxilia na busca da excelência. Desejo que Bento Gonçalves disponha de outro hospital, de preferência público, que possa vir ao encontro aos anseios de grande parcela da população não satisfeita e/ou menos assistida.

Dr Cassio

1 responder
  1. Alzira Marques
    Alzira Marques says:

    Parabéns! !!!!Não o conheço pessoalmente,mas,sem dúvida este sr.é verdadeiramente um médico e acima de tudo um ser humano.Que Deus lhe abençoe com muita saúde e muitos anos de vida .Para seguir nesta nobre missão .

    Responder

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