Telas

Por Natália Zucchi

Durmo e acordo olhando para um retângulo luminoso, a janela que eu mais vejo por dia, cerca de cinco horas diárias, como bem avisa ele, meu smartphone. Nesta tela vejo meu trabalho, meus familiares, meus amigos, meu namorado, meu lazer, meu Instagram se transformando em um blog. Vejo também notícias, seleciono músicas e, acima de tudo, o retângulo serve para minha paixão: fotos e mais fotos enquadradas nessa janela.

Do meu smarthphone, vivo diferentes mundos. Ele reúne a TV, o computador, a câmera fotográfica, a filmadora, a calculadora, o rádio, o bloco de notas, o banco e a faculdade. Cada um desses transmite linguagens e estéticas diferentes, passando pelo retângulo de vidro luminoso.

Outras telas passam por mim ao longo do dia: computador da empresa, notebook, computador da faculdade, smartphone do meu namorado, da minha mãe, da empresa, da minha irmã. TV também é tela, mas passo pouco por ela, mesmo que sejam muitas: nas salas, nos quartos, na minha casa e na casa dos meus sogros. Cada uma com suas programações e contribuições.

Do outro lado, estou aqui na realidade. Convivo com outras telas: os espelhos. No banheiro, no corredor, no quarto do Elvis, no quarto da sogra. Cada enquadramento é uma narrativa, mesmo que seja o mesmo eu que se olha. O fundo muda e a personalidade do eu também. Pela manhã, o visual sonolento. Pelo meio dia, o visual satisfeito pela refeição. À noite, o visual cansado de um dia longo.

Convivo também com outras telas mais inspiradoras. A janela do quarto da minha mãe, voltada para um pôr do sol atrás da cidade que cresce ano após ano. Dali enquadro a lua, as estrelas, reflito pela tela natural.

Pela manhã, também convivo com a janela do quarto do Elvis, outra tela que molda um milharal sendo iluminado pelo sol ou coberto pela neblina. A comunicação é fácil: um bom dia para mim ou uma vontade de voltar para a cama.

À noite, ou pela madrugada, tenho a tela que enquadra minha vovó dormindo em seu quarto. A porta faz uma moldura para a senhora que ali, quieta, dorme profundamente. É a tela da tranquilidade, porque é inacreditável como uma vó tão italiana e de volume alto pode ficar tão pacífica dormindo. A cena sempre me emociona e me traz muito conforto.

Em esferas, telas também. O prato de comida é redondo e dentro dele um monte de alimentos gostosos que também me inspiram. Talvez não comunique tanta saúde, mas, com certeza, prazer.

Vejo como as telas “naturais” são extremamente importantes para minha saúde mental e como elas servem de inspiração e referência para quando crio algo para as telas tecnológicas. Afinal, na maioria das vezes, recriamos a realidade, com ângulos e linguagens diferentes.

Na arte, também visualizo Frederic Chopin Nocturne 09, o quadro que dei de presente para o Elvis, que fica pendurado acima da cama dele. Também aprecio meu quadro do O Rei Leão, meu filme preferido e que sempre me trás novos significados. Duas telas que me trazem calma e agradam demais meus olhos. A primeira pela música, a segunda pelo cinema.

Retângulo horizontal, o cinema

Tela cheia de emoções. Como com o premiado Bohemian Rhapsody, filme que retrata a trajetória de Freddie Mercury e do Queen, que levou quatro Oscars na edição deste ano, com Rami Malek levando a estatueta de melhor ator. Um filme incrível. Se você ainda não viu, aqui vai um spoiler atiçador: eles recriaram todo o show do Live Aid de 1985 na África. Mesmo com as críticas apontando para uma demasiada alteração na cronologia dos fatos, tornando o filme mais ficção do que biografia, o longa mostra a força de Freddie e a união de uma das maiores bandas de rock do planeta.

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