Cada um tem seu caminho

Por Carina Furlanetto

Há uns cinco anos compramos uma bicicleta na vã e tola esperança de preencher de aventuras os dias de férias que passaríamos ilhados na cidade. Mas o leve morro que separa a saída da garagem e a quadra seguinte era motivo suficiente para desistir das pedaladas antes mesmo de pensar em sair de casa. Sempre que encontrava um dos vizinhos todo paramentado para sua volta noturna de bike, cansava só de pensar no esforço para os primeiros metros. Imagina então, o que passa pela minha cabeça quando conheço alguém que usa a magrela como meio para conhecer o mundo? Mas não é pela minha inabilidade que vou desencorajar qualquer cicloviajante que cruzar o meu caminho. Pena que muitos não fizeram o mesmo quando contamos que íamos rodar a América do Sul de carro popular.

Ainda não temos filhos, mas em todo o processo sentimos na pele o que muitos pais dizem lidar diariamente: os pitacos alheios – a tia, a vizinha ou até mesmo um desconhecido na rua jura saber o que é melhor para seu bebê, mesmo que uma opinião não tenha sido requisitada. O que no fundo pode estar disfarçado de boa intenção, revela o quanto insistimos em nos intrometer na vida do outro, tentando encaixá-lo em nossos padrões.

Dos que disseram que não passaríamos do primeiro pedágio aos que insistiram para que comprássemos uma Kombi, sempre havia alguém querendo modificar algo em nossos planos. Teimosos, fomos assim mesmo e até agora estamos mais do que satisfeitos com as escolhas que fizemos. Um veículo maior daria mais conforto? Certamente, mas talvez assim dormiríamos mais noites nele e não teríamos encontrado tantas pessoas bacanas via Couchsurfing. Para quem não conhece, trata-se de uma plataforma para troca de hospedagem, sem custos, muito usada por mochileiros, e que está nos proporcionando as experiências mais incrível das nossas vidas. Não é qualquer um que se adaptaria em dormir em camas estranhas, em casas com padrões muitas vezes abaixo do que se estava acostumado. Para nós está mais do que suficiente, sobretudo pelo intercâmbio cultural.

A verdade é que há inúmeras formas de fazer o que quer que seja – de receita de bolo a criar filhos. E viajar não é diferente. Sempre que alguém lhe diz como agir, apenas está revelando o que ele próprio faria se calçasse os seus sapatos, esquecendo que quase sempre os pés e caminhos não são iguais.

Achamos que estaremos protegendo o outro ao alertar para o que julgamos ter de falho em seus planejamentos, mas não estaríamos apenas querendo provar a nós mesmos que a nossa versão é a correta? Qual medo é maior: o de que o outro quebre a cara ou o de descobrir que você estava equivocado? Não é porque quase só se vê viajantes com Kombi ou motorhome que não se pode ir de carro popular, moto ou até bicicleta. Às vezes é preciso deixar as nossas vaidades de lado e apenas apoiar o sonho alheio. Se vai dar certo ou não, é tarefa do outro descobrir.

 Crônicas na Bagagem (2)

Os jornalistas Carina Furlanetto e João Paulo Mileski rodarão a América do Sul de carro com o projeto “Crônicas na Bagagem”, em uma expedição que deve durar até dois anos. Eles pretendem escrever sobre suas experiências na redes sociais (instagram: @cronicasnabagagem e facebook.com/cronicasnabagagem), no site www.cronicasnabagagem.com e nas páginas do Integração da Serra.

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