A salvação pela arte

Por Rogério Gava

Observo o quadro “Do pó ao pó”, do pintor hiper-realista americano Denis Peterson. Retrata um sem-teto no abandono da grande cidade. A reprodução, perfeita, se confunde com uma fotografia. É de tirar o fôlego. Chegamos a duvidar de que tenha sido feita apenas com pincel e tinta (veja na internet, vale a pena).

A imagem sugere o Cristo moderno, espelhando o abandono do homem à margem da sociedade. É a arte nos dizendo que há algo que vai além da vida diária, do profano, do concreto. De nossas irrisórias preocupações. Da teia de mediocridades que nos envolve.

Um poema. Do ponto de vista produtivo, mercantilista, nada mais inútil. Um poema não possui nenhuma utilidade prática. O mesmo vale para uma obra-prima de Hopper ou de Vermeer, uma escultura de Michelangelo, o Admirável Mundo Novo de Huxley. Por que então se escreve e se lê poesia e literatura, se contemplam pinturas e afrescos, a arquitetura de uma catedral? Por uma razão muito simples: a arte também confere sentido à existência. Fernando Pessoa, poeta maior, já falou o essencial: “O que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonho, e é com esse sonho que fazemos arte”.

A arte é antídoto contra a angústia. Como disse Comte-Sponville: “preciso que os artistas me ajudem a suportar o real”. O homem pede exílio à arte para fugir momentaneamente do cansaço da vida. É isso que nos faz debruçar sobre um poema, nada mais do que palavras, mas que justamente significa muito mais do que meras palavras. É isso que nos detém diante de uma pintura, não somente tinta sobre tela. A arte nos descola por um momento da realidade, faz nosso pensamento fugir de onde está. Uma música que nos toca e arrebata nos faz felizes por si só.

O filósofo contemporâneo Alain de Botton, em um livrinho muito bacana intitulado “Arte como terapia”, comenta que o belo nos impressiona por aliviar da dor inerente à vida. É por isso que nos comovemos diante dos vitrais de uma igreja, de uma escultura perfeita ou até mesmo diante da simplicidade arquitetônica de um chalé no campo. Essas obras graciosas, nos diz ele, açucaram um pouco a existência, crivada de angústia e sofrimento. Um quadro não nos deleita apenas por ser “belo”: ele nos arrebata por nos tirar da realidade, nem que seja por alguns preciosos instantes.

A arte tem valor por si própria. Ela é o fruir sem preocupação com o resultado. Ninguém nos paga para apreciar um quadro ou ouvir uma canção. A arte torna a verdade da vida mais branda. “Temos a arte para não morrer da verdade”, dizia Nietzsche.

A arte é uma espécie de religião sem deuses. Como já se disse “a arte e a religião não são duas coisas, mas o avesso e o direito de um mesmo tecido”. Ambas, na verdade, nos ajudam a viver.

A arte, afinal, também salva.

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