Superando Limitações

Exemplos de Superação

Por Rodrigo De Marco 

Edição Kátia Bortolini 

A data de 21 de setembro é lembrada no Brasil como o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência. O Dia foi oficializado em 2005 pela Lei Nº 11.133, entretanto, já era comemorado desde o ano de 1982. O dia foi escolhido por estar próximo ao início do ciclo da primavera, estação que a cada ano renova a natureza.

A reportagem de capa do Jornal Integração da Serra ressalta a data entrevistando moradores de Bento Gonçalves, exemplos de superação de limitações. Eles venceram batalhas driblando o preconceito e a desconfiança. Seguiram em frente, almejando realizar sonhos e traçando metas de vida. Nas páginas seguintes vocês serão apresentados a diferentes gerações de vencedores e que, em comum, carregam o amor pela vida, renovado a cada amanhecer.

Cleci 2

O sorriso da vida

Um sorriso largo no rosto, a alegria brilhando no olhar e a autoestima de quem não enxerga limitações, mas energia para fazer a diferença. Essa é Cleci Fracalossi, 59 anos. Uma das mentoras, há 32 anos, da Associação dos Deficientes Físicos de Bento Gonçalves (Adef), entidade que hoje presta em média 800 atendimentos ao mês. Cleci, que aos sete anos de idade perdeu a perna após um acidente de trânsito, carrega consigo superação e alegria.

INTEGRAÇÃO: Conte sobre como lidou com as dificuldades impostas pela deficiência.

CLECI: Aos sete anos de idade fui atropelada por um caminhão e perdi a perna. Eu não lembro do que aconteceu, apagou tudo. Isso foi no interior, em São Valentim. Posso dizer que minha vida foi normal, minha mãe me criou normal. Éramos três irmãos, praticamente todos da mesma idade. Ela me levava para a escola e, quando eu não podia ir, as professoras iam me buscar. A minha mãe sempre me fez levar a vida como uma criança normal. Nunca nada foi empecilho para mim.

INTEGRAÇÃO: Você carrega uma alegria imensa no olhar. A deficiência nunca foi empecilho para que realizasse suas atividades diárias?

CLECI: Eu não me vejo deficiente. Sempre fui independente, viajo sozinha. Não adianta, temos que ir à luta. Tu tens uma deficiência, mas não pode esperar pelos outros sempre. Eu vou atrás, vou em busca. Se a vida te dá maneiras de viver melhor, vamos à luta, não vamos desistir. O problema é que as pessoas, às vezes, se colocam muito para baixo. E a família é muito importante para dar esse suporte e ajudar nos momentos difíceis. Não podemos desistir.

INTEGRAÇÃO: Fale sobre como foi a criação da Adef e como funciona o trabalho de vocês?

CLECI: Tudo começou no início dos anos de 1980. Sentíamos a necessidade de criar algo em Bento Gonçalves porque não tinha nada. Pessoas deficientes são normais, iguais aos outros. Foi aí que começamos, mas não foi fácil. Nunca perdemos a esperança, primeiro começamos na casa da Rosângela Dalcin (uma das criadoras), às vezes na do Itacir Giacomello. Naquela época não tínhamos um local próprio. Fazíamos um rodízio, que terminou quando a comerciante Maria Valentini nos cedeu espaço em sua loja, ocupado durante 10 anos, até a inauguração da sede própria.

INTEGRAÇÃO: Que mensagem você deixaria para quem passa por uma situação de dificuldade?

CLECI: As pessoas, independente da deficiência, não devem desistir de lutar, porque a vida é tão linda e maravilhosa. Não é porque tem uma deficiência que vai deixar de sair e aproveitar. Não vamos ficar em casa, vamos viver a vida, ajudar os outros. Vai fazer um trabalho voluntário que vai te fazer bem. E vida que segue.

Rosângela

Medalhista no esporte e na vida

Rosângela Dalcin, 55 anos, teve a rota da sua vida modificada aos 21 anos de idade, quando ficou paraplégica após sofrer um acidente de carro junto com o seu marido. Ele morreu três dias depois do acidente. Rosângela, uma das criadoras da Associação dos Deficientes Físicos de Bento Gonçalves (Adef), superou o trauma jogando tênis de mesa, esporte que a consagrou campeã e que a fez vestir o uniforme da Seleção Brasileira.

INTEGRAÇÃO: Conte sua história e como ficou paraplégica.

ROSÂNGELA: No dia 26 de agosto de 1985, meu marido e eu sofremos um acidente de trânsito, na Rota do Sol, no perímetro da cidade de Caxias do Sul. Caímos de uma ponte de aproximadamente 80 metros de altura. Fomos levados ao Hospital Saúde, em Caxias do Sul, em estado gravíssimo. Meu marido faleceu depois de três dias. Eu, grávida de sete meses, perdi o bebê. Devido às fraturas nas vértebras C6 e C7, fiquei paraplégica (paralisia nos membros inferiores). Isso ocorreu, segundo médicos, pela maneira como fui transportada ao hospital, por populares.

INTEGRAÇÃO: Quais foram os principais desafios enfrentados no início e de que forma superou o trauma?

ROSÂNGELA: Em primeiro lugar é a autoaceitação, não aceitava meu estado físico. Durante vários anos permaneci inerte, tentando entender o que havia acontecido comigo e querendo saber o porquê aquilo havia acontecido comigo. Um dia percebi que a vida continuava e que, se eu não fizesse alguma coisa por mim mesma, o tempo passaria e eu iria ficar paralisada não só das pernas, mas também da mente. O grande segredo é a aceitação. As coisas ficam mais fáceis quando isso acontece. Aceitando-nos, as pessoas ao nosso redor também nos aceitam e deixamos de ser a vítima, a coitadinha… passamos a ter uma identidade, a ser a Rosângela, o João, a Maria. A autoaceitação leva à valorização pessoal e aumenta a autoestima. Com a ajuda, apoio e o amor incondicional da minha família, com destaque para a minha mãe, que até hoje é o meu porto seguro, fui à luta.

INTEGRAÇÃO: Como foi lidar com o preconceito?

ROSÂNGELA: As pessoas falavam com minha mãe e não comigo. Não existe a identidade da pessoa e sim do cadeirante. Por várias vezes recebi esmolas e isso me irritava muito. Percebi que me aceitava quando comecei a fazer piada com a minha própria deficiência. Tanto é que a última esmola que me deram era de R$ 10,00. Minha vontade era de dizer que só aceitaria se fosse acima de R$ 50,00 (risos). Foi aí que percebi que os olhares de pena e as esmolas não me constrangiam mais. E as barreiras arquitetônicas, os locais não estão preparados para nos receber. Claro que hoje mudou muito. Há 34 anos era bem diferente. A falta de acessibilidade nos restringe ao isolamento social.

INTEGRAÇÃO: O esporte foi fundamental para superar as dificuldades?

ROSÂNGELA: O esporte foi imprescindível em minha vida, pois me ensinou a superar limites, resgatar a autoestima, a promover valores, respeitar as diversidades, entre tantos outros benefícios. O esporte tira a pessoa da condição de vítima e coloca o deficiente de igual para igual com qualquer outro atleta. Graças ao esporte, tive oportunidade de fazer parte do Revezamento da Tocha Olímpica em Bento Gonçalves no dia 09 de junho de 2016. Os 200 metros mais emocionantes da minha vida.

INTEGRAÇÃO: Você é uma supercampeã no tênis de mesa e um exemplo para esportistas e as pessoas de uma forma geral. Quando começou a jogar tênis de mesa e quais foram as influências nesse esporte?

ROSÂNGELA: No ano de 1996 conheci o esporte paralímpico. Até então, não imaginava que uma pessoa portadora de deficiência pudesse ser atleta. A partir daí, ninguém mais me segurou. Descobri que, além de trabalhar e estudar, também poderia ser atleta e atleta de ponta. Durante vários anos fiz parte da Seleção Brasileira de Tênis de Mesa e, por mais de 10 anos, fui a 1ª no Ranking Nacional na Classe 3, 1ª das Américas e também a 13ª do mundo. Graças ao esporte tive oportunidade de participar de vários campeonatos nacionais e internacionais e conhecer diversos países. Durante todos esses anos conquistei diversos títulos, mais de 100 medalhas e alguns troféus. Eu participei de aproximadamente 70 campeonatos.

Parapan 2007 RJ. (1)

INTEGRAÇÃO: Quais são os momentos mais marcantes na sua trajetória no esporte?

ROSÂNGELA: Todos os campeonatos que participei têm um significado e uma importância única, mas o Parapan do Rio 2007, onde a minha companheira e eu conquistamos a medalha de bronze em equipe, foi uns dos mais importantes. Uma pelo fato de estarmos jogando no Brasil, na nossa terra, nossa casa, a torcida gritando “SOU BRASILEIRO COM MUITO ORGULHO, COM MUITO AMOR”. Tínhamos que ganhar e, com certeza, a torcida brasileira nos ajudou e muito. Esse, entre outros campeonatos, é de uma importância ímpar, quando lembro ainda me emociono. É impossível mensurar uma vitória, um ponto ganho ou um ponto perdido, são segundos que nunca mais voltam. Mas tudo fica na memória e, esse jogo, tenho certeza que jamais vou esquecer.

INTEGRAÇÃO: Que mensagem poderias deixar para quem passou por um trauma físico e ainda busca forças para superar os desafios?

ROSÂNGELA: Existe uma frase que sempre carrego comigo e, quando penso que algo pode não dar certo, repito várias e várias vezes: “O impossível reside nas mãos inertes daqueles que não tentam”.

Lelio

Exercício físico e superação

A deficiência física pode ser considerada um obstáculo para quem, de forma repentina, tem a vida modificada após um acidente ou algum tipo de trauma. Lélio Ferreira da Silva, 58 anos, poderia estar na lista dessas pessoas, porém sua história foi escrita de outra forma. Ele teve a perna amputada após sofrer um acidente automobilístico quando tinha 19 anos, e no lugar da angústia e do medo, optou pela superação e a felicidade de continuar os planos com vigor e alegria.

INTEGRAÇÃO: Conte sobre como lidou com as dificuldades impostas pela deficiência.

LÉLIO: Eu me acidentei em 1980, tinha 19 anos na época. Era jovem e não foi fácil. Eu tive que me adaptar a essa nova realidade. Tive que cortar a perna após sofrer um acidente de carro aqui em Bento. Com 19 anos, a maneira de pensar e ver a vida é diferente de agora. Os planos mudam, mas como eu tinha uma base, consegui ter uma visão diferente da situação. A fé me ajudou muito. Em 1981, eu consegui um emprego e fui tocando a vida.

INTEGRAÇÃO: Você superou as dificuldades com alegria e muita dedicação. A deficiência nunca foi um empecilho para que realizasse suas atividades diárias?

LÉLIO: Eu me acidentei no dia 23 e, no dia 26, amputei a perna. Lembro que eu brincava muito no hospital. Dois meses depois eu já estava na rua de muleta. As pessoas que não sabiam do fato e me viam andando de muleta se chocavam. Na época, participava de um movimento de jovens, o que me proporcionou uma visão diferente dos fatos. Eu posso dizer que tive bastante apoio da comunidade.

INTEGRAÇÃO: Você e a Cleci Fracalossi foram os precursores da criação da Adef de Bento Gonçalves. Como surgiu a ideia?

LÉLIO: Participando de um retiro de três dias em Caxias do Sul voltado só para deficientes físicos convidados. O evento, organizado pela Adef de Caxias, reuniu pessoas com vários tipos de deficiências físicas, com as quais interagimos bastante. Voltamos com a ideia de criar a Associação aqui em Bento. Contatamos outros moradores da cidade com deficiência física, que prontamente aderiram à causa.

INTEGRAÇÃO: O que foi mais marcante em sua atuação como voluntário da associação?

LÉLIO: No início das atividades da associação, o preconceito era maior, até por parte dos próprios deficientes. Buscamos muitos em casa para apresentar a entidade. Lembro do caso de uma pessoa acidentada que não queria mais sair de casa. Só ficava deitada na cama. A Cleci e eu fomos conversar com a pessoa. Até xingamos um pouco (risos). Nós podíamos cobrar dela e foi dessa forma que tiramos a pessoa de dentro de casa.

INTEGRAÇÃO: A atividade física por indicação médica é uma das formas que você encontra para manter uma saúde física e mental em dia. Qual é seu ritmo de atividades?

LÉLIO: Gosto de malhar. Tenho que fazer exercícios diários porque há 39 anos uso prótese, com algumas sequelas. Se eu não malhar, travo, não consigo nem caminhar mais. Todos os dias faço exercício para ter mais qualidade de vida. É a mesma coisa que fazer fisioterapia diariamente.

Mauro- matéria deficientes

Pela luz dos olhos de um poeta

Mauro Larentis, 63 anos, perdeu a visão há 18 anos. Então com 45 anos, Larentis levou uma bolada na testa quando participava de uma partida de futebol, episódio que culminou na cegueira e no adeus às estradas, já que na época era caminhoneiro. O impacto inicial fez com que ficasse quase dois anos enclausurado em casa, como ele mesmo lembra. Aos poucos, ganhou coragem e começou a ter novas perspectivas. Foi na Associação dos Deficientes Visuais de Bento Gonçalves (ADVBG) que sua nova história começaria a ser contada através das palavras. Há oito anos ele participa do projeto ‘Pela Luz dos Meus Olhos”, coordenado por Cristiane Ramos, com a participação de Márcio De Bortoli e Luciano Salerno. O projeto enfatiza a literatura, a poesia e a música.

Deficientes visuais

INTEGRAÇÃO: Sua vida melhorou após conhecer a ADVBG?

LARENTIS: Melhorou muito porque antes eu não tinha algo para me apegar. Só ficava esperando passar o tempo, sempre no mesmo ritmo, sem ânimo para fazer as coisas. Aí o

Pedro Junior da Fontoura foi nos visitar na Associação e falou sobre poesia, despertando meu interesse. Já peguei com ele umas poesias e segui nessa direção.

INTEGRAÇÃO: Você sempre teve facilidade na memorização?

LARENTIS: Na verdade, sempre tive boa memória. No tempo das viagens de caminhão, não tinha dificuldade em me situar em novas localidades. Só pedia uma vez, o cara me explicava e ia direto.

INTEGRAÇÃO: Qual é seu estilo preferido de poesia?

LARENTIS: Trabalho mais com poesias gauchescas de Pedro Junior e do Jaime Caitano Braun. O jeito que eles escrevem facilita para mim. Às vezes recebemos convite para apresentações em colégios. O evento que convidar, a gente vai. No último mês de agosto fomos no Lar do Ancião e os residentes se emocionaram bastante.

INTEGRAÇÃO: Quais são os principais obstáculos em espaços comunitários de Bento Gonçalves para um deficiente visual?

LARENTIS: As calçadas. No centro não está tão ruim, mas nos bairros é complicado. O atitude do cidadão mudou bastante. O povo começou a enxergar as coisas de uma maneira diferente. Quando notam que está vindo o cego procuram ajudar e favorecer a pessoa. No dia que tivermos calçadas em que o idoso, o deficiente visual e o cadeirante andem em segurança, todos estarão sendo melhor atendidos.

INTEGRAÇÃO: Que mensagem poderias deixar para outros deficientes?

LARENTIS: Quando eu enxergava tinha um sistema de vida, que depois mudou. É como ser uma criança recém-nascida, tem quem se adaptar, recomeçar. Só com o tempo se consegue filtrar as ideias. O pessoal do projeto me ajudou bastante. A primeira coisa é a pessoa procurar ajuda, porque sozinho não se consegue ir a lugar nenhum. Também é importante ter o apoio de um psicólogo e o empenho da família no processo de readaptação.

Autismo

A luta diária de Luciano

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um problema psiquiátrico que costuma ser identificado na infância, entre 1 ano e meio e 3 anos, embora os sinais iniciais, às vezes, apareçam já nos primeiros meses de vida. O distúrbio afeta a comunicação e capacidade de aprendizado e adaptação da criança. Em alguns casos o autista tem grande dificuldade de ter uma vida social e em locais públicos pode ficar agitado. O jovem Luciano Smalti, de 27 anos, foi diagnosticado com Autismo aos 3 anos, e desde então a mãe Anita Smalti tem dedicado bastante tempo ao filho. Em 2002, ela fundou a Associação Gota D’água – Centro de Apoio ao Autista, em atividade até meados de 2014.

INTEGRAÇÃO: Como foi a infância e a adolescência do Luciano?

ANITA: Ele não frequentou escola regular. Até os 12 anos frequentou a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e paralelo a isso teve atendimento com uma psicóloga. Depois disso abrimos a Associação Gota D’ água e diria que o atendimento diário melhorou a vida dele e de outros na mesma situação, porque todos os dias tinha uma rotina de atividades. Muitos que frequentaram a Associação apresentaram melhorias para a socialização.

INTEGRAÇÃO: Na sua opinião, o que falta para o autista em Bento Gonçalves?

ANITA: Os jovens autistas não estão bem amparados. O que precisa em Bento é um centro especializados que tenha todos esses profissionais. Me refiro a fonoaudiólogas, psicólogos, terapia ocupacional, convivência. Tudo num único lugar, e que atenda a criança desde que é diagnosticada, porque tem que ter um atendimento precoce. Tendo esse atendimento o jovem desenvolve muito. Aqui o problema é que até conseguir uma consulta de neurologista pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é demorado, e para eles (autistas) o acompanhamento médico é bem importante.

INTEGRAÇÃO: Quais foram os primeiros sintomas do Luciano e como foi que descobriram que o filho de vocês era uma criança autista?

ANITA: O Luciano tinha uma rotina normal até os 3 anos e meio, era uma criança comum. Foi nessa idade que ele começou a se isolar, só brincava com os mesmos brinquedos, era sempre a mesma música, se isolava no quarto e o que ele falava não dava para entender. Somente aos 5 anos conseguimos colocá-lo na Apae e nesse meio tempo fomos pagando os atendimentos, mas não se notou muita melhora. Foi quando ele começou a ter um atendimento diário que teve uma melhora significativa.

INTEGRAÇÃO: Você sente que o preconceito é ainda muito grande aqui na cidade?

ANITA: O preconceito é muito forte e isso é geral. Agora até saiu uma lei exigindo que o autista seja identificado como tal, com uma placa, porque a aparência deles não mostra a deficiência. Às vezes, quando precisamos passar na frente, as pessoas pedem para esperar. Não se dão conta que o atendimento a eles é preferencial, por vários motivos.

INTEGRAÇÃO: O que o Luciano representa na vida de vocês?

ANITA: O Luciano é a pessoa que mudou a nossa vida. Ele é um exemplo de luta e está desafiando tudo, as convulsões, o autismo, o câncer que está enfrentando. Ele está nos surpreendendo cada vez mais. A mãe de filho autista deve logo procurar ajuda especializada, lutar por ele, e não desistir.

Itacir 3

ITACYR LUIZ GIACOMELLO

“Melhor servir do que ser servido”

Um dos nomes mais respeitados pela comunidade de Bento Gonçalves é o de Itacyr Luiz Giacomello, de 80 anos. Giacomello nasceu com uma deficiência nos membros inferiores, tendo as pernas mais curtas. Mesmo com a limitação física, não poupou esforços para cravar seu nome na história do município, integrando a Diretoria da primeira edição da Festa Nacional do Vinho (Fenavinho) em 1967, além de ter trabalhado em pelo menos outras nove edições da festa. Trabalhou por oito anos na Vinícola Riograndense e 32 anos na Cooperativa Vinícola Aurora. Atuou como Vereador em três legislaturas. Formado em Contabilidade, Giacomello também se apaixonou pelas palavras, seguindo pelos caminhos da escrita. Foi correspondente do extinto Diário de Notícias, de Porto Alegre, por 11 anos. Também representou no município o Jornal Correio do Povo e o Jornal do Comércio. Em Bento Gonçalves atuou ainda no extinto Jornal Gazeta da Serra. Atualmente, é colunista do Jornal Semanário. Pode-se dizer que esse senhor de 80 anos tenha pautado sua vida em três pilares: trabalho comunitário, família e amor.

INTEGRAÇÃO: Ao longo da vida como foi lidar com as limitações físicas?

GIACOMELLO: Desde o meu nascimento, até os meus 15 anos, sempre foi uma incógnita. Foi quando notei que tinha que tocar o barco mesmo diante da minha situação física. Nunca tive a intenção e nem o objetivo de culpar alguém pela minha situação física. Encarei a realidade de que eu era assim e tinha que vencer. Nunca culpei pai, mãe e, inclusive, tive uma família muito unida em torno do meu caso. Sempre tive apoio, e esse apoio se transferiu para a sociedade. Eu coloquei na cabeça que era melhor servir do que ser servido.

INTEGRAÇÃO: O senhor atuou em importantes veículos de comunicação do Estado. Qual o significado da escrita na sua vida?

GIACOMELLO: Em 1958 já era correspondente do Diário de Notícias e, desde aquela época, não parei nunca de escrever. É um dom difícil até de dimensionar, mas é uma coisa que está no sangue. A vontade de escrever se tornou uma constante na minha vida.

INTEGRAÇÃO: Quando pensa sobre a sua importância na cidade, qual o sentimento que aflora?

GIACOMELLO: Eu sempre procurei fazer para a sociedade aquilo que estava ao meu alcance e, de qualquer forma, conseguimos vencer todos os obstáculos. Tive três legislaturas como Vereador e minha maior alegria foi a fundação da Associação dos Deficientes Físicos de Bento Gonçalves. Isso aconteceu entre 1987 e 1988. Como Vereador, em 1988, elaborei projeto de lei, aprovado pelo Executivo, delimitando espaços prioritários para os deficientes físicos em calçadas, rampas e transporte coletivo. Até hoje a lei está em vigor. A inclusão social vem avançando de uma forma gradativa e positiva. Sempre procuro servir a sociedade da melhor forma, porque a comunidade me aceitou do jeito que sou.

INTEGRAÇÃO: Qual foi a inspiração para criar a associação?

GIACOMELLO: Foi uma inspiração divina, faltava isso na cidade. Convidamos as pessoas deficientes, na época, para participar da associação. Penso que as pessoas com deficiência física têm que se mostrar para a sociedade, não podem ficar enclausuradas. Não podemos negar o óbvio. Tem que aceitar as coisas, acreditar em Deus e tocar o barco.

INTEGRAÇÃO: O que poderia melhorar na cidade para que os deficientes físicos se sentissem mais bem amparados?

GIACOMELLO: O poder público deveria disponibilizar mais rampas de acesso, embora o município tenha já avançado nesse aspecto. Mas se pode fazer muito mais, porque a cidade e os bairros estão crescendo.

Itacir Giacomello

INTEGRAÇÃO: Além de uma pessoa ávida pelo trabalho, você é também um apaixonado pela vida e pela sua esposa (em memória) Neide Teresinha Scarton Giacomello. O que ela representa para sua vida?

GIACOMELLO: Ela foi exemplo de mulher batalhadora. Conseguimos construir um lar, com dois filhos e também netos. Foi um conjunto de fatores que nos levou a construir uma família, além de muito amor, que foi o que nos uniu para sempre. Infelizmente ela partiu, mas a vida continua. E posso salientar ainda que a família continua sendo o alicerce da sociedade, isso é inegável.

INTEGRAÇÃO: Qual a mensagem que o senhor deixa para quem está lendo essa entrevista?

GIACOMELLO: O ideal na vida deve ser construído com amor e com determinação, procurando vencer os obstáculos e colocando na cabeça de cada um que é possível vencer. A vida me ensinou muitas coisas. Entre elas, que a vivência em sociedade é fruto daquilo que você semeia hoje e colhe amanhã.

pássaros e primavera (imagem para matéria)

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