Os encantos da Região Amazônica

Partiu Região Amazônica- Um pouco do odus vivendi da região Norte do Brasil 

Por Kátia Bortolini

Em agosto deste ano, em viagem de férias com a família, conheci um pouco do modus vivendi da região Norte do Brasil, na chamada Amazônia Legal, que representa 61% do território nacional, abrangendo os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, mais parte do Maranhão.

A experiência, vivida nos arredores de Santarém, estado do Pará, superou as expectativas. Voltei convicta de que todos os brasileiros deveriam visitar a região Amazônica, riquíssima em vários aspectos, para compreender o real valor dessa porção do território nacional.

Como exemplo, a Bacia Amazônica produz imensas massas de ar carregadas de vapor de água a partir da evapotranspiração das árvores, os chamados “rios voadores”, responsáveis por boa parte da umidade que atinge as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Essas regiões, sem a influência da floresta amazônica teriam um clima muito mais seco. O fenômeno também influencia na incidência de chuvas na Bolívia, no Paraguai, na Argentina, no Uruguai e no extremo sul do Chile.

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“A pérola do Tapajós”

O roteiro começou pela cidade de Santarém, conhecida como “a Pérola do Tapajós”. O município, com mais de 300 mil habitantes, fica situado às margens do encontro dos rios Amazonas e Tapajós e tem sua economia liderada por comércio e serviços. A cidade de Santarém, fundada em 22 de junho de 1661 pelo padre Jesuíta João Felipe Bettendorff, é uma das mais antigas da região Amazônica. O turismo ainda é incipiente, apesar de haver inúmeros atrativos naturais, como os mais de cem quilômetros de praias de água doce e a majestosa floresta amazônica, entre outros.

A primeira providência, após a acomodação em um hotel que pertencia a Companhia Vale do Rio Doce, foi experimentar a gastronomia local. Por indicação do hotel fomos almoçar na Peixaria Raiana, situada nas imediações. Aprovamos tanto o cardápio, a base de peixes dos rios Amazonas e Tapajós, como o simpático atendimento. Na ida ao restaurante e na volta ao hotel andamos por ruas de chão batido, com esgotos correndo a céu aberto, sob calor úmido de mais de 30 graus. A volta foi mais fácil, será porquê?

O sol forte do meio-dia é evitado pela população local. Nesse horário as ruas ficam quase vazias. Muitas mulheres, de várias idades, usam sombrinha para se protegerem do sol.

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Boto cor-de-rosa e Mercadão 2000

Sob calor úmido e intenso percorremos a pé cerca de cinco quilômetros entre o hotel e a primeira parada, no Mercado do Peixe Porto dos Milagres. Fiquei surpreendida com o tamanho das espécies de peixes da bacia Amazônica ofertadas no local. Atração à parte são botos cor-de-rosa nadando nas imediações. Num primeiro momento, ao ser chamada para ver um boto cor-de-rosa, fiquei desconfiada por pensar que a espécie nessa cor só existia no imaginário popular das lendas amazônicas. O boto realmente era rosado.

Após, fomos visitar o Mercadão 2000, principal centro de abastecimento do Baixo Amazonas em pescado, frutas regionais, verduras e artesanato, além de plantas medicinais e outras medicações fitoterápicas produzidas a partir de espécies nativas com poder de cura empiricamente comprovado. Entre os produtos comercializados nos 385 boxes do Mercadão 2000, chamou a minha atenção a gama de oferta de fitoterápicos e as belas e suculentas castanhas do Pará. A utilização da flora da floresta no combate a doenças faz parte da cultura do povo da Amazônia. A forma de coleta e manipulação de plantas medicinais, entre outros fármacos da floresta, é repassada oralmente de geração para geração. Concluímos a visita com umas comprinhas básicas de fármacos e castanha, e retornamos à piscina e ao ar condicionado do hotel.

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Os museus e os índios tapajós

Na manhã seguinte visitamos a Catedral de Nossa Senhora da Conceição, também conhecida como Igreja Matriz de Santarém, o Museu de História e Artes Sacras e o Centro Cultural João Fona. O prédio da igreja, construído entre 1761 e 1819, é um dos mais antigos da cidade. Conta a lenda que o prédio foi erguido sobre um cemitério de índios da tribo Tupaiu. No interior do templo salta aos olhos a qualidade da madeira da floresta amazônica, utilizada nos acabamentos, bancadas e esculturas sacras. O museu de artes sacras, situado ao lado da igreja, guarda um acervo importante sobre a evolução católica na cidade e região.

Caminhando e perguntando a populares, chegamos ao Centro Cultural João Fona, que estava fechado. Era sábado, por volta das 11 horas. Ficamos na frente do prédio com cara de “hah… não vale”, mas em seguida apareceu um funcionário que atua como vigia e guia, que se propôs a nos receber para um tour no também chamado Museu de Santarém. O prédio, de 1868, sediou os poderes municipais Executivo e Legislativo, o fórum de Justiça e o presídio.

No local, há centenas de peças arqueológicas, como fósseis de peixes e de uma baleia que subiu o rio Amazonas, peças e fragmentos de cerâmicas, coleção de moedas antigas, imagens sacras esculpidas em madeira nobre e peças de cerâmica tapajônica, produzidas por uma das mais importantes nações indígenas do Pará: os índios Tapajós.

Também abriga um importante acervo que conta parte da história da cidade por meio da galeria de prefeitos, de mobiliário e de documentos da Câmara de Santarém do século passado.

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“Chopinho”

Nessa viagem, ao contrário de anteriores, não locamos veículo no destino. Seria completamente desnecessário numa região com predominância de transporte fluvial, de motocicletas e bicicletas. Em Santarém os percursos maiores foram feitos de taxi, como o translado do aeroporto e a volta ao hotel no primeiro dia na cidade, após na ida termos caminhado vários quilômetros sob um sol escaldante. Sorte que as ruas planas do trajeto estavam repletas, para nós, de novidades visuais e de bares, com cerveja bem gelada. Nas proximidades da área central um vendedor ambulante ofereceu “chopinho”. Perguntei a ele: tem teor alcoólico? Não: respondeu e mostrou um produto parecido com “sacolé”, feito com sucos de frutas típicas da região. “O chopinho” se mostrou delicioso e refrescante, adorei!

Próximos destinos…

Alter do Chão

O distrito Alter do Chão, de Santarém, situado há cerca de 37 quilômetros da cidade, foi o nosso próximo destino, com hospedagem indicada e pré-agendada no Albergue da Floresta, situado a cerca de 50 metros do Rio Tapajós. Fomos recebidos pelo casal Sâmia e Ângelo e acomodados numa das cabanas mais ao alto, de dois pisos, inserida na floresta. Na cabana ao lado estava um holandês que frequenta a região duas vezes por ano para, segundo ele, “registrar o corte clandestino de árvores nativas da região”.

Após a acomodação da bagagem na pousada fomos a pé conhecer a área central de Alter, situada há cerca de meio quilômetro. Ao chegar ao centro da vila, fundada no dia 6 de março de 1626 pelo português Pedro Teixeira, observamos uma infraestrutura turística simples mas eficiente, em torno da praça e da igreja matriz Nossa Senhora da Saúde, escolhida como padroeira da localidade, que durante os séculos XVII e XVIII recebeu diversas missões religiosas comandadas pelos jesuítas da ordem franciscana para evangelização das comunidades indígenas Boraris residentes no local.

No início do século XX, Alter do Chão foi uma das rotas de transporte do látex extraído dos seringais de Belterra e Fordlândia. A partir da década de 1950, com a decadência do extrativismo amazônico, a vila entrou em decadência financeira, retomando seu crescimento com o turismo a partir da década de 90. O destino, agora conhecido como o “Caribe da Amazônia”, tem sido muito procurado por turistas estrangeiros, com predominância dos franceses. No segundo dia em Alter fomos navegar pelo Igarapé Encantado onde, segundo a lenda, índio que tivesse ofendido a natureza não poderia pescar sob o risco de não retornar mais à tribo.

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Flona dos Tapajós

Na manhã seguinte, partimos de barco rumo a Unidade de Conservação (UC) Floresta Nacional (Flona) do Tapajós, para duas pernoites na comunidade ribeirinha São Domingos. A Unidade, criada pelo Decreto Federal n° 73.684, de 19 de fevereiro de 1974, abrange uma área de 527.319 hectares, gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio),órgão púbico vinculado ao Ibama, e também responsável pela gestão de mais 323 Unidades de Conservação Federais existentes no Brasil, que ao todo representam cerca de 10% do território nacional.

A criação da Floresta Nacional do Tapajós possibilitou aos cerca de quatro mil moradores da Unidade a promoção e o acesso ao uso sustentável dos recursos naturais, através do extrativismo de plantas nativas, a comercialização de frutas in natura (açaí) e a exploração do turismo de base comunitária.

A Unidade reúne mais de 160 quilômetros de praias de água doce, lagos, alagados, morros, planaltos, floresta, campos e açaizais. Essas belezas naturais, aliadas a trilhas entre a mata guiadas pela população tradicional, avistando grandes árvores como a sumaúma vovó, tem potencializado o turismo na Flona.

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Comunidade São Domingos

O trajeto feito de barco com motor de popa desde Alter do Chão levou cerca de três horas, e foi marcado por apreciação do cenário e pela expectativa em relação a proposta de turismo de experiência, que seria vivenciado em conjunto com Marivaldo e seus familiares nessa etapa da viagem, incluindo duas pernoites em redário e trilha na mata amazônica, de 15 quilômetros, entre ida e volta.

Já na comunidade, após as apresentações e a acomodação da bagagem no redário existente na casa de Marivaldo, quis logo “explorar o local”. Em companhia do Lorenzo, segui a estrada geral de terra rumo ao posto do ICMBio para efetuar o cadastramento obrigatório de entrada na Unidade. De um lado do caminho, as areias claras das praias doces do rio Tapajós recém começando a ressurgir sob as águas da última cheia. De outro, casas de alvenaria simples e esparsas e crianças brincando em campos de futebol e na água. Fiquei feliz pela qualidade de vida dessas crianças. Quando soube que o acesso aos ensinos Fundamental e Médio é garantido a elas na própria Unidade, fiquei mais feliz ainda. No posto do Instituto, que funciona também como casa, vi apenas um militar, que foi o que nos recebeu para efetuar o registro de visitantes.

A estada na comunidade, que trabalha de forma cooperativada sob orientação do ICMBio, foi plena em experiências e superações de zonas de conforto, a começar por dormir duas noites em redes “no andar de cima”. Duas noites realmente é o máximo que conseguiria. Mas, dormir bem eu durmo em casa! Com esse pensamento, não deu outra, foram duas noites inesquecíveis por estar dormindo a céu aberto na floresta amazônica, ao som de pássaros, macacos e de um galo desregulado que cantava com mais frequência que o necessário. Na madrugada da segunda noite restava eu acordada quando o “galo desregulado” resolveu cantar…ete…mas logo comecei também a ouvir um barulho forte e cadenciado emitidos por macacos…emocionante…até porque o galo se aquietou e fiquei entregue a escutar algo tão diferente e que não durou muito tempo. Já o galo… xinguei ele no dia seguinte.

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Trilha na mata

A trilha na mata também foi uma experiência e tanto. Acompanhados por Marilene, irmã de Marivaldo, tivemos uma aula sobre a flora amazonense. Segundo percebemos, os ensinamentos sobre a mata são repassados de geração em geração. Andar na trilha é fácil porque as árvores antigas e altas deixam o piso florestal relativamente limpo, mas o calor é mesmo tropical. “Em mato, ande como mateiro”, e lá fui eu de calça, tênis, camiseta e camisa de manga comprida. Quase derreti no caminho de tanto suar, mas faria de novo para mais uma vez presenciar as arvores centenárias, os pássaros e as palmeiras, há, as palmeiras…lindíssimas! Andando na floresta, ouvindo a Marilene falar sobre as várias benesses farmacológicas e de utilidade do grande acervo botânico ali presente, relembro o quanto a natureza é pródiga.

Ademais, Marivaldo, Marilene e outras duas irmãs, de forma cooperativada, extraem óleo de copaíba e de andiroba, que são vendidos para empresas como a Natura.

O resultado sócio financeiro positivo do trabalho cooperativado também foi visível nas duas comunidades vizinhas a São Domingos, ainda no interior da Flona, incluídas no nosso roteiro de visitas. Essas comunidades, além do turismo, trabalham também com extração de látex e sementes nativas para a confecção de bolsas, calçados, colares e brincos, entre outros produtos comercializados no Brasil e no exterior. A atividade envolve as famílias e os jovens, mantendo-os na Unidade.

Foi magnífica a convivência com a família do Marivaldo, nas refeições servidas na área da casa dele à base de peixe assado na brasa, arroz e salada, com outros hóspedes do redário, como um casal de turistas da Guiana Francesa e com moradores da comunidade.

A cultura popular

No percurso de volta da Flona para mais três noites em Alter do Chão, vimos um barco suspeito carregado com toras de madeira nativa ancorado às margens do rio. Suspeito porque, conforme nos foi descrito, estaria esperando escurecer para então cruzar pela cidade de Santarém.

Em Alter, “voltamos à civilização”, prestigiando uma apresentação do canto e da dança de roda Carimbó, retomados na comunidade como atração turística. A festa, promovida ao ar livre na vila nas noites de quinta-feira, tem hora para terminar. As músicas, com letras que remetem a cultura popular das regiões Norte e Nordeste, cadenciadas ao ritmo de tambores, são contagiantes. Ainda mais contagiante é a dança do Carimbó, que reúne meninas, jovens e mulheres da comunidade com saias compridas, coloridas e rodadas, sensualmente utilizadas na coreografia.

Alter do Chão pode ser visitada o ano inteiro. A época escolhida vai depender do que você quer ver ou de quando você pode ir. A paisagem muda completamente dependendo da estação. Na cheia, a Ilha do Amor fica totalmente encoberta e na seca as praias aparecem. A temperatura não muda, faz calor o ano inteiro, independente se é inverno ou verão.

As praias e suas infraestruturas, aparecem no verão amazônico, de agosto a dezembro, na baixa do rio. Nessa nossa estada, em agosto, o rio estava começando a vazar, deixando transparecer copas de árvores e telhados de barzinhos. Ficava imaginando o quanto bom deve ser veranear na sombra de árvores centenárias, a beira daquele manso e imenso rio, que na época, mesmo estando cheio, refrescou nossos corpos e encantou nossos espíritos. Em um ambiente em que se sua parado na sombra, banhos de rio e de chuveiro são imprescindíveis. Mas, sentir o cheiro da mata, ouvir seus ruídos peculiares e ver o pôr do sol às margens do rio Tapajós compensam os dissabores da adaptação do corpo ao clima tropical. Em tempo: não tem mosquitos. Em Bento fecho as janelas da casa ao anoitecer para evitar a entrada de mosquitos. Lá, não precisou. De insetos, tem ninhos de formiga no solo arenoso que não devem ser pisados, como os daqui.

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Solo raso e arenoso

A região Amazônica, além dos minérios, da madeira, dos recursos hídricos e da rica farmacopeia, visados por muitos larápios, tanto brasileiros como estrangeiros, é rica em belezas naturais e culturais, com excelente potencial para o turismo, “a indústria sem chaminé”. As riquezas da Amazônia, que são muitas, se bem geridas dariam fôlego para o Brasil se tornar um país de primeiro mundo.

O gerenciamento deveria começar pela floresta, que está sendo destruída para dar lugar à soja e pastagens. No geral, o solo da floresta é arenoso e apresenta uma camada orgânica inferior a meio metro, indicando que nem soja e nem pastagens vão ser produtivas por muito tempo. A sociedade civil brasileira precisa despertar para o valor da floresta em pé. Se ficar a cargo de políticos, ao Deus dará, como agora, estaremos sendo muito injustos com o futuro das próximas gerações de brasileiros, pelo consentimento calado à continuidade da pilhagem a qual o país é exposto desde a sua primeira ocupação oficial, pelas naus do navegador português Pedro Alvarez Cabral, no ano de 1500.

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