ANNA CLAUDIA RAMOS

ENTREVISTA ESPECIAL

Por Rodrigo De Marco 

rodrigo@integracaodaserra.com.br 

Uma carioca com asas sobre o Rio Grande do Sul. Estou me referindo à escritora Anna Claudia Ramos, 53 anos, patrona da 34ª Feira do Livro de Bento Gonçalves, encerrada na noite do último domingo, dia 13. A autora, com raízes gaúchas, tem mais de 80 obras lançadas e há mais de 30 anos trabalha com literatura infantil e juvenil. É graduada em Letras, pela PUC-Rio, Mestre em Ciências da Literatura, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora de oficinas literárias. A primeira obra publicada pela autora foi “Pra onde vão os dias que passam?”, lançada em 1992. Anna Claudia carrega consigo a leveza de alguém que transcende universos literários, e que, com bom humor e um sorriso largo, brinca com as palavras como uma verdadeira poeta. Confira a entrevista exclusiva concedida pela escritora para o Jornal Integração da Serra.

Integração: Como foi participar da 34ª edição da Feira do Livro de Bento Gonçalves?

Anna Claudia Ramos: Quando ganhamos um convite para ser patrona da feira do livro, e sobretudo, quando não somos da cidade, do Estado, é realmente um reconhecimento do nosso trabalho. Eu fico muito feliz de estar podendo viver essas coisas. Eu fiquei surpresa com o convite, mas fiquei muito contente, até porque eu tenho raízes no Sul, a família da minha mãe toda é daqui. Só a minha mãe foi para o Rio de Janeiro. Eu não passei a minha infância aqui, vim poucas vezes, mas comecei a frequentar o RS já adulta. Desde 2002, todos os anos, de uma maneira ou de outra, venho para o Estado.

Integração: O que mais lhe chamou a atenção da feira do livro?

Anna Claudia: Nessas feiras o mais bacana são os encontros. Eu tive encontros com leitores todas as faixas etárias: crianças, jovens e adultos. A troca com o leitor é muito recompensadora para todo mundo. Teve um dia que um menino me disse que sabia porque eu tinha sido escolhido para ser a patrona da Feira do Livro, e falou que era por conta de toda a história que eu tinha construído em minha vida até momento, que minha vida era minha história, e, por isso, me escolheram. Momentos como este fazem valer a pena estes encontros. Teve uma menina que queria saber qual dos meus livros mais me revelava. Outro menino não parava de fazer perguntas, estava querendo virar escritor e queria entender como era a vida de um escritor, enfim, as histórias que surgem nestes bate-papos geralmente são muito produtivas.

Integração: Poderias dizer quais são os autores nacionais que te influenciaram no início da sua carreira?

Anna Claudia: A Lygia Bojunga foi a primeira pessoa a influenciar a minha escrita. Com dez anos eu li “A Bolsa Amarela”, livro de sua autoria. Ter me alimentado de bons livros na infância fez toda a diferença na minha formação de leitora. Eu fui leitora da Revista Recreio e sabemos que tem uma série de autores que começaram a carreira nessa revista e que são grandes nomes na Literatura Infantil e Juvenil até hoje. Na adolescência, ter lido Herman Hesse foi fundamental. Na faculdade, dois livros foram bem decisivos. “Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres”, de Clarice Lispector e “A Odisseia”, de Homero. Tive o privilégio de ter sido alunas do Junito Brandão, professor que abriu meu olhar em relação à Literatura greco-latina. Hoje em dia quando leio livros de literatura para crianças e jovens me deparo com coisas belíssimas. Temos excelentes autores e ilustradores. Recomendo que todos busquem conhecer a nossa literatura para a infância e a juventude.

Integração: Além de escritora, tu também trabalhas com oficinas literárias. Conte um pouco sobre esse outro lado lúdico de suas criações?

Anna Claudia: Eu comecei a dar oficinas literárias em 1989 com a Marina Quintanilha Martines. Diria que Marina foi minha fada madrinha. Ela era uma pessoa muito generosa, compartilhava com a gente o que sabia. Me recordo que trabalhávamos numa biblioteca infantil que já na década de 1980 tinha o conceito de espaço vivo. Eu inaugurei minha vida profissional entendendo que biblioteca é lugar de troca, de leituras, onde o livro era plataforma de voo e dialogava com outras artes. Eu comecei a dar oficina literária com a Marina antes mesmo de publicar. Quando comecei a ver que as minhas alunas estavam começando a publicar através dos trabalhos que fazia e das revisões, achei que estava na hora deu começar a investir em mim. Vários dos meus alunos estão publicando por editoras bacanas. Convido os leitores a visitarem meu site, lá conto muita coisa. Quem quiser entender mais sobre esse processo de escrita para crianças e jovens, indico a leitura do meu livro “Nos bastidores do imaginário: criação e literatura infantil e juvenil”, publicado pela Editora DCL.

Integração: De que forma tu observas a literatura independente e como trabalhas essa questão com teus alunos?

Anna Claudia: Das pessoas que escrevem de uma forma independente têm aquelas que acham ainda não entenderam a diferença entre escrever um livrinho para crianças e fazer literatura para a infância e a juventude, por exemplo. Por outro lado, tem quem escreve e busca fazer uma publicação bacana, que contrata alguém para fazer uma leitura crítica, uma boa revisão, um bom ilustrador. A ilustração conta uma história em imagens, não é uma mera repetição do que está no texto. É uma história sendo contada em imagens. São muitas especificidades que precisam ser levadas em conta.

Integração: Que mensagem poderias deixar para quem está começando a escrever?

Anna Claudia: Estude, leia muito, leia mais ainda até descobrir qual é a tua voz narrativa. Não fique querendo fazer texto bonitinho. É preciso estudar estrutura narrativa para entender o que é isso. Entender que cada texto tem uma estrutura, uma técnica que morre mesmo no instante da criação, como dizia Octavio Paz. Para transgredir regras num texto temos que conhecer e entender o que estamos fazendo.

Integração: Atualmente o Brasil atravessa um momento delicado no que tange a questão social e artística. Isso afeta em tuas criações?

Anna Claudia: Não tinha parado para pensar nisso não (risos), mas assim, eu acho que na verdade estamos vivendo um momento que estamos que estar muito no eixo. Se a gente abre o jornal tem vontade de fugir, e acho que não podemos desistir. Talvez nesses momentos complicados como o que estamos vivendo, sejam momentos que temos que ser resistência, continuar escrevendo o que acreditamos. Uma característica minha é falar, ter minha opinião sem ser agressiva, mas dizendo o que penso, o que acredito. Vários livros meus abordam temas mais delicados, ou como muita gente gosta de dizer, temas polêmicos. Não podemos nos poupar de falar sobre a vida e seus paradoxos na literatura.

Integração: Qual será o tema a ser abordado em seu próximo livro?

Anna Claudia: O tema do meu próximo livro vai ser sobre suicídio. Eu ainda não estou escrevendo, ainda estou estudando e lendo muito sobre o assunto. Eu já criei um enredo, já sei quem será o narrador, mas ainda estou naquela fase de ajustes. Vai ser uma história voltada para o público juvenil. E sempre que falo isso em grupos de jovens, alguém vem falar comigo no final. Acredito que seja lançado no próximo ano. No dia 1º de novembro vão acabar minhas viagens, e, ficando no Rio, volto para minha rotina e a prioridade vai ser escrever esse livro.

Integração: O que tu carrega de Bento Gonçalves?

Anna Claudia: Bento deixa uma coisa de pertencimento, de saber que não sou uma estrangeira no Sul (risos). É como se estivesse voltando para minhas raízes e encontrando histórias. Certamente essas paisagens daqui, de alguma maneira, vão estar dentro de mim e virar história em algum momento.

Fotos: Divulgação

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